Inédito

ESCREVENDO MICROCONTOS

O conto é um dos gêneros literários que mais me atraem. É claro que gosto de romances, ensaios e poesias. Mas, o conto tem seus encantos. Por ser breve e ter um final, quase sempre, surpreendente, ele agrada e, muitas vezes, choca.. Segundo Alexandre Severino, autor de “The Brazilian Short Stories: Reflections of a Changing Society”, “o conto… com sua capacidade segmentada – a apreensão ilógica e inexplicada do momento atual da verdade – é a forma literária mais apropriada para a descrição da sociedade brasileira contemporânea”. Eu me arriscaria a dizer que não só da sociedade brasileira.
Uma condição do conto é ser curto, mas alguns autores teimam em escrevê-lo longo, quase um romance. A partir dessa premissa de que o conto deve ser curto, resolvi me questionar: e por quê não curtíssimo, um mero parágrafo que reflita um momento, uma história, uma fantasia, uma loucura, um sabor picante ou cáustico?
Passei então a escrever o que chamei de microcontos. Já escrevi quase cem deles. Mostrei ao Juarez Leitão e ao Pedro Henrique Saraiva Leão, intelectuais de carteirinha acadêmica, e eles disseram ter gostado. Julguem vocês.
Como a ideia é nova, é preciso que o leitor leia o microconto (MC) com atenção.
MC01. A música era forte e o som aumentava. Desistiu de matricular-se em uma escola de surdos e foi atropelado pelo carro silencioso.
MC02. O bandido olhou para o corpo morto e coçou a cabeça. Era o seu segundo engano. Precisa usar óculos.
MC03. No escuro do cinema sentiu a mão sobre sua coxa. Continuou olhando firme para a tela. Gostara do imprevisto. No final do filme, outro imprevisto. Era seu marido.
MC04. Lera Machado, Eça, Drummond, Trevisan, Rubião e só lhe perguntavam se conhecia Brida, de Paulo Coelho. Suicidou-se.
MC05. Londres, meia noite. Olhou para o Big Ben e viu a Lady Diana pendurada nos ponteiros do relógio e as badaladas não soaram. Meia noite e um minuto.
MC06. Subiu a escada do avião rezando. Sentou, afivelou o cinto, tomou o calmante e dormiu. Sonhou que estava dormindo e nunca mais acordou.
MC07. Era engenheiro de decisões concretas. Resolveria todas as dívidas. Caiu no caminhão betoneira. A viúva recebeu o seguro, não pagou as dívidas e casou com o dono da betoneira.
MC08. Aquela vontade no corpo e mulher nenhuma. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos a CUT, estamos em greve.
MC09. Correu atrás do pivete que lhe roubara o relógio. Depois de duas quadras o alcançou. Tomou o relógio, olhou as horas. Devolveu-o ao pivete e saiu correndo. Estava atrasado.
MC10. A mulher lhe obedecia, estava em um spa para emagrecer. Na data marcada, não voltou. Fugiu com um gordo.
MC11. A primeira equipe do FMI que chegou ao hotel foi logo abrindo as agendas e telefonando para as meninas indicadas pelo Ministro. Queriam acertar as contas atrasadas.
MC12. Era um novo rico perfeito. Depois que colocou as dentaduras superior e inferior, passou a usar flúor.
Apreciaria receber comentários dos leitores a respeito dos microcontos (e-mail jsn@planos.com.br).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/1999.

Inédito

NÓS E OS GRUPOS

Assisti há alguns dias a uma entrevista do sociólogo Domenico De Masi concedida ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo. Posteriormente, li uma entrevista do mesmo De Masi à revista Exame. Para concluir, descobri, entre os meus livros, “A Emoção e a Regra”, uma coletânea de ensaios sobre grupos criativos na Europa entre 1850 e 1950, organizado por Domenico De Masi e editado pela José Olympio.
Para quem nunca ouviu falar em Domenico De Masi eu direi que é italiano, 61 anos, sociólogo do trabalho que, além de ser professor universitário em Roma, vive pelo mundo afora a dar palestras. Quem estiver interessado em ideias novas, com um excelente respaldo cultural e estético, é bom conhecer o trabalho de De Masi.
Por ora, para justificar o título do artigo, ficarei apenas no livro “A Emoção e a Regra”, especificamente no ensaio feito por Emma Gori sobre o grupo de Bloomsbury. Nesse ensaio de 40 páginas se pode conhecer o surgimento, o desenvolvimento e o papel transformador de um punhado de pessoas à frente de seu tempo. Desse grupo que se reunia no bairro de Bloomsbury, na cidade de Londres, nos primeiros anos deste século, fazia parte gente de todos os matizes culturais que se reunia pelo prazer de estar junto e, ao mesmo tempo, trocar ideias sobre o que estava acontecendo no mundo.
Virginia Woolf (escritora famosa e mulher de comportamento liberado), Leonard Woolf (editor e marido de Virgínia), Clive Bell (negociante de arte e marido de Vanessa, irmã de Virgínia), Duncan Grant (pintor), Vanessa Bell, Maynard Keynes (economista famoso em todo o mundo) e tantos outros eram os integrantes desse grupo diletante que se reunia sob dois nomes. Um deles era a Sociedade dos Apóstolos(Apostles Society) e outro, pasmem vocês, Sociedade da Meia-noite (Midnight Society) que se reunia às sextas-feiras à meia noite.
Ora, perguntarão vocês, o que é que essa lenga-lenga tem a ver com os dias de hoje e o precioso tempo que gastamos para ler este artigo? Simples. Estou tentando demonstrar que, se há quase um século, pessoas diferentes se reuniam para trocar ideias, essa carência ainda hoje persiste. O corre-corre que nos estressa e o isolamento em nossos trabalhos demonstra a necessidade de nos reunirmos em grupos para deixar que surjam coletivos criativos. Para isso existem os clubes de serviços, as associações de classe, os clubes sociais, as entidades culturais e as científicas. Além dessas organizações formais, existem os grupos informais de amigos (como o de Bloomsbury) das mais diversas profissões e visões que se gratificam em jogar conversa fora. Na realidade, não estão jogando conversa fora, pois cada um relata as suas experiências e fantasias, tornando a discussão rica e proveitosa.
Da minha parte eu faço grande fé em grupos. Sejam formais ou informais. Desde adolescente tenho participado dos mais variados grupos. Atualmente, sou diretor, conselheiro e membro de várias entidades. Além disso, tenho meus grupos informais de amigos. Um deles tem mais de 25 anos.
Permaneço até o instante em que a relação entre os pares é espontânea, instigante e gratificante. Na hora em que a mera obrigatoriedade, a mesmice e a futrica surgem, eu dou um tempo ou saio. Se você faz parte de grupos, meus parabéns. Você está utilizando um antioxidante para o corpo e para a mente. Se você ainda vive isolado, descubra a sua turma. Não se preocupe se alguém ou alguns não gostarem muito de você, isso pode ser prova de que você não é o que eles são. De minha parte, nunca vi uma pessoa que fosse unanimidade ser ou fazer alguma coisa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/1999.

Sem categoria

COMPLICAR OU SIMPLIFICAR?

Vivemos tempos tecnológicos onde tudo é fugaz. O saber de ontem é a ignorância de hoje. Confesso que, muitas vezes, fico intrigado com tantas teorias novas que, logo cedo, viram modismos. Não importa nominá-las para não magoar “facilitadores” e os que ainda permanecem como seus seguidores. Fico intrigado e acrescento, de orelha em pé, quando alguém, de boa fé, me diz que contratou uma consultoria de alto nível para isso e aquilo.
Ora, a primeira indagação é saber se a empresa e os seus dirigentes têm essência para entender e aplicar as novas técnicas que vierem a ser implantadas. Em segundo lugar, é preciso saber quem são e quais as experiências de “alto nível” da consultoria. Já se disse que “especialista é alguém que vem de longe”. Não basta vir de longe, trazer modelos prontos e criticar o que, bem ou mal, está funcionando. É preciso chegar junto e conhecer não só a realidade da empresa, mas as peculiaridades do mercado em que tenta sobreviver.
Vi muitas dessas empresas com problemas sérios depois de reformularem seus métodos, sistemas e processos. Vi dirigentes com as mãos à cabeça sem saber o que fazer com tanto papel, sistemas “on line” e o diabo a quatro, enquanto olhavam bestificados para as modificações no lay-out e mobiliário de suas empresas e descobriam que os problemas financeiros estavam em pior situação do que quando a consultoria chegou. Agora, a consultoria passava a ser mais um problema financeiro.
Será que estou caricaturando ou exagerando? Talvez. Há consultorias boas, mas não são muitas. E as que complicam o simples são as piores. Jack Trout, um americano que entende de administração, escreveu recentemente o livro “O Poder da Simplicidade” (The Power of Simplicity, ed. Mc Graw Hill) que diz, entre coisas, mais ou menos o que venho dizendo há anos.
Segundo ele “é tão difícil ser simples, porque as pessoas têm medo de parecer pouco inteligentes se agirem dessa forma… Nós ficamos impressionados pelas coisas que não conseguimos entender”. Ora bolas, nós não devemos ter medo de ser simples. Caso você não entenda, pergunte, anote, pesquise, estude. Mas, no final faça do seu jeito. Quem dorme com a sua consciência e os seus problemas é você. Você é que paga as suas contas ou, na situação atual, pagará as contas vencidas e a vencer.
O segredo de qualquer negócio é gastar menos do que fatura. A fatura pressupõe um pagamento futuro que, às vezes, custa a vir ou não vem. Gaste pouco, fazendo o máximo. É mágica mesmo e o nome é trabalho duro, parcimônia, simplicidade, modéstia, cuidado com as despesas, sejam grandes ou pequenas e não deslumbrar. Deslumbrou, cuidado.
A outra história dos modismos é “encantar o cliente”. Cliente não é cobra nadja para ouvir música de um encantador de serpentes. Cliente é para ser bem servido, respeitado e tratado com honestidade e atenção. Encantar lembra enfeitiçar que, em linguagem vulgar, pode ser traduzido por picaretagem.
Cuide do dia a dia de sua empresa e pare de inventar. Em resumo, vivendo no Brasil de hoje planejar a longo prazo é como tentar descobrir o nome da futura namorada do Bill Clinton. Nem ele sabe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/04/1999.

Sem categoria

O QUE É SER RICO?

Nos Estados Unidos há pesquisas de todas as naturezas. Há no americano uma preocupação incomum de ter informações. Uma dessas preocupações é esmiuçar a riqueza, sua e a dos outros e definir o que é ser milionário. Convencionou-se que milionária é aquela pessoa que possui, como o próprio nome sugere, um milhão de dólares de patrimônio líquido. Thomas J. Stanley e William D. Danko passaram vinte anos pesquisando a vida dos milionários americanos e, ao final, escreveram o livro “O Milionário Mora ao Lado”, publicado em Português pela Editora Manole.
Sérgio Vilas Boas, no suplemento literário da GM “Fim de Semana” de 21.03.99, fez uma resenha interessante sobre o referido livro e deixa claro que “a obra não se propõe a ensinar como se tornar milionário em dez lições”. Na realidade, o livro pretende analisar o comportamento do que os autores chamam de “milionários de uma geração”. Em outras palavras, pessoas que não herdaram e conseguiram ao longo de suas vidas acumular um patrimônio líquido igual ou superior a um milhão de dólares. Para tanto, formularam “uma equação da riqueza” que consiste em multiplicar a sua idade pela sua renda familiar anual bruta decorrente de todas as fontes, com exceção de heranças. O resultado obtido dívida por dez. Para eles, isso é o patrimônio líquido.
Há no livro uma implicância sutil contra os herdeiros. O que conta é o homem feito por si mesmo (Self-made man). Esses milionários de uma geração constituem apenas três e meio milhões de famílias. Desse total de 3,5 milhões, 95% ou cerca de 3,3 milhões de famílias têm um patrimônio entre um e dez milhões de dólares. Deduz-se que apenas 200 mil famílias americanas têm patrimônio líquido acima de dez milhões de dólares. Esses podem fugir dos padrões analisados.
Um detalhe interessante é que, apesar de não apresentar receita para alguém se tornar milionário, os autores concluíram que ser frugal é um bom caminho. E o que é ser frugal? É ter um estilo de vida simples, sem ostentações em casas, carros, joias e roupas. Nada de mansões ou apartamentos luxuosos, carrões importados, relógios de grife etc. Apesar de saber que revistas e jornais já apresentaram resenhas e trechos do livro, é bom mostrar o que Sérgio Vilas Boas chama de “perfil” do milionário americano:1) idade média: 57 anos;2) um em cada cinco estão aposentados; dois terços – dos que ainda trabalham – são donos do próprio negócio;3) seus negócios, de um modo geral, são considerados comuns ou tediosos;4) 50% de suas mulheres trabalha fora e a outra metade cuida do controle rigoroso do orçamento doméstico; 5) em média possuem um patrimônio líquido de 1,6 milhão de dólares e vivem com menos de 7% da riqueza que possuem; 6) moram em casas hipotecadas com valor médio de 320 mil dólares, compradas em financiamento de longo prazo;7) 80% nunca receberam qualquer tipo de herança; 8) têm poupança acumulada para viver até dez anos sem trabalhar; 9) por serem parcimoniosos e frugais possuem uma renda 6,5 superior a de seus vizinhos (daí a razão do título do livro); 10) 20% não concluíram uma faculdade;11) investem alto na educação dos filhos, de modo a torná-los independentes; 12) aplicam 20% de sua renda bruta anual e geralmente decidem por si mesmos onde e quando investir.
Depois dessa conversa toda sobre milionários é bom refletir no que diz Mark Twain. “A convicção dos ricos de que os pobres são felizes não é menos tola do que a convicção dos pobres de que os ricos são felizes”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/1999.

Sem categoria

A ESTÉTICA DA POBREZA

Com todo respeito aos partidos de esquerda do Brasil, mas, um rapaz rico e inteligente, Walter Salles, pode ter denunciado igualmente, com tanta veemência, a crua pobreza e a violência brasileiras a milhares de pessoas no exterior. Ele fez tal qual ou melhor que sindicalistas, vereadores, deputados e senadores.
A intenção de Walter Salles talvez não fosse essa. Utilizaria a “estética da pobreza” para transformá-la em um filme realista – ou um drama, como se diz nos Estados Unidos – vencedor e candidato a mais prêmios, inclusive ao Oscar 99, em que uma heroína (Fernanda Montenegro) sem caráter (uma macunaíma de saias?) vai, pouco a pouco, procurando uma identidade perdida nos desvãos da vida. Certamente, o desempenho impecável de Vinícius de Oliveira (Josué) faz crescer a atuação de Dora-Fernanda.
Não creio que governantes fiquem alegres com o sucesso de filmes como “Central do Brasil”. O filme é tudo o que se nega nas propagandas oficiais. É claro que se pode dizer que todo filme é uma alegoria.
“Central do Brasil” pode ser visto como um libelo e uma prova visível e risível da decadência do Rio de Janeiro com seus superlotados trens de terceira categoria e da violência urbana (os grupos para-militares que executam pessoas a troco de nada), do desemprego e subemprego, das aposentadorias irrisórias que precisam de complementação (Dora é uma professora aposentada que ganha uns trocados escrevendo cartas para terceiros), do analfabetismo (“a senhora escreve para mim?”), das famílias desgarradas país afora pela fome, do trânsito louco (o acidente que mata a mãe de Josué) e do interior do nordeste com sua pobreza resignada, alimentada pela ignorância, crendices ou uma religiosidade ultrapassada e canhestra.
“Central do Brasil”, antes de ser um filme candidato a dois Oscars, é também uma sequência de diálogos fortes e contundentes, uma “aquarela do Brasil” que se arvora em ser a 8ª economia do mundo apresentando indicadores de qualidade de vida típicos de um país africano com uma apartação social cruel que muitos desejam ver debaixo do tapete.
O tapete é curto e nos coloca, com a velocidade de uma ágil câmera bem posicionada, frente a frente com o que gostaríamos de fazer de conta que não existe. Existe. Está em toda as partes deste imenso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão miserável. Não precisa procurar. Basta sair às ruas de qualquer cidade.
A música de Jacques Morelenbaun é uma espécie de açoite aos nossos ouvidos moucos. Os vilarejos, os grandes vales e descampados da paisagem nordestina são uma constatação da inexistência de qualquer tipo de política fundiária que priorize o homem e o transforme em cidadão.
Não sei se “Central do Brasil” ou Fernanda Montenegro ganharão um
ou dois Oscars. Afinal, “a vida é bela”, há “crianças no paraíso”, todos gostam do “o avô” e “tango” nunca saiu da moda. Como diria Shakespeare, apaixonado ou não por “Elisabeth”, “há muito mais coisas entre o céu e a terra…” Torcer ou não, nada influirá nos “lobbies” e na cabeça dos 5.500 votantes da Academia de Hollywood que podem ter outros padrões culturais e estéticos como referência.
O que todos os que dirigiram, produziram e atuaram em “Central do Brasil” deveriam ganhar, independente da estatueta famosa que é o maior aval para o sucesso financeiro de um filme, diretores e atores, seriam troféus nordestinos feitos à base de mandacaru que serviriam, pelo menos, para espicaçar as consciências dos que tudo prometem e pouco fazem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/03/1999.

Sem categoria

PERDI O EMPREGO. O QUE FAZER?

Todos sabem que estamos vivendo uma época difícil, com elevado índice de desemprego. O que ocorre, então? As pessoas desempregadas, especialmente as que participaram de programas de demissão voluntária, receberam indenizações e, como não tinham muitas alternativas, resolveram partir para pequenos negócios próprios, sem registro de empresa. Some-se a isso as que foram demitidas das empresas privadas. Expandiu-se o que se chama de economia informal.
Com as mudanças da legislação previdenciária, muitos funcionários públicos e de estatais de bom nível, já com tempo de serviço para a aposentadoria, resolveram também deixar seus empregos e ficar recebendo o que têm direito. Grande parte dessas pessoas, depois de um certo tempo, procura voltar ao mercado de trabalho, quer em novos empregos ou montando pequenos negócios. Além das pessoas desempregadas e aposentadas, existem – e são milhões – as que terminaram ou interromperam seus estudos e deixam de ser absorvidas pelo mercado de trabalho, isto é, não se empregam.
Essas pessoas também estão sequiosas para começar suas vidas profissionais. Em outras palavras, todos estão tendo um nível elevado de concorrência, isto sem falar na retração em face da crise econômica. Essas considerações são ditas não para desestimular, mas para retratar a situação conjuntural.
Aumentaram, então: mototáxis, taxis, microvans para transporte escolar, alternativo e turismo, vendas de comidas a quilo, frango assado, pequenas confecções, bares e restaurantes, consertos em roupas, carrinhos de lanches, consultorias, prestadores de serviço etc.
É preciso que essas pessoas (maduras ou jovens) que desejam montar ou montam um negócio e, por suas histórias de vida não estão acostumadas a esse trabalho e a obter resultados a médio ou longo prazos, tomem cuidado quanto à pressa. Essa pressa, às vezes, é prejudicial. É elementar que todo negócio para dar certo, além de outras coisas, tem que:
ØSer precedido de uma pesquisa de mercado para verificar o seu potencial
ØFazer benchmarking (sondagem) nas empresas ou pessoas que já atuam no mesmo segmento;
ØDeterminar o quanto se quer obter de resultado e, a partir daí, saber as potencialidades do mercado, o nível de investimento necessário e o tempo em que esse investimento deverá retornar;
ØSaber quais serão os custos fixos (as despesas que existirão independente da receita) e os variáveis (os decorrentes da receita);
ØTer paciência, determinação e coragem para manter o negócio;
ØCriar um diferencial para bem atender a clientela. Em outras palavras, fazer o que disse Ezra Pound: “Do it new”, isto é, faça novo, diferente. Ofereça o que os outros não estão fazendo.
É preciso ainda muita disposição para conversar, analisar, fazer cálculos e o que for necessário. É bom nunca esquecer que “negócio é como andar em uma bicicleta, ou você continua pedalando ou cai”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/03/1999.

Sem categoria

O ATO DE LER

Há dias, participava eu de uma reunião com amigos inteligentes e instigantes, quando surgiu uma suave e agradável discussão sobre livros. Em meio a vários autores e livros citados eclodiu o nome de Carlos Heitor Cony e, consequentemente, o de um livro que, por sinal, ensejou o mote para o artigo da semana passada.
A discussão girava em torno do nome do livro. Enquanto eu sustentava que o livro se chamava “Quase Memória – Quase Romance”, um outro amigo afirmava, de forma veemente, que o título era apenas “Quase Memória” e alegava, em reforço de sua opinião, já ter comprado – e dado de presente – mais de 20 exemplares do citado livro.
Como o livro não estava à mão, as discussões foram ficando acaloradas e ligações telefônicas completadas para livrarias locais. Em todas, a resposta foi contra mim. Pedia-se que lesse a capa e eles, os atendentes das livrarias, diziam: “Carlos Heitor Cony, Quase Memória”. Até a minha secretaria do lar, consultada ao telefone, deu a mesma resposta. Apostamos, de forma simbólica, eu e o amigo, cinco reais cada. Pedimos a outro amigo para servir de juiz. Diplomaticamente, o amigo nos devolveu o dinheiro dizendo que não se tinha chegado a uma conclusão. Na verdade, todos pensavam que eu estava errado. O pior era que eu tinha a convicção de que estava certo.
Liguei novamente para minha casa e pedi que deixassem o livro na portaria. Acompanhado de um amigo, por sinal, um magistrado, passei e recolhi o livro. Estava lá na capa: “Carlos Heitor Cony, Quase Memória, Quase Romance”. O problema estava desvendado e o meu amigo conselheiro, prudente e conciliador, dizia que o fato das duas palavras “Quase – Romance” terem sido escritas em um tipo menor dava a idéia de um subtítulo. Lêdo engano. Fomos para a ficha de catalogação e ficou claro, mais uma vez, que o nome do livro era o que eu dizia. Não são a tipia, a escolha e o tamanho da letra, que determinam o título de qualquer obra literária.
A intenção de Cony era exatamente a de ter um título duplo, usando tamanhos diferentes de letras em uma mesma capa. Coisa tão simples, captada pela bibliotecária que fez a ficha de catalogação. Do ponto de vista da semântica, Cony obedeceu à regra de empregar a letra inicial maiúscula, como bem diz o professor de Português, José Myrson Melo Lima: “Emprega-se a letra inicial maiúscula, entre outros casos, nos nomes de títulos de livros”.
As bibliotecárias, por ofício, são obrigadas a saber ler, para registrar, pelo método de catalogação escolhido, as características do livro ou a sua ficha técnica. “Quase-romance” não é gênero literário. Foi um recurso usado pelo autor para misturar, sem pedir desculpas, a ficção e a não ficção. O gênero literário é romance brasileiro.
Tudo isso por causa de uma discussão pueril, à moda dos saraus literários de antigamente. Ler, para mim é um ato muito importante. Aprendi, desde cedo, a ter esse hábito que, com o passar do tempo, tornou-se quase um vício diário sempre crescente E quem ler por prazer e vício é cioso do que faz. Ler não é só perpassar os olhos sobre um texto, é fixar o seu conteúdo, é entender as linhas e as entrelinhas.
Segundo a enciclopédia Delta Larrouse ler, entre outras coisas, é “Tomar ou dar conhecimento do conteúdo de um escrito; penetrar algo não manifesto”.Dessa forma, ler é um ato solitário, quase sempre, em que se precisa tomar conhecimento. O conhecimento é mais que um simples passar de olhos por uma página. É observar, captar e registrar. Como diria Bertrand Russel: “O conhecimento pode ser comunicado e ensinado, mas não a sabedoria”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/1999.

Sem categoria

AS MULHERES DE TODOS NÓS

Amanhã, dia 08, se comemora mais um Dia Internacional da Mulher. Talvez, por tal razão tenham me ocorrido às reflexões abaixo. Não as fiz, com o propósito de agradar ou desagradar, mas com a intenção de procurar entender o que aconteceu conosco, homens e mulheres neste fim de século. Não necessariamente, o fim dos tempos. Quiçá, um novo.
Nós, os homens nascidos pelo meio deste século, não fomos, culturalmente, acostumados a atender a alma feminina. Víamos, em nossas casas, quase sempre, um pai dominador com direito a tudo. Nossa mãe era, via de regra, submissa. Estudávamos em colégios só para homens, jogávamos futebol, brigávamos de tapa uns com os outros, começávamos a namorar meio amedrontados e nos iniciávamos sexualmente com prostitutas.
O nosso contato mais aberto com as mulheres, como parceiras, começava na universidade ou no trabalho. Jovens, mulheres e homens, não sabiam como lidar um com o outro. Era o princípio de um aprendizado doloroso e, ao mesmo tempo, estimulante. Surgiam os Beatles, acontecia o ano de 1968, eclodia o cenário de Woodstock e o feminismo mostrava a sua cara mais sectária, para se defender de um mundo absolutamente masculino, machista.
Os homens não sabiam como lidar com essa avalanche e reagiam mal. Procuravam uma afirmação e não tinham referências para descobrir a saída. A perpetuação do machismo estava sedimentada no seu inconsciente e não havia, ainda, a consciência de que homens e mulheres são seres complementares e não adversários. Não existia literatura, não havia história, não havia boa vontade e, principalmente não havia preparo, de lado a lado.
Estávamos atônitos e não tínhamos referências. O resultado foi triste. Os casamentos iam fazendo água. Os que permaneceram, de um modo geral, ainda têm o ranço da conveniência burguesa e se apequenaram na acomodação e na farsa. Os que acabaram, produziram suas mazelas, físicas e mentais, desencorajando, muitas vezes, novas relações pelo medo do fracasso e a inabilidade de saber lidar com circunstâncias novas, como conviver com os filhos do outro ou da outra.
Antes que o “bug” do milênio ameaçasse os nossos computadores e, consequentemente as nossas vidas, fomos atacados por esse vírus do descompasso entre homens e mulheres, irremediavelmente destinados a desvendar os caminhos de uma nova relação, a custa de tantos desencontros e muita dor. Será que valeu a pena? Claro. É preciso chorar para aprender a alegria de enxugar as lágrimas. É necessário saber como levantar quando se tropeça. É lógico rediscutir as relações homens e mulheres e transformar o casamento não em um contrato mas em um acordo de vontades, sentimentos e aspirações.
Tudo isso é óbvio, mas a vida nos mostra que nem sempre vemos o óbvio e nos perdemos complicando o simples, como se fossemos cerimonialistas querendo mostrar serviço. É preciso acabar com o duplo sentido do título. As mulheres não são os nós de nossas vidas. Pelo contrário, é preciso aprender juntos a desatar nós e celebrar alianças. E aí sim, criar um novo nós, mulher e homem, seres distintos e destinados a formar uma nova sociedade a procura das respostas que não conseguimos descobrir, ainda.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/03/1999.

Sem categoria

EU, FILHO. EU, PAI. EU, FILHO

Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons mais amenos e a acidez das críticas perdem as peremptoriedades (“Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório…“, M.Assis, Dom Casmurro, pág 75).
Estou em fase muito brasileira de leitura. Pode ser um espasmo contra essa globalização, quem sabe. O fato é que ando relendo e lendo autores brasileiros. Uns dias desses me peguei relendo Machado de Assis (Dom Casmurro). Que beleza. Outro fim de semana e lá fui eu descobrir o Zuenir Ventura (vocês que ainda não leram “Mal Secreto –Inveja?”, cuidem de fazê-lo) de quem fiquei admirador e amigo; depois veio o Luiz Fernando Veríssimo, com quem penso ter intimidade, pelo longo trajeto nas deliciosas páginas de seu pai, Érico Veríssimo.
A propósito de Luiz Fernando Veríssimo, faço de conta que não li “A Gula”. Esse livrinho magro (130 páginas), com muitos ingredientes, uma pitada de erudição enológica, personagens fracos e envenenamentos de segunda classe que fariam a Agatha Christie torcer o nariz. Resultado: dá fastio. Gula, nunca.
Mas o que vale, no caso de hoje, nestas leituras brasileiras, começa com o meu título: “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”. Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo de seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore.
Cony usa em seu livro “Quase memória, quase-romance” um recurso interessante: um pacote misterioso que recebe de seu pai, por um portador, dez anos após sua morte. E esse pacote vai sendo uma espécie de fio condutor (seria o barbante que o envolvia?) que, ao final da história, já não tem tanto sentido conhecer o seu conteúdo. Tudo está exposto, com ou sem fraturas.
Além do quase-romance, há muitas leituras nas entrelinhas de “Quase Memória”. As três fases da relação pai e filho. Pai e filho na infância deste; as relações filho e pai na maturidade daquele; e a (in)dependência do pai ao filho às vésperas da morte. Desprovido de pompas e pleno de essência, “Quase Memória” é um “revival” a que todos estamos sujeitos a fazer, absorvendo fatos e absolvendo pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/02/1999.

Sem categoria

CLINTON E A INFIDELIDADE

Steven Pinker, cientista, 44 anos, casado, é diretor do centro de Neurociência Cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso MIT. Pois bem, o Dr. Pinker assegura (Veja, 13.01.99) que o “comportamento é resultado de um conflito entre os nossos módulos mentais”. Ainda segundo ele, os homens são mais infiéis não porque desejam, mas por serem volúveis. Diz ele: “Quando uma mulher é infiel, normalmente é porque seu parceiro ocasional é sexualmente mais desejável que o habitual. No caso masculino, a infidelidade ocorre apenas porque uma parceira é diferente da outra. Os homens buscam muitas parceiras pelo prazer de tê-las”. Fica claro, na teoria do Dr. Pinker que a volubilidade masculina independe de sua vontade?
Segundo algumas teorias científicas ainda não comprovadas, seria uma questão de falha no DNA masculino, um problema em seu código genético. Seriam esses cientistas apenas homens procurando uma desculpa para seus comportamentos?
Tomemos, por exemplo, a figura de Bill Clinton. Monica Lewinsky não foi a sua primeira encrenca, foi a mais recente e que lhe causou mais confusão. Antes houve Gennifer Flowers e Paula Jones. A posição de Clinton e os casos revelados de Flowers e Jones deveriam ter acautelado a sua libido. Apesar disso, correndo todos os riscos, Clinton se meteu com Monica. Isso comprovaria a teorias de Pinker ou da falha no DNA masculino?
Adam Phillips, um médico psicanalista inglês, escreveu recentemente um livro chamado “Monogamia”. Nesse livro, Phillips, usa a estratégia dos aforismos, talvez para tornar a leitura mais amena e passar suas mensagens de forma pontual. O primeiro deles: “Nem todo mundo acredita na monogamia, mas todos vivem como se acreditassem. Todos têm consciência de estar mentindo ou querendo dizer a verdade quando estão em jogo a lealdade ou a fidelidade. Todos sentem ciúmes ou se sentem culpados, e sofrem a angústia de suas preferências… Noutras palavras, acreditar na monogamia não é diferente de acreditar em Deus”.
Seria então a fidelidade (ou a infidelidade) uma questão de fé? E aí a palavra fé vem mesmo a calhar. O que é mesmo ser fiel? Ou o contrário disso, o que é ser infiel? Seria apenas uma questão de natureza sexual? Ou, considerando a capacidade do ser humano de pensar e sonhar, envolveria questões subjetivas em que os corpos não são necessariamente envolvidos? O “flirt” é infidelidade? Amizades secretas sem a consumação do sexo são infidelidades? “Desejar a mulher- ou o homem – do (a) próximo(a)” é infidelidade? As pessoas que não traem com medo de perder o “status” são fiéis?
Por outro lado, ser fiel envolveria a perda da liberdade? Todos querem ter liberdade. Poucos admitem que o(a) parceiro(a) também anseia por liberdade? A maioria das pessoas acredita que seus relacionamentos duradouros não são satisfatórios e isso alimentaria o desejo de descobrir algo novo, que quebre a monotonia de suas vidas. Esse desejo, essa busca de liberdade, seria um embrião da infidelidade ou a mera constatação de sua individualidade independente do outro?
Estas questões não tem respostas prontas. As respostas afloram no cotidiano das pessoas e o mais óbvio – e pouco considerado – é que estamos constantemente mudando, com o(a) outro(a) ou apesar do(a) outro(a).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/02/1999.