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DORIAN OU DORIANUÁRIO – Jornal O Estado

Desculpem-me os editores Jocélio Leal e Fábio Campos. Desculpe-me Demócrito Dummar, mas ainda associo o Anuário do Ceará a Dorian Sampaio. Reconheço estar o Anuário a viver outros tempos, cumprindo nova função e ocupando espaço importante na área de pesquisa e construção da história cearense. Sei do cuidado no seu planejamento, comercialização, elaboração, dos novos métodos de gestão e dos sistemas de informática alimentando informações, tornando-as atuais, veras e consequentes.
Mas, vi o Anuário renascer nas mãos de Dorian Sampaio. Era um projeto parado com a morte de Waldery Uchoa e Dorian teve a coragem de ressuscitá-lo. Participei dessa história. Era 1969. Dorian Sampaio, jornalista e ex-deputado estadual, não aceitava o revés de uma cassação injusta e o trauma causado, não fora a sua inquietude, talento e vontade de provar-se e dar a volta por cima. Um belo dia, ele me indagou se eu admitiria participar de um projeto de recriação do Anuário do Ceará contando e cantando as glórias do nosso povo. Respondi: estudaria o assunto, bastando me apresentar, por escrito, a ideia. Com o seu jeitão característico, ele me retrucou quanto ao volume de trabalho para fazer tal estudo e só o realizaria se eu garantisse: a) participar do negócio; b) ou, em caso contrário, pagar uma determinada quantia pelo trabalho. Aceitei.
Li o projeto – devolvido anos depois – e disse ser uma empreitada diversa da natureza do meu trabalho, não combinando com o meu jovem e irrequieto perfil. Melhor seria convidar alguém do ramo para, juntos, tocarem a ideia. Paguei a quantia combinada. Surgiu então a parceria Dorian Sampaio e Lustosa da Costa, dois não-cearenses, talvez mais autênticos que 99% dos nascidos por estas terras tórridas.
Com o gás e a sede de retomar o caminho abruptamente cortado, a dupla Dorian e Lustosa se materializou no Anuário do Ceará. Os primeiros anos do Anuário foram levados a quatro mãos. Com a ida do Lustosa para Brasília, a família de Dorian, incorporada, assume e dá a sua forma empresarial na Stylus, a editora-mãe. Lembro quando, ao completar 25 anos, escrevi na sua edição comemorativa: “estes 25 anos têm demonstrado o valor de uma ideia, a capacidade de uma pessoa, a importância da união de uma família em torno de um objetivo e o poder aglutinador de fazer e refazer equipes. A todos: ao líder, à família, à equipe e ao próprio Ceará, meu reconhecimento, minha homenagem e amizade”.
Com a morte de Dorian, o Anuário do Ceará passou ao controle das empresas O Povo. Novamente, fui consultado. Dessa vez, por Demócrito Dummar e verifiquei, triste, não ter mesmo o perfil de gestor ou editor e não aceitei a parceria. Desejei sorte. Agora, por dever de justiça, rendo homenagem a esse veículo precioso a nos orgulhar e a registrar, de forma profissional em 660 páginas, na sua edição 2007-2008, a saga cearense. Parabéns ao editor-geral Fábio Campos, ao editor-executivo Jocélio Leal e ao Demócrito Dummar. Mas como esquecer Dorian Sampaio?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2007.

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HOMENS E AVIÕES – Diário do Nordeste

Nesta crise anunciada da aviação comercial fica claro que homens e aviões precisam de muitos e melhores cuidados. Parece que essa certeza básica não está sendo considerada por seus dirigentes públicos e privados. Desde que Santos Dumont voou em Paris em 1906, com o seu “14 Bis”, que o Brasil tem procurado ser uma referência na área. Na primeira metade do Século XX, a aviação era uma atividade perigosa, mas romântica. Até o escritor francês, Antoine Sainte-Exupéry (O Pequeno Príncipe, Correio do Sul, Voo Noturno etc.) era piloto comercial. Exupéry era triste, como também o eram Santos Dumont e Pinto Martins. Hoje, nada de romantismo, apenas empregos e tragédias. Mas, os pilotos continuam tristes.
Na infância, convivi com pilotos – meu pai era um deles – e pude ver que eram audaciosos e imaturos. Depois, como passageiro, estive em avião da TAP que fez pouso forçado, após emergência, em Las Palmas. Nesse episódio, vi o descortino do comandante e tripulantes. Eles tinham uma crise e precisavam decidir. Demorou 90 minutos, mas pareceu uma vida. Agora, com o acidente do Airbus da TAM, precedido de avisos, desde a queda do avião da Gol no ano passado, ficou claro que os homens da aviação precisam ser melhor cuidados para ter calma e decidir em emergências. Mas, os pilotos lutam contra o desemprego (Transbrasil, Vasp e Varig demitiram) e as novas empresas são vorazes na maximização do uso de seus equipamentos. Há ainda o caso dos controladores de voo. Têm apenas o nível médio e três categorias: militares (sargentos), funcionários públicos civis e CLT. É uma mistura explosiva com salários diversos e lutas sindicais. Do mesmo modo, os pilotos comerciais só têm o segundo grau, estudam em apostilas, aprendem a voar por instrumentos e obtém brevês de piloto em aeroclube, não em faculdade. Os aviões, mantidos em terra, voam no limite, apresentam defeitos, são consertados por mecânicos mal remunerados, e usam aeroportos construídos e gerenciados por leigos, indicados por políticos. Dá no que deu. Por que não entregar tudo ao ITA ou à Embraer, que constrói aviões, mas não o do Presidente?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2007

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A CULPA É NOSSA – Jornal O Estado

Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos.
Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa.
Falamos dos banqueiros, mas eles são, por dever de ofício, cuidadosos ao conceder um crédito. Nós, pelo contrário, somos abertos demais, damos crédito fácil, seja de que natureza for, a quem não conhecemos em profundidade e temos a memória curta. Isso nos leva a escolha errada em muitas situações. Essa constante na nossa vida, por outro lado, é fruto, além da desatenção e falta de análise, apanágio do subdesenvolvimento, do descompromisso com nós mesmos. Fazemos tudo às pressas, como se nada merecesse um tempo de expectativa, tão comum em outros povos, que levam muito tempo para chegar a uma decisão. Por outro lado, tomada a decisão, mergulham, com profundidade, na luta para que ela se transforme em realidade, em êxito e, certamente, monitoram comportamentos e corrigem desvios, não tendo receio de excluir pessoas que falham, denigrem, roubam e têm cara de gente boa. Nós, não. Todos sabem que fulano de tal é desonesto ou trambiqueiro, mas ele continua saindo por aí, enganando pessoas, escudado, muitas vezes, em advogados que provocam chicanas em processos que tentam desmascará-lo.
Se desejarmos um melhor destino para nós mesmos e para o Brasil será preciso que mudemos de conduta. Tornemo-nos, forçosamente, desconfiados, deixemos de aceitar os que fingem ser e não são, os que se apoderam de posições públicas, privadas, sindicais ou de associações de classe, apenas em benefício próprio, propalam isso e aquilo em relações públicas que nada mais são que mistificação e promoção pessoal furada, não conferida por quem as veicula. Temos que parar com a hipocrisia ou aceitar o que diz o ministro da Cultura, Gilberto Gil, atualmente em férias no exterior: “A hipocrisia é uma ferramenta da civilidade”. Será?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/07/2007.

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IGREJA BENTA? – Diário do Nordeste

Quando menino, os padres e minha mãe recomendavam não conversar com “crente”, tampouco ter a audácia de pisar nas calçadas de igrejas evangélicas ou de centros espíritas. Nunca obedeci. As missas eram então em latim e, antes da bênção final, três ave-marias rezadas contra o “comunismo ateu”. Foi assim até o Concílio Ecumênico (62 a 65), que deu ares renovados a uma Igreja precisada de expurgar culpas antigas e novas, como a do Papa Pio XII na 2ª. Guerra. Estive em Roma em 65 e, bem jovem, saí de lá informado, alegre, inclusive dando carona para Paris a bispos cearenses.
Nos anos 80 houve solidariedade com os pobres e diálogo com outras religiões, ao tempo em que a caridade anônima era incentivada. Depois, veio João XXIII e a Igreja voltava ao passado. Agora, 42 anos após o ecumenismo, vem o Papa Bento XVI e diz: “A única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”. O ecumenismo parece enterrado nas catacumbas romanas e o catolicismo toma ares do fundamentalismo tão criticado por nós nos aitolás e talibãs. Neste breve papado de Bento (ou Benedito?) XVI há uma preocupação – ultrapassada – em ressuscitar a missa em Latim, língua morta, não aceitar a camisinha e teimar em não acolher o fim do celibato dos padres, ocasionando o pagamento de indenizações altíssimas por conta de abusos sexuais contra fiéis.
Agora mesmo, em Los Angeles, o arcebispo fez um acordo com 500 vítimas e pagou 660 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, onde a lógica permite o resgate da honra com dinheiro, a Igreja já gastou bilhões com pedofilia de padres. Não se pode mudar a natureza humana e os padres são homens, carentes e solitários. Um dos ensinamentos básicos aprendidos na minha fé torta foi o de que somos todos iguais e devemos cultivar a humildade. O catolicismo é maior que seus erros e os dos seus padres. O que a Igreja fez no seu ato da Congregação para a Doutrina da fé, em 29, dia de São Pedro, de junho de 2007, foi dizer que somos os escolhidos. Como fica a humildade (“melhor é ser humilde de espírito…”, Prov. 16:19) pregada por Cristo?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/07/2007.

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O QUE É UM AMIGO? – Jornal O Estado

Hoje é o dia do amigo. Você sabia?
O que é um amigo? Será aquele que ampara e defende? Ou o que protege e acolhe? Ou o que ouve calado as nossas lamúrias? Ou o que está pronto para o que der e vier e vem sem ser chamado?
Nelson Rodrigues, um frasista cínico e inteligente, tem várias versões sobre o que seja amigo. Na primeira, ele é negativo e diz: “Os homens, individualmente, não são amigos dos homens. O ódio começou quando, pela primeira vez um homem viu outro homem. E assim tem sido através de todas as manhãs e de todas as noites: – o “outro” continua sendo o inimigo de cada um de nós e de todos nós.” Em seguida, ele muda: “Daí porque o grande acontecimento é, sempre, o amigo. Ele é a desesperada utopia que todos perseguimos até a última golfada de vida.” Sendo polêmico, Nelson tinha humores e isso o fazia pensar diferente sobre amizade, dependendo do estado de espírito. Assim é que, em outra feita, ele chora: “A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas as relações com o passado ficam alteradas”.
Afinal, o que é um amigo? Atrevo-me a dizer que é aquele que quer bem ao outro. É o companheiro, aliado e simpatizante. Segundo Machado de Assis, “não é amigo aquele que alardeia a amizade; é traficante; a amizade sente-se, não se diz…”
Procuro na história e valho-me de Aristóteles quando diz: “Não podemos nos contemplar a partir de nós mesmos. Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim também quando queremos conhecer-nos a nós mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, é um outro de nós mesmos.”
Vejo em Michel Foucault, na obra “A palavra e as coisas” uma distinção epistemológica entre simpatia (que gera amizade) – o poder de assimilar, de fazer com que as coisas passem a ser semelhantes, ajustadas, de interesse comum – e antipatia, como contraponto que se caracteriza pela dispersão e dessemelhança.
A amizade é uma relação em duplo sentido, onde a complementaridade, o respeito, a crítica que ajuda, o incentivo que estimula e o apoio que conforta, não devem faltar como condimento à convivência entre pessoas distintas.
Socorro-me de Cícero quando fala da perda das amizades: “Se o acaso as faz cair por falta de discernimento em uma amizade, não se creiam ligados a ponto de não poder abandonar seus amigos gravemente culpáveis”.
Há pessoas a confundir amizade com cumplicidade e subserviência, formas pouco leais de convivência. Ser amigo é, antes de tudo, saber lidar com a verdade, mesmo isso se tornando doloroso. A verdade relativa de cada um nos impõe uma característica de vida. Ela nos distingue dos demais, sem deixar de sermos semelhantes. Isto é a nossa integridade. E com poucos, mas escolhidos amigos, estamos mais seguros, com identificação clara, capacidade de servir e dizer ao outro o quanto o estimamos e estamos dispostos a relevar discórdias e eliminar frustrações. O poeta inglês William Blake disse: “tudo que vive, não vive sozinho, nem para si mesmo”. Por estarmos vivos e não vivermos isolados, não podemos deixar de ter amigos e de nos tornar integrantes de um elo comum a necessitar de permanente atenção e cuidado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/07/2007.

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ESCAPEI? – Diário do Nordeste

Sérgio Braga perdeu a vesícula. Foi nesta semana. Vocês conhecem o Sérgio Braga? Ele mede 1,85m e pesa mais de 100 quilos. Pois esse ‘homão’ teve uma boba de uma crise de vesícula e ficou apavorado. Fez todos os exames com muito medo e, só após ter realizado o seu testamento, submeteu-se a uma ressonância magnética. Não tinha jeito, tinha de entrar na faca. O seu irmão e médico, Paulo, já não aguentava mais as perguntas e as medições diárias da pressão arterial.
Eu, ‘paramédico’ conhecido, fui incumbido de indicar o cirurgião e sugeri o nome do Dr. Campos. Ele, mesmo com toda a sua comprovada experiência, foi ainda submetido a uma sabatina pelo Sérgio. Eu não estava lá, mas imagino o doente, com aquele jeito de boi manso, perguntando: Doutor, o Sr. se garante, tem perigo de algo sair errado e eu morrer? O Dr. Campos teria rido e respondido: todos nascem e morrem um dia. O Sérgio quase desmaia e foi logo ligando para o anestesiologista José Teles pedindo-lhe para acompanhar a cirurgia, como garantia pessoal. Para culminar os preparativos, ele me liga e diz: João, será possível um cardiologista acompanhar a minha cirurgia? Lá vou eu ligar para a Dra. Emair, diretora do Hospital.
Data da cirurgia. O Sérgio, depois de inopinado registro, está deitadão na cama de seu quarto no hospital vestindo apenas uma minúscula bata. O relógio marca 10 horas e o Dr. José Teles se atrasa. O Sergio sua, apesar do ar-condicionado no máximo. O Dr. Campos entra no quarto, dá um bom dia e vê aquele gigante metido na sumária bata e pergunta se ele está pronto para a operação. Ele revira os olhos, reza para São Francisco, seu santo protetor, deixa cair duas lágrimas e vê o Dr. José Teles chegando. Apertam-se as mãos, o sangue corre melhor em suas veias e ouve, desconfiado, a conversa – em linguagem médica – mantida pelos dois médicos. A pré-anestesia começa a fazer efeito, uma maca chega e são necessários três maqueiros para transferir o Sérgio da cama para a maca. Ele sorri amarelo, os olhos pesados e apaga. Acorda, horas depois, são e salvo, e pergunta: escapei?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2007.

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CRÔNICA DA SEMANA – Jornal O Estado

Esta semana foi intensa. Vi mais de 70 pessoas, de todas as idades, participando de um curso de bombeiro voluntário e primeiros socorros. Este curso é para quem pensa no outro e admite ter uma atitude modificando uma situação de emergência. Ser bombeiro voluntário é importante para todos e sua ação poderá salvar vidas e fazer a diferença.
Vi também a exposição de gravuras de Rembrandt (pintor e gravador holandês do século XVII, de arte realista) na Unifor e fiquei maravilhado não só com a obra em si, de todos já conhecida, mas com a forma profissional, didática e ‘classuda’ como aquela Universidade trata os acontecimentos de arte. Uma pessoa, mesmo sem nunca ter comparecido antes a uma mostra, sai de lá com uma sensação de inclusão, pois, de forma bem sutil, é guiada nas formas, no conteúdo e na vida do autor exposto. Sem medo de errar, acredito terem as exposições da Unifor um tratamento de alto nível técnico e plástico, só encontrado no Brasil em São Paulo e em grandes eventos.
Esta semana também estive, por várias vezes, no Hospital Geral da Unimed visitando amigos e pude verificar o zelo, a atenção e o espírito da equipe comandada pela Dra. Emair Borges. Há um compromisso disseminado entre todos, com a qualidade. Não a baboseira da total, mas a qualidade em si, a começar pelo tratamento paisagístico, o respeito ao meio ambiente pelos cuidados com os resíduos gerados. Vi a atenção aos usuários na tarja amarela identificando os degraus de cada escada e os avisos nos elevadores anunciando eventos e mudanças de comportamento. Vi também paciente sendo bem atendido e tendo alta médica um dia após cirurgiado, sem isso demonstrar pressa ou economia.
Nesta semana também tive o prazer de trocar horas de prosa com amigos inteligentes e instigantes. Tão instigantes a ponto de o tempo passar sem nos apercebermos. É bom estar com gente de bem com a vida, sem esconder sentimentos e deixar, apenas pelo companheirismo, a conversa correr sem policiar palavras, frases ou atitudes. E a tarde anoitou e a noite madrugou. E nesses dois momentos distintos e raros de enlevo renovamos a fé na amizade, não a travestida em interesses ou ademanes, mas a espontânea como a fala de uma criança.
E a semana já ia terminando quando falei ao telefone com o escritor Antonio Torres, candidato ao prêmio (nacional) Jaboti, por quem torço, não por compadrio, mas por já ter lido e gostado do seu novo romance “Pelo fundo da agulha”, um dos bem cotados em seu gênero. E gostei de ter ouvido a simplicidade do Antonio Torres dizer: “como este dinheirinho me faria bem”. Estou torcendo, Antonio.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/07/2007.

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OURO PURO – Diário do Nordeste

Hoje, com a longevidade acenando mais tempo, estamos condenados ou abençoados a ter um futuro da maturidade. E esse futuro da maturidade eclode depois do ímpeto começar a baixar. Reencontramos o nosso eu verdadeiro e procuramos um sentido mais profundo no tempo a nos restar, seja longo ou breve. E aí, em meio às calmarias e festivais de vento, descobrimos o prazer de ser inteiro, íntegro, mas precisamos de uma espécie de um alter ego ou companhia, alguém a nos animar, entender e amar.
E isso, por conta desse novo mundo a engolfar quase todos, a fazer da liberdade uma panacéia e a nos levar, vez por outra, a uma estrada circular, na qual o nosso carro existencial patina, atola, faz voltas e não encontra as veredas da felicidade. E isto tem nome: solidão, especialmente aquele produto da separação de corpos e mentes anos e anos juntos, mas, por força do olhar diverso na vida ou do destino, tomaram sendas distintas.
E essa conclusão rodrigueana nos atinge e pede reflexões. E aí lembro o exemplo de Ernando Uchoa e Regina completando 50 anos de casados. E daí? E daí é estar alegre em propagar esse feito, conhecendo os dois e sabedor da energia de cada um para, todos os dias, até andarem juntos ao calor do sol, rodeados de amigos. Antigamente, não se comemorava muitas Bodas de Ouro de casamento, pois raros eram os casais a atingir esse patamar tão restrito. Hoje, são igualmente escassos os verdadeiramente juntos e esse é o caso de Ernando e Regina, unidos e propagando o seu amor, mesmo sem a trombeta de filhos ou de netos. Ouro puro.
É essa identidade plasmada na troca de essência vital a soldar a benquerença, essa aliança tão rara a resplandecer em ouro puro e cintilar nos olhos de seus personagens, tão queridos agora quanto no tempo de sua mútua e definitiva descoberta. Não a das aparências, mas a da aceitação da personalidade do outro e do conúbio verdadeiro a conseguir ultrapassar as intempéries da vida sempre com a certeza de ser na imperfeição do outro a trilha da descoberta da tolerância, respeito e do apego, reunidos, a celebrar o amor.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/07/2007.

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TRISTEZA E TRIBUTO – Jornal O Estado

Ainda estou meio triste e sem graça com o episódio dos jovens universitários a maltratar uma mulher por cismarem ser ela uma prostituta. Estou triste e sem graça por não ver sentido na selvageria e na discriminação de uma pessoa apenas por ser mulher, pobre, estar no alvorecer de um dia em um ponto de ônibus e ‘parecer’ uma prostituta.
Em outro episódio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens universitários, de uma universidade pública, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes e levavam um simulacro de caixão, falando de democracia amordaçada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua ‘performance’ e se retiraram em meio ao silêncio democrático de centenas de pessoas, entre eles, outros jovens.
Por outro lado, Suely Vilela, reitora da USP, ao final da recente ocupação e greve dos estudantes, declarou à Veja desta semana: “temos muitos furtos de laptops, monitores, projetor multimídia, impressora, scanner, componentes de informática, DVD-player, pen drives, microfones, telefones e algumas máquinas também”.
Sem saudosismo, mas como reflexão, lembrei do meu tempo de universitário nos anos sessenta, quando não existiam ainda universidades e escolas particulares. Formávamos um grande grupo, ora estudando, ora participando de passeatas, greves, congressos da União Estadual de Estudantes-UEE e da então famosa União Nacional de Estudantes-UNE, aqui e pelo Brasil afora. Éramos destemidos, abusados até, tínhamos divergências internas, mas nada de matar ou ferir pessoas, desrespeitar um ato solene de posse de uma universidade a tentar ser forte ou, aproveitando-se de uma ocupação, furtar objetos. Tudo acontece em meio às fraquezas conjunturais de um país pretendente a ser grande, mas sem coerência política, ética ou quase nenhuma identidade ideológica. E dessa lembrança forte veio, como firma de tributo, a recordação de alguns nomes, entre outros, de colegas bravos como Augusto Pontes, Aytan Sipahy, Barros Pinho, Hélio Leite, Josino Lobo, Maria Luiza, Roberto Amaral, Valton Leitão, René Barreira, todos, sem exceção, vitoriosos em suas carreiras, mesmo que tenham dado parte de seus tempos de juventude a essa luta sem fim e, ainda hoje, mantenham, sob formas diversas, a chama da esperança em suas cabeças prateadas.
E, me perguntei se esse descompasso no agir de jovens de hoje a atacar índios, mendigos, mulheres ou velhos pelo Brasil afora, o episódio da ‘performance’ na posse de um reitor e os furtos na USP não serão frutos da carência de cidadania, esgarçamento das famílias um ideal maior, da velha ideologia, qualquer que fosse o seu substrato, a dar um sentido maior, além do mero existir?
Os jovens têm que ser destemidos, encetar lutas, marcar posições, cobrar atitudes, transgredir até, mas daí a se transformarem em ‘exterminadores do futuro’ ou reeditarem as famigeradas Ku, Klux, Klan e assemelhados, há uma distância enorme que não se justifica na era de informação e do conhecimento, enquanto nós, jovens de ontem, usávamos panfletos feitos em mimeógrafos, não tínhamos telefone e tampouco as facilidades da Internet. A diferença é que dávamos sentido às nossas vidas, cobrando dos outros o que pregávamos e fazíamos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/07/2007.

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TIROS E PAN – Diário do Nordeste

O som de um tiro de revólver ou metralhadora, seja da polícia ou de marginais, tem o mesmo pam, pam, pam, no complexo do Alemão ou em qualquer parte do Brasil. O que muda é a velocidade ou a quantidade de disparos. Mas os protagonistas, os que acionam os gatilhos, são quase sempre pessoas do povo, às vezes vizinhas, independente do lado em que atuam.
E só faltam poucos dias para outro pan, este com n, os jogos Pan Americanos, que custaram 3,8 bilhões de reais a um país que teima em ser rico e não sabe administrar o fim de sua pobreza. Visível nas filas de emprego, portas de fábricas, favelas mis espalhadas democraticamente ou doente em hospitais públicos sem capacidade de albergar a todos. As favelas são frutos de muitos problemas, dentre eles a teimosia da Igreja Católica em deter o planejamento familiar, desemprego, baixa escolaridade da maioria, ausência de política pública de urbanismo e habitação e a nossa indiferença social, como se tudo na vida não funcionasse como uma pedra na água. Os círculos vão aumentados e, querendo ou não, somos atingidos.
Estive no Rio há poucos dias. A cidade está sendo maquiada, além da Vila do Pan, do ´remake´ do Estádio do Maracanã, arquibancadas são espalhadas pela orla e o relógio da Avenida Atlântica conta os dias. A propósito, conta-se ter sido interceptada uma ligação telefônica de um grupo ameaçando fazer estragos e atacar autoridades. Tomara que não. Enquanto isso, a maior parte da população, refém da violência, se queda perplexa ou ululante diante de aparelhos de televisão vendo as lutas fratricidas de todos os dias, açuladas por apresentadores ávidos pela desgraça, sempre portadora de maior audiência. Este é um país bravateiro, preparado para o Pan e lutando por uma Copa do Mundo de futebol em 2014. Pena que os assaltos, tiroteios e os controladores de voo possam tentar estragar tudo: basta cruzarem os braços em mais uma operação padrão, tão comum quanto os muitos tiros ecoados em todas as cidades brasileiras. Ainda bem que junho acabou e tudo pode ter sido ser apenas foguetório de São João e São Pedro.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2007.