Sem categoria

LACAN LEILOADO – DIÁRIO DO NORDESTE

Jean-Michel Vappereau era um jovem matemático francês quando conheceu o já consagrado psicanalista Jacques Lacan nos anos setenta. A psicanálise, como se sabe, é estudada em três níveis: como método de investigação para descobrir o significado inconsciente das palavras, ações, sonhos e fantasias; como método psicoterápico que cuida da interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo; e ainda como um conjunto de teorias psicológicas que sistematizam os dados introduzidos pela investigação e pelo tratamento.
Pois bem, Lacan e Vappereau resolveram estudar juntos e teorizaram sobre conceitos matemáticos e a sua aplicação na arte de curar pessoas. Vappereau virou psicanalista, mas Lacan não se tornou matemático, embora tenha procurado explicar sua teoria, herdeira de Freud, em símbolos, desenhos e conceitos matemáticos. Precavido, Vappereau guardou desenhos, cálculos e manuscritos de Lacan.
Agora, em Paris, certamente precisado de dinheiro, Vappereau autorizou um leilão desse material e faturou bem. Assim, Lacan, depois de morto, é a redenção da família de Vappereau, tal como aconteceu com os manuscritos de Sigmund Freud. A filha de Lacan, Judith (casada com o também psicanalista e executor-testamenteiro de seu pai, Jacques-Alain Miller), nada revelou sobre o que pensou do leilão, mas parece não ter gostado.
A Artcurial, realizadora do leilão em 30 de junho passado, segundo Leneide Duarte-Flon, esperava que psicanalistas ou familiares dessem lances, mas foram colecionadores os que arremataram e não os seguidores do célebre psicanalista francês. O leiloeiro Olivier Devers, ao final do leilão, disse que “os psicanalistas são pão-duro, não gostam de gastar o dinheiro que ganham, nem mesmo quando se trata de Lacan”. Dessa forma, o afamado consultório de Lacan em Paris, na rua de Lille, que hoje pertence ao casal Judith-Jacques Alain, ficará privado desse material.
Elisabeth Roudinesco, que escreve a história da psicanálise, esteve presente ao leilão e disse que “é normal que os manuscritos e desenhos de Jacques Lacan entrem no mercado. Os preços foram razoáveis, afinal é a primeira vez que Lacan é cotado”. Como se deduz, teremos outros leilões e, para não fugir à regra das celebridades, Lacan valerá mais morto do que vivo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2006.

Sem categoria

PRACINHA DO INTERIOR

Domingo passado resolvi sentar em um bar na pracinha central de Pacoti, simpática e agradável cidade no maciço de Baturité, formação de serra que ainda preserva vegetação densa e bonita e cujo clima dá a fugidia lembrança de outonos do outro hemisfério.
A praça, um ajuntamento de ideias desconexas que parece ter passado longe dos olhos de urbanistas ou paisagistas, pouco arborizada, cimentada e asfaltada, é o ponto de encontro de todos. Aos domingos, a feira armada em barracas de lona, é a reprodução minimalista desses mercados ambulantes espalhados pelo Brasil afora que conseguem juntar a venda de cds e dvds piratas, relógios, rádios, sons, bonés, camisas e tênis falsificados, roupas para todos os sexos e gostos e outras bugigangas mais. Só não vi produtos regionais, nada que tivesse a cara da cidade, da criatividade e da artesania local.
Vi dois ou três “guardas de trânsito” locais, sem fardas, mas com crachás, walkie talks e apitos, comandando o trânsito para “riba” e para baixo, com gesticulações fortes, sopros poderosos e a ajuda de cones de plásticos. Vi uma banda de música, sobre um palanque armado, tocando dobrados, músicas populares e até o Hino Nacional, mas ninguém ouvia ou se comovia, pois só em tempo de Copa do Mundo é que o nosso hino é cantado, as lágrimas afloram e o patriotismo toma cerveja.
Automóveis, motos, grandes camionetas com apenas o guiador, carros de bombeiros e da polícia, ônibus imensos e caminhões paus-de-arara carregando gente e carga, disputavam o espaço das ruas estreitas já atravancadas por veículos e motos parados de qualquer jeito e decidiam se iam para “riba” ou para baixo, pois o que queriam mesmo era passar pela praça, verem e serem vistos, com buzinações tonitruantes.
Falei que estava sentado em um bar. Era um bar simples, mesas de compensado sem toalhas e apinhado de gente. Por lá, além dos nativos, magistrados, secretários de estado, empresários, radialistas, jornalistas, professores universitários e sitiantes que passam os fins-de-semana pelas redondezas. E o cardápio oferecia duas opções: panelada e buchada com cerveja e cachaça em robustos copos de vidro, ao mesmo tempo em que bêbados contumazes pediam uma “bicada” e se escoravam nos portais. Até que surgiu uma jovem nervosa, jaqueta de marca de grife amarrada sobre os quadris. Ela trazia cópias do retrato, impressas em folhas de papel, de um moço universitário de Brasília que ali se perdera duas noites antes. Ele tinha 19 anos, alto, bem-apessoado, sofria de depressão e disse para a turma de parentes e amigos que iria ao banheiro. Ninguém mais o viu e eu fiquei me indagando por que teria desaparecido. Teria sido pelo barulho ensurdecedor que incomodara o seu pensar despovoado? Seria por conta de mal de amores que o tornava diverso do grupo? Ou o que teria sido? Terá aparecido?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2006

Sem categoria

MULHERES PODEROSAS

Todos sabem que as mulheres estão começando a mandar no mundo. Já não só esposas e donas de casa. Também não são só auxiliares de homens nas empresas, instituições e repartições. Exercem, cada vez mais, funções de mando, tendo homens como subalternos e tomando decisões difíceis a cada dia. A par disso, querem ter também uma vida sentimental feliz e equilibrada. Foi pensando nisso que os professores universitários mineiros Betânia Tanure, Juliana Oliveira e Antonio Carvalho Neto, realizaram uma pesquisa sobre a felicidade e infelicidade das pessoas que exercem cargos executivos, com ênfase para as mulheres. Foram 965 pessoas entrevistadas, das quais 222 mulheres. Segundo os professores, “os resultados de nossa pesquisa não só confirmam a percepção geral de muitos dos problemas vividos por essas profissionais como também trazem revelações importantes. Uma delas é que os homens têm dificuldades em aceitar mulheres ‘poderosas’.”
Verificaram também que há quase três vezes mais executivas solitárias do que homens na mesma conjuntura.36% das mulheres ‘poderosas’ estavam viúvas, separadas ou solteiras. Por outro lado, só 13% dos homens eram solitários. As mulheres solitárias relataram que se consideravam insatisfeitas por não descobrir parceiros que estivessem a fim de uma relação estável. Especialmente as sem filhos “que já passaram da fase convencionalmente reservada à maternidade”. Os homens não estariam nem aí, pois podem ser pais com qualquer idade.
Descobriram também que as mulheres executivas casadas e com filhos, dão menos atenção aos maridos, pois “existe uma indisposição masculina em dividir igualitariamente as responsabilidades domésticas”. Outro aspecto identificado na pesquisa, foi que, mesmo no caso em que a mulher é responsável pela maior parte da renda familiar, ela se submete às decisões do marido na formulação das despesas da casa. Assim, mesmo muitas mulheres ‘poderosas’ não se livraram totalmente do jugo dos maridos, sendo “amélias modernas” com direito apenas a voos profissionais, que aumentam a renda familiar.
Por outro lado, ainda admitindo, em parte, que o homem é o “chefe da família”, as mulheres executivas fazem fé em seus trabalhos, sentem prazer em mandar e acreditam que o sucesso as ajuda a resolver os desafios da vida profissional e afetiva. Elas acreditam e lutam, de forma corajosa, para conseguir harmonia entre o que fazem fora de casa e na vida familiar.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2006.

Sem categoria

A ESTRELA PERDIDA

Escrevi, aqui neste mesmo espaço deste DN, que futebol não tem lógica. Futebol é arte, muito mais que qualquer coisa. E arte não se faz com coerência. Ao contrário, arte é desobediência ao previsto, é encontro da inspiração e desafio da não mesmice. Disse também: mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de autoajuda com bedel de internato antigo. Parreira é o rei da coerência e deu no que deu. Zidane e sua turma foram a arte aplicada, mais que jogadores de futebol. Eles pareciam brasileiros e os brasileiros não pareciam com ninguém. Não foi só perder, mas perder sem muita luta, em meio a um desânimo tropical que entorpecia a coragem esperada, a categoria alardeada e a genialidade cantada pelo “competente” Galvão Bueno e pela “repórter esportiva” Fátima Bernardes.
Perdemos a sexta estrela, não um hexa, pois para ser hexa deveria ter sido uma sequência de seis copas. Mas a mídia e a publicidade desenfreada iludiram a maioria dos brasileiros, especialmente aqueles que não acompanham futebol e são apenas “copeiros”, se fantasiam e ficam gritando à frente das televisões. Era uma explosão de músicas, de entrevistas com pais dos jogadores, com namoradas e até amigos. Era uma alegria antecipada, uma espécie de catarse coletiva, evasão da realidade que nos impelia para um vazio existencial, por conta da descrença no dia-a-dia.
Assim, vamos ter que voltar para a tal da coerência do Parreira, ele que se dizia gestor de talentos. E eu dizia por escrito: talento não se administra. A estrela pode ter sido perdida antes, como uma ou outra que nos cobriu de desesperança, pois imaginávamos que fosse à prova dos vendavais que engodam, mistificam comportamentos, desviam valores, atordoam inteligências e machucam o amor próprio.
Agora, vamos ter uma outra copa, a eleição de outubro, com muita gente dizendo que é também o melhor do mundo. Acreditem não, vá atrás da vida de cada um. Não do que disseram, mas do que fizeram. Procurem saber onde moravam e onde moram, quem são seus aliados e relembre da eleição passada, vale a pena conhecer a quem estavam ligados e diziam loas. Confiram as promessas, vejam as amizades e o desempenho.
A arte de ser brasileiro, glória e agonia, precisa ser levada a uma expressão mais profunda, sem patacoadas, sem bobices que podem qualificar os adjetivos que alguns preconceituosos do primeiro mundo nos impingem, por conta dessa exoticidade que permite que, justo eles, digam que não somos um país sério.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2006.

Sem categoria

MÉXICO: ELEIÇÕES, HOJE.

Hoje, 02 de julho, o México realiza eleições presidenciais com 71 milhões de eleitores. O que isso tem a ver conosco? Muito. O México é a mais pujante força latina das Américas. Seu ritmo de crescimento tem demonstrado que o México deu passos decisivos para tentar resolver mazelas que se perpetuavam, especialmente em zonas conflagradas, como a região de Puebla.
Hoje, Vicente Fox, o atual presidente, está com 70% de aprovação, entrega um país organizado e com os pés fincados no desenvolvimento. Nem por isso, há no México a possibilidade de reeleição, após o mandato de seis anos. Assim é que, entre cinco candidatos, Felipe Calderón, do Partido da Ação Nacional, PAN, conservador, e Lopes Obrador, do Partido da Revolução Democrática, PRD, esquerdista, disputam, com chances reais de vitória. O novo presidente terá papel fundamental na consolidação do crescimento interno e na luta pela legalização dos 15 milhões de “indocumentados” latinos, a maioria mexicanos, que vivem nos Estados Unidos
Obrador, opositor da privatização, é pelo esforço antiinflação, fixação de preços agrícolas e baixar o preço da gasolina e gás de cozinha. Pretende aumentar os gastos com educação e saúde, combater a pobreza e melhorar a distribuição de renda. Deseja unificar as forças policiais, dar relevância ao Ministério Público e criar varas especiais de justiça para o combate de crimes, especialmente o narcotráfico. É contra as propostas americanas de criação de muros e barreiras ao longo da fronteira e vai lutar para que as leis de imigração ianques sejam reformadas urgentemente. Afirma que o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio, o Nafta, tem beneficiado mais as multinacionais que os mexicanos. Deseja manter os níveis de produção de petróleo e aumentar a de gás natural, ainda dependente dos EUA.
Calderón é favorável a investimentos estrangeiros, inclusive no petróleo, manterá a atual política fiscal, mas tentará fazer as empresas darem empregos a jovens entre 16 e 28 anos, com isenção de impostos por um ano. Deseja reduzir as alíquotas de imposto de renda e combater a pobreza com assistência médica gratuita e melhorar a educação nas comunidades pobres. Não hesitará em guerrear o crime organizado, com um banco de dados centralizado, treinar as forças policiais e modernizar o sistema judiciário por meio de julgamentos orais. Na política externa, defende a multilateralidade. Não terá medo de fazer um governo de coalização, se for eleito presidente, mas seu partido não atingir a maioria.
Arriba México!

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/07/2006.

Sem categoria

PATATIVA E O PRECONCEITO

Alguns intelectuais, entre eles amigos queridos, ficaram incomodados com a escolha de Patativa do Assaré como um dos nomes, da lista de dez autores para o vestibular da Universidade Federal do Ceará. Afirmam que Patativa não é poeta, pois foge aos cânones linguísticos, morfológicos e sintáticos determinados pelo saber acadêmico. Ora, ora.
Patativa é poeta sim, mais poeta que muitos que sabem usar metáforas, metrificação, rimas ricas, metalinguagem, pois seguem as regras da poética e conhecem teoria e versificação. De nada disso precisou Patativa. Extraiu de suas dores, do viver e da própria limitação, o ritmo e a beleza do que versejava de improviso e hoje é objeto de estudo acadêmico em várias universidades.
Ariano Suassuna diz que “um escritor nascido no Nordeste, tem que ser tão fiel ao seu local de nascimento e à sua comunidade como Guimarães Rosa foi fiel a Minas.” Quem poderá negar isso de Patativa que, até no nome, mostra o local onde nasceu? O grande problema é que por não usar imagens, símbolos, metáforas e retórica consagrados na arte clássica de poetar, Patativa seria “um poeta menor”, um simples cordelista e não mereceria destaque de uma comissão douta que, por justiça e nordestinidade, teve a sensibilidade de escolher Patativa como tema para estudo por jovens vestibulandos. Esses, em sua maioria, não dão valor às suas origens, engolfados por uma linguagem “tipo assim”, global e factual.
Patativa, de poucas letras e muito saber, falou até sobre Luiz de Camões, o maior poeta da língua portuguesa: “Aqui de longínqua serra, de Camões o que direi? Quer na paz ou quer na guerra que ele foi grande eu bem sei, exaltou a sua terra mais do que seu próprio rei e por isso é novo no coração do seu povo e eu, que das coisas terrestres tenho bem poucas noções, porque não tive dos mestres as preciosas lições, só tenho flores silvestres pra coroa de Camões, veja a minha pequenez ante o bardo português.”.
Escolhido “Doutor Honoris Causa”, “Cearense do Século” e tendo ganhado a “Sereia de Ouro”, não poderia ser alijado e esquecido pela UFC que sempre seguiu a máxima “o universal, pelo regional”? Está na hora de se misturar literatura com vida, com o real, esquecendo os encastelamentos, as tertúlias que pouco ou nada criam, a arte que não tem compradores e seguidores, e partir para uma visão menos elitista, mais simples, verdadeira e fiel às origens que muitos procuram esquecer.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2006.

Sem categoria

DESONESTIDADE ENDÓGENA

Alguém me passa um e-mail e deixa claro seu desapontamento com um contra-parente. Ora, se é contra, brinco eu, só poderia dar no que deu. Brincadeiras à parte, mesquinharia, safadeza, jogo sujo, desonestidade e muito mais, são próprios de quem tem o verme da inveja, desvio de caráter e desonestidade endógena. Não importa se é parente, contra-parente, se diz amigo ou parceiro. Nada a ver. A revelação de quem é vem a galope, não valem os disfarces, os pseudopolimentos, a vontade de agradar por interesse permanente ou circunstancial. Cada pessoa, no dia-a-dia, trabalho, negócios, vida social, nos atos falhos ou não, vai mostrando toda a sua história de vida, origem e os desvios de caráter e personalidade. Os que têm desonestidade endógena são, quase sempre. os que vivem a reboque dos outros, não têm luz própria, formam grupos de puxa-sacos e adoram aparecer.
Essas pessoas minam famílias, relacionamentos, entidades, grupos de quaisquer naturezas e sempre dão um jeito de estar perto de quem julgam ser importantes. Têm sempre algo “agradável” para contar, provocam intimidade, solidariedade e não se dão conta que vão deixando um rastro de sujeira, que o tempo detecta, embora queiram aparentar o que não são e falar o que não sabem.
Elas nunca discordam claramente, sempre estão a mão para favores não pedidos, não esquecem datas, farejam acontecimentos e jamais vão sós, dão um jeito de levar gente da sua família ou turma e se postar ao lado de quem conta, pois pensam fazer parte do time.
É bom que cada um fique atento e não se deixe ludibriar pela vaidade de ter alguém ao lado que só lhe diz o que quer ouvir, embora seja falso como uma nota de 15 reais. Muitas pessoas, mesmo inteligentes, ficam cegas e se deixam influenciar pela bajulação subserviente, falsa amizade e delicadeza de araque. Nestes tempos de hoje, sempre é bom que os amigos verdadeiros advirtam quando esses abutres se acercam e não digam apenas, depois de fatos acontecidos, que sabiam, mas não tinham coragem de dizer.
Desmascare essas imposturas no tempo certo, não deixe para depois, é uma questão de saneamento social, além de ser uma prova de amizade ao amigo advertido, antes que seja logrado, como muitas vezes acontece, por omissão dos que não deveriam ter ficado calados.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2006.

Sem categoria

FUTEBOLÓGICA?

Depois de amanhã o Brasil entra em campo para o campeonato mundial de futebol de 2006. Vai com fama de favorito, o melhor jogador do mundo, time completo de craques e um aparato digno de potentados. Dos 23 jogadores brasileiros, 9 têm – ou estão em vias de ter – dupla nacionalidade. São ricos cidadãos europeus. Sabiam disso?
A lógica, coerência de raciocínio e de ideias, é que dê Brasil no final, mas futebol é arte, muito mais que qualquer coisa. E a arte não se faz com coerência. Ao contrário, a arte é desobediência ao previsto, é encontro da inspiração e desafio da não mesmice. Por este lado, o da arte, o Brasil também tem grandes chances, alguns jogadores desequilibram pelo estilo peculiar, capacidade de improvisar e a quase perfeição da ousadia, mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de auto-ajuda com bedel de internato antigo. Vejam uma frase dele: “Não sou técnico de futebol, sou gestor de talentos”. Talento não se administra.
Nós, brasileiros, sedentos por ídolos novos, pois decepcionados com os que temos, investimos emocionalmente nesse evento que é uma grande festa mercadológica, antes de ser um fato esportivo relevante. As somas gastas com publicidade são indescritíveis e os jogadores das seleções principais têm status de astros de cinemas em pleno festival de Cannes ou na entrega do Oscar em Hollywood.
A partir de terça-feira, o Brasil entra em estado de prontidão, a espera do sucesso em cada jogo e a vitória sempre será encarada como natural, merecimento, honra, capacidade e posicionamento no mundo. A vitória pode até ser tudo isso, mas não permite que a glória efêmera resolva as questões que temos em aberto, não deve nos cegar e só enxergar o que a televisão mostra de forma ufanista. Um país que tem a sua Câmara de Deputados invadida por baderneiros ainda está longe de ser o que imagina que é.
Claro que estarei torcendo e esquecerei, por horas, a razão que nos move, e esperarei pelos nossos gols, esse instante mágico em que, por segundos, a bola deixa o campo de jogo e se aninha dentro de uma rede como se tivera cumprido uma missão fugaz e gloriosa.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2006

Sem categoria

A VEZ DO VOTO

O que aconteceu em São Paulo há duas semanas foi um absurdo, embora real. Por outro lado, segundo especialistas em fome, a cada 04 segundos uma pessoa morre por absoluta falta de comida no mundo. Os índices de violência, sequestro, estupro, pedofilia e crimes contra a vida aumentam de forma assustadora e os economistas descobriram tardiamente, o que todos, desconfiavam: não sabem fazer previsões e continuam falando. Há desemprego, inadimplência, denúncias de corrupção e falta dinheiro para as empresas girarem seus negócios. Os funcionários públicos reclamam por aumentos, o governo eterniza impostos que se diziam temporários, as fiscalizações exorbitam, advogados aumentam suas clientelas e a Justiça fica abarrotada de ações, sendo mais de 50% originadas do próprio governo.
Por outro lado, cá em entre nós, lembre-se que haverá eleições em outubro e, já, já, tudo será prometido, além de tudo ser permitido a uma imprensa dita investigativa, parte a serviço de interesses, falseando a verdade, julgando sem provas e condenando, como se tribunal fosse, os que não são de seu agrado. O que vale é iludir, confundir, difundir e denegrir o outro. É como se fosse um grande festival de ilusionismo com centrais de fofocas e fofoqueiros espalhados por todo o país.
Dentro de três meses serão abertas as caixas de Pandora com os programas eleitorais gratuitos nas emissoras de rádio e televisão. Todos terão soluções, serão simpáticos, mostrarão suas famílias, brincarão com crianças, criticarão sem provar, abraçarão velhos, dirão que são melhores que os adversários e justificarão alianças.
Cada um deve ver com os seus próprios olhos e escutar com as suas ouças. Julguem pelas histórias de vida de cada um, esqueçam os gestos teatrais, cenários, falas melífluas e ares de bonzinhos. Você não perde tempo em ouvir e ver, desde que descubra, por seu próprio caminho, o que é cidadania, a certeza de que está no gozo de seus direitos e tem a responsabilidade ou dever de exercê-los.
Mantenha a capacidade de se indignar ou apaixonar, dar respostas aos criadores de vendavais, aos que estão aí há muito tempo e só falam em futuro, como se não estivessem comprometidos até agora com o nosso passado e não vivessem neste presente tão árduo e carente de homens públicos verdadeiros.
Sua arma contra esse vendaval será o voto. É a sua flecha da esperança. E você poderá usá-la de forma silenciosa, sem medo, sem alardes, com os olhos no futuro que deseja e espera, sem esquecer o que muitos prometeram e não fizeram no passado e presente, embora rindo, apertando mãos e dourando pílulas que não conseguimos engolir.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/06/2006.

Sem categoria

FREUD, O EMPREGADOR

Faz 150 anos que Sigmund Freud nasceu. Foi dele, médico de formação, a ideia de fazer do autoconhecimento, com a ajuda de um orientador, instrutor ou terapeuta, não necessariamente um médico, o caminho para o homem entender o seu viver.
E o fez de forma tão lúcida e objetiva que criou a psicanálise, uma mistura de conhecimentos filosóficos e científicos que tenta desvendar os porões humanos e explicar porque somos tão complexos. De Carlos Augusto Viana, professor de literatura, e um escutador compulsório de psicanalistas, ouvi que Freud foi um dos maiores empregadores da história, pois milhares são as pessoas que, a partir de seus ensinamentos, têm a psicanálise como profissão.
Por ser leigo e viver nas bordas do saber psicanalítico é que me dou o direito de divagar sobre tema tão complexo quanto apaixonante. E o faço sem profundidade, tão raso quanto uma bacia. Muitos acreditam que o dito hermetismo na linguagem psicanalista pode ser interpretado, pelo menos entendido, como pedantismo ou forma de, através de jargões, criar um mundo especial só para os iniciados. Paralelo a isso ou como contraponto, tem surgido na literatura uma forma de tornar mais leve o aprendizado ou o caminho utilizado para, se é que possível, cuidar dos males que ensombram a alma humana. Não estou falando de livros de autoajuda, mas de romances.
Fiquemos em apenas um autor contemporâneo, certamente repudiado pela comunidade acadêmica da área: Irvin D. Yalom psiquiatra, professor emérito da californiana Stanford University, que descobriu o filão de romancear a história da psicanálise. E o faz de forma didática, repetitiva, utilizando filósofos como Nietzsche e Schopenhauer como ganchos de seus personagens. Seus livros “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer” têm alcançado sucesso e despertado o interesse de leigos sobre o assunto. Querendo ou não, procura desmistificar as técnicas da psicanálise, embora ele seja apenas terapeuta.
Mesmo sendo acusado de superficial, Yalom é garoto propaganda da arte de curar a alma, missão quiçá impossível, pois “viver é sofrer”, como dizia o pessimista Schopenhauer que, paradoxalmente, só teve sucesso quando resolveu escrever de forma mais leve um livro de nome complicado( Parerga e Paraliponema) que trata da autoestima, essa coisa tão intricada que é confundida com vaidade.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/05/2006.