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MULHERES PENSANDO – Diário do Nordeste

Nós, homens nascidos no século passado, casados ou descasados, temos que rever conceitos sobre mulheres. Ouvia-se nas rádios de então que a “Amélia é que é mulher de verdade”. Ataulfo Alves pode ter vivido esse tempo. Não há mais “Amélias” em 2009. Dizia o poeta latino Virgílio que “Inconstante e mutável é a mulher”. E olhe que Virgílio viveu antes de Cristo. Pulemos para a francesa Simone de Beauvoir, no século XX. Ela disse: “Nenhuma mulher nasce mulher: torna-se”. E assim foi. As mulheres viraram mulheres e como tais estão alterando a cabeça dos homens. Não para olhá-las, admirá-las e amá-las. A história é outra. As mulheres já chegaram, em menos de cem anos, ao ponto em que os homens levaram milênios para alcançar. Se você olhar a nação alemã verá o pulso forte de Ângela Merkel. Se mirar os cílios postiços e adereços nada sutis de Cristina Kirchner encontrará a Presidente da Argentina. Se notar o equilíbrio de Michelle Bachelet, saberá que ela dirige, com aprumo, o Chile. Há três mulheres candidatas a presidente no Brasil. Paremos por aqui. Abramos o jornal. Vejam a notícia: mulheres são maioria no Nobel de 2009. Como vocês sabem, o prêmio Nobel foi criado pelo sueco Alfred Nobel, inventor da dinamite, por influência de sua amiga Bertha Kinsky. Armou uma fundação que, desde 1901, premia luminares da Física, Química, Medicina, Literatura e da Paz. Em 1968 foi introduzida a Economia. Pois bem, cinco mulheres ganharam este ano quatro dos seis prêmios. Elinor Ostrom, americana, ganhou o de Economia. Herta Muller, romena, naturalizada alemã, ganhou o de Literatura. Carol Greider, americana, e Elizabeth Blackburn, inglesa, dividiram o de Medicina. E Ada Yonath, israelense, levou o de Química. A entrega dos prêmios será feita no dia 10 de dezembro, data aniversária de Nobel. Sabem quem vai cantar na cerimônia? Donna Summer, mulher e negra. Assim, aviso aos amigos que se cuidem. Parem de perder tempo nos bares da vida, estádios de futebol e jogos de mesa. Fiquem de olho em seus trabalhos e companheiras. As mulheres chegaram e vocês não perdem por esperar. Ri melhor …

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/10/2009.

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ADMINISTRADOR REFERÊNCIA – Jornal O Estado

Quarta, 14, foi realizada a abertura do XI Fórum Internacional de Administração, evento que reúne administradores de vários países. A importância era tal que havia mais de 3.000 participantes. Nessa ocasião, tive a alegria de ser homenageado com o título de Administrador-Referência. É claro que fiquei contente e repasso o que por lá. Falei a todos os administradores, especialmente aos jovens que compareceram a esse XI Fórum Internacional, o primeiro realizado no Ceará. A eles, afirmei que o sucesso profissional está ligado ao seu projeto pessoal de vida. Não basta títulos de bacharelado, mba, mestrado ou doutorado. É preciso ter, acima de tudo, atestado de cidadania, coragem de ser diferente, sem ser petulante. Possuir humildade para aprender, sempre. É praticar a leitura continuada que se transforma em informação e esta em conhecimento. E daí em atos e fatos concretos. É preciso ter ambição sem ter inveja.
Exercer liderança sem privilegiar o comando. Saber que a velocidade do planeta Terra corre contra o a nossa percepção do tempo e o seu uso. Assim, é preciso estabelecer degraus de competência, padrões de referência e capacidade estratégica para a convergência adequada ao nosso propósito pessoal e o da sociedade. Entendo que ser referência implica em acreditar- e ser acreditado – naquilo que se faz; sugere a busca incessante do saber para, a cada dia, analisar dados e tomar decisões. Admitir erros e não confiar mais nos que, gentis, enturmados e bem vestidos, apenas aparentam honestidade. Saber liderar pessoas com estratégias certas. Usar a imaginação e consolidá-la em inovação.
Ter responsabilidade social e honestidade de propósitos. Aos colegas administradores presentes à solenidade, especialmente aos jovens, disse que o futuro se faz com o somatório de todos os esforços que os nossos pais fizeram para nos dar rumo e prumo, do nosso compromisso com a carreira que abraçamos e a certeza de que o êxito não é produto do acaso, mas da perseverança, da competência e da dignidade pessoal.
Disse aos colegas administradores, e dirigentes do CRA-Cerá, do Sindaece, do Conselho Federal de Administração e do Fórum Internacional, que considerava aquele instante, quem sabe, o coroamento de uma atividade profissional voltada para a gestão de pessoas e à transformação de oportunidades em empreendimentos com credibilidade pública e responsabilidade social.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/10/2009.

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MÉXICO-CEARÁ – Diário do Nordeste

A visita ao Ceará, nesta semana, do Embaixador do México no Brasil, o diplomata de carreira Andrés Valencia, acompanhado do Adido Cultural Carlos Ortega e do Adido Naval, o Contra-Almirante German Ruiz, foi um ato claro de aproximação internacional benfazeja. Sabe o México, por ser parceiro comercial do Brasil, da importância emergente do Estado do Ceará, em face do seu posicionamento geográfico e, especialmente, em razão do potencial turístico de toda a orla. E sabe dos projetos estruturantes do governo cearense, como os que serão implantados no complexo do Porto de Pecém, a partir de uma refinaria de petróleo e das demais indústrias derivadas da sua existência. O México, por sua história e posicionamento estratégico, é o maior, o mais forte e culto país de língua hispânica da América Latina. Embora, geograficamente, se situe na América do Norte. Desde a administração do ex-presidente Vicente Fox houve real aproximação e pactos com Brasil. Agora, recentemente, os presidentes Lula e Felipe Calderón, fizeram visitas recíprocas, demonstrando podermos ser mais próximos, não só através de acordos bilaterais, mas na identificação de objetivos comuns a ambos países. Uma notícia alvissareira e simpática que trouxe o Embaixador Andrés Valencia é que o Navio Escola Cuauhtémoc, um veleiro clássico e bonito com tripulação mexicana, mas também com jovens de outros países das Américas, deverá aportar no dia 18 Janeiro em Fortaleza, para dar início ao ano de 2010, muito caro ao México, por ser o do Bicentenário da Independência Mexicana e dos 100 anos da sua Revolução, liderada, inicialmente por Francisco Madero. O Navio Escola tem uma tripulação de guardas-marinha competente e jovial que faz apresentações cênicas sobre as velas enfunadas do veleiro ao entrar no porto que, certamente, agradarão às autoridades e à população de Fortaleza. Para o Ceará, esta visita pode ter sido o início de um relacionamento consequente com o Governo Estadual, universidades, instituições culturais e empresariais. Esperamos boas notícias de parcerias em futuro próximo. Viva México.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/10/2009.

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RIO,RISO E CHORO – Jornal O Estado

Estamos alegres com a vitória da cidade do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016. O Rio é o espírito coletivo do Brasil. Mas poucos sabem que até o dia da nossa escolha já havia sido gasta a razoável quantia de 100 milhões de dólares com a preparação geral da campanha. Além da ação decisiva de Lula, muitos não sabem também que foi um americano, Scott Givens, antigo dirigente da Disney Entretenimentos, o coordenador oficioso dos projetos brasileiros de filmes, vídeos e afins mostrando as nossas vantagens competitivas sobre Chicago, Tókio e Madri para os olhares do COI, o Comitê Olímpico Internacional. Assim, além de Lula, seus ministros, atletas e convidados, o diretor de cinema Fernando Meirelles, dono da empresa 02, contratada para a produção dos filmes e vídeos, teve a seu lado a experiência do citado Scott Givens que até diretrizes deu para os discursos de dirigentes do nosso Comitê Olímpico e as “marcações cênicas” de centenas de atletas e autoridades convidados. Pelé, por exemplo, apareceu, mas não falou. Pesava o argumento que já havíamos ganhado a Copa de 2014 ou que cometeria gafes. Houve aprumo no trajar e até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse lá para os 106 membros do COI: ”Yes, we can. We have money and conditions”(Sim, nós podemos. Nós temos dinheiro e condições). Afinal, o Rio foi escolhida por ser uma cidade maravilhosa. Todos se confraternizavam. Abraçavam-se, choravam, riram, mas, como ninguém é de ferro, contrataram parte do Hotel SKT Petri para a celebração noturna em Copenhague regada com vinho espanhol (seria o sangue dos madrilenos?). Como não poderia faltar, lá estava na festa, entre tantas figuras, uma cearense (os do Ceará estão em todas), a dançarina Márcia Lemos, 27, com um grupo de amigas, que aproveitou para guardar na bolsa vários pins(escudos) da campanha brasileira. A comida e a bebida foram livres e até o Ministro do Esporte, Orlando Silva, cantou, no palco, música de Ary Barroso. Ao final, para comprovar que o Rio é Rio, a festa se transformou em baile funk. Brasileiros, convidados e penetras confraternizavam descontraídos em variados teores alcoólicos. Enfim, a Rio-2016 está começando e são precisos 28 bilhões de dólares para que tudo esteja pronto. Quase nada, afinal, já estamos emprestando ao FMI. Rio, riso e choro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/10/2009

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MARCO CÉSAR – Diário do Nordeste

Corriam os anos 70. Os da minha geração começavam a singrar os mares profissionais. Amigos, embora distintos, entravamos nos trinta: Antonio dos Santos, Artur Silva, Alfredo Couto, Giordano Loureiro, Gerardo Santos, Lauro Chaves, Marco Antônio, Marco César, Nisabro Fujita e Paulo Cruz. Antônio e Artur, deputados; Alfredo Couto advogava; Giordano e Gerardo, calculistas; Lauro Chaves, administrador; Nisabro, Paulo Cruz, Marco Antônio e Marco César, engenheiros civis. Todos casados. Filhos nascendo, estudando e crescendo. Vivíamos nas casas uns dos outros. E, particularmente, nos fins de semanas, na nossa casa na praia da desconhecida Tabuba. Falemos de Marco César, filho do general e ex-deputado federal Josias Ferreira Gomes. Foi engenheiro da Cenorte e, posteriormente, da Telebrás. Foi chamado para presidir a Coelce, a Companhia de Eletrificação do Ceará. Nela passou anos. Depois, compôs a diretoria da Teleceará. A roda do mundo gira e o que era público – com pouco dinheiro e fartos empréstimos do BNDES – passa a privado. Um dia, convidei Marco César para trabalhar comigo. Sabia ser difícil o processo de sua adaptação na vida empresarial. Os, sem padrinhos e conchavos, da empresa privada, somos catadores de conchas, pescadores de raras oportunidades, tratadores e vendedores de nossos peixes, miúdos, disputados em mercado sempre hostil. Assim, ele e eu tentamos, mas descobrimos que o serviço público estava entranhado no seu sangue, no valioso currículo e, especialmente, em seu espírito. Era homem para estratégias públicas e não mero engenheiro. Os anos passando. Marco César aposenta-se da Telebrás. Sabia-se capaz, mas a dinâmica política não tem memória. Foi então que ele, pouco a pouco, assumiu-se como quis. Senhor de seus atos, leitor e estudioso, ilustrado que era. Dava pouco espaço a intromissões no seu mundo onírico e particular. Nesta segunda, 28, manhã cedo, soube que a parca, na gris noite de domingo, o havia convocado, mercê da fragilidade de seu grande coração. Foi amado e respeitado por Diana, sua mulher, e pelas filhas Renata e Roberta, capazes e cidadãs do mundo. Marco César. Smile.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/10/2009.

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A GERAÇÀO PERDIDA E HEMINGWAY – Jornal O Estado

Terá sido mesmo, como intitulou a escritora americana Gerrude Stein, uma geração perdida, a que, vinda de países diversos, resolveu ocupar Paris nos anos 20 do século passado? A cidade de Paris, então o centro cultural do mundo, virou o exílio dourado ou o paraíso para imaturos escritores e artistas de todos os continentes, especialmente americanos do norte. Acreditavam eles que a elite cultural do planeta vivia ou acontecia nos arredores do Quartier Latin, na margem esquerda do Rio Sena. Essa área, onde se localiza, a Sorbonne, a universidade referência, gerava um espírito alegre coletivo e os cafés, bares, restaurantes, bibliotecas e museus favoreciam o convívio de gente querendo ser famosa e reconhecida. É esse o cenário que Ernest Hemingway usou em seu livro póstumo “Paris é uma festa”. Foi em 1921 o ano em que o jovem casal americano Elizabeth Hadley e Ernest Hemingway chega a Paris. Ernest participara da 1ª. Grande Guerra pela Itália, tinha estilhaços em uma das pernas e usava isso como diferencial. Nos cinco anos em que sedimentou leituras, fatos, relatos e aguçou sua visão objetiva, encontrou o ambiente que o empurrava para os rumos da então famosa livraria-biblioteca Shakespeare and Co. Foi em Paris que Ernenst consolidou a sua formação com leituras definitivas e ordenou os seus cadernos de notas em que registrava o fascínio por Tolstoi, Dostoiewski, Conrad, James Joyce, T.S. Eliot ,Proust e tantos outros. Assim, pouco a pouco, idealiza a sua estética e cria a ambiência para mesclar a sua ficção com o real. Como já havia dito Oscar Wilde: “a ficção antecipa a realidade”. Ao mesmo tempo em que se aprimorava, brigava com amigos, entre eles, Scott Fitzgerald. A seu modo e tempo, Ernest era correspondente de jornal, o que enxugava o seu texto. Nascido em 1899, Tinha pouco mais de 20 anos quando se aventurou no mundo da escrita. Aos 26, já havia escrito contos vanguardistas e lança “O sol também se levanta”. O livro não causou sensação. Descompensado, encharcado de mulheres e bebidas, no bar do Hotel Ritz, começou a contrair dívidas. Divorciou-se de Elizabeth, em 1927, e teve mais três casamentos complicados. Dois anos depois, lança “Adeus às armas”. Mas só após a sua participação como correspondente da Guerra Civil Espanhola, publicou, em 1937, “Por quem os sinos dobram”. Depois, veio “O velho e o mar” e assim a consagração, talvez tardia, em 1954, quando ganha o Prêmio Nobel de Literatura. A esse tempo, já deprimido, diabético, hipertenso e com arteriosclerose acreditava, em seu íntimo, que realmente a frase recorrente e maldita de Gertrude Stein fazia sentido. Ele era parte de uma geração perdida, pois não encarara a dura realidade do viver. Adepto da “evidência trágica”, morreu em 1961.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/10/2009.

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CONVERSAS DE DOMINGO – Diário do Nordeste

Última quinta, lancei o meu quinto livro. Ele é um extrato mínimo de centenas de artigos e crônicas publicadas em jornal. Não os reputo peças literárias. São apenas narrativas breves e, aqui e acolá, artigos de opinião. Não os centrei apenas em meu umbigo. O mundo é o seu picadeiro. Tentei estabelecer a dimensão de fatos, sua conexão com a realidade, com a vida e o comportamento humano. Uso, por limitação de espaço, linguagem curta e simples para me aproximar do leitor. Cada leitor é um crítico e por tal razão os escritos são abertos às suas lupas para reflexões. Não fora a indução de amigos, certamente não sairia este livro. “Conversas de Domingo” é um acidental encontro com o outro, com os meus fantasmas, meus amores e sonhos. Quem escreve em jornal e assina o seu nome é alguém disposto a ser julgado a cada semana por sentimentos revelados ou opiniões emitidas. Raras citações usadas não demonstram erudição. Revelam, quem sabe, a procura de validação de alguém, exemplo ou referência, em sua área de conhecimento. Algumas semanas trato de ideias. Em outras, sou anima e cuore, relatando tristezas, emoções e alegrias. Abordo, vez por outra, aspectos de viagens ao redor deste mundo, rico e pobre, e as impressões capturadas pelo obturador da minha retina, acasaladas no meu hardware mental. Não sou guia, sou apenas curioso. Tenho o olhar pronto para o inesperado. Não sou teórico, detesto falação sem racionalidade ou lógica. Sou traído, algumas vezes, pela indignação ou a emoção à flor da pele, pedindo passagem ou assumindo o espaço da dor contida, revolta ou a alegria da esperança. Entendo o leitor como alguém capaz de tirar conclusões, a partir da sua história pessoal. Não sou noticiarista. Apenas procuro ficar atento a acontecimentos, datas e feitos. Não esquadrinhem certezas nos meus escritos, apenas relato o cotidiano, cuidando de não me tornar monotemático. Como falo de muita coisa é certo não haver aprofundamento. Tento apenas arranhar ou assanhar a curiosidade dos leitores. “Conversas de Domingo tem muito de mim, como vivo, meus estranhamentos e amores”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2009.

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LER E ESCREVER – Jornal O Estado

Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever há tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa música me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um péssimo jogador de futebol, só entrei em time de basquete quando não havia ninguém para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de vôlei e quebrei o escafódio. Deixei o vôlei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Exército, pus-me a atirar com revólver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde não passava ninguém. Era uma passagem de serviço por trás da garagem. Ninguém me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece silêncio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Será que isto é assim mesmo? E usava um lápis como arma para sublinhar, rabiscar e – pasmem – até discordar do autor que estava lendo. Como não conhecia nenhum escritor vivo, não tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Como não tinha participado de rodas literárias, pus-me a ler o que não era devido. Assim é que me apaixonei pelos escritos de Monteiro Lobato, não os livros infantis, mas A Barca de Gleyre. Li um pouco de André Maurois. Ele tinha sido presidente da Academia Francesa e eu pouco me importava com isso. Gostava de seus textos e pronto. Depois, encarei Dostoievski sem saber dos muitos nomes de cada personagem e da densidade de seus temas. O lápis era meu aliado na concatenação das idéias para fazer anotações à margem ou inventar uma espécie de glossário. Não desistia. E foi assim, errando e descobrindo, que o hábito da leitura tomou conta de mim. A propósito, a Bienal do Rio de Janeiro terminou agora e a maior atração foi José Mayer lendo texto de Érico Veríssimo. Está na hora de se repensar a função e a relação das bienais com o público. O povo que entender o que os escritores dizem. As bienais não podem ser fogueiras da vaidade de A ou B. Voltando ao fio: nada me agrada mais que um bom livro e fico triste quando recebo um best-seller de presente. Tenho, então, a certeza de que a pessoa não conhece os meus hábitos ou quis se basear em lista dos livros mais vendidos. Este ano, por exemplo, ganhei dois exemplares de um livro que não sai do primeiro lugar. Uma lástima melosa falando de um pai e morte da filha. Assim é que a minha desconfiança na leitura ou uma espécie de distanciamento crítico parece ter uma explicação psicanalítica. Complexo, não? Fui criando coragem e comecei a escrever diários para me acostumar com o fato de que poderia ler o que havia escrito. É bom ler o que se escreve, mesmo que seja bobagem. Melhor ainda é reler. É por estas razões acima expostas que o consegui trazer até o ponto final. Consegui?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2009

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EUCLYDES, O HOMEM – Diário do Nordeste

Tenho procurado ler sobre Euclydes da Cunha(1866-1909). Não falo sobre o livro “Os sertões”, mas seu autor. Euclydes, com y – pois o alfabeto atual da língua brasileira assim o comporta – era tímido, muito tímido. Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, é autor do livro “Canudos – O Povo da Terra”, tendo autoridade para descrever a personalidade do mais famoso representante da família Cunha. Cita o próprio Euclydes ao dizer que: “nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja”. Apesar disso, Villa o considera um homem de Estado, pois “toda a sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo”. Uma semana antes de morrer teria dito para o cunhado: “Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis… Tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas… Nunca se berrou tanta asneira sob o sol… Este país é organicamente instável”. Um amigo seu, Francisco Escobar, tentou sondá-lo para se candidatar a deputado. Euclydes respondeu: “Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer – para a qual não me preparei”. Vejam, tudo isso aconteceu na primeira década do século passado. Há exatos cem anos. Euclydes, entretanto, se beneficiou da frouxidão moral da política. Conseguiu ser nomeado professor do Colégio Pedro II, que era à época o Ginásio Nacional, graças à interferência de grupo de amigos que pediu a sua nomeação a Afonso Pena, o presidente (1902-1906) da época, em detrimento de Raimundo de Farias Brito(1862-1917), o grande e esquecido filósofo cearense, que havia tirado o primeiro lugar( Euclydes foi o segundo colocado) no concurso público para ensinar Lógica. Assim, uma coisa era o que via e pensava, outra a que vivia. Mas, como dizia minha avó Luiza, a justiça divina se fez e Euclydes só conseguiu dar dez aulas, pois logo foi assassinado por Dilermando de Assis, aquele que viria a ser marido de sua viúva. Mas, isso é outra história.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/09/2009.

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O GRITO DE DOLORES – Jornal O Estado

A Independência do México, país a que sirvo como Cônsul Honorário, não foi pacata como a do Brasil. Lá, houve um longo conflito. Aliás, a História do México é plena de guerras. Ao contrário, o nosso país até faz revoluções sem grandes perdas humanas. O conflito que levou à Independência do México teve várias nuances. O D. Pedro I do México foi um sacerdote católico, o padre Miguel Hidalgo y Costilla, dito Miguel Hidalgo. No México, como nos outros países hispânicos, o primeiro nome de família – ou sobrenome – é o do pai. O nome da mãe, embora conste do registro de nascimento, não é usado. Assim, Miguel Hidalgo foi o protagonista do “Grito de Dolores”, no dia 16 de setembro de 1810. Esse grito eclodiu dentro de uma simples Paróquia do lugar Dolores Hidalgo, no hoje estado de Guanajuato. Como se vê, no próximo ano de 2010, o México completará 200 anos como país independente e, certamente, terá muito que comemorar, pois hoje é o mais importante e o mais culto país de língua hispânica das Américas. Voltando ao fio da história: não bastou o grito para que o México, então Vice-Reino da Nova Espanha, ficasse independente. Oito anos se passaram para a poeira assentar e terminar com a guerrilha que acontecia nas serras do sul daquela pátria. De 1810 para cá, o México passou por outras tantas lutas, sendo a mais cruenta a que travou (1846-48) com os Estados Unidos quando perdeu metade de seu território. Eram mexicanos os territórios da Califórnia, Nevada, Texas, Utah, Novo México e parte do Arizona, Colorado e Wyoming. Por outro lado, essa perda significou, paradoxalmente, o caminho para a libertação dos escravos americanos, pois no México já não mais havia escravatura. Voltando ao hoje, nesta quarta-feira, 16 de setembro, data nacional mexicana, o Consulado Geral do México no Rio de Janeiro, dirigido pelo intelectual e diplomata de carreira, Andrés Ordóñes, abriu no Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, a mostra “Cumplicidades” em que realça o centenário de nascimento da pintora Frida Kahlo e o cinquentenário da morte de seu companheiro de tintas e vida, o singular e grande artista Diego Rivera. São “36 fotografias que mostram as paixões compartilhadas por ambos os artistas, suas cumplicidades, durante mais de 25 anos de relação”. Por fim, como lá se diz:” Viva México!”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/09/2009.