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VOLTA NO PASSADO – Diário do Nordeste

Um domingo desses fui dar uma volta de carro e me encontrei no passado, repassando os locais em que vivi quando menino. Aprendi a não jogar bola na Rua Major Facundo, ali perto da antiga Associação Cultural Franco-Brasileira, chegando na Praça do Carmo. Eram poucos passos para as aulas no Colégio Farias Brito, na Duque de Caxias, alguns mais para o Instituto Brasil Estados Unidos na Rua Solon Pinheiro. Lá, no mesmo quarteirão, olhando para a Cidade da Criança, existiam a Biblioteca Pública e o Conservatório Henrique Jorge, importantes para a minha formação complementar. No Ibeu, aprendi o pouco de inglês que me salva por aí, na Biblioteca foi onde ficava a ler jornais, pedir livros emprestados e, no seu subsolo, encadernar os meus diários que foram deslembrando o tempo real. Na escola de música, eu, ouças cegas, ficava prestando atenção aos músicos e tentava ir aprimorando-as, o que não consegui.
Depois moramos rapidamente na Visconde do Rio Branco, mas assentamos de verdade no Bairro de Fátima então começando a ser habitado, a partir da Igreja que abre as portas centrais para a Mons. Otávio de Castro, a rua da minha juventude. A casa que meu pai fizera era “funcional”, algo moderno, tal como no filme “Meu Tio” do Jacques Tati. Nela a varanda era coberta de concreto, a garagem fechava tipo alçapão, acionada por caixa de cimento que levantava e baixava o portão por um cabo de aço. Foi lá que reuni jovens e formei o Girafa, o pomposo Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Ocupamos um terreno e formamos times de vôlei. Havia festas mis, permutávamos livros e fazíamos a queima do Judas, não sem antes realizar debate sobre sua culpa ou sina. Era tempo em que jovens das famílias Rosa, Furtado, Carneiro Girão, Machado, Pinheiro, Holanda, além da nossa, não pensavam em drogas, sem ser caretas, mas namoravam em meio a santos amassos. Já trabalhando, resolvi fazer um quarto só para mim no quintal de casa e comprar telefone e um ar-condicionado usado. Parecia a chave da liberdade, mais importante que o pão, já dizia Nelson Rodrigues.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/05/2007.

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VISÃO TURVA – Jornal O Estado

Neste quase fim de maio, entre sóis e chuvas, alguém, certamente, sente a visão turva e pergunta as razões. Tantas, talvez. Todos, com poucos ou muitos lustros vividos, caminhos vários, expectativas reconstruídas ou não, vão sendo remexidos, por razões diversas, lá onde mora o sentimento profundo, naquele lugar onde não há máscaras, só nós temos a chave e não cabe vaidade. E tudo, pasme, por conta das contas, afetivas ou não, de quem faz do diz-que-diz o combustível que move a sua ótica e não sabe ver claro.
Lentes ou visões turvas merecem ser limpas, alvejadas com sabão, mas sabão não limpa grilo, maledicência, nem engrandece espíritos pequenos, não aplaca as diatribes que se constroem quando alguém imagina que o outro vive um mar de rosas ou de prazer. É imperiosa uma procela para denegrir, separar, açular e até invocar amor que impeça, em nome da honra e dos modos, que ‘erros’ sejam cometidos, a moral e os bons costumes fiquem revestidos com o manto da hipocrisia que leva muitos de roldão nas vagas da incoerência, aquela que não traz ninguém à praia da razão.
E a praia da razão está deserta até das poucas e cansadas almas que se animavam a deambular por entre areias molhadas com os salpicos dos perdigotos dos que se imaginam sérios, sensatos, falantes, mantenedores e dirigentes de espetáculos circenses de amor ou afabilidade doentia, porque despidos de propósitos coerentes, mas prenhes do direito de amordaçar e tolher o outro, o que sabem ser impossível, pela natureza de quem conhece.
E na praia da razão o plenilúnio se esvai e a névoa desce por saber da tristeza dos que estão ainda com os pés feridos das ostras pisadas, perderam seus astrolábios, não sabem manusear bússolas e olham por entre a bruma e não acreditam que perto dali, passos à frente, há braços abertos que não se veem e nem se unem na clareira. E não se unem não só pela visão turva, mas pelo plenilúnio caído, pela névoa, pés feridos, perda de astrolábios e porque não sabem estender braços no escuro e não ousam desobedecer a preconceitos, mudar atitudes, desfazer amarras e se prostram na amargura da saudade, usando o disfarce da alegria como arte na vida.
(Esta crônica é para Lucy, de Fortaleza)

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/05/2007.

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PIANO E MÚSICA – Diário do Nordeste

Sábado desses, meio sem fazer nada, fui ter a um restaurante. Pequeno, sem badalações, comida e bebida honestas, toalhas engomadas, espaços internos divididos, garçons simpáticos e um piano, fechado. Imaginei-o tocando, com um desses pianistas que já rodou a cidade inteira e que estaria ali mais pela sobrevivência que pela arte. Acontece que o piano ficava do meu lado e só depois que me sentei é que o pianista chegou: começou tocando blues. Tinha a idade dos maduros, a cor do cansaço das noites e o gesto delicado de quem sabe mais que arrumar as sete notas. Era um artista, cansado que fosse.
Como disse, ele não estava ali por arte, mas a arte estava nele, mesmo que a mera sobrevivência o tivesse levado até ali. Pedi para tocar dez músicas, entre elas: Smile, Se a gente grande soubesse, The shadow of your smile, Águas de março, Unforgettable, Besame mucho, Samba do avião e Rapsódia em Blue´. Sabia tocar todas e o fez de forma dorida, harmoniosa e talvez com ouvidos e olhos esperando a minha reação.
E entre uma música e outra me vi mexendo em sentimentos, lembrando por que e quem me lembrava cada uma dessas canções e qual a razão, se é que música precisa de razão de eu misturar compositores como: Charles Chaplin, Billy Blanco, Johnny Mandel, Tom Jobim, Consuelo Velásquez e Ira e George Gershwin, diferentes em suas naturezas, escolas, países de origem, mas atrelados pela capacidade de criar enlevo, dizer de amores, ajustar harmonia e melodia ao ouvido de um confesso leigo como eu. E me vi tomando vinho, não como enólogo, mas um tão simples quanto o momento, safra mediana, vermelho como o sangue que me corre nas veias, não tão frio que mudasse as minhas analfabetas papilas gustativas, mas que ia sorvendo, gole a gole, sem entorpecer sentidos, aguçando a memória, esse auto gravador a nos acompanhar que, vez por outra, desembucha sem pedir licença. E ao final das músicas, absorto estava em meu pensar vário e o quis trazer à realidade, mas ele teimava em ser etéreo, misturar épocas, pessoas e emoções, e não vi que o vinho acabara. Smile, sempre.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/05/2007.

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A DESCOBERTA DO NÁUTICO – Jornal O Estado

Houve um tempo em que Fortaleza não sabia que tinha praias. Dava as costas para a costa. Foram os clubes, especialmente o Náutico, que desvendaram o mar e viram o futuro da cidade. As famílias tinham casinhas de “veraneio” onde hoje é a Av. Beira Mar, então uma ruela estreita de pedra tosca. A minha família tinha uma dessas. Ficava do lado do mar, na altura da Rua Tibúrcio Cavalcante. Passávamos parte das férias por lá. Foi nesse tempo, final dos anos 50, que descobri o Náutico.
Seu nome lembra quem faz ciência e arte na navegação sobre a água ou o marujo que lê as cartas marinhas e descobre o rumo certo de sua navegação. Os fundadores e gestores do Náutico nestes seus 78 anos de vida foram e são marujos avançados no tempo que construíram um clube em meio às procelas da indiferença, e o fizeram em local estratégico, com solidez, formas arquitetônicas diferenciadas, quadras de esportes, piscinas e um salão de baile que, reunidos, falam do descortino e arrojo de seus dirigentes em uma cidade que tinha, quando o descobri, apenas 370 mil habitantes, 10.000 linhas telefônicas, ainda sem a televisão, embora com mais jornais (Unitário, Correio do Ceará, O Estado, O Democrata, O Nordeste e O Povo) que hoje. Possuía 500 ônibus, pouco mais de 3.000 veículos em circulação, o Cine São Luiz estava em construção, a Universidade Federal apenas engatinhava, mas o Náutico já era referência e aprumo. Eu me orgulhava de ser sócio juvenil com o número 3.996, se não estou enganado.
A partir daí, por um tempo razoável, frequentei suas tertúlias e matinais, reuniões dançantes alegres, benfazejas e despojadas. Lembro que, já universitário, fui “requisitado”, junto com outros amigos, para “fazer sala” a um grupo de ricas moças paulistas que excursionavam de navio e ali iriam a uma tertúlia. Reza a lenda que Antenor Barros Leal Filho, colega de faculdade, teria sido perguntado: o que faz você? E ele teria dito: sou estudante de direito, tenho um fusca 58 ‘guaribado’ para 62 e um salão de barbearia no centro. Brincadeira, certamente.
Nos anos 60 fiz parte de uma roda que se reunia no restaurante do clube, então comandado prodigamente pelo libanês Kury, da qual, entre outros, eram integrantes: Danilo Marques, Lúcio Brasileiro, Lustosa da Costa e Fernando Távora. Conversávamos sobre tudo e sobre nada. Gastávamos o tempo franco da mocidade, pois a idade é uma questão de conhecimento mais do que de anos, como dizia W. Somerset Maugham. Eu era o mais novo, ainda solteiro, e aí mais uma vez o NAC, de forma indireta, passou pela minha vida. Conheci Ângela, então eleita Miss Náutico, dançamos o Carnaval da Saudade de 1969 e depois casamos, sendo o casal Ary (Zélia) Araripe, um dos padrinhos. Mas isto é outra história.
A propósito de história, desde 1966, anualmente, no dia 16 de dezembro, nós, os formados em direito pela UFC em 1966, somos intimados pelo Stênio C. Lima e almoçamos nos salões do Náutico, ouvindo música, discursos, o imenso poema de Castro Alves, “Navio Negreiro”, pelo Orlando Rebouças, e exercitando a benquerença que o tempo não consegue corroer.
Hoje, neste 2007, vejo a ação vigorosa de Guedes Neto para segurar o timão e manter, com binóculo no futuro, acesa a tocha que foi carregada por tantos e o faz com competência e dedicação, apesar do olhar indiferente do poder público que só vê os clubes como meros contribuintes, não colabora e tampouco entende que eles são também centros de convivência, formadores de esportistas e aglutinadores de uma sociedade que cresce, mas fica encurralada nas ruas pela violência. O Náutico e seus dirigentes são combatentes, não apenas em batalhas de confete e serpentina, mas na luta pela manutenção de um patrimônio cívico de Fortaleza, agora historiado em livro pelo jornalista Rodolfo Spínola.
(Rodolfo, se precisar: João Soares Neto é da Academia Fortalezense de Letras, Associação Brasileira de Bibliófilos e cronista semanal dos jornais Diário do Nordeste, O Estado e Carta Maior.).

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/05/2007.

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QUE MÃE? – Diário do Nordeste

Procuro, de memória, definir um padrão de mãe ideal. O que seria, afinal de contas, mãe ideal? Descubro, de pronto, que escrevi um absurdo. Ideal, por si, pressupõe imaginação e utopia. Não é real, é imaginário. Não é essa a mãe que tento definir. O que talvez tenha querido dizer seja mãe completa. Mais uma vez, vejo que a palavra completa pressupõe alguém a quem não falta nada do que pode ou deve ter. Qual mãe teria essa completude? Nenhuma, é certo. Penso então em mãe fiel, mas acho que fica meio piegas, pois significa que é digna de fé. Por outro lado, é também quem cumpre o que promete. Mas, as mães não prometem, pois a curta ou longa vida vive-se no dia a dia, na lida. Elas não prometem, vão fazendo. Desisto então, de mãe fiel e imagino que mãe porreta seja mais moderno, justo para a moçada, mas descubro que há filhos nascidos nos tempos em que chamar uma mãe de porreta seria, para eles e para ela, no mínimo, uma grosseria.
E aí fico meio embatucado. Afinal, que adjetivo seria adequado para qualificar a palavra mãe? Lembro de mãe legal, mas me dá a ideia de mãe que segue leis, costumes, serve não. E já estou mais do meio da escrita e não encontro uma palavra, que resuma o que todos nós, filhos da mãe, pensamos dela. Volto a olhar a frase anterior e vejo filhos da mãe. É no bom sentido, claro, mas se entende ‘filhos da mãe’ como uma ofensa. Desculpe. E o que estou querendo é saudar, deixar claro o meu bem querer às mães que fui encontrando ao longo da vida, à minha mãe, bonita e lúcida. Às avós, às tias. À mãe de minhas filhas. Às filhas que se tornaram mães, às mulheres-mães que compartilham o trabalho comigo há anos. Às irmãs, sobrinhas, amigas, amadas, a quem tento homenagear, mas ainda não consegui a palavra adequada, definitiva, resolutiva e justa. Fecho os olhos, penso em D.Margarida, na perceptibilidade de seus 88 anos, cheia de sabedoria em seu jeito simples de conduzir a vida com todas as incertezas e ouço a resposta que daria sem pestanejar: “Mãe é mãe”. Fica assim.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/05/2007.

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BRASIL BENTO – Diário do Nordeste

O Papa Bento XVI, o erudito Joseph Ratzinger, chega quarta ao Brasil. Já conseguiu retocar a Basílica de Aparecida, santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro e conversará com bispos latinos. A propósito: por que tanto santo europeu, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Talvez sigam Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Por que, há 507 anos os brasileiros sofrem, fazem milagres para sobreviver, vivem sob governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso, cultivam e professam a fé católica e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo.
Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelo Vaticano. Mexendo em meus livros, descubro o Sacrosanctum Concililium, 32: “… não se fará acepção(distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica… não estais fazendo distinções em vosso coração?” Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso? Será que nós somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas?
A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno Vaticano, em palácios, que a Igreja toma decisões com burocracia indiferente. Não valem o esforço e a fé de padre vivendo a Amazônia ou dando apoio a desvalidos dos sertões. É preciso milagre, algo sobrenatural. O milagre pode ser também lutar, não ceder a poderosos e ter vida santa, qualificadas por ações. Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Precisamos de mensagens novas e pouco discurso.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2007.

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VIOLÊNCIA URBANA – Diário do Nordeste

Qualquer pessoa com um mínimo de sentimento de mundo ou responsabilidade social, como se diz agora, fica apavorada com a sucessão de atos de violência urbana e se pergunta por qual razão as polícias, civil e militar, não têm capacidade de coibir ou resolver as demandas que, todos os dias, entulham as delegacias, são exploradas em programas policiais de televisão em reportagens sensacionalistas, com presos, vítimas e familiares. Esses programas são reprisados e servem, dizem, até como fonte de referência entre a marginalidade para estabelecer uma gradação de periculosidade e prestígio.
Procurei, com atenção, conversar com autoridade no assunto. Fiquei estarrecido em saber que são reservados como custeio, anualmente, apenas R$ 3,00 (três reais, repito), para a proteção de cada cidadão. Temos somente cerca de 170 delegados na ativa e o último concurso foi realizado em 1999.A polícia, pasmem, tem apenas 67 viaturas nas ruas, com restrição de combustível e não há um sistema “on line” de localização geográfica de chamadas feitas por delinquentes. Não existe um Código de Ética que defina parâmetros para a ação de policiais que têm a idade média de 34 anos, o que demonstra a necessidade de novos concursos públicos. Há, no interior, 139 municípios sem delegado e os 13 mil soldados da Polícia não têm equipamentos de qualidade, motivação e incentivos para a dura luta contra o crime.
Por outro lado, repórteres policiais relatam que há cerca de dez presos que comandam, de suas celas, parte da atividade criminosa. Como esses presos não são isolados e usam, livremente, telefones celulares, aproveitam centenas de marginais e menores espalhados com áreas de atuação diferenciadas. É provável que os clamores nacional e local, somados às ações novas anunciadas que serão desencadeadas pelo governo estadual, a partir de maio, possam começar a fazer diferença. O que a sociedade, pacífica e apavorada, precisa é de uma gestão policial contemporânea, inteligente, integrada, consequente e eficaz com baixo nível de tolerância. Chega de insegurança e medo coletivo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2007.

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DESTINOS DIFERENTES? – Jornal O Estado

Mesa de bar, anos 70, governo militar, cerveja. Três jovens, formados, discutem seus destinos. Um conseguira, por concurso, ser funcionário de banco estatal com quinze salários/ano, benefícios e segurança para o futuro. O outro, resolvera ser profissional liberal, fizera cursos, alugara sala, avisara amigos e parentes, colocara anúncios em jornal e começara a lida. O terceiro não decidira o que fazer, queria ser livre. Não aceitava ser funcionário e nem esperar clientes. Só via uma solução: viver por conta própria, criar algo. Virou, quase sem querer, empresário.
2007, o Brasil continua a ser promessa, faz zoada, mas representa apenas 2% da economia mundial. Tem focos profundos de desigualdade, cidades estão permeadas de violência e todos, ricos e pobres, sabem que não vivem no país que sonharam. TVs, rádios e jornais falam de crimes, sequestros, dão espaços e voz a marginais, corrupção, mas há fé e esperança.
Os três amigos voltam a um bar. Já não tomam cerveja. Pedem Campari, suco e água com gás. Um tem diabetes, outro porta insuficiência coronariana e o terceiro reclama das articulações. Dão um balanço nas suas vidas. O funcionário perdeu “status”, os salários reduziram-se a 13, não muda de carro há anos, aposentou-se, mas continua trabalhando, apesar do diabetes forte. O profissional liberal, por conta das coronárias, teve que parar tudo, apenas caminha cedo. É viúvo, vê pouco os filhos e netos e dá graças a Deus por possuir um lugar onde morar e a parca aposentadoria do INSS. O empresário ainda não pode se aposentar. Divorciado, continua na luta. Relembra, didático, a hiperinflação, impostos insuportáveis, juros altos, desvalorização cambial, cinco moedas, 07 planos econômicos, concorrentes draconianos e até parceiros desonestos.
De repente, dez da noite, “em face de todo o exposto”, soltam gargalhadas, abraçam-se, consideram-se sobreviventes e saem, sem olhar para dois “pivetes” de armas em punho, nervosos e com voz alta de urgência, pois estão na rua, pedem celulares, relógios e carteiras. Correm, um celular cai e toca. “Alô, ainda estamos vivos.” Há esperança.
(esta crônica é dedicada aos policiais do Ceará)

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/04/2007.

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FICAR NU – Diário do Nordeste

Escrever é ficar nu. É mostrar-se todo aos outros. É deixar que façam sobre você todo tipo de leitura, a partir dos valores de quem lê, história de vida, crenças, fantasias e projeções. Escrever é atirar em alvo desconhecido. A flecha toca o alvo que o leitor conduz no seu real, imaginário ou no terra-a-terra da sua ótica. Quando se critica, elogia, brinca, elucida, emite opinião sobre pessoa, coisa ou lugar, é claro que nos expomos. O ato de escrever é uma eterna exposição, se é julgado sem direito à defesa, criticado até sem dó ou piedade, pois o leitor é um desconhecido. Dizem que escrever é um ato de coragem. Prefiro dizer que é medo. Medo de silenciar quanto a fatos, pessoas e atos. É medo de ser cúmplice com o silêncio, indiferença, calúnia, violência, enganadores, líderes de araque e o descalabro.
Escrever não é vaidade. Ao contrário. É aceitar que lhe grifem erros, riam de suas ideias e calem, quase sempre, quando imaginam que você está certo. A palavra posta no papel não mais lhe pertence e o contexto em que se insere, muitas vezes, é diferente do que você queria e o leitor imaginava. Saiu e pronto. Não sou muito de revisar o que escrevo. Se fizer isso, acabo alterando o sentido, mascarando ou destruindo o que brotou da imaginação, vivência, circunstância, momento e ambiente.
Escrever, para mim, é relação complexa e solitária. A escrita é filha que se transforma – ou não – em amiga, amante e até cúmplice, pelo calor que transmite alegria, desabafo ou desejo de compartilhar o produto de sua criação. Escrever em jornal é, também, não policiar-se. É exercer o direito de ser livre, mesmo que essa liberdade efêmera se esvaia no ponto final. Escrever não é amontoar palavras difíceis, metáforas circundantes, personagens repetidos e conjugar verbos de forma pomposa e solene. É deixar que o pensamento se corporifique em frases simples e diretas. Foi E. Hemingway quem disse: “Um escritor sério não deve ser confundido com um escritor solene: o sério pode ser uma águia, um gavião, até mesmo um papagaio, mas o solene é sempre uma coruja”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/04/2007.

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PORTFÓLIO DA SAUDADE – Jornal O Estado

O obsessivo Nelson Rodrigues dizia que “o amigo é um momento de eternidade”. Especialmente, digo eu, se já não compartilhamos de sua presença. Tenho saudades de amigos que não estão mais aqui. O primeiro foi Francisco Jesus Parente de Vasconcelos, na flora da juventude, cabeça voltada para o direito e no silêncio de seu apartamento. Marcelo Duque, companheiro de colégio, sempre pensando diferente de mim, mas com quem mantinha papos intermináveis no Ideal, teve abreviada sua estada por sintonizar diferente do alfa e ômega da maioria.
E a bruxa aérea foi cruel com Edson Queiroz, a quem admirava e ouvia falar da vida e negócios com sua energia, voz forte e pensamento instigante. E ela mesma, a dita bruxa, não a aérea, mas travestida em mal incurável, havia levado, pouco tempo antes, Astrolábio Queiroz, no apogeu de seu trabalho. Raul Fontenele, amigo desde menino, filho órfão que se fez varão trabalhador e capaz desde cedo e educou família exemplar, não suportou a partida da amada e, mesmo tentando, sucumbiu de mal aparentemente igual.
E a alegria irreverente que se via no gestual forte, crítica contundente e na inteligência atilada de Alcimor Rocha foi silenciada pelo ar que se fez rarefeito. E aí Tancredo Carvalho, alegria e ponto convergente de um grupo de doidinhos, se deu mal com sentimentos, calou-se, somatizou, o corpo padeceu e finou-se.
E o pior é que sempre estamos todos despreparados para esses baques nos desnudando dos atavios de amizades sedimentadas por anos. E esses baques sucessivos, próprios do ser e do fenecer, foram amarrotando pensares, sem saber nunca de onde parte a nefanda. E aí Régis Jucá, sempre lúcido, líder e de lavra médica inquestionável foi, pouco a pouco, mesmo relutante, avisando da partida deixando amigos, pacientes e familiares desarvorados.
E não há nada que apague a lembrança forte, diária e sutil de Natércia Campos, amiga da madureza, pouco a pouco, assenhoreando-se de mim, preenchendo-me de cuidados e zelos ainda ecoando no meu escafandro pessoal onde não permito impurezas do mundo contaminando sentimentos. E foram-se outros, não menores por não serem citados, mas os nomeados são o portfólio da saudade ou lembrança, formando um vazio onde nem a irreverência contínua consegue preencher, por mais que se tente fazer de conta que a dor não conta.
(esta crônica é dedicada à Turma dos Sábados, Edite Carvalho e Bia Jucá)

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/04/2007.