Sem categoria

TOLICES JORNALÍSTICAS

Recentemente, o francês Philippe Mignaval resolveu reunir em livro as bobagens escritas na imprensa do seu país. Sob o nome de “Le Sottisier des Journalistes”, Mignavil reuniu uma coletânea de bobagens, impropriedades e até, vamos lá, idiotices publicadas em jornais franceses. Tal procedimento, como se verá, não é privilégio de brasileiro. Ainda bem.
Escrever é uma faca de dois gumes. Tanto pode engrandecer como denegrir a imagem de quem escreve. Diz o jornalista português Edson Athayde, colecionador desses deslizes: “acidentes lingüísticos e semânticos apenas demonstram que a escrita também pode ser uma arma”.
Só para vocês terem uma idéia de como são comuns os erros na imprensa, vou citar dois exemplos brasileiros, de órgãos do primeiro escalão, antes de entrar nos franceses. O prestigiadíssimo Jornal “Folha de São Paulo”, publica, diariamente, no caderno Cotidiano, ao lado da seção “Mortes” um aviso que tem o seguinte título: “O que fazer em caso de morte” – “você deve procurar o serviço funerário do Município de São Paulo pelo telefone (011) 2377000 ou pelo fax (011) 2321203.” Quem é você? O morto, a família?, Quem, afinal?
A revista Veja, edição de 23.06.99, página 39, publicou um quadro (box) com o título: “Eles querem seu emprego”. Em seguida, diz: “O Brasil tem cerca de 30.000 imigrantes que vieram para trabalhar. Saiba quais são os países campeões na exportação de mão-de-obra e quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje: 5.000(EUA), 2.300(Inglaterra), 1.950(França), 1.800(Japão), 1.750(Alemanha) e 1.500(Argentina). ” Ora, é tão ridículo, os números são tão fora da realidade e a observação furada “quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje”. Ora, cada um desses países mandou muitos mais imigrantes.Não indicando o período de tempo, a notícia é errada e absolutamente sem sentido.
As tolices francesas são engraçadas. Vamos lá: “Parece que ela foi morta pelo seu assassino”. “Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça”. Os antigos prisioneiros terão a alegria de se reencontrar para lembrar os anos de sofrimento”. “O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos”. “A polícia e a Justiça são as duas mãos de um mesmo braço”. “Ela contraiu a doença na época em que ainda estava viva”. “O aumento de desemprego foi de 0% em novembro”. ”A conferência sobre prisão-de-ventre foi seguida de um farto almoço”. “À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel”.
E tem mais: “O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos”. ” Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério para satisfação dos habitantes”. “Os sete artistas compõem um trio de talento”. “Um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido”. “Este ano, as festas do 04 de setembro coincidem exatamente com a data de 04 de setembro, que é a data exata, pois o 04 de setembro é um Domingo”. “O Tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão”. “Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio”. “As circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem obscuras”. “Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente”. “O velho reformado, antes de apertar o pescoço de sua mulher até a morte, suicidou-se”.
E, para finalizar, esta pérola: “Nossos leitores nos desculpem por este erro indesculpável”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/1999.

Sem categoria

INTIMIDADE

Muitas pessoas imaginam ser agradáveis ao tentar pensar sobre os seus sentimentos. Algumas são tão falsas quanto uísque do Paraguai. São melosas, fingem uma intimidade que não têm e, como não querendo nada, disparam: como vai você? Conte-me os seus problemas. Você não se sente só? Você precisa de alguém para compartilhar as suas tristezas e alegrias? Essas são as mais perigosas e esquecem que seu disco já está gasto e as frases de efeito não produzem mais resultados. A não ser nas pessoas incautas ou carentes.
Há outras, honestas no perguntar a quantas andam a sua vida, mas não dispõem de ferramentas para apertar as porcas frouxas das suas dores ou de óleo para lubrificar suas ilusões. No fundo, são bisbilhotices e a solidariedade mostrada em nada resolve os seus males, sejam eles reais ou imaginários.
Muitas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem? É preciso conhecer, saber quem o outro é, o que fez e faz, como vive, para admitir o bem querer. Não o bem querer de coquetéis com vinhos e destilados atilando uma intimidade fugaz. Para gostar é preciso caminhar uma mesma estrada, identificar os sinais do corpo e as mazelas do espírito. Não é, por exemplo, a nudez moteliana que torna as pessoas íntimas, é algo mais profundo como sentir os olhos, beber os sentimentos, entender os silêncios e perdoar os ditos malditos.
Não permita que devassem a sua intimidade. Importa não que fabriquem versões a seu respeito. Se isso acontecer, paciência. Faz parte da vida. As pessoas que não dão vida às suas vidas vivem do que imaginam ser a vida dos outros. Fantasiam, xingam, caluniam e nisso vão agregando uma couraça invisível, mas sensível a quem conhece um pouco esses amigos de araque.
Os amigos não precisam alardear afinidades. Afinidades não são trombeteadas, são guardadas com o carinho especial dos que não necessitam provar nada. Basta o fluir da vida e elas se agregam de uma forma misteriosa e bela. Os verdadeiros amigos não perguntam, eles sentem. São presenças sem serem chamados. São ouvidos atentos para os nossos silêncios ou queixumes. São uma força magnética imantando atitudes desinteressadas e não pedidas.
Os caros e poucos amigos não devassam a nossa intimidade, eles fazem parte dela, desnudam-na sem perguntas e nos tornam fortes em meio às fraquezas comuns aos humanos. Os amigos não adulam. Apoiam e confortam. Os amigos têm o direito da crítica pela capacidade de saberem tocar os nossos sentimentos. Mesmo que, às vezes, isso possa doer.
Os amigos tomam partido e não assumem atitudes dúbias, convivendo com os nossos inimigos. Eles nos defendem em nossas ausências e procuram entender as nossas razões. André Malraux disse certa vez: “Amizade não consiste em apoiar os amigos quando eles têm razão, mas quando erram”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/1999.

Sem categoria

DOUTOR CHICO

Nenhum brasileiro de cultura mediana desconhece a discografia de Chico Buarque. Os que estavam na universidade na década de 60 sabem do engajamento de Chico Buarque aos movimentos de rebelião à ordem vigente no país. Os mais novos conhecem também o escritor Chico Buarque, elogiado por uns, criticado por outros e com livros que não fariam nenhuma falta se não tivessem sido escritos.
Por sua condição social, cultura, tratamento poético, linguístico e musical que dá a sua excelente obra discográfica, Chico Buarque constitui uma referência na história da música brasileira na segunda metade deste século. Quem não conhece, por exemplo, Pedro Pedreiro, A Banda, Apesar de Você, Cálice, Meu Caro Amigo, Samba de Orly, Pelas Tabelas, Suburbano Coração, Bancarrota Blues, Carolina, Geni e Não Existe Pecado ao Sul do Equador.
O seu passado de luta, engajamento político, excelente discografia e a sua sofrível incursão literária, não são motivos – pelo menos, no meu entendimento – relevantes e suficientes para a obtenção de um galardão como um título de Doutor Honoris Causa por uma universidade pública.
Sempre tive em alta conta os títulos conferidos pelas universidades, apesar de entender que, algumas vezes, eles são usados para atender aos poderosos de plantão e a visitantes ilustres. Não conheço os mecanismos de escolha, os critérios adotados e, dessa forma, o meu juízo fica meio capenga. Mas uma universidade, teoricamente um centro de decisões equilibradas e austeras, não pode ficar por ai distribuindo títulos honoríficos como o fazem muitas casas legislativas.
Como o próprio nome traduz, um doutor de causa honrosa deve ser alguém que pugnou, no cenário internacional, nacional ou no âmbito da universidade, por causas de grande significação. Até se poderia dizer que Chico fez isso. Mas quantos artistas de bom nível e politicamente engajados deveriam, segundo os mesmos critérios, ser agraciados?
Ao receber o título, em cerimônia fechada, Chico se auto intitulou o “doutor Chico da Mangueira”. Ora, não seria o caso de, aproveitando a oportunidade, falar de suas ideias e projetos para uma universidade mais ligada à cultura popular, à música como instrumento da realidade? Poderia até ter repetido alguns versos seus, por exemplo:
“De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto “(Fado Tropical c/Ruy Guerra), ou
“Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar “. (Noite dos Mascarados), ou ainda,
“ Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
que eu sou embaixador”. (Não Existe Pecado… c/Ruy
Guerra).
Pareceu-nos sem emoção o recebimento da honraria e sem nenhuma imaginação a sua fala. Talvez encarnasse o seu antigo heterônimo, Julinho de Adelaide, criado à época da repressão, desejando ser o Doutor Chico da Mangueira.
Tem a fala de Chico Buarque muito ou pouco a ver com um título de Doutor Honoris Causa? Ou estarei sendo um estorvo?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/1999.

Sem categoria

AOS SEM NAMORO

E aí você está lendo este artigo e não compreende a razão de tanta falação sobre o Dia dos Namorados. Pois saiba: é o quarto evento do comércio lojista. Lojistas e publicitários, à parte, cá entre nós você talvez esteja é com uma dor de cotovelo por se encontrar só nessa data.
As rosas oferecidas, nas bancas improvisadas por toda a parte, parecem não lhe dizer respeito. Só parecem. Na verdade, você está é como se um espinho virtual tivesse furado o seu dedo de estimação. Aquele dedo usado para ligar para a pessoa querida. Aí o amor acabou e o dedo ficou em riste, apontando para as suas falhas.
Não se culpe, não é bem assim. Os amores podem acabar. Não pode acabar é o amor no seu coração. Não pode deixar de existir é a eterna busca pelo ideal de ser feliz, embora tudo seja mais um caminho que uma meta.
Não há de ser nada. 12 de junho é apenas um dia. Mas logo nessa data, você gostaria de estar com alguém, não é? Sem essa de autocomiseração, bancando a vítima. Coisa feia. Talvez, você precise descobrir porque as coisas deram erradas. Não na busca de culpados, mas na identificação do que pode ser feito hoje e no futuro, o hoje do amanhã.
Vai ver você não dava valor a quem lhe amava. Comprava presente, escrevia até um cartão bonitinho, mas faltava a entrega. Esse se jogar sem medo no poço profundo do amor. Essa capacidade de sentir o coração apertar quando uma simples troca de olhares age como uma flecha.
Tire os óculos escuros, mostre os seus olhos, não importa a cor, as rugas a redor. Mire com firmeza e diga dos seus sentimentos. Fingir saiu de moda. Enganar, já era. Abra a sua caixa de ferramentas e não tenha medo de consertar os seus defeitos. Acabe com o medo de se expor. O mais grave a acontecer é descobrir ser você um mortal comum. Não fique pensando que defeitos são privilégio seu. Sai dessa.
As novelas têm começo, meio e fim. Você não deve imaginar dramas. Afinal de contas, Janete Clair e Dias Gomes estão mortos. Enxugue as lágrimas. Não é preciso fazer da vida uma novela. Desvencilhe-se do novelo em que está enredado e não fique aí esperando alguém cair do céu à sua procura.
Outros dias dos namorados virão, fique certo. Embora só exista um Dia do Namorados por ano, todo santo dia é dia de namorar. Mexa-se, desenferruje a sua capacidade de caçar felicidade. Não estou falando de pedrador e sim do caçador de esperança. Aquele que não esmorece quando tudo fica cinza e as águas da vida parecem turvas.

Águas turvas podem ser ilusão de ótica, mude as lentes do sentimento, recicle-se na gestão de um projeto pessoal verificando que seu ponto forte é ter certeza dos seus pontos fracos lhe tornarem gente. Em amor, como na vida, não há qualidade total.
No amor há loucura. La Fontaine, em uma de suas fábulas, conta que o Amor e a Loucura brigaram um dia. A Loucura furou os olhos do Amor, tornando-o cego. Vênus, mãe do Amor, pediu justiça a Júpiter e aos juízes do Olimpo. E esses sentenciaram que a Loucura serviria de guia eternamente ao cego Amor.
Para de choramingar, vá à luta, o mundo é seu e fique cego de Amor. Mas não esqueça de amar a si próprio.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/1999.

Sem categoria

KEYNES, O FILÓSOFO

Os que mourejam em economia sabem – ou deveriam saber- quem foi John Maynard Keynes. Os outros, naturalmente, não têm a obrigação de sabê-lo. De qualquer sorte, como diria outro economista, Keynes foi o mais famoso economista inglês do atual século, autor da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, e agraciado com o título de Cavalheiro (Sir) pela Casa Real da Inglaterra.
Ocorre que não desejo falar sobre o economista Keynes e sim sobre o pensador Keynes. O estudioso de Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein. O homem que varava horas da madrugada conversando amenidades com um grupo (o badalado “Bloomsbury group”) de amigos intelectuais, dentre os quais Virginia Woolf e os seus lobos imaginários.
Em 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado “As possibilidades econômicas de nossos netos”. Nesse trabalho há trechos lindos demonstrando que Keynes era um filósofo, no sentido lato da palavra. Vejamos dois deles: “Quando a acumulação da riqueza não tiver mais uma grande importância social, haverá grandes alterações no código de moralidade. Seremos capazes de nos permitir avaliar em seu real valor o motivo econômico. O amor ao dinheiro como uma posse – diferente do amor ao dinheiro como um meio para o gozo e as realidades da vida – será reconhecido pelo que é: uma morbidade um pouco fastidiosa, uma dessas tendências semicriminosas e semipatológicas que se costuma confiar com arrepios a especialistas em doenças mentais…” “Ele (o homem) não ama o gato, mas os gatinhos do seu gato; na verdade, sequer os gatinhos, mas apenas os gatinhos dos gatinhos, e assim por diante, para sempre, até o fim da gataria. Para ele, uma geléia não é uma geléia, a menos que se trate de uma geléia para amanhã e nunca de uma geléia hoje. Assim, sempre projetando para o futuro sua geléia, ele se esforça em garantir a imortalidade para seu ato de fazê-la”.
Diz mais: “Os ativos e decididos ganhadores de dinheiro podem levar-nos todos ao aconchego da abundância econômica. Mas apenas serão capazes de aproveitar a abundância, quando ela chegar, os que puderem manter viva e cultivar para uma perfeição mais completa a arte de viver, e os que não se vendem pelos meios de vida”.
Nesses trechos Keynes denuncia um defeito comum a quase todos nós: o amor ao dinheiro pela sua mera posse e deixa claro ser essa uma morbidade, só justificando seu uso dignificante para o gozo da vida. Fala também da loucura que é a tendência de muitas pessoas em imaginar que a felicidade é um vir a ser e não o aproveitar as pequenas alegrias do dia a dia, como, por exemplo, admirar e gostar de um simples gatinho.
Ao admitir que os ganhadores de dinheiro poderão levar o mundo a uma abundância, considera apenas que fruirão dessas benesses os que saibam cultivar a arte de viver. Para saber o que Keynes consideraria “cultivar a arte de viver” poder-se-ia dizer, por inferência de seus escritos e dos grupos sociais de que participava, que seria saber dividir o seu tempo entre o dever e o prazer, colocando a amizade e o relacionamento social como um desiderato.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/1999.

Inédito

INVASÃO DE PRIVACIDADE

Grande parte dos brasileiros, por comodidade, economia e para facilitar o controle de despesas mensais, paga as suas contas com cartões de crédito. Você paga com cartões de crédito estrangeiros. Eles têm seu endereço, CPF, sabem em que você gasta, quanto gasta por mês, que lugares frequenta, quando e para onde vai. Querem um exemplo? Soube-se que o escritor Dias Gomes, antes de morrer acidentado, jantou no restaurante paulista “Famiglia Mancini”, o que comeu, quanto pagou e saiu às 1:53 horas do dia 18.05.99. A precisão das informações, inclusive o horário de saída, 1:53, deve-se ao registro do pagamento eletrônico feito por cartão de crédito.
No instante em que se liga o telefone, em uma companhia privada controlada ou de propriedade estrangeira, tudo fica registrado e um simples detetive bisbilhoteiro pode saber para quem se liga, se não ousar gravar a conversa.
Não se passa um dia sem que a imprensa informe algo inovador na forma de invadir a privacidade individual. Tomemos, por exemplo, uma notícia, na primeira página da insuspeita Gazeta Mercantil, de 17.05.99: “O recrutamento de executivos está chegando à era dos Jetsons. Recrutadoras como a Korn/Ferry, a Heidrich & Strugells e a Russel & Reinolds estão implantando a busca de profissionais via Internet. …A Korn & Ferry desenvolveu um recrutamento para lá de futurista, que deve chegar este ano ao Brasil. Profissionais selecionados pelo “site” Futurestep (Degrau do futuro, trad. nossa) recebem em suas casas envelopes da Federal Express. Dentro dos pacotes, está uma minicâmera chamada de videofone, que eles devem plugar na tomada de seus telefones. Um headhunter (caçador de talentos, trad. nossa) liga para esses profissionais e eles são entrevistados e filmados, enquanto podem ver o entrevistador na tela suas minicâmeras “.
O mundo está ficando globalizado, como já previa a “aldeia global” de Marshall McLuhan, nos anos 60, e nós não temos mais privacidade. Paradoxalmente, o livro “1984”, de George Orwell, falava do perigo de um Big Brother (Irmão Grande) comunista que saberia tudo das nossas vidas. A realidade nos mostra o contrário. São as grandes empresas e o Estado, dito democrático, quem grampeia telefones, filma escondido e sabe o que querem de nós, através dos registros feitos ao longo de nossas vidas. Um dia desses, assisti ao filme americano “O Inimigo do Estado” e saí do cinema, mesmo descontados os exageros, abismado com a parafernália utilizado para conhecer a vida de um advogado. As informações, a tecnologia e a eletrônica são espiões silenciosos, eficientes e de relativo baixo custo.
Nós não deveremos mais ter a ilusão de que a nossa intimidade nos pertence. Cada ato de consumo seu, seja o simples crediário preenchido inocentemente, uma mera ficha cadastral para receber um cartão de crédito ou uma passagem aérea, vai definindo o seu perfil e lhe colocando nas malas diretas vindas de todos os cantos, oferecendo tudo. Sem que saiba, você passa a ser um registro vendido pelas empresas de mala direta e isto lhe torna, independente de autorização, uma pessoa sem privacidade, mas um “cidadão global”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/1999.

Inédito

SOCIALITE

Muita gente usa a palavra “socialite” sem saber exatamente o seu significado. Aliás, por não saber, a forma incorreta como é usada passa a ter cânone de verdadeira. Diz-se, de um modo geral, ser uma mulher “socialite” quando ela é colunável socialmente. Os(as) colunistas sabem, por viverem paparicados(as), quem seriam as “socialites”, as alpinistas e as “informantes”, integrantes de uma espécie de SNI social, que transformam um trivial almoço com alguns poucos familiares e amigos, uma viagem boba, um fato qualquer, em uma nota de jornal.
O que essas “socialites” ainda não se deram conta é que o perfil da coluna, dita social, mudou. O(a) colunista já sabe disso há anos. Hoje, ela é um misto de política, negócios, eventos culturais e sociais e, como todo mundo gosta, um pouco de mexerico que serve para apimentar.
Algumas pessoas só acreditam em suas festas, casamentos, vitórias empresariais, sucesso acadêmico ou profissional, quando a versão glamourosa é contada no jornal. Não deu no jornal, não aconteceu. Isso vai alimentando “a fogueira das vaidades”, referida por Tom Wolfe em seu romance homônimo lançado no fim da década de 80, usando como pano de fundo os novos ricos de Wall Street, Nova Iorque.
O fenômeno é mundial e não se limita à cidades tidas como provincianas. Cientes desse filão inesgotável, a vaidade humana, surgem revistas tipo “Caras”, a expressão pura e acabada da futilidade e do exibicionismo. De uns tempos para cá começaram a aparecer, na mesma esteira, programas de televisão alimentados pela vaidade encobrindo a insegurança ou pela insegurança geradora da vaidade. Revelam preferências, inaugurações, festas de toda natureza, casas prontas para mostrar, simulam entrevistas deixando patentes a pose e o ridículo; e fazem a alegria e a glória de quem precisa de uma alta exposição para aplacar, em alguns casos, o seu vazio. Além disso, dão ao comum dos leitores ou telespectadores uma pretensa intimidade com “gente muito importante” ou Vip (very important people).
Mas, afinal, o que significa o termo “socialite”? Esse neologismo, “newyorquismo” ou anglicismo foi gerado por jornalistas com a fusão das palavras social e socialista. A revista “Time”, nos anos 60, descobriu existir um tipo de mulher de Nova Iorque aliando à sua condição de frequentadora da sociedade a de “socialista”. Seria, mais ou menos, o equivalente ao conhecido no Brasil como “esquerda festiva”, esquerda de coquetel ou botequim ou, trazendo para os tempos atuais, uma espécie de “Radical Chic” engajada.
Um exemplo desse tipo de “socialite” seria, talvez, como satiriza a intelectual multimídia Susan Sontag, ao criticar as pessoas que vão assistir à peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett: “Esperando Godot é chique, todo mundo acha profundo, porque ninguém entende nada”. Ou como disse Antônio Gramsci: “ O otimismo da barbárie é o pessimismo da inteligência”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/05/1999.

Inédito

A NOVA MÃE

As coisas do mundo mudam muito rápidas. Fui criado no tempo da mãe tempo integral. Os filhos e o marido eram o seu universo. E o restante, orações. Mulheres jovens reuniam os filhos à seis da tarde para “tirar” o terço. Mulheres aguardando o marido para mandar servir o jantar e, se o marido atrasava muito, corriam para o quarto e choravam quietas para os filhos não ouvirem. Mulheres, muitas delas envelhecidas aos 40 anos, se comprazendo em manter os filhos limpos, sadios e estudando. Mulheres “tementes a Deus”, com muitos filhos, empregadas ou irmãs e tias ajudando a cuidar da casa, o marido reinando absoluto. Provedor e ditador.
Hoje, as mães são fruto de uma revolução feita pelas próprias mulheres, sem a ajuda dos homens, nestas últimas décadas, à custa de muito sacrifício, de batalhas públicas e privadas assegurando-lhes uma nova dimensão.
As mães de hoje são outras, enquanto cuidam do filho insone fazem uma tarefa do seu trabalho ou arriscam o olho em um livro ou numa televisão multifacetada abrindo-lhe as portas do mundo, sejam cafonices, pieguices, devaneios ou a informação em tempo real.
Essas novas mulheres são corajosas, fortes, diligentes, mesclam o dever com o prazer e multiplicam seu tempo para ser mãe, trabalhadora, dona de casa, cuidar do corpo e prender o marido. Esse bicho danado e teimoso querendo criar asas, embora seja um mero bípede e, muitas vezes, não sabe nem onde pisa.
A nova mãe não é um estereótipo, é um ser mutante tentando conviver num mundo novo, lado a lado, com um parceiro incapaz de esconder suas fraquezas, pois visíveis. Divide despesas, faz orçamentos, leva filhos a médicos e dentistas, cozinha ou compra congelados, copia modelos de vestidos, aproveita liquidações, estuda e/ou trabalha fora, briga por vaga em escola gratuita ou por mensalidades mais baixas e defende seus pontos de vista nas reuniões de pais (e mães) e mestres, integra uma turma de amigas, possui a liberdade oferecida por um celular e teme o futuro. É um ser estressado como se fora um homem, trabalhando, às vezes, mais que ele e se quer bonita, alegre e saudável.
Ela só deixa de trabalhar nos últimos dias da gravidez, vai para o parto já com uma cinta pronta para recompor a silhueta e 24 horas após está em casa administrando o caos. Decide se vai usar o Diu, ligar as trompas ou pedir ao marido para fazer vasectomia.
Não há um novo homem pronto e acabado para essa nova mulher e mãe. Os homens ainda não se deram conta de sua mãe não servir mais de modelo e os édipos estão sendo sepultados, mesmo à força.
Atônitos, despreparados, procuram em seus pares as explicações sonegadas por suas mentes. Aos poucos, passam a ver sua mulher como alguém exatamente igual a ele e isso lhes amedronta, pois sabem do que são capazes. Se eles são, elas também. Do receio talvez surja o respeito oxigenador dessa relação ainda difusa e confusa tendente a se alicerçar na independência mútua e, paradoxalmente, venha a ser o elo faltante dessa nova convivência.
A essa nova mãe, fruto de todos os acontecimentos deste final de século, nos cabe homenagear como alguém emergente do meio de tantos desencontros entre pessoas ainda não aptas a trilhar o caminho dessa estrada libertária e amedrontadora, por ser desconhecida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/1999.

Inédito

LISBOA E BARCELONA

Estou voltando de Barcelona. Foi o cansaço quem me mandou viajar. A corda estava esticada demais e resolvi dar uma paradinha de uns dias. Nada mais que isso. Direto, rápido e revigorante.
Primeiro foi Lisboa. Tenho uma relação muito amistosa com Lisboa. A primeira vez que vim ainda era tempo de Salazar, o velho ditador. Apaixonei-me pelo jeito meio pachorrento da Lisboa da década de 60. Os bondes, o fado, a velha Alfama, as ruas estreitas, a estufa fria, o Museu dos Coches, a Universidade de Lisboa, a Fundação Gulbekian, o Mosteiro dos Jerônimos, a praça Marquês de Pombal, onde, por uma dessas coincidências da vida encontrei agora dando autógrafos, como um autor comum, na Feira do Livro de Lisboa, José Saramago. Revi o Bairro Alto e o Rio Tejo de tantos versos e muita prosa. Comi a boa comida portuguesa que parece sempre, ter sido feita por uma velha tia gorda. Foi em Lisboa que conheci Victor Manuel Ribeiro, um português gentil que nos serviu de cicerone e veio dar com os costados aí no Brasil e passou a trabalhar comigo até a sua morte.
Hoje, Lisboa e Portugal, por extensão, tentam se ajustar às regras da Comunidade Europeia. Correm contra o atraso que os indicadores sociais demonstravam. Portugal é um país em transformação, uma viva ebulição, tentando promover o turismo, criar novas indústrias e serviços para os patrícios que saíam para empregos subalternos na França, Inglaterra e Alemanha e mandavam cheques mensais para suas recatadas mulheres, semi-analfabetas com suas roupas pudicas a cuidar dos miúdos.
Durante o período obscuro da ditadura de Franco, especialmente na Guerra Civil Espanhola, Barcelona, como catalã, se constituiu o núcleo central da resistência. Hoje é uma cidade onde os turistas se misturam aos nativos apressados no exercício de suas atividades, especialmente na metalurgia de transformação, na química fina e no imenso parque gráfico. Falar apenas na Costa do Sol e na Costa Brava como rotas turísticas que tem Barcelona como centro irradiador é ser simplista. Barcelona é muito mais do que se pode dizer em uma mera visita aos seus diversos museus, onde se destacam Miró e Picasso, a avenida La Rambla, o charmoso bairro Barceloneta, a Vila Olímpica, suas belíssimas igrejas, destacando-se a da Sagrada Família com a irreverência artística de Gaudí. O novo complexo turístico de Maremagnum com os seus restaurantes, bares e o passeio marítimo, é uma espécie de avenida à beira mar, frente ao mar Mediterrâneo.
Nesta primavera europeia, no meio de pessoas de uma língua assemelhada à nossa, embora martelado pelas ligações internacionais que teimam em reavivar os problemas e a cobrar minha volta, eu tento, em meio a “tapas” e “paellas”, recarregar minhas baterias jogando conversa fora, por exemplo, com uma tradutora americana, um editor espanhol de origem basca, um empresário brasileiro e um mestrando de comércio exterior.
Tudo isso com o bom propósito de reoxigenar-me e tentar assimilar as diatribes do nosso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão pobre. É bom vir, mesmo com limitação de tempo. Melhor mesmo é voltar, pois em nossa terra é que tudo faz sentido, mesmo quando não há explicação lógica. O Brasil é como aquela pessoa a quem amamos muito, apesar de conhecer seus defeitos. Bendito Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/05/1999.

Inédito

KOSOVO E DENVER

Um leitor pede-me para escrever sobre Kosovo. Não sei nada sobre guerras. O que aprendi no curso de oficiais da reserva, já esqueci. Mesmo que ainda lembrasse, de nada serviria na análise dessa idiotia que levou quase 20 países a se reunirem, sob o manto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), para atacar a Iugoslávia com mísseis e bombas, com o pretexto de serem delegados de uma Europa civilizada e democrática, atuarem contra o inimigo ditador e perverso.
Na ótica do Presidente americano, Bill Clinton, “nossa aliança quer por fim à crise, ao sofrimento dos kosovares, às provações suportadas por uma população sérvia forçada a se envolver numa luta por um líder cínico que despreza seu bem-estar, que esconde dela a verdade sobre o que está acontecendo em Kosovo”. E arremata: “A tragédia de Kosovo deve e precisa incentivar os esforços dos países da Otan, que deverão prolongar-se por algum tempo, para dar suporte ao aprofundamento da democracia e tolerância e à integração étnica e religiosa entre as nações do sudeste europeu”.
Por outro lado, o Presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, não tem o direito de promover matanças e discriminações em nome de uma pureza étnica. É outro idiota. As atrocidades por ele cometidas devem ter o repúdio da comunidade internacional, mas isso não dá o direito a ninguém de fomentar uma nova guerra sob o pretexto de uma intervenção humanística.
Serão os americanos que choram o deplorável e brutal atentado à uma escola em Denver os mesmos que aplaudem a insensatez dos mísseis? Será que os mortos americanos são mais mortos que os mortos da Iugoslávia, sejam sérvios ou kosovares?
A leitura verdadeira de uma guerra, como a que está sendo travada, passa pelo poderoso “lobby” da indústria armamentista, apátrida e sem escrúpulos, pela necessidade de demonstração de poderio militar e de vigilância continental que a OTAN faz na Europa, sob os olhares submissos da Organização das Nações Unidas.
Enquanto isso, na África, milhares de angolanos morrem há anos em luta fratricida e ninguém se interessa ou faz nada. Será que a ONU é cega ou não vê a guerra civil em Angola por que os combatentes são negros e pobres? Igualmente, lá na Ásia, exatamente no Laos, na planície de Jars, se desenvolve outra guerra interna com outros milhares de vítimas. Ora, no Laos eles são asiáticos e pobres, parece dizer a indiferente ONU.
Não há lógica nessa aberração de Kosovo, a chamada “Albright’s War”, como referência à Secretária de Estado americano, Madeleine Albright, e nenhum político, militar ou comentarista de jornal ou televisão consegue dourar a pílula dessa guerra tecnológica, que se dizia asséptica e instantânea.
Noam Chomsky, ativista político americano, é um dos críticos da guerra de Kosovo. Segundo ele, “existe um regime de lei internacional e ordem internacional ao qual todos têm a obrigação de se sujeitar, baseado na Carta e nas resoluções subsequentes da ONU e nas decisões da Corte Internacional de Justiça… Se você não consegue imaginar nenhum meio de obedecer àquele princípio elementar, então não faça nada. Sempre haverá meios que poderão ser considerados. A diplomacia e as negociações nunca serão esgotadas”.
Quem achar que sabe quando e como vai acabar esse conflito pode estar fazendo um arriscado exercício de futurologia. A insensatez dos homens armados e empoleirados em seus aviões e helicópteros é comandada por homens engravatados que sempre afirmam estar lutando pela paz. Quem acreditar nessa história merece um prêmio: uma passagem de ida para Kosovo, com opcionais para Angola e Laos, com tudo pago, até a mortalha.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/05/1999.