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MEIO AMBIENTE – Jornal O Estado

Meio ambiente e sustentabilidade são temas novos, sem literatura considerável. Muitas instituições, entidades, empresas e pessoas que não leram nada de significativo sobre esses temas – e tampouco as praticam em suas vivências como cidadãos ou como gestores – se arvoram em arautos e defensores pífios do que não conhecem. Já faz algum tempo, desde o ano de 1988, tenho procurado ler, conversar e participar de seminários, eventos e congressos que incluam o meio ambiente como foco. A maioria não sabe o que diz, afora os chavões da moda, as frases de efeito e o olhar sedento pelo aplauso ou pelo `reconhecimento’ do que acreditam praticar. Frases tipo “cuidar da casa, da vida, do planeta” podem soar vazias se não tiverem embasamento, justificação legal e compromisso. Um exemplo real? A Petrobrás vende diesel com alto teor de enxofre desde 2002 e agora pede mais quatro anos ao Conselho Nacional do Meio Ambiente para um cronograma de adaptação. Diz o prof. Victor Aquino, professor de publicidade da USP, que “temos que reconhecer que a questão ambiental ainda não faz parte das prioridades das pessoas”. Isso é pura verdade, o resto é demagogia ou tratamento superficial de um problema que deve envolver conhecimento, responsabilidade social e atitude definida. Algumas pessoas, entretanto, procuram estudar com afinco e trazem a lume raras preciosidades sobre o tema. Uma delas é o livro “Competências Constitucionais dos Municípios para legislar sobre Meio Ambiente”, editora Letra da Lei, da Dra. Lucíola Maria de Aquino Cabral, uma constitucionalista titulada que escreve de forma clara, concisa e certa. A partir da análise do Poder Local, ela se embrenha na Constituição de 1988, discute os aspectos do sistema federativo e da descentralização política, ao mesmo tempo em que analisa a definição de critérios interpretativos das normas ambientais. Não, o livro não é complicado. Ele é bom de ler. Cada página serve de base para o que é dito a seguir, sempre ancorado em saberes acadêmicos e a interpretação de artigos da Constituição. Em suas conclusões, diz a autora que “a relevância da norma ambiental municipal caracteriza-se pelo fato de que esta será tanto mais eficaz quanto mais diretamente abrigar aspectos da realidade política, social e econômica da população”. Assevera ainda que “as esferas de poder local estão mais habilitadas para atender os anseios da comunidade e que o direito ao meio ambiente adequado exige a aplicação do princípio do desenvolvimento sustentável.” Mais não digo para não tirar o prazer dos que realmente precisam ou desejam ler mais sobre meio ambiente e transformar em ações os discursos escritos por assessores e as propagandas midiáticas que, quase sempre, pouco têm a ver com a realidade do que fazem e vivem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2008.

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ISABELLA E A INDEPENDÊNCIA – Diário do Nordeste

Isabella é alemã, mas tem sangue brasileiro. Nasceu em um sete de setembro. Agora, jovem, culta, curiosa e minha afilhada, precisa saber mais sobre esta data. Digo primeiro que Napoleão Bonaparte deu um golpe, em 1799, e tomou o poder na França e queria a Europa toda. Contra Napoleão se insurgiram a Inglaterra, Prússia, Áustria e a Rússia. Por outro lado, é preciso falar que a Inglaterra mandava no mundo de então. Mandava até lá longe, em Portugal, onde o Marechal inglês Beresford tutelava a Corte lisboeta. Em 1808, a França invade Portugal. Prevenida, toda a realeza, D. João VI à frente, foge para o Brasil. Trouxeram móveis, artes e ouro. Tinham a segurança do oceano Atlântico a dividir os dois continentes. Aqui chegando, amedrontados e pragmáticos, resolveram abrir os portos às nações amigas. Quer dizer, à poderosa Inglaterra, sua tutora-aliada. Nesse mesmo tempo, o Brasil, então colônia – apenas produzia o permitido e mandava tudo para Portugal – já havia dado passos para ser livre. Tiradentes, um alferes mineiro, fora morto por suas ideias e surgiam conjurações/conspirações por toda a parte. A Corte se instala no Rio de Janeiro e ali fica até 1821, quando D. João VI volta para Portugal, em face da Revolução do Porto que pedia o fim do absolutismo português. Deixa seu filho Pedro como príncipe regente, a dirigir os destinos do Brasil – colônia. Acontece que havia políticos e aristocratas brasileiros que influenciavam a gestão do jovem e inexperiente D. Pedro. Entre eles, figuravam Gonçalves Ledo, Clemente Pereira e José Bonifácio. Este, a figura central da ação que culminou com a Independência em 07 de setembro de 1822. D. Pedro I viajara a São Paulo e, justo nesse dia, recebeu as costumeiras e abusivas ordens vindas de Portugal. Junto a essas ordens havia um bilhete de José Bonifácio em que dizia ser chegada a hora da libertação, pois havia clima interno, puxado pela maçonaria. Assim, às margens do riacho Ypiranga, D. Pedro disse as palavras: Independência ou Morte. Esse ato deflagrou o surgimento da nação brasileira que, desde então, luta para ser senhora de seu destino. Esta é a minha versão. Parabéns, Isabella. Viva o Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2008.

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ECOS E REFLEXOS – Jornal O Estado

Todos os poetas são loucos. Quem disse essa frase foi R. Burton, erudito inglês, nascido em 1577. Horácio, em “A Arte Poética”, escrita antes de Cristo nascer, já dizia que “aos poetas não permitem ser medíocres/ nem os homens, nem os deuses, nem as lojas de livreiros”. Ortega y Gasset, filósofo espanhol tão citado e pouco lido pelos brasileiros, assevera que “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”. Linda de Cássia Sá Araújo transpõe a soleira da Casa de Juvenal Galeno, essa veneranda e esperançosa entidade de cultura, fundada há 89 anos por Henriqueta e Juliana Galeno em honra de seu pai, Juvenal Galeno, o poeta dos simples e pequenos. Vem, por motivação e benquerença de Matushaila Santiago, uma integrante e baluarte daquela Casa. Linda faz o lançamento de seu livro Ecos e Reflexos no Benficarte, único detentor, por quatro anos consecutivos, do Prêmio de Responsabilidade Cultural do Governo do Estado do Ceará. Ela chega, alegremente, com poesia simples, despretensiosa e coloquial. É uma mulher madura a se renovar como infante em versos de locução popular em que são referências os ecos e reflexos de sua vida. Albergar poetas, independente de suas produções, formações e títulos acadêmicos, é o propósito do Benficarte, como centro de cultura a não estabelecer distinção, tampouco tomar partido ou produzir julgamentos críticos. Para juízos de valor, leia-se Jean-Nicholas Arthur Rimbaud, poeta francês do século XIX: “Digo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável tortura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo Sábio.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/09/2008.

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SEGURANÇA NO BRASIL – Diário do Nordeste

Será chatice escrever sobre segurança pública e privada? Não bastarão os programas policiais de rádio e televisão? Não valerão os pronunciamentos de políticos eleitos por programas policiais? E as páginas de revistas e alguns jornais que mostram, com crueza, o problema? Por saber – como todo brasileiro – de casos de violência contra pessoas indefesas, é que resolvi pesquisar o assunto e passar a vocês que saem de casa com medo da insegurança das ruas e, ao voltar, trancam portas e janelas como se estivéssemos em guerra. Imagine uma cidade qualquer de 100 mil habitantes. Pela média brasileira atual, nela morrerão, a cada ano, 50 pessoas por assassinato, sem falar nos mortos do trânsito caótico, apesar da lei seca e da vigilância eletrônica com gorda arrecadação. Em 1980, a média era de 11,4. Os dados são do Centro de Estudos de Segurança Pública da Faculdade Cândido Mendes, RJ. Existem, registrados na Coordenação de Controle da Segurança Privada da Polícia Federal, 431.600 vigilantes particulares. Esse número é bem maior do que o efetivo de 320.400 militares do Exército, Marinha e Aeronáutica. Todas as polícias militares brasileiras, reunidas, têm um total de 411.900 integrantes, muitos deles em funções administrativas e de saúde. Como se vê, a segurança privada supera, também, o total de policiais. Os abastados blindam seus carros, e já são 60 mil no Brasil. Em 1999, eram apenas 400. Acontece que ninguém mora em carro. É preciso sair, arriscar-se profissionalmente e na vida real e isso faz com que 2.668 firmas dividam o mercado de segurança patrimonial, pessoal, escolta e transportes de valores. São números oficiais, sem contar os seguranças próprios da indústria, comércio, serviços, condomínios e residências. Em 1948, George Orwell, escreveu o livro ‘1984’. Nessa distopia, ele previa que as pessoas seriam vigiadas por câmeras e um ‘Big Brother (daí o nome do programa de TV) saberia de tudo. Pois bem, em 2006, só na Grande São Paulo, existiam 720 mil câmeras públicas e privadas. E ainda, em razão de sequestros, há pessoas que implantam chips’ em seus corpos, para monitoramento. Onde vamos parar?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2008

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VENCEDORES – Jornal O Estado

Amanhece. Abro as cortinas, o sol me cinge com seu calor e toma a forma da brisa que lhe empinam os panos. Termino o banho frio e, de relance, vejo-me ao espelho. Olho a barba por fazer e intuo que cada dia pode ser um descobrimento de nós e dos outros. Descobrimo-nos tal qual somos ou pensamo-nos como imaginamos que somos? Somos o quê? Adulto, infantil, apaixonado, erótico, plácido, pragmático, invejoso, invejado, carinhoso, solidário, crítico, solitário, culto, capaz, vulgar, fraterno, loquaz, taciturno? Ou um ‘pot-pourri ’de tudo isso, mudando, segundo os olhares alheios e as trilhas que afunilam as sendas de nossas vidas? Assim é que não só nos vemos, como nos veem e somos tantos para os que nunca chegaram sequer perto de nossos sentimentos e essência. Sequer conhecem a nossa vida, pois falar do outro é fácil e comum, pensar no outro é raro. Pois bem, abro a caixa de pensar e me deparo com quatro amigos vencedores. Um é entronizado, com brilho, no pélago etéreo da cultura por seu lado poético, musical, saber jurídico e desempenho profissional. César Rocha busca refrigério nas águas da poesia e do ensaio para mitigar a faina das decisões que, por ofício, toma a cada dia. Outros três, por suas histórias de vida, percursos, olhares para o mundo e atitudes serão homenageados, agora em setembro, com a Sereia de Ouro. E fico pensando em cada um deles, suas trajetórias. A Ana menina, que ganhou mundo, resplandeceu e voltou, madura e saciada, como a consagrada escritora Ana Miranda. Veio para o ventre de sua terra, de onde continua a voar e a espargir saber em múltipla ficção transformada. No tímido garoto Zé Osvaldo, Carioca do Benfica, que encontrou na magia de sua química a resposta para o crescimento pessoal, científico e acadêmico e se fez doutor reconhecido além mar. No cedrense Ubiratan, hoje pajé da tribo Aguiar, que aportou nesta Fortaleza e, pedra a pedra, pavimentou seu caminho, sem esquecer de cobrir com benquerença e tato as muitas portas que foi abrindo, aqui e alhures. E ainda não tomei o café preto sem açúcar que me dá adrenalina para o caminho da ação, desviando de catadores com carroças de ventre aberto, atendendo a flanelinhas, pedintes, entregadores de panfletos, jornaleiros e vendo os porta-bandeiras de candidatos, alguns sem enredo para contar. E as ruas, por onde passo, são como as entranhas da cidade. Tão diversa em seus contrastes e ouvem cada um dos meus pensamentos que nascem do quase silêncio, enquanto ouço “Smile”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/08/2008.

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CÉSAR, O ACADÊMICO – Diário do Nordeste

Há uma falsa ideia sobre as academias de letras. Alguns pensam que elas são meros repositórios de pessoas que se comprazem em convescotes e não têm consequência ou sintonia com as carências culturais do povo. São, via de regra, criticadas por quem não as conhece, tal como na fábula de Esopo, “A Raposa e as Uvas”. Poetas, cronistas, articulistas, romancistas, ensaístas e todos os que escrevem precisam do olhar alheio, de reconhecimento. As academias têm como objetivo o crescimento cultural, mas são, exceção feita à Brasileira de Letras, carentes de recursos e de modernidade de gestão. Historicamente,elas remontam ao Século IV antes de Cristo, mas só foram consolidadas na era moderna, com a Academia Francesa criada em 1635, pelo Cardeal Richelieu, à época do rei Luiz XIII. Em Portugal, foram criadas academias no século XVII: a dos Generosos, em 1647, e a dos Singulares, em 1663, ambas logo fechadas. Depois, vieram outras, mas a Academia Real das Ciências de Lisboa só foi criada em 1779 e perdura até hoje. Aqui no Brasil-Colônia, criou-se na Bahia, em 1724, a Academia Brasílica dos Esquecidos, que reunia intelectuais excluídos pela pátria-mãe. No Rio, em 1736, surgiu a Academia dos Felizes, e a dos Seletos, em 1752. Alvarenga Peixoto e Basílio da Gama fundaram, em 1769, a Arcádia Ultramarina. A Academia Cearense de Letras foi a primeira a ser criada no Brasil, em 1894. Três anos depois, em 1897, nas pessoas de intelectuais como Machado de Assis, José Veríssimo e Rui Barbosa, surge a Academia Brasileira de Letras, como uma reprodução da Academia Francesa. Aqui no Ceará, 114 anos após sua fundação, a Academia Cearense de Letras dá um passo para o futuro com a posse nesta última sexta-feira do Acadêmico César Rocha. Capaz, crítico e cioso do nome que representa na magistratura brasileira, nunca descuidou de sua essência cultural. Ele, não só por seu saber jurídico, livros escritos e os múltiplos títulos, mas pela sensibilidade dos seus guardados que estão vindo à tona e musicados- virando até tema de novela- mostra que M. Yourcenar tem razão quando diz: “Existe mais de uma cultura, e todas são necessárias para o mundo; é bom que elas se alternem.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/08/2008.

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HILDEBRANDO ESPINOLA – Jornal O Estado

Corriam os anos sessenta. A Escola de Administração do Ceará havia sido fundada, fruto de um arranjo que contemplava políticos com ou sem mandatos como professores e que, em contrapartida, tiveram a sabedoria de escolher alguns nomes de intelectuais de proa para também compor o seu quadro docente. A Escola era apenas agregada à Universidade. Não tinha sede, orçamento, fora praticamente expulsa das salas que ocupava na Faculdade de Ciências Econômicas, no Benfica. Uma casa alugada e adaptada na esquina da Av. Duque de Caxias com a Rua Sólon Pinheiro, em frente ao Colégio Cearense, passou a ser a sua primeira sede efetiva. Foi nesse local, em salas sem ar condicionado, chão de cimento, que conheci Hildebrando Torres Espínola. Ele era jornalista, procurador do IPASE e fora escolhido para ensinar Sociologia. Abro um parêntese para dizer que eu, ao mesmo tempo, fazia direito na UFC e já tivera professores do quilate de Heribaldo Costa e Paulo Bonavides na área de filosofia e da ciência política; e fora aluno atento de Parsifal Barroso em Política Social Qual não foi a minha surpresa ao começar a presenciar as aulas de Hildebrando, esse paraibano alto, bem apessoado, galante, que havia começado a vida como Juiz Municipal na cidade de Taperoá, na Paraíba, em 1947. Deixou a Paraíba, veio trazer seus livros e cabeça inquieta para constituir família, ilustrar a procuradoria do IPASE, o então Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado e que, por formação ideológica e cultural, sedimentara conhecimentos na área da Sociologia. Suas aulas eram um espetáculo, pelo conteúdo, gesticulação forte e sua linguagem que misturava o erudito do conhecimento ao colóquio do grande conversador e “causeur” que sempre foi. Nossa turma era inquieta, diversos olhares para a história e o mundo, e tinha nomes como Barros Pinho, Gerard Boris, Josino Lobo, Ieda Meira, Ivo Martins, Galvão Filho, Lázaro Farias, José Maria Melo, Cláudio Teófilo, Heloisa Barros Leal, Nilce Freire e outros. A todos, Hildebrando dava atenção especial e criava vínculos especiais com alguns que se transformaram em admiradores e amigos. Desse tempo, entre tantos outros episódios e casos, houve um de colega que ficou em recuperação em Sociologia. A Sociologia tem, por exemplo, indagações como a que faz o filósofo Descartes: “O que sou, afinal? Uma coisa que pensa. E o que é uma coisa que pensa?”. Esse colega – pensava raso – não captava a essência da sociologia Ralou, estudou e na prova oral – havia isso naquele tempo – foi uma nulidade. Hildebrando coçou a cabeça e disse, entre sério e maroto: “Vou aprová-lo como punição aos meus colegas professores do próximo ano, não aguento mais sua parvice.” Hoje, passados 07 dias de sua morte, lembro da figura final de Hildebrando, aquietada, ouvidos moucos à liturgia católica celebrada em seu velório, coroas e flores em profusão, cercado pelo carinho de filhos, netos, parentes, colegas, amigos, admiradores e alguns ex-alunos que estavam lá. Hildebrando.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2008.

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OLÍMPIADAS E O JOGO – Diário do Nordeste

Estava eu, ao lado de um amigo, quando um vendedor de loterias da Caixa ofereceu bilhetes. O amigo sonha ficar rico. A partir de então, procurei saber o quanto se joga nas dez loterias bancadas pela Caixa: Mega-sena, Lotofácil, Quina, Lotomania, Dupla-sena, Federal, Timemania, Instantânea, Loteca e Lotogol. Só no primeiro semestre deste ano, foram arrecadados R$ 2,53 bilhões de reais com jogos federais. Verifiquei ainda que para a Mega-sena, a probabilidade de alguém ganhar é de uma para 50 milhões. A psicóloga Vera Ferreira, da PUC-SP, diz que “a aposta se fundamenta na crença infundada de que a pessoa vai ganhar o prêmio. Ela não sabe nem quer saber que tem apenas uma chance em 50 milhões”. Nessa história, não fica claro quanto a Caixa paga e lucra com cada uma desses jogos. Sabe-se que parte(qual?) do dinheiro é pago aos Comitês Pára(deficientes) e Olímpico, ao Ministério dos Esportes, ao INSS, ao Programa de bolsas para universidades particulares, ao Fundo Nacional de Cultura e ao Fundo Penitenciário. Mas, com quais critérios? Quem os fiscaliza? Quanto sobra cada semana? Fiquemos apenas, por ora, com o que foi para o Comitê Olímpico Brasileiro que levou para a China, além dos atletas, 200 ‘não-atletas’, eufemismo para aqueles da `patota’. E como as televisões vendem anúncios caríssimos, fica essa patriotada no registro de ‘heroicas’ perdas e glória por choradas medalhas. Em 2004, em Atenas, ficamos em 16º. lugar, com apenas 10 medalhas, atrás de países como Cuba, Ucrânia, Hungria e Romênia. Qualquer pessoa sabe que esses países não gastam um décimo do que o Brasil. Por outro lado, além dos gastos que saem das loterias jogadas pelos pobres e a classe média, há ainda patrocinadores públicos, como a própria Caixa e a Petrobrás, e privados. É dinheiro muito. Creio que ninguém lembrará de pedir, após o provável fracasso brasileiro nas Olimpíadas, uma CPI para saber as origens e uso dessa dinheirama que escoa pelos ralos do citado Comitê ou de questionar suor dos que apenas viajam a passeio, pois poucos são os atletas que, de verdade, trazem algumas medalhas para o Brasil. Ia esquecendo: 2016 pode ser o ano das Olimpíadas no Rio. Bota dinheiro nisso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2008.

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PALAVRAS SINGULARES – Jornal O Estado

Márcio Catunda é um duplo, sempre. Advogado e diplomata. Cearense e cidadão do mundo. Poeta e ensaísta. Prefere o Catunda, que adotou desde sempre, ao Ferreira Gomes, que omite e não se vale da notoriedade de outros para acoplá-lo de fato, pois de direito já o é. Ao mesmo tempo em que tirava de letra o curso de bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, dava rumo à sua nau poética aportando em grupos culturais e fazia-se presente aos “points” que a cidade abrigava sem medo de, àquela época, ser contracultura ao ouvir vozes roufenhas de poetas e cantantes.
Inquieto, optou, logo em seguida, pela carreira diplomática e o fez com êxito. Agora, após ter velejado por mares e malas diplomáticas do Peru, de Mario Vargas Llosa, da Suíça de Herman Hesse, da Bulgária de Julia Kristeva e de Portugal, de tantos, que só nos bastam Camões e Pessoa, ele volta, com suas diopitrias, como sempre, à cidade que o preparou para a vida. E vem de livro em punho e pronto. Capa verde como a esperança, retrato fotoshopeado (valha-me Deus pelo neologismo) e em 195 páginas diz palavras, não as singulares do título, mas com a energia do tiete que se aproxima de gurus, a sensibilidade do poeta que é e de uma espécie de “realpotilik”, de um novo tipo de ensaio.
E o faz nestas “Palavras Singulares”, em que se divide entre o lirismo etílico do poeta Vinicius de Moraes, seu duplo colega, pois ambos vadeiam pelas metáforas e nas aléias atemporais da Casa de Rio Branco, o Itamaraty; Cid Carvalho, múltiplo duplo, pois poeta e político, radialista e professor, espírita e bibliófilo, acadêmico e criador de passarinhos, por toda a vida e; Mário Gomes, essa figura que todos veem e poucos o sentem em sua educação deseducada, no paletó amarfanhado como o seu rosto em um constante esgar a espreitar lugares, pessoas e acontecimentos.
Como já disse e repito: nada tenho de crítico literário, tampouco de resenhista, mas resta-me a condição intransferível e inalienável de ledor ou leitor. E nessa condição percorri e percebi com os olhos reais e os da alma o encanto que Vinicius e pessoas de Fortaleza exercem sobre Márcio Catunda. Ele reata também os laços afrouxados com a cidade tão cantada, festejada e hoje tão sofrida, a mercê de uma desenfreada prostituição genérica a céu aberto contemplada e sempre à espera de milagres em uma próxima eleição. Como fala o próprio Márcio: “Eu canto o advento do novo mundo e da nova era, mas não tenho a pretensão de ser profeta”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2008

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PAI – Diário do Nordeste

Hoje, dia dos pais, como lembro do meu. Ele foi um vencedor, na sua maneira simples de viver, sem certificado de santidade, cheio de defeitos e pleno de talentos. Resolvia quaisquer quebra-cabeças com facilidade. Estudou por anos em seminário franciscano de onde saiu para o mundo real. Fez um pouco de tudo. Foi ‘intérprete’ de gringos à época da Segunda Guerra e se orgulhava de ser autodidata em inglês, tendo aprendido pelo método de, se lembro bem, um tal de Neif Antony Allen. Educou, junto com a guerreira da minha mãe, nove filhos, em escolas particulares, e se orgulhava de todos terem formação superior. Teve empresa de táxis, pilotava aviões, praticava jiu-jitsu, fundou indústria de sabão – que nunca deu certo – e criou uma metalúrgica que hoje é de irmãos. Foi presidente de clube de futebol, criava cavalos, puro-sangue, ingleses que corriam no Jockey Club, do qual era diretor. Meteu-se em política, tendo sido vereador e secretário de serviços urbanos que, à época, administrava quase a totalidade dos serviços prestados à cidade. Foi escolhido, sem picaretagem, mais de uma vez, secretário do ano, o que não o impedia de criar canários e campinas. Quis ser candidato a deputado e eu disse – como filho mais velho e intérprete da família – que deixasse a política e voltasse à rédea de seus negócios. Aceitou, resmungando. Passou a ler mais romances policiais e a cozinhar peixes e crustáceos aos fins de semana. Fumante inveterado, na década de oitenta seu coração andou fraquejando para tristeza de seus nove filhos, espalhados pelo Brasil, Estados Unidos e Europa. Pedi que fizesse um cateterismo. Fincou pé e não o fez. Queria morrer inteiro, dizia. Parou de fumar, sem deixar de beber socialmente, e viveu até aos 70 anos quando, ao fechar o portão de sua casa em um fim de tarde de sábado, teve um infarto fulminante e morreu nos braços de minha mãe, com quem viveu 50 anos de dores e amores. Hoje, se vivo fosse, receberia abraços e carinhos de seus filhos e telefonemas de netos de múltiplas profissões, tais como, médico, psicólogo, administrador, advogado, arquiteto, tradutor, analista, empresário, espalhados pelo Brasil, Espanha e Alemanha. Pai.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/08/2008