Sem categoria

VIAJAR – Jornal O Estado

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, vez em quando, precisa de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo países ou cidades, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem, seja qual for o destino, é sempre uma porta aberta ao conhecimento. É também um tempo para nada fazer ou cuidar de nossas manias ou sonhos. O ideal é apenas viajar, observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua ou insegurança em aeroportos lotados, as conexões ou a trabalheira com malas, câmbio de moeda e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo, usando uma boa operadora de turismo. O primeiro mandamento de quem viaja é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe em falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo mandamento é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, a não ser que… Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça para lhe indicarem shows, livrarias, parques, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro mandamento é não forçar a sua natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia, mas saiba o que o satisfaz.
O quarto é ousar, é tentar descobrir, por seus próprios pés, um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, um museu com seu pintor preferido, um livraria-sebo com primeiras edições baratas ou uma loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente positiva, alegre e comunicativa. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, seja ela qual for. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último é saber como usar o seu dinheiro ou o cartão de crédito. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é opcional. Você é quem merece os melhores presentes. É claro que estes mandamentos não constituem dogmas. São recomendações e servem apenas como sugestão aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da sua porta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2008.

Sem categoria

QUE ANO! – Diário do Nordeste

Este é o meu 52º. escrito dominical de 2009. Como escrevo, em média, 385 palavras por texto, calculo ter digitado cerca de 20.000. Que palavras foram essas? Sei que, reunidas, tentam refletir o meu pensamento, sentimento ou o acontecido naquela semana. Pode ter sido artigo, crônica ou até arremedo de mini-ensaio. Falei de pessoas, cidades, cultura, viagens, comportamento, problemas brasileiros, fatos mundiais etc. Quem escreve deseja melhorar o texto, aprimorar linguagem, estabelecer comunicação com o conhecido e, especialmente, o desconhecido leitor. Não sei se o meu texto melhorou, tampouco quantas mil pessoas me leem. Algumas vezes, encontro pessoas fazendo referência a um texto específico e procurando aproximação para concordar ou discordar. Isso é bom. O leitor deve ter juízo crítico para analisar cada sentença e o sentido geral do texto. Leitores não devem ser seguidores, mas pensadores. Leitores são pessoas que elegem, dentro do jornal, algo para ler. Existe sempre diálogo surdo entre quem escreve e quem o lê. Quem escreve não é, necessariamente, um formador de opinião. Ele dá a sua ideia que pode ou não coincidir com a do leitor. É veleidade admitir que o que se escreve possa mudar- de cara – comportamentos, gerar atitudes ou formar conceitos. O importante é que alguém o leia e o discuta. Não existe escritor sem leitor. Óbvio. E o leitor é o elo mais importante dessa história. Sem ele não haveria ambiente para continuar a escrever. E por tal razão escrevo hoje para agradecer a você, caro leitor ou leitora, neste final de 2009. Que ano! O ano em que o Brasil mostrou cara enfezada ao mundo. O ano em que um negro assumiu o comando de um país de maioria branca e, até bem pouco, preconceituosa. O ano em que os filmes 2012 e Avatar anteveem catástrofes. O ano em que 192 países se reuniram para discutir a prevenção desses fenômenos e perderam o clima. O ano do fim da crise econômica mundial. O ano em que a China passou a ser a maior produtora de veículos. O ano em que nenhum escritor brasileiro ganhou o prêmio Nobel de Literatura. O ano Lula, personalidade do jornal “Le Monde”. Para você, feliz 2010.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/12/2009.

Sem categoria

O DONO DA FESTA – Jornal O Estado

Conta a História que, em Belém de Judá, nasceu um menino. Filho de José, um velho carpinteiro, e de Maria, uma jovem virgem. Ele, Jesus, nasceu em meio a festas pagãs do mundo hebraico. Faziam celebrações para louvar a Saturno, o deus da fartura ou da colheita, e a Mitras, o deus da luz e do sol. Esse menino era de uma pobre família nazarena e nasceu numa manjedoura ou gruta em noite alta em um 25 de dezembro. Consta que uma estrela brilhante desceu dos céus a anunciar a sua vinda. Ele foi crescendo e se descobriu diferente, pois pregava o amor, a fraternidade e a união, em meio a discórdias já existentes em seu tempo. E tornou-se homem. Saiu de Nazaré e foi trabalhar na Galileia com Zebedeu, ajudando-o a construir barcos. Depois, deu início a uma pregação nova. Seria anarquista, sábio ou patriota? O que ficou claro é que pregava o amor ao próximo, o perdão e dizia que para se viver eternamente seria preciso morrer. Falava de ressurreição e de um paraíso comandado por Deus, o senhor supremo. Condenado por blasfêmia, apedrejado e crucificado, aos 33 anos, em meio a dois ladrões comuns, sua morte foi fato restrito a uma província da Judeia, dominada então pelos romanos. Sua importância, século a século, foi aumentando por tradição oral e pelos seus seguidores, escritos dos evangelistas e pela consolidação do Cristianismo, no final dos anos 300 da nossa era. A contagem do tempo, no mundo ocidental, se faz a partir de seu nascimento, há 2009 anos, agora comemorado. A Ele e à sua Família reverenciamos neste Natal que se deseja cristão, ecumênico, amoroso e de congraçamento. Cada pessoa se dê conta de que possui alma ou espírito, aura ou juízo crítico a nos balizar frente às duras questões do dia-a-dia e do viver. Diz uma pastoral da juventude que a vinda de Cristo foi espontânea, gratuita e generosa. Ele veio sem ser pedido. Não olhava para o merecimento, mas redimia pelo amor. E não pedia nada em troca. Dessa forma, fazer o bem não seria contraprestação, mas dever de consciência e de amor ao próximo, àquele a quem devemos chamar de irmão. O Natal sempre é tempo de festas, confraternização, mas pede, igualmente, reflexão, revisão de princípios, e a tomada de consciência de que somos finitos, transitórios, embora acenados por perspectivas eternas, se justos. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/12/2009.

Sem categoria

RECEITA MÉDICA – Diário do Nordeste

Todos, crianças, adultos, maduros e idosos, precisamos de remédios. Alguns precisam de forma continuada. Outros, para debelar doenças oportunistas e afins, os tomam apenas por ouvir dizer que alguém se deu bem. A verdade sobre os remédios ou drogas manipuladas por laboratórios farmacêuticos ainda está nublada. Os remédios vêm, na maioria das vezes, das plantas. Há os criados, sintetizados, extraídos de animais etc.
Recomendo a médicos, jornalistas e a todos a leitura do livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, escrito por Marcia Angell, com a autoridade crítica de médica e ex-editora-chefe do “New England Journal of Medicine”. Traduzido para o português pela Editora Record, esclarece dúvidas e pretende deitar luz sobre como os grandes laboratórios engajam médicos e escolas de medicina imaginando estar participando de pesquisas para o bem da humanidade. Segundo ela, um mito que cai por terra é o dos elevados custos das pesquisas. Ela revela que a maioria das pesquisas tem origem em universidades ou institutos governamentais e são apropriados pelos laboratórios farmacêuticos. Angell fala ainda em vícios de dados para produzir resultados positivos de futuras drogas ou a mera mudança de nomes como se fossem novos produtos.
Pesquisando, li que, neste ano, um estudo do “Archives of Internal Medicine”, da American Medical Association, mostrou como agem alguns laboratórios. Lembram-se do anti-inflamatório Vioxx? Pois bem, ele deveria ter saído de circulação não em 2004, mas em dezembro de 2000, quando foram comprovados riscos do produto para doenças cardiovasculares e cerebrais. Assim, as pessoas com artrite e dores agudas, alegraram-se com a chegada do Vioxx em 1999. O que não se comenta é que esse remédio causou cerca de 139 mil eventos cardiovasculares, com até, dizem, 40% de casos fatais. Dessa forma, ao adoecer – ou cuidar de mal crônico – procure inteirar-se do seu médico sobre o bem e o mal que as drogas receitadas possam causar. O cáustico Molíére, em “O amor médico”, dizia: “Morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos”. Errado. O médico deve e pode salvar vidas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/12/2009.

Sem categoria

O LIMITE DO BARULHO – Jornal O Estado

Domingo passado assisti ao filme americano “Passando dos limites”.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidadão comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele começa a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milhões de carros que, por qualquer razão, são disparados. A partir daí, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, então, de cidadão comum, a ser uma espécie meio paranóide de vigilante desligando cabos das baterias de carros até chegar ao ápice da sua semi-destruição com os pés e marretas, invocando, para si, um “papel social”. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento é desfeito. Fica, além de obsessivo, desempregado. Procura, então, formar um grande “abaixo-assinado” para coibir a instalação de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ninguém se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo “Direito ao Silêncio”. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala também do que tenho escrito há algum tempo: o zumbido monocórdio dos hélices das torres de energia eólica. Cita até o “Le Monde Magazine”, de 28 de novembro passado, como fonte de clamor de franceses contra o som forte, grave e repetido que parece estar causando insônia, náusea, irritação e até depressão aos vizinhos desses grandes geradores. São duas narrativas distintas. A primeira é ficção, baseada na zoeira de qualquer grande cidade. A segunda, real e comprovada. Não bastam as descolagens e aterragens de aviões, ainda temos que ouvir os alto-falantes dizendo o que já se vê nos monitores de televisão, isto sem falar, nas constantes mudanças de portão de embarque. Além dos alarmes disparados, dos alto-falantes dos aeroportos, há muita coisa mais a fazer barulho. Espaços públicos com cantores e pastores. Pouca gente sabendo se comportar em restaurante. Fala-se alto, gesticula-se e os vizinhos, desconcertados. Nas ruas, camelôs, pedintes, buzinas e caixas de sons de alguns carros ultrapassam, em muito, os limites naturais da tolerância. Falar alto em ambiente público, usar caixas de som ensurdecedoras, acelerar quando o sinal abre são provas inequívocas de falta de educação. Diz o Talmud: “uma palavra vale uma moeda; o silêncio vale duas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2009

Sem categoria

A VISITA – Diário do Nordeste

Trocamos telefonemas. Tensão constante. Fui apanhá-lo no outro lado da cidade. Manhã alta. Dia de semana, trânsito caótico. Cheguei. Veio de lá com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por trás das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabeça e bigode mostravam sinais de cuidado. Sabíamos o que iríamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambulância e da necessidade de pedir boa assistência. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as mãos, falamos com o médico intensivista, olhamos o quadro clínico no prontuário e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco já não era mais médico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda moderação, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua cópia em sépia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de máquinas, era o velho “pairmão” amado e reclamão. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a família e das andanças etílico-sociais nas redondezas. A realidade se confundia com o tom monocórdio dos reguladores da vida a se esvair. E tivemos, sem trocar palavras, ciência de que a Caetana rondava e cobrava os dividendos do tempo. Pouco havia a fazer. Cumpri o estabelecido e coloquei o homem de jaleco em contato com a direção que prometeu cuidados maiores. Depois, tal como subimos, baixamos à vida espremida entre buzinas, camelôs, engarrafamentos e o calor abrasador do sol zenital. E, silentes, tivemos noção do provável infortúnio. A volta foi mais lenta e o jaleco, agora amarfanhado, parecia um cobertor a agasalhar o homem-menino que saia, pouco a pouco, do transe e se reencontrava com o ceticismo natural dos seguidores de Hipócrates. Parei. Ele desceu, acendeu o cigarro, abriu o portão e, penso, foi chorar sozinho. O resto é silêncio, como queria um certo William.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/12/2009.

Sem categoria

COPENHAGUE –COP-15 – Jornal O Estado

O que me chamou a atenção em Copenhague foram duas coisas distintas. Uma: 38% da população da cidade usa bicicleta como transporte. E o clima é frio, até na primavera. Há muitas e bem cuidadas ciclovias com raros cruzamentos. A outra: local de resistência à modernidade, a Christiania, comunidade baseada na filosofia hippie de “paz e amor”, instalada nos anos setenta em base militar abandonada. Hoje, definha, acreditando ainda que tendas de artesanato, cds alternativos, pinturas e músicas de artistas emergentes e, naturalmente, o consumo e venda de drogas proibidas, são meios naturais de vida para os que não aceitam a competição desenfreada como “leit-motif”. Nessa cidade, neste invernoso início de dezembro, estão reunidas milhares de pessoas, oficial ou voluntariamentepara a COP-15. Vão de governos às organizações sociais, de grupos multinacionais às instituições multilaterais, de seguranças aos ativistas. Só do Brasil estão, em Copenhague, cerca de mil pessoas. A maioria representa interesses públicos e privados na discussão sobre a possibilidade de redução dos gases-estufa no clima. Esse mal que, se não cuidado com tecnologia e dinheiro, continuará causando inundações como as do sul do país, as desta semana em São Paulo e os tsunamis, todos de triste memória. A estratégia da reunião oficial é dividida em três partes. Discussão com delegados dos países, análise preparatória por ministros e, ao final, o acerto ou desacerto ético-crono-financeiro com a criação -ou não- de Fundo Global pelos chefes de Estado. Há gente preocupada com os interesses que poderão colocar a perder essa oportunidade para a mudança: de hábitos individuais predatórios, de empresas poluidoras de cursos d’água, dizimadoras de florestas, produtoras de C02 e de cidades adensadas sem infraestrutura. Tudo, claro, a partir de governos que descumprem leis, não propiciam saneamento básico, moradas, empregos e aceitam os desmatamentos. Isso dá à crosta terrestre, que abriga nossos corpos, alimentos e casas, o direito de represália. O que vem da terra, a ela voltará, diz o Eclesiástico.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/12/2009.

Sem categoria

FÓRUM DE LÍDERES – Diário do Nordeste

Sexta e sábado passados no WTC, em São Paulo, reuniu-se, em 32ª. edição, o Fórum de Líderes Empresariais. Trata-se de entidade nacional sem fins lucrativos com clara definição de propósitos, dirigida por Osires Silva, cidadão exemplar, ex-ministro e fundador da Embraer. O presidente do Conselho é Luiz Fernando Levy, antigo controlador da Gazeta Mercantil. Esse Fórum elege de forma idônea, anualmente, empresários de todos os estados. A edição deste ano durou dois dias. Começou com palestra do presidente do Banco Central, Henrique Meireles, sobre a situação do Brasil na retomada de crescimento mundial em 2010 e a preocupação da “administração do custo do sucesso”. Merece relevo a preocupação do Fórum com o desenvolvimento sustentável do país, que deixa a desejar. Governo e empresários foram alertados do perigo de suas possíveis ações predatórias e da urgência de revisão de conceitos e objetivos de todos. Exemplo: os filmes catastróficos “O Dia em que a Terra parou”, já antigo; e “2012”, em exibição, antes de serem apelos comerciais como ‘blockbusters’, independente qualidade de suas direções e argumento, mas os focos no desastre ecológico, seriam, quiçá, alertas piegas do nosso planeta contra a ausência da preocupação dos que o habitam: uso abusivo da água, descaso com a limpeza das cidades pelos habitantes, a ocupação predatória de áreas ribeirinhas e a destruição de florestas. Sabe-se, entretanto, que 50% das moradas não têm esgotos sanitários. Falta conscientização de entidades, empresas e governos que falam, mas não praticam a sustentabilidade. Agora, neste Fórum, o Ceará está representado por nomes de liderança estadual, todos sem vínculos maiores com entidades patronais, premiados que foram, neste novembro 2009, através de Yolanda Queiroz, Ivens Dias Branco, Deusmar Queirós, José Carlos Pontes, Beto Studart e um mais. Criou-se ainda, nessa reunião, um grupo chamado de G-27, que terá um representante de cada estado brasileiro, para agir ativamente em decisões estratégicas nacionais. País desenvolvido é integrado, tem escassos desníveis internos e elege prioridades sociais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/12/2009.

Sem categoria

POLITICAMENTE CORRETO – Jornal O Estado

Está sendo discutida e criticada por muitos a expressão “politicamente correto”. Dizem os agora pragmáticos cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e afins que se a ação é política não pode ser correta. A política tem vários componentes, mas nenhum deles prima pela correção. Maquiavel, já no século XVI, dá receita não correta: “Precisando um príncipe saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo, a raposa e o leão; pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos”. Política seria assim a arte de encantar serpentes e não desprezar variáveis desencontradas e antagônicas para ganhar e manter o poder que se quer ou tem. Acreditam os acadêmicos na mudança necessária para socialmente correto. Um fato pode ser socialmente correto, independente da política de qualquer natureza e dos que gerem a coisa pública. E por falar em coisa pública, lembrei da morte de Celso Pitta, ocorrida há duas semanas. Não se deve julgar os mortos, tampouco tripudiar sobre quem não pode mais se defender. Assim, relembro apenas que Celso Pitta, embora carioca, foi prefeito eleito com milhões de votos em São Paulo. Apoiado por Paulo Maluf, de quem fora empregado, derrotou Luiza Erundina (então PT) e José Serra. Foi exaltado, envaidecido e posteriormente crucificado, a começar pela ex-mulher com informações que o levaram a prisão e ao pôr-do-sol político. Aos 63, câncer propagado pelos infortúnios, teve apenas trinta pessoas em seu enterro. Muitos políticos, inclusive os do recente caso do Governo do Distrito Federal, e todos os ocupantes de funções públicas deveriam atentar ser a fama, como já se disse, uma sucessão de mal-entendidos. A história tem mostrado. Para isso é preciso ler o que Thomas Mann, esse alemão meio brasileiro, dizia em seus ‘Escritos autobiográficos’: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular”. Na esteira da glória está a fama. E sobre ela, em seu “Purgatório”, Dante Alighieri falava no século XIV: “A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra”. Assim, a fama e a glória precisam de pressupostos, sem os quais serão sopros do vento. Sem essência e pressupostos verdadeiros, não há o politicamente correto ou o socialmente justo ou certo. As pessoas esquecem que são mortais, finitas. Por serem vaidosas e ambiciosas, se deixam levar por oportunidades, instantes, aparências, interesses e devaneios. Ao fim e ao cabo, descobrem que nada era tão importante e necessário.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/12/2009.

Sem categoria

OUTROS MUNDOS – Diário do Nordeste

Entre as minhas múltiplas tarefas, há a de ser uma espécie de galerista. Não a de gestor ou curador de galeria de arte tradicional, mas a que abriga, em seu espaço simples, agradável e receptivo, a arte em todas as suas manifestações, sem pensar em pecúnia. Penso apenas estar sendo intuitivo e incentivador de quantos têm, ao longo dos últimos dez anos, procurado esse espaço gratuito -com público crescente – para expor seus quadros, instalações, esculturas, livros raros, poemas, mensagens de denúncia etc. Em cada exposição é deixado – sobre um púlpito – um livro em que todos podem se expressar livremente, assinar, fazer garatujas e exercer a crítica. Seria longo e cansativo falar dos dez anos. Foram muitas exposições, misturando principiantes, lutadores e consagrados. Atenho-me, aos dois últimos meses, como uma amostra aleatória. Começo com uma exposição de pinturas e objetos feitos por jovens infratores, apenados, e em processo de recuperação. É claro que não se descobriu nenhum gênio, mas permitiu-se a expressão artística e, quem sabe, primal de jovens na luta diária entre o delito e a arte, entre o caminho do trabalho difícil ou da droga fácil. A exposição foi aprovada e prorrogada. Depois, mudando de tom, foram expostos móveis franceses dos últimos séculos, e o público aderiu àquela vaga e aproveitou para fazer observações no tal livro, inclusive com brincadeiras e sonhos de aquisição. Agora, fim de novembro, em parceria com o Departamento de Ciências da Informação/Biblioteconomia da UFC, são mostradas “As gerações invisíveis da cidade informacional”. Vítimas da intolerância por serem “diferentes” e não se enquadrarem no modelo cobrado pela sociedade. Essas gerações invisíveis não recebem sequer o olhar complacente de estranhos. Entre eles estão catadores de lixo, os sem teto, grupos de dança funk, surfistas, os “emos”, em trajes escuros, que ocupam uma rotunda da cidade. Nas fotografias denunciadoras e textos fortes, o visitante se depara com os “outros mundos” da cidade indiferente às suas presenças e expressões. Uma forma tão dura quanto o tratamento que recebem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/11/2009.