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ALMOÇO, DE PASSAGEM – Jornal O Estado

Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almoço de confraternização ou não era? Frater é irmão e isso já havia sido dito até altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraternização. Lato senso, todos são irmãos. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e até uma solitária cadela branca. Foram para ver um senhor, não o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora há tempos, lustros atrás e tudo havia sido desfeito. Até a casa virará pó. Sobraram cobres, distribuídos, mas isso é outra história. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de preguiça, e o senhor, como se tivesse fazendo uma paródia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas portáteis, com rodízios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele não era, pois se o fosse, ali não estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por ausências, gestos, críticas e dores que só lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe, o amor definitivo e a força dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cartões individuais e afetivos para cada um dos vários pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou atenções, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que não havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. Até o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. Até repetira presentes anteriores e não obedecera a recomendações de só trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o órgão do governo que dá muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. E ele estava ali e ouvia, de passagem, que uma delas iria se mudar para um pouco mais longe dali e não tão cerca do mar onde hoje habitava, mas para um condomínio novo, sofisticado, com áreas onde as crianças brincariam com seus iguais. E até foi sugerido, levemente, que outra também lhe fizesse companhia, cedendo o seu apartamento para a última, a que casaria em breve, andaria dez passos até o altar e precisava de cerimonialista competente para dizer a todos como andar dez passos sem errar. E estavam ali de passagem, pois a maioria subiria, em seguida, às montanhas, pois havia cansaço muito a ser refeito na mansão construída com o denodo e a qualidade de tudo o que a progenitora fazia. E cujo endereço, diga-se, o senhor não conhecia. E choveu.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/11/2009.

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VIDA E MORTE – Diário do Nordeste

Um rio separa a morte da vida. Estão ligadas por pontes. Do lado da vida estão majestosos edifícios, em rigorosa linha imaginária, tendo como referência de vitória um obelisco granítico. Acreditam os habitantes transitórios dessa linha da vida estar defendendo princípios, definindo missões, estabelecendo padrões de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do “Paraíso Perdido”, o maior poema épico da língua inglesa: “Ele jaz estendido então na terra/ na terra fria: ali entre ais amiúde/a sua criação amaldiçoa/e amiúde a morte de tardia acusa/porque não vinha já, sendo presente/para o dia da ofensa perpretada.” O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outono deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afrodescendente que prometeu esperança e o bordão “sim, nós podemos.” Nestes poucos dias em que estive por lá, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decisões germinadas no grande “mall” atravessaram mares e espaços e morreram lutando pelo que bem não sabiam. Estão lá na terra fria, cobertos por relva, lápides e o respeito mudo de quem os visita por laços de família, comiseração ou curiosidade. E vi, no destaque, as poucas pedras marmóreas horizontais sobre o chão, alumiados por uma pira, juntando sobrenomes irlandês e francês, em uma união desfeita pela morte noutro novembro, em 1963. E lá, insolentemente como um aposto, há o sobrenome grego de um Aristóteles, não o sábio, mas o mercador. E neste novembro, uma noite mais fria se fez, enquanto se decidia sobre a saúde pública albergar os pobres e seus descendentes, os vindos de outras pátrias, em busca do milagre. E fiquei, por horas, acompanhando a votação ganha por cinco votos pelo quarentão nascido no Havaí, de pai queniano. E, no dia seguinte, o sol de fez claro, como se seus raios e halos cobrissem de energia os que não haviam perdido a esperança na terra onde limusines brilhantes e tão antiquadas quanto um réptil são símbolos da desigualdade e da injustiça entre os homens.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/11/2009

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JOÃO SANTOS E DIX-HUIT – Jornal O Estado

Já confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem às mãos um folheto de uma fábrica de cimento. Depois de lê-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princípio dos anos setenta. Começara a vida real, a da luta pela sobrevivência, e estava em Mossoró, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o serviço em concorrência do Ministério do Interior e o trabalho era árduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudança urbana necessária, ele levou a mão a cabeça, como se lembrasse de algo, e disse “vamos ao aeroporto que já estou atrasado”. Lá, um pequeno avião taxiava, e dele desceu um homem de jeito e compleição nordestina, “slacks” branco, chapéu e testa larga. Era João Santos, o dono de fábricas de cimento que chegava. De lá, fomos almoçar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. João Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almoço, nos despedíamos. Ele, João, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que não, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, já falecido, construtor um império a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. Mas havia nele o germe da esperança, da inquietação e, formado cedo em economia, meteu-se pelo mundo afora, lutando como sabem fazer os obstinados. Aportando na Bahia e, pouco a pouco, disseminando força por todo o Nordeste, em múltiplos e vitoriosos empreendimentos, inclusive comunicação. E veio, como já disse, a imagem nítida desses momentos importantes para mim, um jovem fincando base para o futuro em meio ao calor abrasador da terra dos Rosados. E lembrei também de Dix-Huit, um desengonçado, culto e doce grandalhão, político de têmpera que, logo depois, seria preterido para o governo do Rio do Grande do Norte, apenas por ter, como Senador que fora acompanhado à China a comitiva do então vice-presidente João Goulart. No dia seguinte à derrota, me desloquei à sua fazenda, e lá encontro o futuro ex-governador sozinho, de botas, chapelão. Pegou a sua velha pickup Toyota e saiu conversando comigo, como se nada tivesse acontecido e a mostrar as plantações e irrigações que fazia.
(dedicado a todos os que subiram a escada da vida por seus próprios pés)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/11/2009.

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05 DE NOVEMBRO – Diário do Nordeste

Voltei. Passei oito anos relutando em ver “in loco”. Todos lembram daquela manhã de terça, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, até a exaustão. Atônito, minha reação imediata foi escrever onze contos e enfeixá-los em livro. Nesse livro (Sobre a Gênese e o Caos), tento explicar, na gênese, as razões motivadoras do atentado, as lições não aprendidas e até ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, ficção absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptomaníaca; do menino afegão treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e segurança; de sessão espírita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do voo de um Boeing 767; dos sonhos da viúva de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua família; e dos terroristas em ação. Em minha imaginação, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a direção. O fato é: voltei lá na quinta-feira, 05, deste novembro. O “Ground Zero” estava cercado por tapumes. Era hora do almoço, os trabalhadores saíam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiriço da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabeça, e vi o grande vazio em que as duas gêmeas se transformaram. Ao fundo, a construção do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os céus. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. Soube logo depois, também pela TV. Não havia como não ligar os dois fatos, especialmente se um dos suspeitos, embora major do exército americano, é de fé muçulmana. No dia seguinte, apanhei um táxi com motorista etíope. Conversamos sobre o ocorrido e perguntei sua opinião. Ele disse que não entendia a razão, pois tinha sido bem acolhido no seu novo país. O tratavam como igual e aquilo poderia ser um novo caos. Relembrei dos contos publicados e o que narro a vocês agora ainda me causa estranheza pela incapacidade coletiva de se descobrir o caminho da convivência humana sem guerra.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/11/2009.

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A CÂMARA E A ACADEMIA – Jornal O Estado

A História sempre nos ensina. Ela nos diz, por exemplo, que as Câmaras de Vereadores no Brasil são mais antigas que o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas. No Brasil, elas vieram com as Capitanias Hereditárias. A primeira Câmara instalada foi em SP, em São Vicente, que havia sido elevada à categoria de vila pelo donatário Martim Afonso de Souza. Essa 1ª. Câmara ficou conhecida como a “Câmara Vicentina”. Em todo o período colonial as câmaras municipais possuíam número considerável de atribuições. Eram elas que regiam as cobranças de tributos, definiam o exercício profissional, indicavam as atividades do comércio e ofícios, zelavam pelo patrimônio público e até administravam as prisões. Em suma, tinham funções executivas, legislativas e judiciárias. Após a Independência, veio a Constituição de 1824, quando o império centralizou a maior parte da administração pública e fixou em quatro anos a duração da legislatura. O vereador mais votado exercia a presidência da Câmara. Em 1889, com o advento da República, os vereadores passaram a ter exclusivamente papel legislativo e de fiscalização. Agora, com a Constituição de 1988, os papéis dos vereadores são os de legislar, fiscalizar, representar e sugerir/requerer. É exato nesse papel da sugestão que o Vereador Paulo Facó apresentou requerimento à Câmara Municipal de Fortaleza sugerindo a realização de uma sessão especial para homenagear a Academia Fortalezense de Letras. A Casa aprovou, unanimemente, o requerimento e ontem aconteceu a solenidade. Essa sessão, ontem realizada, se fez, acredito, como reconhecimento ao trabalho cultural de cada acadêmico da Fortalezense, bem como o esforço das gestões de Cid Carvalho, Cybele Pontes e Ednilo Soárez que deram uma feição contemporânea à nossa Academia Fortalezense de Letras. Ela é simples, mas diligente, atuante, diferenciada ao incentivar academias de estudantes. De forma inovadora desempenha o seu papel de regente, com empenho, de nomes qualificados. Agora, por exemplo, criou um blog, ao qual todos poderão acessar e incluir seus poemas, contos, ensaios e romances. Possui, em seus quadros, expoentes da cultura de Fortaleza. O seu presidente de honra é o Príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides. Figuras políticas como os ex-vereadores Barros Pinho, Juarez Leitão e Ubiratan Aguiar. Barros Pinho também foi Deputado Estadual e Prefeito de Fortaleza e acaba de ganhar o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura. Juarez Leitão, por sua atuação como mestre de história, produção poética e biográfica, é admirado por todos. Ubiratan Aguiar é Ministro do Tribunal de Contas da União, sendo, com muito zelo, o seu atual presidente. Na área pública, conta com o brilhante ex-senador da República, Cid Carvalho; o Deputado Estadual, Teodoro Soares; o Reitor da Universidade do Vale do Acaraú, Colaço Martins; e a ex-presidente do TRE, Gisela Nunes da Costa, que vem de ser agraciada com o título de Doutor Honoris Causa pela UVA. Destacam-se ainda sócios que dirigem outras entidades: o presidente do Instituto do Ceará, José Augusto Bezerra; Matusahila Santiago, da veneranda Casa de Juvenal Galeno. Maurício Benevides, presidente da Academia Cearense de Retórica; José Teles, presidente do capítulo cearense da Academia de Letras e Artes do Nordeste; Cybele Pontes, presidente da Sociedade Amigas do Livro; e Francisco Lima Freitas, presidente da Academia de Letras Municipais do Ceará. Os demais colegas são jornalistas, historiadores, bibliófilos, poetas, contistas, cronistas, romancistas e ensaístas. Esses acadêmicos, mercê de seus méritos, têm produção literária significativa nestes primeiros anos do Século XXI. A Fortalezense sugeriu ao presidente da Câmara, Vereador Salmito Filho, através do Vereador Paulo Facó, a elaboração, em 2010, de um “Cadastro Geral de Artes e Cultura de Fortaleza”, no qual todos os participantes dos mais diferentes segmentos das expressões artísticas, culturais e literárias da cidade, independente de credo, sexo, raça, ou de serem filiados a academias ou quaisquer entidades, em rigorosa ordem alfabética, possam ter seus nomes, breves currículos e produções impressos e registrados para divulgação, consulta e fins históricos. Por fim, louve-se a atenção do Vereador engenheiro Paulo Facó, que tem se caracterizado em conferir evidência especial à Cultura fortalezense.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/11/2009

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O REAL URBANO – Diário do Nordeste

Amanhã é o dia mundial do urbanismo. As cidades são a prova da quase falência de uma só profissão, a arquitetura, como a única a reger o urbanismo. Urbanismo é muito mais que arquitetura, geografia, topografia, ecologia, história, sociologia, engenharia, informática, logística, economia, administração, direito etc. Urbanismo é o somatório de tudo isso. Ou, em outras palavras, é a absorção de cada uma dessas artes, ciências ou profissões, de forma integrada, para a análise sistêmica de uma cidade ou partes dela. Neste quase fim de 2009 há uma certeza: toda média ou grande cidade do mundo vive um caos urbano. No Brasil, é rara a cidade sem problemas de engarrafamentos, alagamentos e acidentes. De uns tempos para cá, a única novidade na face urbana das cidades foi o pardal ou foto-sensor. Ele reina, impávido caça – reais de todos os que, distraídos, esbaforidos pelo estresse ou medo de assaltos, se afoitam a avançar sinais, parar nas faixas de pedestres, fazer retornos indevidos ou dobrar à esquerda/direita. Sua tecnologia é de ponta. Ganham, a empresa que os instala e a cidade que a contrata. Quanto monta as multas de trânsito, não se sabe. O que se diz, especialmente no Rio Grande do Sul, é que os Detrans são os caixas dois preferidos de governantes. Deu até em CPI que, como todas, acabou em nada. Com a municipalização do trânsito, o problema tomou outra dimensão. Rara é a cidade a não adotar esse mecanismo de faturamento instantâneo, espécie de caixa-rápido. Por outro lado, não há projetos para radicalizar o uso dos transportes públicos e criar vias exclusivas para bicicletas e motocicletas. Estas últimas são o terror do trânsito. Um dia desses, sinal fechado, vejo uma moto subir, pela esquerda, o canteiro central da via para passar na frente do meu carro. Pelo retrovisor, olho outra moto vindo pelo lado direito. As duas se chocam. Lembrem que o sinal estava vermelho. Discussões fortes após a batida e eu esperando. Depois, quase roucos, lá se vão os dois motoqueiros arrastando suas motos para o passeio. Olho para frente e o sinal verde fechou de novo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/11/2009.

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ADÍSIA SÁ – Jornal O Estado

Amanhã, sábado, 07 de novembro de 2009, Adísia Barros de Sá completa 80 anos. Adísia é dessas pessoas nascidas para fazer o novo, ser diferente, causar impacto e mostrar-se de forma límpida, corajosa e certeira. Adísia não é inventora. É inovadora, pois o inventor sonha com o que pretende fazer e, quase sempre, não materializa o seu devaneio. Ela o fez, inovou, criou escola, fez-se professora e jornalista em ambiente masculino, em época em que se olhava e considerava a mulher como adorno, aspirante à religiosa, desfrute ou simples mãe de família. Adísia sempre foi apaixonada. Procuro em Virgílio, poeta latino, na sabedoria de sua “Eneida”, uma resposta para a paixão de Adísia. Ele diz: “Quem poderia enganar uma mulher apaixonada?”. Assim, ela casou com a palavra, não a de adulações, engodos ou chistes, mas a que forma pessoas, gera opiniões e faz da coerência a viga mestra de sua oração. Foi no longo exercício do magistério, secundário e superior, e na impecável vida de jornalista que se descobriu como força motriz há quase sessenta anos. Hoje, no esplendor da maturidade, com a simplicidade dos que sabem que não é o tempo que os torna sábios, mas consolida as suas informações, transforma-as em conhecimento, sempre com a voracidade na ocupação da mente irrequieta, indignada com justiças, mas com coragem – e autoridade – para reconhecer méritos. Essa mulher já poderia ter-se recolhido ao aconchego de sua casa, com livros a ler, consultar os lidos ou pajear os que escreveu para ficar. Sabe, entretanto, que a brisa do leste ao lhe afagar os cabelos brancos, é aviso de um novo dia a surgir. E ela recomeça tudo. Analisa, pelas ondas do rádio, esse veículo a nivelar pessoas com respostas instantâneas para o que aflige e incomoda o seu povo, sua gente. Sofre com os percalços atuais do seu time do coração, o Fortaleza. Teve e tem o carinho e admiração de amigos, colegas, sobrinhos e família que a consideram mestra e mãe de todos. Usa o computador, contemporânea que é, como meio e mensagem curta e profunda nos artigos que escreve e publica, semanalmente. Parabéns, Adísia. Saúde e vida longa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/11/2009.

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MARGARIDA – Jornal O Estado

O nome margarida provém do Latim e significa pérola. Em geral, a pessoa com esse nome é especial, fora do comum. Apresenta preocupação com os outros, é fiel no amor e não se intromete com a vida pessoal ou amorosa de ninguém. Margarida é ainda: nome de flor, santa, mulher e mãe. Hoje é dia de uma Margarida especial. Ela nasceu exato neste dia 30 de outubro, em 1919, há 90 anos. Nasceu bonita, inteligente, espirituosa e forte como ainda o é. Filha do Farmacêutico João Caminha Monteiro e D. Luiza Saraiva Leão, ex-aluna do Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai morreu de câncer com 41 anos e deixou, como herança, uma grande família de 13 filhos em fase de crescimento. A vida foi dura para D. Luiza e seus filhos.
Uma delas, Margarida, afilhada de batismo de Dionísio Torres, trabalhava em seu Laboratório no Joaquim Távora. Jovem, conheceu Francisco Bezerra de Oliveira, filho de João Soares de Oliveira e Joana Bezerra de Oliveira, seu único e definitivo amor. Quem sabe, pelos mistérios do insondável, ele parecia conhecera a letra da música Margarida, posteriormente, musicada por Gutemberg Guarabyra: “E retirando uma pedra, olé, olé, olá. Mais uma pedra não faz falta, olé seus cavaleiros. Que ainda correm pelo mundo. Ouçam só por um segundo que eu acabo de vencer: retirei pedras de orgulhos, majestades. Deixei todas de humildades, de amores sem remédio. Ela então se me rendeu. Eu já fui rei, já fui cantor, já fui guerreiro. E agora, enfim, sou companheiro da mulher que apareceu. Apareceu a Margarida, olé, olé, olá. Apareceu a Margarida, olé, seus cavalheiros”. E viveram 50 anos, em meio a lutas, problemas, superações, vitórias, e a educação – em colégios particulares – de 09 filhos. Todos vivos, independentes e com educação superior. Esses filhos casaram, geraram outros 24 filhos, seus netos, espalhados pelo Brasil e Europa, sendo advogados, administradores, psicóloga, psicanalista, médica, enfermeira, tradutora, fisioterapeuta, empresário, estudante da marinha e de medicina etc. E já existem 11 filhos dos netos, seus bisnetos. Margarida ao ficar viúva, em 17 de novembro de 1991, em meio a dores, assumiu, de direito, a liderança de toda a família que, por princípios, obediência e amor, a cerca de carinho e presença, mesmo os que moram no exterior.
Não saiu de sua casa. Ao contrário. Cuidou de suas árvores, plantas e flores no quintal, jardim e calçada e vê o seu dia correr cercada de verde e de gente. Vive de suas rendas, livre que é. Manda pintar sua casa, todos os anos, com cores por ela escolhidas. Sua grande varanda é um relicário com santos e fotos de todos. Ali ela reina. Seu café da manhã dominical é ponto de encontro de todos os filhos, netos e bisnetos. Um dia, sem avisar, levei o amigo Cléber Aquino para tomar o seu café e ele saiu de lá impressionado com o que viu. Isto sem falar que a cozinha da Margarida, administrada por D. Zilmar e D.Fátima, amigas e cuidadoras, está sempre aberta e abastecida para filhos e netos que, diariamente, sem prévio aviso, por lá aportam. Essa mulher de fé, ainda é formosa e temente a Deus. Orienta filhos e netos sem rodeios, com palavras lúcidas e certeiras na ponta da língua. Não desgruda os olhos vivos de seus programas favoritos nas estações de televisão católicas para ouvir e ver missas, orações e pregações. Hoje, receberá a homenagem de toda a família, filhos, noras, genros, netos, bisnetos, de seus irmãos ainda vivos, das amigas que a visitam sempre, dos vizinhos que a cumprimentam com admiração e, certamente, ouvirá os parabéns entoado por todos e cada um em seu louvor. Sua bênção, minha mãe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/10/2009.

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JUVENTUDE E FUTURO – Diário do Nordeste

Foi Simone de Beauvoir quem citou o jovem príncipe Sidarta, o futuro Buda, em livro escrito sobre a velhice. O fato: Sidarta saiu de seu palácio e viu, entre outras duas, uma figura alquebrada e sem rumo. Perguntou: quem é? Responderam-lhe: Um velho. Sidarta, ainda não Buda, voltou ao seu palácio. E teria cunhado a frase: “eu sou a morada da futura velhice”. Assim, o óbvio não é entendido pelos mais jovens a não admitir a velhice como futuro. Acreditam e pensam: esse tempo não chegará, e se chegar, os encontrará ativos, ocupando mentes com trabalho, família e cuidando dos corpos em academias, corridas e afins. Hoje, já se fala nos “novos velhos”. Novos velhos? Seriam eles os desafiadores do tempo como fator determinante, indo buscar em suas próprias vidas a energia para manter o alento de ser ativo e útil? Seriam os descobridores, por suas leituras e práticas pessoais, de caminhos definidos do bom uso do tempo extra conferido pela longevidade? Poderia ser uma nova geração de pessoas a admitir a possibilidade de diálogo com os dos olhares da indiferença? Seriam, talvez, os cheios de saúde, corpos hígidos, apesar das cãs? Ou o que seria essa safra de novos velhos? Seriam as mulheres a disfarçar o tempo com cirurgias reparadoras ou estéticas? Ou homens unidos a mulheres com a metade de suas idades? Ou vice-versa? Ainda é cedo para se definir essa geração chegada aos sessenta, apostando que, em se cuidando, terá qualidade de vida para mais 20 ou 30 anos. O fato real para a maior qualidade de vida na pessoa dessa faixa de idade é a saúde. E a saúde, salvo a hereditariedade, as surpresas dos males incuráveis, e as degenerativas, poderá ser relativamente preservada. Se a velhice vier comboiada da maturidade – a idade e a capacidade de ser maduro – o caminho não será uma estrada íngreme, um tsunami ou um abismo. Creio, mas não tenho certeza: os caminhos não são nunca iguais para ninguém. É preciso viver na esperança, na tentativa, mesclando menos erros e mais acertos. Resolvendo questões recorrentes, crendo no tempo com sua parábola a cumprir: o futuro da liberdade, a impermanência.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/10/2009.

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FORTALEZENSE FAZENDO HISTÓRIA – Jornal O Estado

Uma academia de letras tem vida. Acontece, cria, edita, reúne, sofre e motiva seus membros a materializar pensamentos em forma de livros de poemas, ensaios, discursos, crônicas, contos, romances etc. Este tem sido o dia-a-dia da Academia Fortalezense de Letras. Começou com Cid Saboya de Carvalho, figura ímpar do magistério, advocacia, política, jornalismo e literatura. Sua gestão contava com a experiência de Matusahila Santiago, advogada, funcionária pública e dirigente da Casa de Juvenal Galeno e o ímpeto de José Luís Lira, então jovem advogado, que passou a escrever biografias de poetas, escritores renomados e santos, transformando-se em hagiologista, professor e hoje está na UVA –Universidade Estadual do Vale do Acaraú. Depois, veio Cybele Valente Pontes com leveza, talento e tirocínio de gestão na Sociedade Amigas do Livro e na Coordenação do Prêmio Osmundo Pontes que realiza, anualmente, em parceria com a Academia Cearense de Letras. Cybele, com o suporte de Beatriz Alcântara e Regina Fiúza e a colaboração de alguns, instituiu e publicou a revista Panorama e a bi-anual Acta Literária. Além disso, reformou os estatutos e o regimento interno da entidade. Em seguida, veio a argúcia, cavalheirismo e inteligência de Ednilo Gomes de Soárez a dar nova forma ao Boletim mensal, incluindo fotos em cores dos acontecimentos e publicando mais um número da revista Panorama e outro da Acta Literária. Essa administração, encerrada em setembro do ano passado, agora, nesta semana, por sugestão nossa, entregou aos anais da Fortalezense de Letras, o livro pontuando as suas realizações e o fez de forma descontraída. O Livro foi apresentado por Regina Fiúza, na Faculdade 7 de Setembro, da qual Ednilo é o Diretor Acadêmico. Além de acadêmicos da Fortalezense e da Cearense, honrou-nos com sua presença o escritor cearense, radicado em São Paulo, Caio Porfírio Carneiro, Secretário Executivo da Associação Brasileira de Escritores. Alegravam-nos o comparecimento de jovens integrantes das “academias de estudantes” dos colégios Dáulia Bringel, Maria Ester e 7 de setembro. Nessa reunião da Fortalezense apresentei voto de louvor à nossa consócia Gisela Nunes da Costa pelo título de Doutor Honoris Causa que lhe foi outorgado pela UVA. A noite foi arrematada com a singularidade de uma exposição de artes plásticas em que autores mesclavam instalações e quadros-esculturas utilizando acrílico, aço sem pintura e barro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM
23/10/2009.