Sem categoria

SONHOS DE CONSUMO – Jornal O Estado

Tenho amigos e familiares espalhados pelo mundo. De vez em quando, um deles vem dá com os costados pelo Brasil. Da mesma forma, uma vez por outra, os visito. Um dos temas recorrentes de nossas conversas é o deslumbramento da classe média brasileira. Gastam o que podem e o que não podem. Estabelecem padrões de comportamento que são, de há muito, superados nos lugares citados.
Exemplos 1: Fulano tem um bom emprego ou uma empresa que está crescendo. Compra um apartamento novo, chama uma decoradora que o enche de mesas, cadeiras, espelhos, cortinas, gravuras ridículas e tudo o mais que couber. O carro já não condiz com o apartamento e “os vizinhos ficam reparando”. O que fazer? Compra um novo. E não fica só nisso, aí vem a festa de inauguração e sua mulher resolve mostrar às amigas o quanto está bem de vida. Contrata serviço de “buffet”, som e o marido já reclamando dos compromissos que vai ter que honrar.
Exemplo 2: A filha mais velha vai completar 15 anos e diz que todas as amigas fizeram uma festa maravilhosa. A mãe faz finca pé e se alia à filha. Conseguem. Sai a festa com cerimonial e tudo. O pai se sente meio ridículo dentro de um terno com gravata l apertando seu pescoço. Vê a quantidade de gente entrando e, sem querer, vai fazendo cálculos de como pagar as despesas da festa e a promissória vencida do seu negócio.
Exemplo 3: Mariazinha tem 09 anos e Carlinhos vai completar 08 anos e ainda não foram à Disneyworld e “todo mundo já foi”. “Isso é um absurdo”. “Temos que dar um jeito” e lá se vai o pai comprar um pacote para os filhos não ficarem frustrados. A humilhação começa no pedido de visto, pedem comprovante de salário, original do Imposto de Renda, passagens de ida e volta e o diabo a quatro. Finalmente chega o grande dia e toda a família vai para o aeroporto deixar os heróis.
Por outro lado, vamos dar só dois exemplos de estrangeiros
Exemplo 1: Wini é médico, alemão, tem clínica bem montada em Frankfurt e todo dia pedala sua bicicleta que deixa na estação e toma um tem para o trabalho. Volta ás sete, ajuda a mulher a fazer a comida e ensinar os deveres das filhas. No final de cada ano, planejam férias sempre procurando opções econômicas. Exemplo 2: Nako é engenheiro mecânico, japonês, trabalha distante 02 horas de casa, e sua mulher deixa os filhos numa escola pública enquanto rala como bibliotecária. Só têm folga aos domingos para um piquenique em um parque próximo de sua casa. Férias? Há anos que não gozam. Viagem? Foram uma vez a Kioto. Parece estar havendo alguma coisa errada nessas informações, mas, não. Os relatos são verdadeiros e mostram visões diferentes de mundo. Cristopher Larsh, autor de «A rebelião das elites”, deixa claro que a decadência das nações está intimamente ligada aos hábitos da classe média.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2007.

Sem categoria

MÉXICO – Jornal O Estado

Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem.
O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007.

Sem categoria

REDE DE BABOSEIRAS – Diário do Nordeste

A Internet é, sem dúvida, grande ferramenta de pesquisa e trabalho. E, naturalmente, oferece lazer para milhões de pessoas desocupadas por conta de aposentadoria, doença, férias ou de seus empregos públicos que pouco cobram. Mas, dá um misto de tristeza e desconforto o recebimento de e-mails primários, coloridos, músicas batidas e acompanhados de adjetivos: lindo!. Imperdível! Sensacional etc. E têm uns que dividem em sílabas a palavra adjetivada: ma-ra-vi-lho-sa. E, quase sempre, escrevem isso com letras maiúsculas em fundos de tons de róseo ou lilás que fazem qualquer pessoa de relativo senso estético perder a paciência.
Peço, por favor, não me mandem essas baboseiras que rolam pela Internet. Recebo, mesmo sem querer, todos os tipos de Spams. Os Spams são e-mails genéricos, não solicitados: falam de vendas, cura de cânceres, crianças perdidas, testes, orações com melosas músicas e escritos piegas, supostos textos de intelectuais, correntes de felicidade, prova de amizade pedindo resposta para o próprio remetente etc.
Sei que existe o mecanismo de bloqueio de remetentes e mensagens, mas sei também que as pessoas deveriam usar bom senso e não atazanar a paciência de quem tem pouco tempo disponível. Para bloqueio definitivo ou excluir os spams se perde um tempo que poderia ser mais bem utilizado. Essa rede de afetividade, interesses e afins deveria ser restrita a amigos íntimos de gostos similares, mas o que se vê, pelo contrário, é a exposição de dezenas de e-mails pessoais que, mesmo sem saber, passam a ser alvo, além dos spams, de vírus de todas as naturezas. Quem quiser me agradar, não me mande spams. Recebo, com prazer, quaisquer manifestações pessoais, individualizadas, curtas ou longas, mas rejeito tudo aquilo que vem como genérico, apenas cumprimento de tarefa de repassar ou alardear redes de relações, quando muitos não passam de meros conhecidos. Mas, como dizia Homero: “Sê paciente, alma minha, já passastes por coisas piores”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/01/2007.

Sem categoria

CALOTES ANTIGOS E NOVOS – Jornal O Estado

Há alguns anos, quando ainda me impressionava com nomes, sobrenomes e locais de nascimento, fui apresentado a pessoas da melhor estirpe, excelente educação e que desejavam investir em nossa terra. Convocado para uma reunião com eles, tomei o avião e fui a um clube elegante do sul para um primeiro contato. Local refinado, pessoas bem vestidas, bebidas honestas e papo excelente, entremeado de citações a grandes amigos influentes, cursos no exterior, fins de semana memoráveis e, de passagem, algumas frases em inglês e francês. Final da reunião: muitas ideias, negócios em perspectiva e nada de ninguém se lembrar de pagar a conta. Tive que pagá-la.
Certo de que havia feito bons contatos, aguardei a visita. Vieram em voo econômico, com a pose e quem estava chegando de jatinho. Hospedei-os em um bom hotel e, após lagostas e praias, sentamos para discutir negócios. Só se falava em milhões de dólares e no lucro que viria após a obtenção do financiamento, já que o grupo local entraria com o capital inicial para aquisição do terreno, projeto, viagens de técnicos e “alguns contatos importantes”. Eles, os ricos convidados, entrariam com o “know how”. Ouvi tudo, anotei, paguei a conta do hotel, levei-os ao aeroporto e nunca mais dei resposta.
Tudo isso veio à mente por me lembrar de velhas e atuais histórias de calote. Por exemplo, lembro bem da insolvência da empresa Gurgel Motores. Nessa brincadeira, o Banco do Estado do Ceará entrou com 3 milhões de dólares pelo aval concedido perante o Banco do Nordeste. O Ceará passaria ao Primeiro Mundo com uma fábrica de automóveis e, nada mais justo que avalizar a operação. Não acredito que o BNB e o BEC, por seus técnicos, tenham assegurado então que o projeto teria êxito. Só um cego não via que os automóveis da Gurgel eram mais atrasados que os antigos “Ladas” russos e sua tecnologia ficava muito atrás das antigas montadoras de “Buggies” locais que, juntando fibra de vidro e componentes Volkswagen, conseguiam ótimos resultados. O que houve então? Deslumbramento, desonestidade ou a incapacidade de distinguir os que vêm para cá para investir e trabalhar dos que vêm para se arrumar. Será que leram balanços, pediram informações e ouviram a Serasa? Eu sei o que é não olhar cadastro e saber a fundo da história pessoal e empresarial de caloteiro. Sempre cordial, falso como uma nota de 15 reais e pomposo como os néscios costumam ser.
Três milhões de dólares é dinheiro, por exemplo, suficiente para fazer uma porção de micro e pequenas empresas saírem de suas crises de capital de giro. Imaginem, por exemplo, esse dinheiro financiando lojistas e fabricantes da Av. Mons. Tabosa ou aos microindustriais do Montese. Seriam centenas de empregos, gente feliz, trabalhando dia e noite para pagar os empréstimos e não sujar o nome. Seriam famílias inteiras procurando economizar e reformar galpões feitos de forma improvisada nos quintais de suas casas. Mas essa gente, na maioria, não tem acesso livre a bancos, não frequenta reuniões elegantes, não tem cadastro e suas mãos calosas não têm classe para segurar uma caneta “Mont Blanc” e assinar, sorrindo, uma promissória de milhões de dólares que, antecipadamente, já sabem que não irão pagar.
Fica mais uma lição, para os que ainda se deslumbram com os caloteiros da terra, que vão sendo conhecidos por todos, apesar de usarem laranjas, e com visitantes-caloteiros, tidos como ilustres, recebidos com pompa e circunstância e apresentado por lobistas empresariais. O amadurecimento de um Estado passa pela isenção com que todos devem ser recebidos, analisados, independente do nome, da pose ou da propaganda enganosa que fazem. Estado pobre, recursos limitados, carências mis, nada melhor que um pouco de cautela dos que dirigem as instituições de crédito oficiais na hora de financiamentos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/01/2007.

Sem categoria

CULTURA NO CEARÁ – Diário do Nordeste

Há cerca de quatro meses passei uma hora conversando com Francisco Auto Filho. Mostrava exposições de arte que estava coordenando, costureiras trazidas do interior para fazer bonecas de pano e um anjo de cipó que um artesão fez, a partir de um tronco ressequido de árvore. E ele dava baforadas em seu cachimbo, enquanto se via livros novos na sua sacola plástica aberta.
Pouco tempo depois, fiz o mesmo trajeto, mostrando as mesmas coisas à Cláudia Leitão. Ela dizia das suas andanças pelo interior, ouvindo mestres populares do saber, difundindo visões simples de que a cultura pode abraçar a todos e, igualmente, todos podem caber dentro da cultura. Agora, Cláudia deixa a Secretaria de Cultura do Ceará e Auto Filho a assume. São visões diferentes, mas complementares e instigantes. Cláudia e Auto são professores universitários. Ela é antropóloga., ele é filósofo. Ambos são polêmicos e cientes de que esta terra precisa ser revolvida e resolvida pela cultura. Não sei se já conversaram, mas fariam bem se trocassem ideias, mesmo que para discordar. Há pouca gente de boa cabeça nesta terra e não se pode, por pensar diferente, se dar o luxo de isolar esse ou aquele. Ambos, devem saber que a vaidade e a insegurança acompanham a todos, inclusive artistas, intelectuais e artesãos. Todos lutam pelo que fazem e precisam do olhar e da palavra do outro, esse que, muitas vezes fica mudo, para não elogiar ou validar o sucesso alheio.
Este Ceará, tão rico e tão pobre, não comporta aposentadoria, alheamento ou desconexão das pessoas que sabem criar, agitar, liderar e fazer cultura. O exemplo do Clube do Bode, entidade etílico-recreativa-cultural, sem estatuto, muito calor e fofoca, é prova certa de que contrários podem sentar em uma mesma mesa, discutir e disso resultar ações anárquicas que são expressões e até instalações culturais pós-modernas, tudo registrado em atas, que poucos leem, mas todos assinam reverentes, destacando apenas os seus pré-nomes.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2007.

Sem categoria

FAMÍLIA, RAZÃO PRIMEIRA – Jornal O Estado

Sou o mais velho de uma família de nove irmãos. Cinco homens e quatro mulheres, todos vivos, hígidos, espalhados e independentes. Família essa cheia de defeitos e poucas virtudes. Gente comum, sem glória, pompa ou circunstância. Pessoas que foram, desde cedo, obrigadas a compartilhar quartos, roupas e entender que seria necessária muita luta para conseguir um lugar ao sol, mesmo uma réstia.
Hoje, as famílias são bem menores e, em todas as classes, parece não existir mais sentimento de união, superação das tão comuns brigas entre irmãos, motivadas por tudo ou por nada.
Estudávamos em colégios privados, com a merenda ou dinheiro contado para a cantina, lá íamos nós a pé. É bem verdade que a distância era pequena e a cidade não oferecia o menor perigo. No final de cada ano, os livros encapados e as fardas passavam para os mais novos. Não se ouvia falar em mesada, em prêmio por ter cumprido a obrigação de ser aprovado, e nem viagens à Disney. Só existiam esportes, poucas rádios para ouvir emissora de TV em preto e branco, ficando a televisão na sala, dividindo com o piano surrado, os lugares de honra.
Brigava-se muito, a tapas e socos. Não ficava mágoa. A rixa se exauria no banho que a mãe mandava os filhos tomarem após as refregas. Havia o terço, a missa aos domingos, as primeiras sextas-feiras e as procissões. Quando o dinheiro dava – e sempre dava – ia-se ao cinema e ninguém reclamava do calor, entretido nos filmes e nos seriados.
Quando um dos irmãos brigava na rua lá se iam os outros tomar satisfações e dar – ou levar – surra do desafeto. Sem essa de psicólogo ou analista, nada disso. Tomava-se pouco remédio. Uma ou duas vezes por ano, um remédio para vermes. De quando em quando, um Calciogenol irradiado, Emulsão de Scott, Biotônico Fontoura, Phimatosan, Melhoral e muita abacatada, bananada ou “vitamina”, que era uma espécie de salada de frutas batida no liquidificador.
Cada casa tinha uma bicicleta que ia passando de mão em mão ou de pé em pé. Estudava-se inglês, aprendia-se datilografia e jiu-jitsu e as meninas tinham aulas de piano. Quem era mais interessado em livros ia à biblioteca pública fazer pesquisas ou pedir empréstimos para entrega em 15 dias. Fazia-se uma ficha e nos entregavam os livros que os colégios nos obrigavam a ler e resumir. Ou se lia por prazer.
Estas recordações, pessoais e desinteressantes, vieram a propósito do filme que vi em vídeo “Férias em família”, de Jodie Foster, em que se mostra a relação neurotizante de uma família americana que, quase obrigada, se reúne para o feriado do dia de Ação de Graças, a data em que todos se reúnem por lá, mais do que no Natal. De tudo, fica uma lição e a certeza de que irmãos, mesmo que espalhados pelo mundo, diferentes, vivendo outras culturas e distantes, são necessários e indispensáveis e, ao revê-los, a gente se dá conta de que a família ainda é base de todos os princípios, mas sem essa dos moralismos caretas da época.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/01/2007.

Sem categoria

PORTA DOS SONHOS – Diário do Nordeste

Concluí a crônica da semana passada escrevendo que estava entrando na porta dos sonhos. Foi o bastante para mexerem comigo: que porta é essa? Você poderia me emprestar a chave? O que há por trás dela? Como saber se ela existe?
Pois bem, a porta dos sonhos é a capacidade de continuar pensando alto e acreditar que as pessoas são fonte de esperança. Pessoas diferem das coisas e atos. Não é o que se compra, o carrão para disfarçar a insegurança, o jeito prepotente de beber vinho caro, sem o mínimo conhecimento de enologia, o desejo de aparecer transformando comemorações íntimas em atos públicos, ou viajando – desde que noticiado – para lugares onde não se percebe nada além da ostentação e vazio. Ter sonhos é descobrir que a festa e o espaço a ser percorrido são o que está na nossa essência, com crença ou descrença. Não há chave na porta dos sonhos, ela é como aquelas portas de saloon de filmes de cow-boy em que o machão entra com dois revólveres e sai com a cara amassada por um pacato cidadão que foi desacatado. Logo, não há como emprestar a chave. Ela não existe. A chave é atitude, não o destempero verbal, a bravata, a demonstração burguesa de poder, quando se sabe que a impermanência é a única coisa duradoura nesta vida. Por trás da porta há o que plantamos, sonhos, quimeras, devaneios que nos conduzem, por exemplo, à realização de desejos, do amor juvenil ao maduro, com coragem de romper grilhões e preconceitos temporais. Ora, se a porta é virtual, logo ela poderá existir para uns e não existir para os só preocupados em saber da vida dos outros e que não param para se autocentrar e entender seus atos, talvez infantis, toldando sua relação com a realidade. E assim, tal como comecei, sei que estes escritos são meros alinhavos, mesclados com os confrontos naturais do existir e isso dá a confiança de que não posso deixar de sonhar e repetir o que muitos já disseram e poucos atingem: sonho bom mesmo é vivido a dois, atravessando portas, virtuais ou reais.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2007.

Sem categoria

CARTA DE DESPEDIDA E RESPOSTA – Jornal O Estado

Esta crônica consta de uma carta minha e a resposta, quem sabe. A carta:não importa que você não tenha entendido integralmente o que escrevi. Importa a minha conduta, leitura da realidade, pois sei que tudo é relativo Mas, sei também que os livros bobos dizem que o passado já passou e o futuro vem depois. Não é bem assim. Prefiro pensar com W. Faulkner: O passado nunca morre, nem é mesmo passado “. Já havia escrito e enviado, quando você disse, ao telefone, da sua apreensão com a visita feita, pois era o passado que não é nem mesmo passado, chegando, incomodando, interferindo no seu bem-estar.
Não falei em despedida, você o disse. Falei de óbices e as metáforas que usei foram uma forma não linear de dizer que acredito em você, que me considero uma pessoa com quem você pode contar, sempre. Estarei por aqui.
A resposta :Sem dúvida os encontros e desencontros permeiam a vida, tornando-a rica e inusitada, pois ambos têm sua função, desde que bem aproveitados. Acredito que os encontros mais importantes são os intrapessoais, os internos. Sem encontrar e unir as próprias partes interiores, sem definir e conhecer as “formas” que se possui, os desencontros interpessoais serão uma constante e o único encontro possível e certo será com o “caos”. Talvez os desencontros internos expliquem exatamente a “gênese do caos”. Muitos se habituam ao “caos” de tal forma que nem mais percebem a perda daquilo que nunca tiveram. E nem terão, pois o “caos” torna-se um porto seguro. Obviamente não possui “formas”, muito menos fronteiras entre interno e externo. Para esses tantos, o dismorfismo torna-se tão imprescindível para a própria sobrevivência que optam pelo caminho mais fácil. E taxam tudo aquilo que for diferente da referência que possuem, digo, da ausência de referência, como desencontro. Não consigo imaginar uma forma fixa, além da beleza do viver, especialmente a dois, que consiste em ajustar formas, encaixá-las e procurar por alguns segundos tornar-se una, coesa e harmônica. Um dia, quando ou se as formas não mais se encaixarem, o “caos” ressurgirá, mas como mero visitante, não como dono da casa.
Penso que pouco tempo pode valer muito, afinal uma característica da felicidade é não perceber que as horas se passaram, assustar-se ao olhar o relógio, seja ele original ou falsificado….Essa questão do tempo para mim, a famosa quarta dimensão, como pura subjetividade que é, diante do real, do concreto, torna-se insignificante. Ontem eu falei que você me surpreendeu. Hoje posso repetir a mesma frase, mas com sentimentos diferentes. Sei que os paradoxos existem, mas fico agora a questionar em quem as “formas” estão precisando de refinamento e ajuste de conduta, assim como discordo da “quase-lucidez”. Apenas para terminar, quase esqueço de dizer o que penso sobre a sua citação de “milhas e milhas a percorrer”, do poeta Robert Frost ou dos quilômetros que poderiam ser percorridos no Brasil. Que pena! Entretanto, você me fez bem por me fazer voltar a acreditar em sentimentos, afinal, em pouco tempo, segundo sua matemática, vivi momentos que permanecerão por muitos anos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/01/2007

Sem categoria

AS PORTAS DE ENTRADA – Diário do Nordeste

Entrei o ano por quatro portas distintas. A primeira, e mais importante, foi a da família nuclear. Juntos, esquecendo diferenças, respeitando-se e integrando-se de forma leve, saudável e emotiva. Até umas parcas lágrimas pediram passagem e fizeram com que uma neta perguntasse: por que você está chorando, vovô? Chora-se, quando nunca se chora, por saber-se meio peixe neste mundo em que os decibéis das músicas abafam sentimentos não aflorados por falta de eco. Mas, deu meia-noite e o céu se encheu de luz, fogos traçavam artifícios no espaço enquanto rosas, guirlandas, chuveiros, estrelas, bouquets e outras formas de pirotecnia me tornavam menino, na esperança de que o próximo arranjo de luz e som me embevecesse ainda mais.
Acabaram os fogos, cada um se foi na rota da vida no ano despontado e me dispus a entrar na segunda porta, bem perto, também defronte ao mar, vizinha do celeiro da alegria popular e coletiva, do outro lado do muro de pedra. E, mais uma vez, o império dos decibéis brigava com meus tímpanos. Abracei amigos. E entre as bolhas de um espumante eu via as mutações temporais da vida. Ali, naquele lugar, por tantos anos, estive junto com a mesma família nuclear que cresceu e se fez múltipla. E me achei, em meio a tantos, com a incapacidade de falar ao telefone. Vivemos a época da impaciência e minutos desconectados nos tornam isolados, mesmo que multidões pululem à volta. E aí entrei na terceira porta, a da rua, no meio do povo misturado com autoridades que capricharam na concepção nova e manifesta da estética bela, mais profunda que a vã superficialidade possa imaginar. E, em meio ao povo, com suas cadeiras e mesas de plástico, cervejas, sandubas e afins, me vi brasileiro, essa mescla de raças, ritmos, harmonias e cores, plenos de singularidade. E havia duas mulheres loiras, uma liderava, outra cantava, ambas acreditando em novos limiares e atitudes. E, passo a passo, na rua, a senha da noite me acenava em direção à quarta porta, a dos sonhos.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/01/2007.

Sem categoria

CIVILIDADE – Diário do Nordeste

Tenho amigos que, por conta dos seus afazeres, vivem viajando mundo afora. Não são turistas acidentais. Viajam com olhos para ver e “sentimento de mundo”, captam nuances nos contatos com seus iguais e o povo. Reconhecem, entristecidos, que nós, brasileiros, salvo exceções, somos ainda muito pouco educados, cordiais e incultos em nossos contatos e relacionamentos. Por questões até de sobrevivência, cultivamos hábitos que não passam pela polidez, gentileza com o outro, respeito ao trânsito e aos imóveis públicos e privados. Em qualquer cidade brasileira, do Oiapoque ao Chui, fácil é constatar a ausência de delicadeza no gesto das pessoas em contato com semelhantes ou, por exemplo, na intimidade dos banheiros. De princípio, eram apenas os homens os indelicados. Hoje, por terem jornadas duplas, as mulheres estão entrando no time dos que não primam pelo cuidado no falar, na gentileza de ouvir e na capacidade de entender a diversidade, essa realidade que distingue as pessoas, mas que, paradoxalmente, as nivela.
Recentemente, uma pessoa me contou que ao guiar no estrangeiro foi abordada por um policial de trânsito “pelo simples fato de ter mudado de faixa de direção”. Ora, os sinais de trânsitos são internacionais e no país onde ela se encontrava ficam muitos claros. Ela havia, por força de hábito, cometido infração de trânsito comum em nosso país. Não nos incomodamos com os carros que vem atrás e apenas nos desviamos dos que cruzam à frente. É assim mesmo, acontece todo instante e isso faz com que acidentes entre veículos proliferem e impeçam a circulação ideal por conta de perícias que tardam. Falta-nos civilidade.
Houve um tempo em que se estudava civilidade nas escolas. Lembro que a edição do livro era F.T.D. Hoje, certamente, isso pode ser considerado perda de tempo, mas não é. Dizia Mark Twain que “a gente não se liberta de um hábito, atirando-o pela janela. É preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau”. Isto vale para o trânsito, para as escadas da prepotência, para a bisbilhotice da vida alheia e ao desrespeito pelos direitos dos outros. É básico. É civilidade.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2007