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CIDADES SITIADAS – Diário do Nordeste

Em qualquer cidade brasileira de médio ou grande porte, você que guia um veículo de uso pessoal terá, ao longo do dia, além dos problemas de vias de péssimas qualidades, engarrafamentos, batidas, manifestações, alagamentos e desvios, “pardais” escondidos ou olhares eletrônicos disfarçados que o multam, se transgredir regra de trânsito, e ‘blitze’ que podem ser reais ou falsas. Isso é apenas o começo. Além disso, você terá que conviver também com falsos ou reais “flanelinhas” que azucrinam a sua vida em todos os semáforos. Querem dinheiro, vender quinquilharias, lavar o para-brisa, mesmo que esteja limpo e, não muito raro, assaltam. Quando você, depois de todo o esforço, consegue chegar ao seu destino e estacionar, a novela continua. Agora, entram em ação os “guardadores de espaço”. Os que se apropriam de ruas, avenidas e praças e cobram, uns de forma acintosa, para que você estacione em áreas públicas que bloqueiam com cones e outros objetos. Esses espaços públicos são divididos em zonas. Cada uma tem seu “dono”, pastores pós-modernos de um rebanho de incautos.
Sabemos que há muitos problemas sociais a resolver. Que há desemprego e que a desigualdade também é fruto da nossa indiferença e erro. Mas você, certamente, tenta fazer a sua parte, do melhor jeito que pode. Paga tributos, taxas e até participa de ações sociais. Mas ai de você, se não pagar a um “guardador”. Seu carro será arranhado, na melhor circunstância. Afora isso, nessas mesmas zonas, assaltos acontecem. Há pouco tempo, um casal, que ia participar de uma manifestação justo contra a violência, estacionou o seu carro, foi assaltado. Ainda hoje, o cidadão assaltado sofre as duras consequências físicas desse inopinado encontro. Viver em uma cidade sitiada é prova de que os governos não estão cumprindo com as suas obrigações e missões básicas. O que é propagado não é cumprido e todos se acovardam. A palavra cidade, vem do latim civitate, ela é ‘prima’ da cidadania que é a qualidade de ser cidadão, indivíduo no gozo de seus direitos. Direito de morrer ou sobreviver?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2007.

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O PRIMEIRO SANTO – Jornal O Estado

Menos de um mês antes de chegar ao Brasil do Papa Bento XVI, o erudito alemão Joseph Ratzinger, precedido de conversações, séquito, aparato e elevadíssimas despesas para construir helipontos, recuperar estradas, estabelecer esquemas de segurança, aposentos especiais e mimosear a Basílica de Aparecida para santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro, fico pensando por qual razão há tanto santo europeu, especialmente italianos, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Dizem que há mais de 10.000 santos na Igreja, ninguém sabe ao certo, mas nenhum é brasileiro, até agora. Talvez no nosso caso, sigam o que está escrito em Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Ora, há 507 anos que os brasileiros sofrem, são resignados, fazem milagres para sobreviver, vivem sob o tacão de governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso celeste, cultivam e professam a fé católica em percentual de mais de 84% e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo.
Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros católicos, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelos cânones do Vaticano.
Mexendo em meus livros, descubro que na constituição do Sacrosanctum Concililium, 32, diz: “… não se fará acepção (distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, não brasileiro certamente, São Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção (distinção) de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica… não estais fazendo distinções em vosso coração”?
Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso?
Será que nós do Novo Mundo e dos países colonizados na adusta África, somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade transmitida, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas? Por que, por exemplo, Nelson Mandela não pode ser canonizado, se viveu preso parte de sua vida, praticou o bem por onde pisou, pugnou pela não-violência e conseguiu, do seu jeito harmonioso, acabar, em parte, com a apartação social gritante da África do Sul? É pressuposto ser católico?
A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno e rico Estado do Vaticano, dentro de palácios, que a Igreja toma suas decisões com uma burocracia pesada e indiferente, fazendo acepção. Não valem o esforço e a fé de um missionário percorrendo a região amazônica em séculos passados. Não valem o enfrentamento e o destemor de dar proteção aos desvalidos no interior do nordeste. É preciso fazer milagre, algo sobrenatural. O milagre, hoje e sempre, pode ser também lutar pelo que se julga direito, não ceder a poderosos e admitir a nossa falibilidade, nossa dimensão humana, comportando erros e arrependimentos, desde que as palavras se qualifiquem por ações.
Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Carece o Brasil, portanto, de ter mais santos no Céu para interceder em nosso favor. Que Frei Galvão seja o primeiro de uma série. Precisamos recuperar os santos perdidos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/04/2007.

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AMOR INCESTUOSO – Diário do Nordeste

Sou filho de Fortaleza e a amo de forma incestuosa. Por ser filho e amante apaixonado, seria demais pedir isenção na proposta de análises sociológica, econômica, política ou urbanística. Onde já se viu filho andar falando de mãe…
Além de mãe, parteira e berço. Infância e escola. Juventude comprometida com sonhos, o cedo amadurecer e o tentar ser gente. Não vou dizer dos seus defeitos e virtudes. Herdei-os, como os outros filhos que ela mãe prolífera tem. A todos, pobres e ricos, que bebem e sentem a energia vinda de sua luz, sol, mar, ela mostra o seio farto que se espraia da Barra do Ceará ao Mucuripe onde o corpo que deita meio preguiçoso.
Não digam que esta é uma visão apologética de Fortaleza. É como a vejo e a sinto na pele e nos sentidos. E por falar em sentidos, não posso e não devo esquecer do seu rico imaginário coletivo onde despontao poeta Paula Ney com a sua “loura desposada do sol”, hospitaleira e compadrio entre as pessoas.
Embora pretensamente moderna e, com as desvantagens dessa condição, ainda assim não lhe quebraram, nos subúrbios, os hábitos das cadeiras, fofocas na vizinhança, bares com papos e cantorias, solidariedade nas doenças, missas de sétimo dia repletas de gente, apenas para cumprimento de obrigação social.
Não importa que o imaginário venha cedendo lugar a uma realidade cruel com desigualdades sociais, áreas de risco, turismo predatório e vexatório, ausência de perspectivas individuais para muitos com a quase morte do sonho. Mas, acreditemos, pois se morreu, não era sonho. Esta é, definitivamente, uma crônica repetida, afetiva, comporta erros, omissões e contradições, pois assim é a vida das pessoas que fazem e amam Fortaleza.
Os forasteiros que chegam para ficar assumem a sua juventude e liberdade, embevecem-se com a luz que dela irradia e contagia favorecendo mudanças, sedimentações e aventuras. E como num amalgamado “baião-de-dois” formam a teia da mútua boa vontade e do sincero entendimento. Fortaleza, paradoxalmente, é uma jovem mulher de apenas 281 anos, a contar do dia 13. Parabéns, um cheiro.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/04/2007.

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EUROPA, 2007 – Jornal O Estado

Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irmã alemã. Quis o destino que Luiza Helena, socióloga, conhecesse Wini, médico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer residência médica, casou e levou minha irmã e nos deu duas sobrinhas, Júlia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andanças pela Europa que começaram em 1965, ainda frangote. São 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por lá. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco (1975) e a queda do muro de Berlim (1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por lá por esses tempos tão conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da “Revolução dos Cravos”, da euforia dos espanhóis pós-Franco e de quão atônito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as mãos, gritavam e cantavam.
Agora, neste ano de 2007, exatos no mês passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que é hoje a União Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princípios fundamentais a democracia representativa, coíbe a pena de morte, não aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por gênero, etnia, religião ou orientação. Todos os seus 494 milhões de habitantes são livres para circular e trabalhar, como cidadãos supranacionais, nos 27 países da comunidade, hoje tão rica quanto os Estados Unidos.
Essa idéia engenhosa e trabalhosa, que não tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que reúne Estados Unidos, Canadá e México, está longe de ser referência em igualdade de direitos e oportunidades para os cidadãos desses três países norte-americanos. Aqui na nossa América, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que têm a língua de Cervantes como meio de expressão e o arquétipo de Simon Bolívar, como herói continental.
Como seria bom que tivéssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual à França. Como exultaríamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substituído pelo quase igualitário modelo de Estado de bem-estar social, em que todos são, além de outros benefícios, atendidos e providos assistência e de remédios, sem distinção. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no século XX. Essa luta iluminista culminou com a criação, em nível transnacional de órgãos tão diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comissão que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justiça que arbitra litígios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para nós é uma forma de pensar em sair desse círculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes índices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na política e incentivam desvios de conduta.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/04/2007.

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CARNAVAL, MARACATU E PIERRÔ

O carnaval está chegando. Muita gente fala que carnaval é “coisa do demônio”, que os cristãos devem distanciar-se das tentações e orgias. O “demônio” está ou não está em nós, não nas coisas. O carnaval remonta à Grécia antiga, sendo então uma festa dionisíaca, mas, após o surgimento da Igreja Católica, foi atrelado ao seu calendário religioso, pois acontece sempre nos dias que antecedem o início da Quaresma. Essa festa popular, onde se extravasa ano após ano, com exagero de modos, os males do espírito, tem seu nome ligado ao costume antigo de abstinência de carne nos 40 dias antes da Páscoa. Assim é que a palavra carnaval significaria “adeus à carne”. Enfim, o exagero da festa seria então por conta da privação de carne que viria a seguir.
Hoje, o carnaval tem faces distintas em todo o mundo. Aqui mesmo no Brasil, há vários carnavais. Há o carnaval das escolas de samba, dos blocos de frevo, do aché e o do maracatu. Fiquemos no maracatu que é uma dança de origem africana que se consolidou, com cadências diferentes, em Recife e Fortaleza. Tem ele o simbolismo da coroação de reis e rainhas, em seus países de origem, e que aqui eram escravos. Seria uma espécie de libertação esse cortejo, com vassalos segurando os pálios do rei e rainha, coroados e festejados ao som de tambores e zabumbas. Dessa forma, ao dar uma significação especial ao ato de coroação da rainha, que no Ceará é personificado por brincantes masculinos, há uma demonstração clara de não machismo ou de civilidade. Essa rainha, sendo homem, másculo, íntegro, seria, quem sabe, uma versão afro-brasileira da figura do Pierrô, esse personagem masculino da comédia de arte italiana que vem da Renascença e é a personificação da ingenuidade e sentimento, perdidamente apaixonado por uma Colombina que o deixa a sofrer e só. A rainha-homem, o contra-senso do imaginário africano, é também uma manifestação desse sentimento e ingenuidade que se harmoniza, no meu pensar e olhar, com o drama do Pierrô por sua batida sincopada, a face sonora de sua dor, do coração que pulsa e chora.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2007.

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QUEM É NORMAL?

De repente surge uma fissura grave na couraça dos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. As sessões com os pacientes não chegariam a lugar nenhum, dizem alguns. Os problemas e distúrbios de comportamentos hoje são resolvidos com drogas, afirmam outros. Entretanto, na última edição de Veja, de 14.03.07, o psiquiatra americano Peter Kramer, diz que: “todos os remédios da classe dos inibidores de recaptação de serotonina, da qual o Prozac faz parte, são, em minha opinião, antidepressivos medíocres.” Daí, por exemplo, tanta controvérsia sobre o Prozac e seus sucessores que deixaram milhares de divãs sem pacientes. Agora, os tricíclicos voltam para valer. Com quem a verdade ou a certeza?
Será por tal fato que na classe médica há gracejo antigo? Ele diz, mais ou menos, o seguinte: O clínico geral sabe tudo e não faz nada, o cirurgião não sabe nada e faz tudo e o psiquiatra nem sabe nada e nem faz nada. Mera piada, é claro.
Talvez por não terem obtido sucesso em suas visitas a psiquiatras, psicanalistas e psicólogos é que tantas pessoas apelam para o consumo continuado de calmantes, antidepressivos e estimulantes de todas as naturezas, dosagens e composições químicas. Todas têm um médico amigo que as prescreve. As pessoas tomam remédios para aguentar o rojão da vida e se acreditarem normais. Mas o que é ser normal? Quais os referenciais que demonstram o desvio entre o certo e o errado? Será anormal quem não dorme bem, dorme pouco ou demasiado? Ou a anormalidade parte de quem observa? Será normal a pessoa comum, cotidiana que se compraz para acabar com o mofo de sua vida, em fazer cartas anônimas ou espalhar boatos falsos?
A propósito, nos Estados Unidos, o país onde mais se consome remédios para depressão, insônia, neurose etc. foi editado -pela St. Martin Press – o livro “Você é normal?” (Are you normal?), escrito por Bernice Kanner. Por apenas US$ 6,99, o preço de uma refeição ligeira, você saberá que existe muito mais gente “anormal” do que imagina. As pessoas entrevistadas, segundo Bernice Kanner, tinham o compromisso de não mentir e revelar, sob a segurança do anonimato, coisas que não diriam nem para o pai, a mãe, o marido ou a mulher.
As preciosidades colhidas por Bernice nos Estados Unidos mostram a vulnerabilidade, a ausência de altruísmo e outras falhas do caráter dos comuns mortais. Vamos lá: uma em cada quatro pessoas faria qualquer coisa por US$ 10 milhões; uma em cada dez pessoas compra um artigo, usa uma vez e o devolve; 3,9% das mulheres não usam calcinhas; 7,0% das pessoas utilizam o próprio cabelo como fio dental; 10% trocam etiquetas de preços de lojas para pagar menos; 10% admitem já ter visto fantasma; 23,5% não dão descarga quando vão ao banheiro; 25,0% furam filas; 28% admitem fazer xixi na piscina; 28% deixaram de declarar imposto de renda alguma vez; 29% já furtaram em lojas; 39% fofocam em salas de espera;54% reembrulham presentes recebidos e dão para outras pessoas; 58% já inventaram doença para não ir trabalhar; 60% dos homens cospem em público.
Isto tudo nos faz lembrar uma frase de Millôr Fernandes: “Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos bem” ou aquela outra de Bertold Brecht: “Um bom país para viver é aquele em que as virtudes não são necessárias e no qual todos podem ser pessoas comuns, medianas e até mesmo um pouco covardes.”

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2007.

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BLANCHARD É INSTITUIÇÃO – Jornal O Estado

“Convenci-me, com o correr dos anos, de que, assim como as pessoas, também as instituições trazem, ao nascer, um signo que indicará para sempre a sua trajetória”.
Blanchard Girão

Neste mesmo jornal, em outro caderno, eu tinha o prazer de ler os escritos semanais de Blanchard Girão. Ele sempre trazia palavras gentis para escritores, iniciantes ou não, que lhes mandavam livros a lançar e cuidava de usá-las com muita sutileza. Aqui no O Estado, que o acolheu em sua maturidade, Blanchard exercia a alegria de escrever sem pauta, com liberdade, aprumo, distinção e graça. Era, quem sabe, nestes tempos de sua vida, uma forma de encontrar o seu eu profundo, relevar as ingratidões e tocar o bonde, não o que levava e trazia do Liceu do Ceará, mas o que conduziu como motorneiro seguro em trilhos certos da sua história pessoal, tornando-o uma instituição como jornalista, ativista político, cronista e memorialista.
Conheci Blanchard ainda menino. Possuíamos algumas afinidades. Éramos ambos torcedores e conselheiros do Fortaleza, esse clube que mexe com nossos sentimentos e coronárias por conta de suas vitórias e tropeços. Depois, por vias indiretas, tivemos tênues laços familiares, mas o que caracterizava o nosso não tão próximo relacionamento era a forma gentil como sempre me acolheu. Ele era um exemplo vivo de sensibilidade e civilidade, qualidades tão em falta, sem perder a capacidade de indignar-se com elegância e tampouco transigir em suas convicções ideológicas.
Não sei dos detalhes que antecederam o infarto que o vitimou, mas sei que a sordidez humana pode, por via telefônica, tecer ameaças contra familiares e isto, para quem ama os seus, causa dor profunda. Não sei também que incompreensão possa ter sofrido recentemente, mas sei que a amargura e o desencanto são hospedeiros de reações que o nosso espírito não aceita e o corpo padece.
Estas palavras, desataviadas, não são um mero registro protocolar. Elas refletem, do meu jeito e modo, o pesar de todos os que conheceram a trajetória do menino que se criou nas areias claras da avenida João Pessoa, passou por tantos domicílios e residências, mas se quedou por destino ao redor da Praia do Mucuripe, na rua do jangadeiro Manoel Jacaré, não menos herói que o Dragão do Mar, mas que repousava sempre nas cercanias de sua Fortaleza querida, por ele decantada e que agora reclama, em vão, por sua presença.

João Soares Neto,
cronista.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2007

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VIAJAR POR PRAZER – Diário do Nordeste

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso.
O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007.

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VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste

De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.

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O PESO DO CHATÔ – Diário do Nordeste

Tive sequelas com uma tenossinuvite provocada pelo peso do livro, “Chatô”, o Rei do Brasil, de Fernando Moraes. Só agora, anos depois, é que me disponho a comentá-lo. Não como crítico, mas mero leitor. Não concordo com amigos afeitos a leitura de biografias que afirmam ser “Chatô” um grande livro. Não é. É grande, com 700 páginas ao longo das quais o autor demonstra pura vaidade flagrada até em retrato seu na orelha do livro, onde com um grosso charuto procura dar um ar “blasé” ao brilhante jornalista.E claro que a audácia de escrever sobre um personagem tão controverso como Assis Chateaubriand é meio caminho para o sucesso, especialmente se respaldado pelo prestigio da Companhia das Letras. Em determinadas partes do livro, chego a desconfiar que Fernando Moraes deixa de ser biógrafo para, no entusiasmo de sua narrativa, tomar-se um fabricante de monólogos e diálogos entre pessoas mortas há tempos. Diálogos sem testemunhas. Exemplo: na pág. 304 ele cita uma conversa entre o Cap. João Alberto (assessor da presidência) e G. Vargas. Ora, se são mortos, não havia testemunhas, como, então, citar frases não ouvidas? imaginação.
Não se pode dizer, por justiça, que o livro seja ruim. Às vezes chega a ser engraçado, contundente, especialmente quando transcreve os famosos artigos de Chatô. Chatô é material para filme hollywoodiano que já deveria estar pronto com o dinheiro recebido do governo, mas o filme não sai. Isso é outra história. Há ainda erros crassos, na pág. 550, Armando Falcão foi citado como deputado udenista. Vivo, o ex-ministro poderá ratificar que integrava o velho PSD. Valho-me de Carlos Heitor Cony que, em crônica na “Folha de São Paulo”, refutou inverdades sobre o comportamento do jurista Nélson Hungria narradas por Moraes. Para finalizar, eu diria que “Chatô” vale pela tentativa de entrelaçar a vida do discutido personagem às histórias política e econômica brasileiras, mostrar como permanecem atuais os seus métodos e como proliferam Chatôs pela imprensa de norte ao sul. Apenas isso.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/02/2007.