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HORA DE SEMEAR

Está na época de plantar. Mesmo que se more em locais que não tenham chão por perto. Compre um jarro, arrume uma lata ou um vasilhame plástico, consiga um pouco de terra adubada e plante alguma coisa. Molhe. Pode ser uma flor, uma árvore diminuta, qualquer espécie vegetal que floresça. Não deixe de plantar. Você se alegrará com o milagre da vida gerada em suas mãos.
Está na época de conversar com amigos. Não o olá, como vai, tudo bem, oi, mas a conversa que se fala de coração aberto e se colhe a certeza da correspondência, do retorno sem nenhuma outra intenção que a da própria amizade. Aquela conversa que devemos ter para esvaziar comportas, abrir canais de solidariedade, entendimento e pontes de benquerença. Atritar é fácil, conviver certo é que é complicado e pede mão dupla com velocidade moderada em mútuos sentidos. Olho no olho, sentimento aflorado, sem medo de conter o espanto por ser você mesmo, não o produto que você tenta passar, mas aquele que você é. Amealhe suas confianças, mesmo que as dúvidas teimem em persistir. Existir é compartilhar, ainda que isto lhe dê comichões e petrifique suas ilusões, pois elas podem acontecer.
Está na hora de não provar nada, nem que é melhor ou pior. Cada um do seu jeito, suas histórias, seus lauréis, seus traumas, o mundo particular que lhe é permitido, sem precisar de devassas e justificações.
Está hora de não olhar para as horas, como se tudo fosse escoando sem jeito. Sempre haverá um jeito, mesmo que isso pareça difícil, mesmo que a tristeza teime em se fazer presente. Há turnos na vida, como o dia e a noite. E esses turnos podem ser claros, escuros, mas chegará um tempo da coexistência entre os diversos matizes e brilhará a luz que está dentro de cada de um nós. Dependerá do acesso ao interruptor que todos temos em algum lugar. É preciso procurá-lo, mas isso é outra história meio longa que não que cabe por aqui, mas vale a pena tentar encontrar, pois aí o plantio terá sentido e as flores ou frutos serão apreciados.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2006.

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QUEM SOMOS, REALMENTE?

Alguém pergunta, talvez a título de especulação filosófica: o que leva você a classificar, rotular ou definir lugares e pessoas? Que lugares e pessoas? retruco. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Pode ser em um bar, restaurante, hotel, casa, avião etc. Fiquei pensando. A pergunta era meio vaga e dava margem a pensar em qualquer coisa. E foi aí que pensei na última coisa que imaginaria. Disse: banheiro. A razão, qual a razão?
E me vi em tantos banheiros espalhados pelo mundo, espaços diminutos que dizem muito de quem os construiu, mais ainda de quem os cuida e desnuda quem os usa.
Imagine um restaurante à margem de uma estrada neste nosso Brasil. Estou falando dos lugares onde todos param e já chegam procurando saber onde fica o banheiro. Primeira porta à direita, pois os banheiros são socializados, mas tendem sempre para a destra, mesmo quando são sinistros em odores e formas. E há ainda os que estão fechados e a chave nos é entregue como se fora o condão para o paraíso com um olhar duro pedindo a rápida devolução, depois de avaliar o nosso caráter.
E aí chegamos ao dito cujo. Chegamos, não é bem o termo. Ele chega até nós, em primeiro lugar, pelo evolar de gases e nos deparamos com a realidade sociológica que nos faz lembrar os que imaginam poder decifrar a alma das gentes, tal como proposto no início e já ando meio perdido aqui pelo meio. Pois bem, depois dos gases e odores, vem a realidade crua da descarga quebrada, da tampa cambaia, quando existe, e o desejo de sair rápido dali.
Saíamos do restaurante de estrada e penetremos no “banheiro social” de um clube. A primeira indagação: por qual razão o tal social? A segunda, por que a maioria dos homens faz xixi e não lava as mãos? A terceira, por que os vasos sanitários e mictórios não seguem uma linha cubista a la Salvador Dali e não têm um desvio para a esquerda?
Agora, estamos em um voo longo, desses que varam a noite. Amanhece: o banheiro está sujo, papéis higiênicos ao chão e na pia, detritos. Terra à vista, solo. Vamos direto à casa de um emergente, desses que entregam seu habitat às vontades e ao gosto de quem o ambienta. E aí pensamos, como seria bom que todos tivessem noção que um banheiro ou lavabo deve ser apenas adequado e limpo, sem aqueles adereços, que o fazem parecer uma lapinha.
E então, porque cansamos de andar por aí, voltamos à nossa morada. Chegamos, tiramos a roupa e vamos, imaginem, ao banheiro. E aí, defronte ao espelho e na nudez sem castigo, somos, finalmente, o que realmente somos. E será que caberia a pergunta: quem somos, realmente?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2006.

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MÃE DE ONTEM E DE HOJE

Um dia desses comentava com amigos que a nossa geração – a minha e a deles – tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por mãos de médicos amigos ou de parteiras que, quase integrados às famílias, ofereciam a criança à mãe parida ainda envolta no líquido que a protegeu por longos meses. Após o parto, médico ou parteira lavavam o rosto e as mãos, tomavam café com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes prévios.
A partir daí era a mãe quem tomava as rédeas. O filho é teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o berço ficava ali de lado da cama do casal e os outros irmãos, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem êxito, silêncio.
Essa mãe, quase sempre, era apenas dona de casa, daí encontrar tempo
para cuidar dos filhos, contar histórias, ouvir rádio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algodão, esperar o marido que trazia novidades da rua.
Essas histórias e lembranças, em meio a este Dia das Mães de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas não tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletrônica e trancas. As calçadas eram prolongamento do viver em família e os vizinhos não só se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, triângulo, gamão ou baralho, com cartas já usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, “é o menino do 201”, “a viúva do 402” e “o casal que briga no 702”. Parece que ninguém tem nome.
E é esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda são as pessoas e as coisas. A mãe de hoje é, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, corresponsável pelo sustento da família, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida – quando pode pagar – por “enfermeiras” ou babás de carteira assinada. É neste tempo de medo e dúvida que a família se nucleariza e se fecha com temor das diásporas sociais. A mãe de hoje vê o parceiro não mais como alguém que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, alguém que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solidária e sem muitas referências essenciais.
Às velhas mães ainda vivas, as que já se foram e as que estão no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembranças catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, tão imponderável quanto desafiador.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2006.

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O IDOSO E A REALIDADE

Começa a ter destaque em São Paulo o que se convencionou chamar de “condomínio assistido”, ou seja, um prédio ou casarão adaptado para receber idosos de classe média alta. Esses condomínios têm como característica a atenção especial para as limitações dos que estão ou vão chegando à terceira idade. As tomadas e interruptores de energia são dispostos à altura da cintura de uma pessoa adulta, as portas são mais largas para permitir a circulação de cadeiras de rodas, os pisos são antiderrapantes, os banheiros têm barras de apoio, há espaços para salas de convivência com jogos, existe enfermagem e há restaurante com cardápios especiais.
Esses “condomínios assistidos” são comuns nos países do Primeiro Mundo, com a diferença básica em sua maioria é de responsabilidade do Estado. As pessoas se inscrevem, obtêm vagas e organismos sociais fazem o controle de suas ações. No Brasil, embora exista a Lei federal 8.842, de 1994, se comprometa a dar autonomia, integração e participação do idoso como instrumento de cidadania, nada de prático e objetivo foi feito. Agora, cogita-se da criação do Estatuto do Idoso, como se a lei já não existisse. O necessário é fazer que as pessoas idosas sejam mais respeitadas e assistidas, pois com o crescente aumento da população de terceira idade, que está perto dos 15 milhões, ainda não há uma política efetiva de governo com suporte aos que se aposentaram, seus filhos ganharam o mundo, um dos cônjuges desapareceu e só resta a opção do isolamento.
O problema, voltando aos tais condomínios assistidos, é que a classe média alta – ou rica – é inexpressiva no Brasil. Mesmo em São Paulo, só há referências a poucas instituições particulares, menos de dez, considerando o universo dos habitantes da cidade. Não abrigam mais que 1000 pessoas. Mera ilusão.
Por outro lado, este ano tem eleição. De deputado estadual à Presidente da República. Seria bom que os candidatos atentos aos planos de crescimento do país, não deixassem de observar também para o detalhe de que parcela significativa do eleitorado tem mais de 60 anos, correspondendo a quase 9% da população total e pode eleger representantes específicos ou influir em resultados.
É claro que devemos nos alegrar com a auto-suficiência da Petrobrás, mas é preciso que o Sistema Unificado de Saúde tenha políticas públicas objetivas para os que já deram sua contribuição à sociedade e ainda são responsáveis financeiramente por cerca de 10 milhões de pessoas, pois 62,4% dos idosos sacrificam suas minguadas rendas com a manutenção de filhos e netos. Não basta uma vacinação anual, que objetiva mais diminuir custos de internação do que proteger idosos. A assistência ao idoso é algo mais complexo e sério, para servir apenas de mote demagógico. É preciso, igualmente, verificar que os planos e seguros de saúde estão limitando atendimentos e exames aos idosos, aqueles que fogem do descaso do SUS, mas estão sendo atropelados pela incapacidade de efetuar pagamento dos planos e dos remédios.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/04/2006.

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IMORTAL SEM FARDÃO

Recebo um telefonema de pessoa querida convidando-me para uma recepção a Marcos Vinicios (com “o”) Villaça. Ele veio lançar a sexta edição do seu livro, feito em parceria com Roberto Cavalcanti de Albuquerque, “Coronel, Coronéis”. Na realidade, “Coronel, Coronéis” é fruto de pesquisa feita em 1963 que virou marco da historiografia nordestina em que trata dos coronéis que davam uma visão peculiar da região.
Chego. A mesa principal está posta de forma retangular e, como contraponto, há uma redonda em que fica um grupo pequeno. De repente, entra Marcos Villaça. Eu que o imaginava de fardão e botões dourados, precedido por rufar de tambores, e o vejo de calça e camisa com cinto esporte de cor, acompanhado da mulher e de um grupo de amigos. Livros chegam junto.
Vem, cumprimenta a todos. Vê, com atenção, a menção especial do caderno de “Cultura” sobre a sua obra e, como mortal comum, beberica alguma coisa e dá autógrafos em pequeno comitê. Marcos Villaça acumula funções “etéreas” de membro da Academia Brasileira de Letras e fáticas de Ministro do Tribunal de Contas da União. Assim, o escritor é também um graduado especialista em finanças públicas. Mas não estava ali para falar das contas governamentais, CPIs ou o que o valha. Ele ocasionalmente me respondia por qual razão não gostava de aquários. Riu e disse: “de onde você desencavou essa história” e o assunto virou um chiste. Quando falo em funções etéreas é porque a maior parte das pessoas não entende o simbolismo da vida acadêmica, como guardiã da língua e da cultura. Ser imortal é como uma figura de retórica, mas tudo foi feito no Brasil à imagem da Academia Francesa. Optou-se por dizer que alguém é imortal quando consegue entrar em uma academia de renome, é imortal não por si, mas pela obra que produz e, certamente, ultrapassará a sua temporalidade.
E a conversa se tornou amena. Recebi, com alegria, o seu discurso de posse na presidência da ABL, em que está escrito: “sou um insistente na esperança e não sou um subalimentado de sonhos”. E ele define, de forma clara, o que deve fazer uma academia: “Seu papel será preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento de conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras/formadoras da identidade nacional; a cultura preservada e habilmente inserida em processo civilizatório que seja também caracteristicamente brasileiro.”
Pois foi assim que Marcos Villaça entrou na graça dos que não o conheciam e descobriram ter ele inteligência pernambucana, verve cearense e cultura nacional.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/04/2006.

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PAIXÃO EXPLÍCITA

Sou filho de Fortaleza e a amo de forma incestuosa. Por ser filho e amante apaixonado, a um só tempo, seria demais pedir isenção na proposta de análises sociológica, econômica, política ou urbanística. Onde já se viu filho andar falando de mãe…
Além de mãe, foi parteira e berço. Foi minha infância e escola. Foi a juventude comprometida com tantos sonhos, o cedo amadurecer e o tentar ser gente. Não vou dizer dos seus defeitos e virtudes. Herdei-os, como os outros filhos que ela mãe prolífera tem. A todos, pobres e ricos, que bebem e sentem a energia vinda de sua luz, do seu sol, do seu mar, ela mostra o seio farto que se espraia da Barra do Ceará ao Mucuripe e o corpo que se deita meio preguiçoso lá para as bandas dos rios Ceará e Cocó.
Não digam que esta é a minha visão apologética de Fortaleza. Esta é a forma como a vejo e a sinto na pele. E por falar em imagem, não posso e não devo esquecer do seu rico imaginário coletivo onde desponta, tenho que repetir, o poeta Paula Ney com a sua “loura desposada do sol”, a cidade hospitaleira com fortes laços de amizade e compadrio entre as pessoas.
Embora pretensamente moderna e, com as desvantagens dessa condição, ainda assim não lhe quebraram, nos subúrbios, o hábito das cadeiras nas calçadas, das fofocas na vizinhança, dos bares com contorias, da solidariedade nas doenças, das missas de sétimo dia repletas de gente no patamar das igrejas, apenas para cumprimento de obrigação social.
Não importa que o imaginário venha cedendo lugar a uma realidade cruel sedimentada em desigualdades sociais, turismo predatório, ausência de perspectivas individuais e a quase morte do sonho. Se morreu, não era sonho. Esta é, definitivamente, uma análise afetiva que comporta erros, omissões e contradições, pois assim é a vida das pessoas que fazem esta cidade.
Os forasteiros que chegam para ficar assumem a sua juventude, se embevecem com a luz que dela irradia e se contagiam com o clima que favorece a mudanças, sedimentações e aventuras. E como num amalgamado “baião-de-dois” formam a teia da mútua boa vontade e do sincero entendimento. É uma jovem mulher de apenas 280 anos, completados nesta semana, em meio à paixão e a páscoa. Parabéns.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/04/2006.

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A PRAIA DE LUA GRANDE

O mês de março de 2006 teve uma brisa forte soprando sobre a maturidade de Ednilo Soárez, debutante no difícil campo do romance. A brisa chegava do mar, ali em frente de quem entra no Ideal Clube pela Monsenhor Tabosa. Até uma lua grande (ou seriam os refletores?) aparecia, despistava e voltava trazendo os personagens do romance de estreia do adolescente que deixou sua terra, entrou na Marinha, andou por mares inéditos em nós lentos, de olhos à escuta. Mas, voltando apascentado à terra-mar, não retratou os mares dos outros, mas o das nossas paragens. Ateve-se a falar de pessoas, intrigas, assassinato e amarrar um desfecho que permite, se o desejar, sequencia-lo.
Tinha mais gente por lá que em Lua Grande e, certamente, de patamares diferentes, formava um microcosmo assaz rico para os olhos vários dos que, convidados, chegam nos trinques e ficam a passear de livro às mãos, como se fosse uma prenda arrematada em pregão literário. Mas não era um pregão, posto que um sarau de classe, digno de qualquer recanto, de Lua Grande à já grande e marejada Fortaleza.
O livro é um primor gráfico, os breves comentários na sua orelha esquerda ecoam sóbrios. A educação de Ednilo pediu que agradecesse e dedicasse os seus dois anos de labor. Reconhecido ao jeito de sempre, descontraído, gentil, aberto e leal. A apresentação de Carlos Augusto Viana é a reafirmação de seu talento, quer como poeta, ensaísta e crítico. Com sentido didático e erudição, como se aquelas páginas certificassem o seu estilo e com aprumo atestasse o “imprimatur”, no reconhecer pessoas, falar de coisas e sentimentos de forma apropriada. Tudo nos conformes.
Mas, e o livro? Vou deixar que cada um que o tenha comprado ou o compre, faça a tarefa de ir descobrindo a jangada “Brisa do Mar”, seus tripulantes, as figuras mais importantes de Lua Grande, o Conselho Municipal, a visita do Governador, as intrigas, o crime em Fortaleza e o enredo que se renova a cada capítulo, como se fosse uma breve narrativa que vai tecendo nós de marinheiros.
Por último, este livro é prova ratificada de cearensidade, mar de escavação existencial, praia cheia de simplicidade, entrelaçamento e areias onde dramas, percalços e alegrias se encontram.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2006.

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TOLERÂNCIA

A convivência social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos é uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Começamos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na ânsia de nos transformar em “gente”, nos obrigam a seguir horários, tomar banhos, ir a escola, cortar cabelos e unhas, comer o que não queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irmão, tomar remédios que nos tornarão fortes e saudáveis, rezar para pedir perdão (de quê?) a Deus etc.
Na escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que não nos interessam. Apesar disso, além da tolerância em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar matérias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que não são bons para nós. Muita gente dirá que as crianças e os adolescentes ainda não têm a capacidade de saber o que é importante ou bom para os seus futuros e é preciso colocar muitas informações em suas cabeças, na ilusão de que isso possa se transformar em conhecimento.
Não concordo com essa ideia. Desde cedo deveríamos estudar aquilo que nos atrai, aguça a curiosidade e mexe com a inteligência. Sei, por outro lado, que é preciso de um instrumental básico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei também que há um conjunto de regras sociais necessárias à convivência.
Tudo isso não deve invalidar o prazer de estudar. Esse é um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso é verdade, eles não estarão sendo tolerantes com crianças e adolescentes que precisam de estímulos e emulações para acordar cedo, cumprirem horários e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazerosa, alegre e receptiva.
Há um equívoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas farão de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido é, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Você é que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas reações com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo não como uma versão de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contrários têm que conviver e aprender que a tolerância é sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista.
Entranhe-se com seu filho, ao invés de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeusá-lo, mas o aceitando como uma pessoa autônoma que não é um clone seu. O DNA não é tudo. O amor, a compreensão e a tolerância são ferramentas para torná-lo forte, sem que perca a sensibilidade tão necessária ao equilíbrio emocional indispensável aos embates que terá por toda a sua vida.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2006.

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ORAÇÃO, CÔCO, CHUVA E SOL

Estava andando pela areia da praia. Em meio a nuvens carregadas o sol pedia licença para sair e mostrar-se pleno. Era manhã cedo e procurei ver o meu derredor. Do lado esquerdo, perto de um espigão, um grupo de pessoas orava. Havia uma cruz de madeira fincada ao solo. Delimitava espaço e definia atitude. Estavam sentados em bancos improvisados de madeira, formando círculos. Não cheguei tão perto para ouvir o que oravam, mas dava para ver o estado de contrição de cada um. Pareciam estar a pedir proteção para as suas vidas, famílias e atividades. Mais à frente, na primeira curva, alguém montara uma venda improvisada de água de coco que poderia ser tomada em copos descartáveis ou em canudos devidamente encapsulados. Na precariedade do trabalho havia um mínimo de higiene e um atendimento cordial de um trabalhador desse tal mercado informal.
Ele estava ali porque certamente perdera emprego ou viera de uma paragem qualquer de uma cidade distante, banido pelo desengano. Mas tomara tento. Acreditava no que estava fazendo e usava uma flanela meio suja e úmida para limpar os cocos guardados em um grande isopor com gelo. A roupa, o corpo e as atitudes não mostravam uma pessoa derrotada, mas alguém que lutava com as forças que tinha e do jeito que podia para apenas varar o dia.
Logo à frente, um misto de guardador de carros ou flanelinha acena e ri com a fortaleza dos que sabem descobrir saídas, mesmo que tudo esteja adverso. Outra imagem, outro ensinamento a colher, por tantos que imaginam estar se cuidando e não ousam ver o seu derredor, tão pobre e tão rico.
Vou caminhando, o sol desaparece, cai uma chuva rápida, mas bastante forte para misturar-se ao suor de cada um, como se fosse unção a dizer que a água é símbolo de refrigério, de bênção, de lavagem das mágoas, ressentimentos e, ao mesmo tempo, um toque sutil em cada pessoa dando-lhe esperanças, limpando-a e preparando-a para o novo dia. E o sol volta, agora com força, e os seus raios recaem sobre um grupo de estrangeiros sentado ao derredor de uma barraca a beber e conversar, mais por mímica e afetos que por palavras, com jovens mulheres ainda em trajes usados para a noite de trabalho que podem ter tido, não se sabe a que preço, por quais razões e com quais sentimentos.
Pouco além, muitas pessoas obedecem a um instrutor e tentam alongar seus músculos, como se estivessem procurando estirar seu tempo no mundo. E o instrutor fala firme, corrige, exemplifica e vai mudando de comando, assim como a dizer que pés, pernas, coxas, cintura, abdome, ombros, braços, mãos, pescoço e cabeça, precisam de atenção como se cada um deles estivesse cobrando a parte que lhe toca neste bailado sem música, mas ritmado pela esperança.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2006.

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CONY, 80 ANOS

O jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony completou 80 anos. Lúcido, capaz, irônico, irreverente e lido. Os números redondos são importantes, devem ser lembrados e comemorados, pois definem épocas diferentes nas vidas das pessoas. Cada época com seu encanto e dores. Sou leitor cativo de Cony desde a minha juventude. Ele é referência do jornalismo brasileiro, expoente da crônica e consagrado palestrante.
Há dois fatos na vida de Cony que considero importantes, pelo menos na minha visão. Um é o conteúdo de sua vida como jornalista combativo e temido, o outro é a obra literária que criou, parecendo sem pretensões e que o consagrou. Destaco, entre tudo o que escreveu, o livro “Quase Memória, quase romance” em que fala de sua vida, da infância suburbana, do seu tempo de seminário com a falta de fé inata, família, do amor extremado ao pai e, como suspense constante, a existência de um pacote atado por barbante que nunca é aberto até a última página da história.
Em 28 de fevereiro de 1999, escrevi uma crônica aqui neste mesmo local do Diário do Nordeste, com o título “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”, e a iniciei assim: “Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons amenos e a acidez das críticas perde as peremptoriedades”, e aí me refiro a Machado de Assis em Dom Casmurro.
Nessa crônica de 99 falo de autores brasileiros, Machado de Assis, Zuenir Ventura, Érico e Luiz Fernando Veríssimo, mas o destaque é Cony. Lá pelo meio, digo: “Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo do seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore”.
É este homem simples e grande, que soube e ainda sabe ser filho de pai morto – e que chorou por escrito com a perda de sua cadela de estimação – que está merecendo os nossos parabéns pelo que nos deleita e ensina. Cony.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2006.