Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almoço de confraternização ou não era? Frater é irmão e isso já havia sido dito até altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraternização. Lato senso, todos são irmãos. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e até uma solitária cadela branca. Foram para ver um senhor, não o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora há tempos, lustros atrás e tudo havia sido desfeito. Até a casa virará pó. Sobraram cobres, distribuídos, mas isso é outra história. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de preguiça, e o senhor, como se tivesse fazendo uma paródia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas portáteis, com rodízios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele não era, pois se o fosse, ali não estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por ausências, gestos, críticas e dores que só lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe, o amor definitivo e a força dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cartões individuais e afetivos para cada um dos vários pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou atenções, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que não havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. Até o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. Até repetira presentes anteriores e não obedecera a recomendações de só trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o órgão do governo que dá muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. E ele estava ali e ouvia, de passagem, que uma delas iria se mudar para um pouco mais longe dali e não tão cerca do mar onde hoje habitava, mas para um condomínio novo, sofisticado, com áreas onde as crianças brincariam com seus iguais. E até foi sugerido, levemente, que outra também lhe fizesse companhia, cedendo o seu apartamento para a última, a que casaria em breve, andaria dez passos até o altar e precisava de cerimonialista competente para dizer a todos como andar dez passos sem errar. E estavam ali de passagem, pois a maioria subiria, em seguida, às montanhas, pois havia cansaço muito a ser refeito na mansão construída com o denodo e a qualidade de tudo o que a progenitora fazia. E cujo endereço, diga-se, o senhor não conhecia. E choveu.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/11/2009.
