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SINGULAR – Jornal o Estado

Singular é uma palavra com várias significações. Pode ser pertencente ou relativo a um. Pode ser algo que não é vulgar, mas especial, raro, extraordinário, excêntrico, extravagante, esquisito ou bizarro. Mas, pode ter algumas dessas significações e ser uma experiência árdua e vitoriosa que completa dez anos. A escolha do nome, certamente, foi a propósito. Quem o escolheu estava querendo construir algo diferente, embora, para tanto, precisasse da habilidade e capacidade que acumulara em outras dezenas de anos. Fim do mistério: estou falando da revista Singular, formato de bolso, boa apresentação e cuidados gráficos que mostram o amor de seu criador, o jornalista Eliézer Rodrigues, formação em comunicação social, anos de batente nos vários escaninhos que fazem uma redação. Um dia, em 1999, esse número cabalístico que, noves fora, dá um. Isto é, singular, raro. E é o próprio Eliézer Rodrigues, na edição especial, número 28, quem conta: “A Singular surgiu, não por acaso, e sim por uma necessidade de continuar alimentando a inquietação pela notícia, após anos no batente de redação”. E cita, com acuidade, o pensamento de Dino Buzatti, jornalista e romancista italiano, através de seu personagem Drogo: “Tenho a impressão que o importante está para começar”. Cada número – e já são vinte e oito – é uma batalha e história. São novos colaboradores, diagramadores, anunciantes a conquistar e tensão até que a revista brote em formas e cores, oferecendo portabilidade ao leitor. Este número 28 contém preciosidades. Conto algumas. Há uma reportagem de Renan Antunes, forte e consequente, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo, em 2004. Contém a passagem por Quixeramobim do tísico Manuel Bandeira que ali aportou em busca de ares puros para os seus alvéolos pulmonares e nunca entrou em sua igreja matriz (“onde nunca entrei e hoje tenho pena”). E diz isso em crônica, tão poeta que foi. Ethel de Paula desvenda um advogado-dama. Jorge Pieiro, vindo do Limoeiro dos Maias, fala sobre a praça que adota a todos que aqui aportam e a usam e abusam. Ana Miranda diz da Praia de Iracema de sua infância. Há projetos de ciência com Miguel Nicolelis e há mais, muito mais. Leia a Singular. Compre um exemplar. Mas, se não tiver dinheiro, o Eliézer dará de graça com a mão calejada de palavras que trouxe ao mundo na ordem que quis e sabe fazer. E por ser benfazejo o trabalho de Eliézer Rodrigues é que o incluo no meu espaço semanal do jornal O Estado, um destemido e admirado diário que o povo do Ceará lê há mais de 70 anos. Parabéns, Eliézer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/08/2009.

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CRIANÇAS E LIVROS – Diário do Nordeste

Fiquei feliz em ver na cidade de Paraty, RJ, a Flipinha. Uma folia paralela para crianças em meio à, digamos, Flipona, a festa literária internacional, exclusiva para adultos. Uma das coisas que me chamou a atenção na cidade, foi a ambientação das praças carregada de simbologia infantil, tais como animais feitos de papel ‘marché’, adolescentes seguindo os passantes com pinturas brancas nos rostos e os corpos vestidos de negro. Como a festa era em homenagem ao poeta pernambucano Manuel Bandeira havia os célebres e grandes bonecos que enfeitam os carnavais de Recife e Olinda. Todos os professores recebiam, gratuitamente, um Manual da Flipinha. Nesse manual, realizado pela Associação Casa Azul, fica claro que ele é um apoio ou ferramenta das salas de aula para provocar o aprimoramento do estudante, através do livro e da consequente leitura. A intenção é transformar as crianças nascidas em Paraty em leitores conscientes, dando à cidade um modelo de turismo cultural a dar exemplo a todo o país. Assim, professores foram engajados à Flipinha e o que se via era um salão aberto, com palco, lotado de crianças, ávidas por conhecimento. Neste tempo em que a Internet duela com a televisão como foco de atenção dos pais e das crianças, os livros, erradamente, são considerados apenas obrigações escolares, como instrumentos necessários à formação elementar, secundária ou superior. Está provado que as pessoas que gostam e sabem ler têm mais facilidade de expressão e comunicação. Não falam “tipo assim”, por terem vocabulário limitado. Os que leem sabem descrever situações, assimilar o contexto de conversações. A partir das leituras conseguem ter uma visão maior do mundo, com seus perigos e oportunidades. Embora seja um avô não ortodoxo, tenho procurado estimular meus netos para a descoberta da leitura e da escrita. E o faço não interferindo na sua educação, mas lhes dando livros compatíveis com a idade. Tive o prazer de ver uma neta, pré-adolescente, recebendo prêmio e medalha de uma editora nacional por texto seu publicado, depois de selecionado no colégio. Luana, encabulada, devoradora de livros, estava, sem saber, concedendo-me alegria incomum.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/08/2009.

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ARIMATÉIA SANTOS – Jornal O Estado

Após luta renhida, José de Arimatéia Santos deixou-se levar aos 81 anos, cercado por sua família nuclear. Partiu com a tranquilidade dos que sabem ter trilhado o caminho dos justos. Arimatéia foi, em vida, uma pessoa rara. Ele conseguia ser fiel, ao mesmo tempo, ao Grupo Edson Queiroz, ao qual dedicou meio século de trabalho; à família, especialmente, D.Isolete, sua musa em tantos versos compostos, às filhas Mônica e Fernanda, aos genros Otávio e Fernandes, e aos netos. Reunia essa turma e, todos os anos, viajavam pelo mundo afora. Era também leal ao Lions Jangada, o clube de serviço que integrava; à Saerg, sociedade benemérita por ele criada, que amparava jovens paupérrimos; aos colegas do cooper matutino na Beira-Mar e aos amigos da Turma dos Sábados, fundada na TV- Verdes Mares, ainda quando o Chanceler Edson Queiroz era vivo. Cordial, capaz e simples, Arimatéia era referência na equipe que ajudou a formar um dos mais sólidos e respeitados grupos econômicos do Nordeste. Como cidadão, criou um núcleo de assistência médica e educação rural, com salas de aula, ampla biblioteca e foco no ensino de informática a crianças e jovens. Orgulhava-se da banda instrumental por ele fundada, tudo em Guanacés, seu berço, distrito de Cascavel. Como letrista bissexto e diletante, teve CDs gravados, inclusive pelo Quarteto Iguaçu, do Paraná, destacando-se a música “A janela da Vida”, na qual escancarava o amor por D.Isolete. Se é certo que existe um paraíso celestial a acolher os bons de espírito, sem dúvida, nesse insondável espaço, Arimatéia deverá ter entrado, não pela janela, mas pelo acesso reservado aos retos de conduta e puros de coração, como ele o foi. Seu nome, José de Arimatéia, é o de um dos maiores amigos de Jesus, a quem abrigava em sua casa e para quem cedeu o próprio túmulo. Arimatéia, gente de bem, certamente foi recepcionado pelos santos que, em conjunto, a ele emprestaram seu sobrenome. Reunia as múltiplas qualidades de filho exemplar, irmão presente, marido leal, pai extremado, profissional correto, colega e amigo de quantos tiveram a oportunidade de gozar, por muitas décadas, de sua companhia cordial e folgazã. Deus o guarde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/07/2009.

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BIBLIÓFILOS :25 ANOS DEPOIS – Jornal O Estado

Bibliófilos são seres estranhos no mundo pós-moderno. Apegam-se a capas e conteúdo de folhas amarelecidas pelo tempo e, pouco a pouco, se tornam cativos dos livros. Bibliófilos não são ruidosos. Por excelência, devem ser aquietados ao trilharem a ainda não bem entendida e definida tarefa de amar e cuidar de livros, especialmente os preciosos, antigos e raros. Mas o que é livro raro? Pergunta difícil. Nem todo livro antigo é raro. Tampouco, quando apenas só existe um exemplar dele. Ana Virgínia Pinheiro, no “Glossário de Codicologia e documentação” e em “Que é livro raro”, diz: “Antiguidade não é sinônimo de raridade, nem garante o mérito de um livro… A noção de raridade bibliográfica envolve tantos valores e circunstâncias que é necessário formalizar uma metodologia para organizar esse conhecimento. O primeiro passo está em por em confronto os conceitos de raro, único e precioso”. José Castello, em artigo publicado na revista Isto É, de 12 de novembro de 1997, fala sobre a relação entre leitores e livros. A primeira ideia é imaginar que poderemos ler mais do que é humanamente capaz. Depois, desejamos ter em mãos, cuidados e ordenados, as obras dos autores que apreciamos. Finalmente, surge o interesse pelas primeiras edições, ou seja, a iniciação à bibliofilia. Este artigo é dedicado a uma entidade da qual tenho o prazer de fazer parte, a Associação Brasileira de Bibliófilos, a mais antiga instituição do gênero do Brasil, que está comemorando, nesta data, os seus 25 anos de fundação e o ingresso de quatro novos sócios, Francisco Pinheiro, Hélio Leitão, Ingrid Schwamborn e Ubiratan Aguiar. Sejam bem-vindos. Seus nomes enriquecem o quadro social da Associação Brasileira de Bibliófilos, composta por membros curiosos, diletantes, cultos e ilustres e presidida por um dos mais atuantes bibliófilos do país, José Augusto Bezerra. Concluo. E o faço com frase do maior bibliófilo brasileiro, o empresário, acadêmico e apaixonado por livros, José Mindlin: “Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/07/2009.

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FLIP, A VOLTA – Diário do Nordeste

Estou vindo da Filp – Festa Literária Internacional de Paraty, Rio. Fui ver para crer. A Flip não é feira de cultura, tampouco de livros. Mas, paradoxalmente, é um pouco disso. O seu ar pós-moderno é a procura de se caracterizar como uma festa múltipla com intelectuais, jornalistas, câmeras de tvs, cantores, acadêmicos, estudantes, “bichos-grilo” e visitantes. Usa o espaço privilegiado e bonito do Centro Histórico (sem veículos) de Paraty, cujo pavimento é caracterizado por lajes ou calhaus assimétricos dando aos pedestres um requebro no desequilíbrio ao andar. Acima do nível do chão ergue-se o casario branco, tais como o quase-restauro feito em Salvador (Pelourinho), Recife (centro antigo) e Fortaleza (área do Dragão do Mar). As praças e parques são sombreados, cuidados e têm brinquedos. Até na principal igreja houve concerto público de música brasileira (choros, dobrados, emboladas e toadas), cujo regente era um fagotista cearense de Tauá, Francisco Formiga, que incluiu no repertório da noite a Suíte Hermética, do também cearense Liduino Pitombeira. Mas quem ganhou a maioria dos holofotes foi Chico Buarque. Em meio à travessia que fazia com o escritor Milton Hatoum teve a coragem de dizer: “Acho escrever uma chatice” e “tenho dúvidas se Guimarães Rosa é mais importante que João Gilberto”. Ora, não dá para comparar o que é distinto. Para os músicos, como o Chico, é natural escolher o compositor João Gilberto. Entretanto, nem os músicos podem desconsiderar o valor de Rosa. Zuenir Ventura, a quem encontrei, entre outros, na Flip, ficou indignado e usou o jornal O Globo para dizer: “como estabelecer paralelo entre quem usa como matéria-prima sons e acordes, e quem utiliza a palavra escrita?”. É preciso dizer ainda havia muitos convidados estrangeiros, alguns mais performáticos que intelectuais. Ouvi palestras e entrevistas. A do americano Gay Talese, uma espécie de Valdick Soriano do novo jornalismo usava chapéu, paletó, gravata e colete: Uma gracinha. Mas tinha gente como o jovem escritor mexicano, Mario Bellatin, o poeta e contista chinês Ma Jian, o biólogo-evolucionista inglês Richard Dawkins. Sem falar nos brasileiros, onde destaco o editor Rodrigo Lacerda, o crítico Sérgio Rodrigues e o veterano Edson Nery da Fonseca, cultor do homenageado Manuel Bandeira que escreveu este verso “a alma é que estraga o amor”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/07/2009

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LUA DESVENDADA – Jornal O Estado

Terça, 20 de julho, completa quarenta anos da subida da espaçonave americana Apollo 11 à Lua. Nesse tempo eu estava no Rio e as imagens da rede Globo mostravam, com certo atraso(delay) o que a televisão americana, enlouquecida, descrevia. Neil Armstrong e Edwin Aldrin manquejam nos grossos trajes espaciais na branca planície lunar. Deles, só víamos os rostos por trás das lentes dos capacetes. Era tarde da noite friorenta, a sala da televisão repleta de gente. Havia silêncio respeitoso. As expressões dos rostos, lembro bem, demonstravam espanto e admiração pelo feito, mas houve quem dissesse: isso é uma farsa. Até hoje, passados 40 anos, há livros, teses e audiovisuais que levantam a hipótese de uma encenação para quem, como o americano, seria acostumado a fazer cenários hollywoodianos, quase verdadeiros. Agora mesmo, acabei de ver um vídeo com o dístico “Top Secret”, supostamente do Departamento de Estado dos EUA, mostrando um civil, em trajes comuns, ao redor do passeio de Aldrin e Armstrong. A farsa, todavia, pode ser a edição da imagem verdadeira com superposição de outra pessoa. O fato é que a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética provocava medo à humanidade e os soviéticos já tinham mandado Yuri Gagarin e um macaco ao espaço. Agora, naquele 20 de julho, seria o troco americano. Foi dado o alerta. Vieram os anos setenta e oitenta. A humanidade – com a física, a engenharia e a medicina- começou a usufruir das pesquisas espaciais, com o surgimento de novos materiais leves e resistentes para aeronaves, tecnologia de comunicação e drogas sintéticas que curam ou mitigam males. O fim da Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Europa teve o seu mapa mudado pelo desdobramento de países, inclusive os resultantes do desmanche da arquitetura política da União Soviética. Aconteceu, então, a desaceleração na corrida espacial. Descobriu-se o óbvio, o buraco é mais embaixo, é aqui mesmo, onde desmatamentos, fome, ideologias, guerrilhas, sede de poder, doenças, ditaduras e analfabetismo contaminam a terra. A lua, embora desvendada, voltou a ser dos poetas e enamorados com suas metáforas e enigmas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/07/2009.

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OBSERVAÇÃO – Diário do Nordeste

Rio. Estava lá e não se encontrava. Habituara-se a grupos pequenos. Muita gente não fascinava a seus olhos. Torcia o nó da gravata. O vozeio aumentando e o relógio de pé, antigo, marcava o tempo. Tinha o olhar da observação e captava descompassos sociais após cada chegada triunfal e a saudação aos próximos. Luzes havia e o calor das mãos não irmanava pessoas. Elas poderiam, sim, enaltecer o momento, descobrindo-se umas para as outras ou procurar o caminho da prosa factual. Mas eram estranhos entre si. Nem o aprumo na decoração e o ambiente iluminado e criativo, análogo a outros, eram admirados. Como deveriam ser por quem estava ali por motivações quaisquer. Apresentações e saudações feitas. Eram muitos os previstos e os inesperados, mas tudo correu no mundo da cortesia e civilidade a presidir encontro entre pessoas de falas e saberes variados, sem faltar o disse-me-disse costumeiro, de soslaio.
Uns ficaram próximos, outros distantes, mas isso sempre aconteceu, desde a Grécia antiga. Palavras amáveis foram trocadas, umas com alma, outras por arte. Houve até, imaginem, a invocação do Senhor em meio laico e todos se compraziam com o papel de ser ou eram apenas como os outros imaginavam que fossem. E a comida saborosa e benfazeja ia ocupando espaços em estômagos não tão prenhes de fome, mas as papilas gustativas desempenharam seus papéis e muitos pareciam estar em mesas formadas. E bebeu-se. Cada um a de sua preferência e vezes sem conta, pois conta não havia. E havia música, de múltiplas formas, ritmos e andamentos. E, na euforia, uns dançavam ao som que se transmudava em decibéis pedindo conversas em tom mais alto. E, vez por outra, pessoas se acercavam das mesas para falar sobre os seus pares e ímpares. Em fala natural ou estranha. Eram adventícios, a maioria. E havia risos, chistes, e o tempo fluía como se tivesse sido confinado pelo frescor da noite.
Sobremesas ricas e bebidas para paladares ávidos foram servidas com elegância para muitos que esqueceram o rumo de volta. E a narrativa se perdeu no sono da madrugada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/07/2009.

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MOTOTAXISTAS E A LEI – Jornal O Estado

Já andei de moto. Ainda tenho pequena cicatriz de queda levada. Eram outros tempos. A cidade comportava a convivência entre motos e carros. Hoje, tempos outros. Motos e carros disputam as faixas de pista sobradas das vans de aluguel, ônibus e caminhões. As avenidas e ruas são palcos diários de acidentes. O problema com as motos é que os acidentes são mais frequentes e o impacto é maior pela pouca proteção. As motos levam, quase sempre, duas pessoas. Uma é o guiador, dono da moto ou arrendatário. A outra é um passageiro apressado. Falo das mototáxis, produto típico de país ainda subdesenvolvido. Imagina, falar de mototaxistas para um inglês. What? Até os chineses, ainda pobres, já adaptaram os seus riquixás puxados à força humana para motos. Assim, são triciclos. Menos perigosos. No Brasil existem, neste 2009, 500 mil mototaxistas, espalhados em 3.500 cidades e, segundo se sabe, atendem a 10 milhões de passageiros. Por que isso acontece? Porque pessoas cansam de procurar emprego a exigir qualificações acima da média e o transporte coletivo não é suficiente. O brasileiro comum, desempregado, compra uma moto, aprende a guiá-la para sobreviver e pagar com o apurado. Os incomuns, segundo se diz, estão no Senado. Pois é esse Senado, em meio ao tiroteio interno e da mídia, que aprova, nestes dias, a carreira em que o profissional tem que estar sempre sobre duas rodas, em processo de equilíbrio a misturar lei da física, pressa ou estresse, pavimento ruim e desempenho dos outros veículos que o acossam nas maltratadas vias das cidades. Assim, enquanto se nega reserva de mercado para pessoas formadas em comunicação, se abre – ou se regulariza –nova categoria profissional. Brevemente, os sindicatos dessa categoria elegerão líderes para câmaras municipais, assembleias e até para o Congresso. Quem sabe, daqui a algum tempo, um mototaxista-congressista, atrás de votos, apresente condolências às famílias de Josés e Joões, seus colegas mortos pela “insanidade do trânsito”. Ao Presidente Lula, depois da aprovação no Senado, cabe vetar ou sancionar a lei. O que acontecerá?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2009

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A ROUPA E O MONGE – Diário do Nordeste

Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros veem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como sequela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo – na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2009

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PARATY E A FLIP Jornal O Estado

Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir. Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. A música é objeto de bate-papo com Alex Ross, da revista New Yorker. A família cai na dança e é debatida por Anne Enright e James Salter. Gay Talese, autor, entre outros, de “Fama e Anonimato”, conversa sobre o novo jornalismo, de que é profundo conhecedor, com Mário Sérgio Conti, TV-Senac. O mexicano Mário Bellatin e o brasileiro Cristóvão Tezza procuram explicar suas experiências pessoais como literatos. E, para não cansar vocês, Catherine Millet, aquela que escreveu, quando jovem, a “Vida Sexual de Catherine M”, fala sobre o que viveu. Ao final, Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca, encerram o tema Manuel Bandeira, a quem conheceram em vida. Como se vê, é realmente uma festa, em que há muita badalação e até um pouco de literatura. É, sem dúvida, um encontro midiático que atrai nomes internacionais, cujos cachês não estão nas alturas. Para alegria dos que gostam de Chico Buarque, ele é figura de proa nesta festa. É a “gota d’água”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2009