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A QUEDA – Jornal O Estado

Estava no parque. Como de costume. Ninguém a notava. Poucos sabiam dela. Só quando vinha a crise é que os olhos da indiferença transformavam-se em piedade. E o medo de contágio fazia brotar o olhar sadio ou sádico dos outros. Tudo era sentido. Os prenúncios, o turbamento da vista, olhos revirando e o agito da convulsão. Agora, sentada ao chão, vendo a sombra da árvore brincar com os seus pés, sentia-se livre. Sabia que não viria o ataque. Era, naquela hora, tão sadia quanto o tronco em que escorava as costas. Respirou fundo e uma folha caiu em seu regaço, como uma mão invisível e sensível entre seus seios de virgem.
Do outro lado do parque passava um homem de bicicleta. Era o Zé, aquele faz tudo que já desentupira a pia da cozinha e assentara o banco no jardim. Ele ia direto à vila de casas de aluguel do pai de Maria. No bagageiro, a bolsa entreaberta mostrava o cabo de uma colher de pedreiro. Zé não viu a pedra que fez a bicicleta derrubá-lo. Ela, rápida, correu. Zé já se recompunha, com um filete de sangue na boca. Maria rasgou a barra da saia e comprimiu o ferimento. Zé, calado, respirava calmo e punha os olhos na filha do patrão. Levantou a bicicleta, juntos os trecos da bolsa e o mais que disse foi: obrigado.
Um dia, o patrão, já viúvo, morreu. Não se atreveu a ir ao enterro, mas ficou do outro lado da rua e viu quando Maria saiu sozinha, chorando. E foi então que correu a notícia: Maria viria morar entre eles. Zé ajudou na mudança: uma velha penteadeira, cadeiras, mesa, máquina de costura, mala, geladeira e o retrato do casamento dos pais. Maria sorriu, agradecida. Zé sorriu amarelo e pintou a casa de rosa, colocou telhas de vidro no teto e viu o sol sobre os mosaicos encardidos que lavou e poliu com esmero. E Maria pegou dos pincéis e pintou uma árvore. E o sorriso amarelo dele fez-se de todas as cores. Um dia, viu Maria desfalecer, tremendo. Ajoelhou-se, colocou sua cabeça ao colo, limpou a espuma de sua boca e a abraçou com carinho, protegendo-a. Os estertores foram parando. Maria dormia e ele sorria. Era a felicidade em seus braços.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/08/2008

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O COELHO E O MORAIS – Diário do Nordeste

Existe, há algum tempo, um filão na literatura brasileira. Descobriu-se que boas biografias são ótimas, financeiramente, para seus autores. Não estou falando de autobiografia ou das biografias feitas para familiares e amigos, mas as encomendadas por pessoas públicas que estão no imaginário coletivo dos que leem livros no Brasil. No momento, há dois autores de biografias em voga: Ruy Castro e Fernando Morais. Eles trabalham como em linha de montagem, tais como os autores de best-sellers internacionais. Explico: formam equipe e designam jovens talentos ou estagiários para coletar dados sobre cidades, fatos e costumes de época, fotos, escritos, idiossincrasias e pesquisar relações de parentesco e amizade da pessoa biografada. A partir do material coletado passam a acompanhar a pessoa, se viva, em seu habitat natural. Fazem viagens juntos, decodificam seus hábitos e reúnem – em gravação – centenas de horas de conversa. Um exemplo disso é Fernando Morais. Agora mesmo, acaba de lançar o livro ´O Mago´, biografia de Paulo Coelho, esse polêmico escritor que, integrando a Academia Brasileira de Letras, vendeu milhões de exemplares em todo o mundo e enriqueceu, apesar de não ser aceito por parte dos intelectuais brasileiros que o veem até como plagiário. Isso é outra história. Não vou comentar aqui a biografia, apenas observar que a linha de montagem de Morais precisa ser melhor cuidada. Um detalhe: no intuito de procurar ancestrais nobres de Coelho, descobre o cearense João Araripe Júnior, seu avô materno. Daí para frente começa o delírio de Morais. Diz que ´pelo cipoal dos Araripe Alencar, sobrenome da mãe, poderia se fartar, sem arredar pé da própria família, com o manancial de personagens perfeitamente adequados a seus livros – heróis ou vilões, à escolha do autor´. Logo abaixo, enumera ´parentes´ de Paulo Coelho. Vejam alguns citados: Bárbara de Alencar, José de Alencar, Rachel de Queiroz, Humberto Castelo Branco e Miguel Arraes. Do delírio passa ao cochilo: fala em Araripe Alencar e, em seguida, trata a mesma família de Alencar Araripe. Resumo da ópera: O Coelho e o Morais estão no mesmo compasso.

JOÃO SOARES NETO,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2008

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PARTIDOS E CANDIDATOS – Diário do Nordeste

Ficaria feliz se partidos, coligações e candidatos a prefeito(a) e a vereador(a) lessem o que tento mostrar, como fortalezense, de pesquisa recente divulgada pelo IBGE. Trata-se do diagnóstico Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2008 (IDS 2008). Recortem e discutam. A pesquisa baseou-se em 60 indicadores e demonstra desigualdades sociais, a errada distribuição de renda e os graves entraves em face de infraestrutura deficiente, péssimo atendimento ou carência nas áreas de saúde, educação e moradias nas 200 maiores cidades do Brasil.
Vou centrar o foco em Fortaleza. Os dados são de 2005. Fortaleza tinha então 2.374.944 habitantes e era a 5ª mais populosa do País. Esses habitantes geravam um PIB (Produto Interno Bruto, soma dos bens e serviços finais dividido pelo número de pessoas) de quase 20 bilhões de reais. O PIB a fazia descer para o 12º lugar entre as 200. Em seguida, o IBGE faz a análise do Índice de Desenvolvimento Humano, IDH, um identificador comparativo de alfabetização, educação, expectativa de vida, a soma das riquezas, natalidade etc. Ele é adotado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-PNDU. Pois bem, considerando esses fatores, Fortaleza cai agora para o 148º lugar com um IDH de 0,717(a variação é de 0,0 a 1.0) o que a classifica como de qualidade de vida média. Entretanto, como é estatística, esse dado é falso, pois a distribuição de renda não se faz pela simples divisão aritmética da riqueza. Há alguns ricos, razoável classe média, bastante pobres e muitos miseráveis.
Para se saber melhor qual a renda ou PIB por pessoa (per capita) é preciso dividir o total do PIB pela quantidade de habitantes. Nesse aspecto, Fortaleza ainda cai mais, fica no 166º lugar. Então, essa é a realidade de Fortaleza. Nada de 5ª cidade, mas vergonhosa qualificação nos índices que valem. O restante é conversa fiada e o povo parece estar se cansando de blá, blá, blá. A hora é de mostrar soluções competentes, sem milagres de Photoshop nos programas de televisão e nos comícios ilusionistas. Voto é vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/07/2008.

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ESCRITOR, HOJE – Jornal O Estado

Escrevo em jornal desde meninote, 1962. O primo Pedro Henrique Saraiva Leão viajara e eu o substituí em “Informes Acadêmicos”, coluna diária do Correio do Ceará. Efetivei-me, em seguida. Depois, no mesmo jornal, passei a escrever –diariamente- por anos sobre “Administração e Negócios”. Daí até hoje, mesmo tendo que lutar para construir uma vida profissional como administrador de empresa, nunca abandonei a escrita. E o faço com amor, pois é preciso ir aprendendo a escrever, semear pensamentos, divulgar ideias, mostrar múltiplas visões de mundo, criticar, falar sobre livros/pessoas e interagir com os leitores. Não fico apenas no deleite da crônica, resvalo para artigos em que assumo posições, cobro posturas e aponto saídas para problemas concretos do povo e dos lugares. Hoje, na quase maturidade da vida, fico feliz em escrever, regular e semanalmente, para dois jornais impressos, neste O Estado e no Diário do Nordeste, aos domingos, e em dois renomados jornais eletrônicos nacionais: Carta Maior e Amigos do Livro.
Tudo isso foi relatado apenas para dizer que hoje, 25 de julho, é o Dia do Escritor. E por conta deste dia festivo é que homenageio alguns brasileiros que considero grandes escritores. O primeiro deles, Machado de Assis, o maior de todos, e nem precisa comentar. Em seguida, viriam os cearenses José de Alencar, político e referência da então emergente literatura brasileira, e Capistrano de Abreu. Este, apesar de ser um Historiador, escrevia cartas fabulosas. Fico, depois, com Monteiro Lobato, não só o escritor lembrado por “Sitio do Pica Pau Amarelo”, para crianças, mas o empresário destemido que até foi preso pela Ditadura de Vargas e o homem que se desnudou em “A Barca de Gleyre.” Daria para esquecer de Adolfo Caminha, moço que desafiou a sociedade burguesa de Fortaleza, brigou com a Marinha e assumiu um amor dito impossível? E o partinte José Alcides Pinto, santo e maldito, que escrevia bem para ele e por outros? Como não lembrar de Jorge Amado, com o seu erotismo à flor da pele?; do jeito gaúcho e belo de Érico Veríssimo construir romances?; da absoluta irreverência de Nelson Rodrigues?; e das dores e sentimentos de Clarice Lispector? E há tantos outros.
Aqui no Ceará atual, acima de quaisquer suspeitas, entre muitas escritoras, além, é claro, de Rachel de Queiroz, cito: Natércia Campos, Ângela Gutiérrez e a límpida e profunda Ana Miranda que acaba de ser laureada com a Sereia de Ouro. Dos homens vivos, não falo. São amigos ciumentos e os não citados me esganariam na primeira vez que me encontrassem nas ruas do Rosário e Dom Joaquim. Para terminar, com um pouco de pseudo erudição, cito Albert Camus, escritor argelino, que alguns pensam francês: “Aqueles que escrevem de modo claro têm leitores; aqueles que escrevem de modo escuro têm comentaristas”. Ou ainda, o americano Don Marquis, que dizia: “Se quiserdes enriquecer escrevendo, escreve o tipo de livros lidos por pessoas que movem os lábios quando leem para si mesmos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/07/2008.

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AMIZADE E AMIGOS – Diário do Nordeste

Porque hoje é o Dia do Amigo e o Dia Internacional da Amizade é que procuro na minha já não tão breve vida uns poucos amigos a quem, por exemplo, possa recorrer em caso de necessidade. E incluo, de saída, os meus irmãos, cheios de defeitos, mas com a capacidade de chegar junto quando é preciso. Em seguida, alguns vindo quase todos do século passado, e me conheceram no colégio, nas universidades, no trabalho, em meios a livros, comidas e copos, nas viagens e foram, como se fossem um precioso néctar, depurando até estar hoje no ponto. E esses amigos sabem, mesmo sem nomeá-los, que podem contar comigo. Não a amizade espalhafatosa, a história do amigo-irmão, nada disso. Eles são amigos sem adjetivação. São os que nos veem tal como somos e não projetam as suas carências, frustrações e desenganos. Independente da conta bancária, status social e de quaisquer tipos de importância. Faz tempo, muito tempo, o amigo Tancredo Carvalho recebeu um telefonema meu. Eu o convidava para almoçar. No seu jeito brincalhão, ele respondeu: logo hoje quando deixei de ser importante (ele havia deixado um elevado cargo público). E fomos jogar conversa fora – o almoço era apenas um pretexto – e ele me questionou: por que você não me procurou quando eu trabalhava no Palácio? Falei que lá iam os que tinham interesses e eu passo ao largo dessa ideia. E estive com ele até o dia em que se encantou e, depois disso, continuo amigo de sua família. Este único exemplo é para dizer do elevado grau de estima aos amigos que sabem do nosso jeito singular de humor e do exercício bilateral de uma espécie de curatela para reclamar de excessos pessoais e, em contrapartida, aceitar críticas e reparos. Esses entes queridos, homens e mulheres, estão espalhados por vários lugares, neste Brasil e outros continentes. E a distância, ainda bem, pode ser suprida com ocasionais visitas, e-mails, telefonemas e, sobretudo, a certeza de que eles fazem parte da nossa vida. Assim, olho no retrovisor e vejo que o tempo não devorou amigos, apenas escoimou o joio do trigo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2008.

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NÓS E A INTERNET – Jornal O Estado

Aprendi a mexer em computador meio sem jeito. Fiz um curso há muito tempo na IBM. Era em uma sala gelada e o computador, imenso. O formal professor usava o inglês-ferramenta e a linguagem era Cobol. Sai mais tonto que entrei, porém ficou alguma coisa. Comprei um micro – que ainda era grande – e fui mexendo aqui e ali, mais errando que acertando. O tempo passou, vieram novos computadores e as limitações diminuiram. Hoje sou ainda um mero usuário, sem método e sem fundamentação teórica (agora, tudo tem que se basear “em fundamentos”, o que também não sei bem o que significa). Como não tenho outro jeito, vou fazendo, errando e tentando aprender. Tenho até uma assistente de sobreaviso, rápida e preparada, a quebrar os meus galhos – e de amigos – quando o computador para e parece dizer que não sou inteligente. Ligo, ela vem e resolve, na maioria das vezes. E ainda diz: só isso? Pois bem, de tanto mexer, pesquisar, catar ensaios, livros e que tais, convivo com a Internet e o Google, o “buscador” que responde tudo ou quase tudo, mas dá também informações furadas. Se não sei, por exemplo, sobre Chopin, escrevo a palavra e mando procurar. É aí surge o problema: tudo o que é Chopin aparece. Assim é preciso refinar a pesquisa, dizer qual Chopin e eu escrevo Frederic – sem acentos – Chopin, pois ele não trabalha com acentos nas palavras. Brevemente, sim. Enquanto isso, não coloco til, cedilha, circunflexo ou qualquer tipo de acento. O que estou dizendo é o básico, óbvio. Voltando à pesquisa: procuro o que desejo de Frédéric Chopin, o compositor polonês, amigo do pintor Delacroix e de Liszt. Leio e seleciono o que interessa. Assim, não pensem que sei muita coisa. Pesquiso e, às vezes, encontro. Também ocorre de procurar um fato e descobrir outro ou me perder no imenso labirinto. Há, pasmem, bilhões de páginas na Internet. Mas, o que eu queria mesmo dizer é que no próprio Google descobre-se o “google earth”. Earth é terra, em inglês. O “google earth” é um programa que se serve de satélites com recursos para mostrar fotos aéreas de tudo no planeta Terra. É verdade. Tentei e apareceu a cidade onde moro, vista de cima. Tem uma mãozinha que você vai comandando com o “mouse”, e ela lhe leva para onde você quer. Pois não é que vi onde trabalho e moro e até os calçadões das praias. A propósito, li há algum tempo, que as tecnologias para exploração das profundezas da internet são consideradas questões e ferramentas de Estado. Paranoia ou medo? Valha-nos Deus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/07/2008.

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NÓS E AS ELEIÇOES – Diário do Nordeste

Imagino que você tem mais de 16 anos. Se é esse o caso, tem um compromisso no dia 5 de outubro. Escolherá – entre muitos candidatos – dois nomes: um para prefeito, outro para vereador. Imagino ainda que não seja filiado a nenhum partido e que não acredite em político. Vota porque é obrigado, mas não está nem aí. Se é esse o seu perfil, reflita. Sabe o que é um prefeito? O que faz um vereador? Se não, procure saber. Mas não será nos programas políticos, no rádio e TV, que terão início em 19 de agosto, o local ideal para aprender. Tente formar um grupo. Seja de família, trabalho, amigos, igreja ou clube. Consiga material para ler. Procure em bibliotecas, fóruns, Tribunal Regional Eleitoral, escolas, universidades, igrejas e sindicatos. Descubra, primeiramente, que o (a) prefeito (a) é uma pessoa como você, pois escolhida com o seu voto e, sem ele, não seria eleita. O (a) prefeito (a) é um servidor público com tarefas e metas a cumprir em quatro anos. Você é que o (a) fará importante, se o desejar. E essa importância é estabelecida por leis que definem suas ações como gestor da cidade onde você vive, anda, como estão as ruas, praças, parques e jardins e o atendimento médico nos postos de saúde e hospitais. O prefeito tem outras responsabilidades. Por exemplo, é de sua competência propor e gerir orçamentos, definir prioridade de obras, realizar licitações e concursos e representar a cidade com honestidade, equilíbrio, capacidade e descortino. Enfim, é como se fosse o gerente de uma empresa pública cujos donos somos nós, eleitores. Mas, ele (a) também é político (a), precisa conviver com a Câmara de Vereadores e ter maioria para aprovar projetos. Aí é aonde atua o vereador, uma espécie de deputado municipal, que tem por objetivo principal formular leis e fiscalizar as ações da cidade. Infelizmente há vereadores que passam os 04 anos dando títulos e propondo votos de louvor ou pesar a pessoas e nada fazem de concreto. Comece a pensar um pouco em sua cidade, saber quem são os candidatos, suas histórias pessoais e políticas, onde vivem, o que prometem e se cumprem. Não adianta reclamar depois. A hora é agora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/07/2008.

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VIOLÊNCIA E SEGURANÇA – Diário do Nordeste

Estamos estarrecidos com a incapacidade dos órgãos policiais de coibir ações e atentados à segurança das pessoas. Assistimos acuados e impotentes a crimes cada vez mais ousados. As cidades brasileiras estão loteadas pela marginalidade. E é pena se misturar marginalidade com pobreza. A pobreza é uma situação de risco, que não leva, necessariamente, à marginalidade. O próprio Presidente da República é exemplo disso. Filho de retirante, mãe abandonada pelo marido, muitos irmãos e deu certo. Trabalhou, tornou-se sindicalista e é hoje quem é. Assim, não há como aceitar ou atenuar ações de marginais que se dizem pobres e se arvoram em “donos” de áreas físicas das cidades, fecham o comércio, roubam, matam, vendem drogas, sequestram e até são conhecidos da polícia. São conhecidos, sim. “Esse é o território do fulano”, “aquele é de sicrano” e por aí vai. Algumas televisões, concessionárias do poder público, têm programação de baixo nível, entrevistando delinquentes, ouvindo pais descontrolados pela morte de filhos e ninguém toma providência. “Não é comigo”, dizem uns. “Acho é pouco, dizem outros.” Enquanto isso, pessoas e famílias são submetidas a constrangimentos, humilhações e extorsões por assaltos em prédios, em engarrafamentos por “flanelinhas”, roubos de veículos e sequestros. Os bandidos são articulados e citados por policiais que não os prendem. Até quando se vai conviver com a insegurança a amedrontar e maltratar a coletividade? O país cresce, há empregos. Indústria, comércio, serviços e a construção civil voltam a ocupar mão-de-obra com pouca ou nenhuma escolaridade. Organizações sociais, entidades e empresas trabalham, de verdade, em projetos de inclusão social, mas, paralelo a isso, a marginalidade sobe e a polícia não dá cabo dos delitos. Ninguém sabe o que se gasta no Brasil com segurança privada. Estimam em 10 bilhões R$/ano. Esses fatos mostram que a segurança pública deve ser prioridade, além da verborréia. Na prática e de fato. E, mais que toque de sirenes, é preciso que a polícia se ajuste ao novo modelo da sociedade brasileira que, de forma pacífica, paga tributos de primeiro mundo e recebe tratamento de terceiro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2008.

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AMOR FALADO – Jornal O Estado

Não gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos próximos. Próximos, mas não tanto que possam saber ou sentir a intensidade – ou não – dos que procuram amar ou têm o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interferências, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidadão do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declarações de amor são “constatativas” ou “performativas”. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: “digo que amo porque constato que amo”. As performativas seriam quando “acabo amando à força de dizer que amo”. É o eco do que digo fazendo morada por repetição. Contardo não fica no muro, prefere o amor que não fala e não aceita o que chama de “verborragia amorosa”, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos múltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de relações que nos envolvem e essa singularidade, no geral, não é conhecida na essência pelos outros e somos vistos como uma ‘persona’ que não somos. Assim, também faço fé no amor silencioso ou sem palavras, porém com atitudes, gestos, linguagem de corpo e sentimento. Tem mais consistência e faz mais sentido que o amor-show, mãos dadas em público, aparições performáticas ou aquele baseado no olhar do outro sobre o que na verdade não somos. Nós, primeira pessoa do plural, pode ser apenas o eu e o tu, mas pode ser também o eu, o tu e muitos outros. Deste modo, para acertar o passo afetivo é preciso apenas duas pessoas, o eu e o tu ou você. Os demais são coadjuvantes e acessórios, inclusive ascendentes, descendentes e amigos. Daí, sempre é bom ouvir o que autores consagrados disseram sobre o amor. Não importa que tenham ou não sido bons amantes. Procuraram entender esta pequena palavra – em todas as línguas – de tantos significados. Balzac dizia que “o amor não passa de uma fome, de uma sede, embelezada por nossa imaginação”. Wertheimer contava que “o amor, para durar, exige incertezas”. Shakespeare era duro: “o amor é um desperdício de alma num deserto de vergonha” e Cervantes revelava: “muito te ama quem te faz chorar”. Eu, (des)aprendiz de amor, digo que palavras têm pouco peso. Ações, gestos, os olhos, o cuidado, a consequência dos atos, venturas a dois e a aceitação das falhas mútuas, são os insumos básicos do amor.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2008.

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A BOSSA DO JOÃO – Diário do Nordeste

Imagine uma pequena cidade baiana na margem direita do Rio São Francisco no ano de 1931. Tinha curso o governo provisório de Vargas e Juazeiro, isolada, energia precária, olhava para Petrolina, Pernambuco, na outra margem do rio. Ainda não havia sido feita a ponte que as ligaria, no Governo Dutra. Ali, em 10 de junho de 1931, nos braços de uma parteira, nasceu João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, menino comum. Aos 14 anos ganha um violão e a vida muda. A cidade fica pequena e se larga aos 18 para Salvador onde conhece Dorival Caymmi. Agitado, dali vai para o Rio, participa da banda ‘Garotos da Lua’, é excluído por desobediência e por não gostar dos ritmos tocados. Conhece, anos depois, Tom Jobim, pianista clássico que tem profunda admiração pelo Jazz e a história de sua vida vira para sempre. Surge, ali entre Copacabana e Ipanema, o seu primeiro disco, ‘Chega de Saudade’, fins dos anos 50. O restante todos conhecem, pois João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lyra e alguns mais modificaram a forma de tocar o samba, tornando-o uma mistura de ritmo sincopado da percussão mais simplificada e, paradoxalmente, mais sofisticada. Desde então, João Gilberto é o monstro sagrado da Bossa Nova e suas excentricidades o fazem desejado pelo público que aceita as suas exigências nos poucos shows que dá no Brasil e mundo. Assim, aproveitando o ano em que a Bossa Nova completa 50 anos e o mês em que ele faz 77, deu um show agora na principal sala do Carnegie Hall, em New York, reclamando do ar condicionado – tosse várias vezes – e da posição do microfone. Canta 22 músicas, começando com Doralice, passa por Chega de Saudade, Corcovado, Morena Boca de Ouro, Preconceito, O Pato, Caminhos Cruzados, Wave, Rosa Morena, Este seu olhar, Samba do Avião, Lígia, Desafinado. Ao final, homenageia os gringos com a versão de Braguinha da música de Irving Berlin, ‘God Bless América’ e fecha com Garota de Ipanema. É aplaudido de pé pelas duas mil pessoas que lotavam a sala. Para Sérgio Dávila, da Folha-SP: “João Gilberto desafiou o tempo e o vento em sua primeira apresentação no ano em que a Bossa Nova completa 50 anos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2008.