Desde o fim do ano passado que tenho me recusado, sistematicamente, a falar sobre a crise brasileira. Nesta semana, algumas pessoas têm me pedido, de forma insistente, que eu faça algum comentário sobre a crise. Alegam que, quanto mais leem ou ouvem, mais atônitos ficam.
O grande problema em qualquer análise que se venha a fazer sobre a crise brasileira é saber por onde começar e como terminar. Tema vasto, espaço curto, optei por ficar com três personagens do livro: “ A Crise do Capitalismo”, Editora Campus, 1999, de George Soros: Armínio Fraga Neto, o terceiro presidente do Banco Central nestes dois meses de 1999, o próprio George Soros e o Brasil.
Personagem um: Armínio é um brilhante economista de 41 anos, já foi diretor do Banco Central, fez seu doutorado em economia nos Estados Unidos, dava aula, como professor adjunto, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque e era, até o mês passado, diretor da Soros Fund Management. Em novembro passado, escreveu o prefácio brasileiro do já citado livro de George Soros.
Personagem dois: George Soros tem 69 anos. Nasceu sob o comunismo da Hungria, emigrou para a Inglaterra e se formou em economia na London School of Economics. Aos 26 anos, já formado, mudou-se para os Estados Unidos, passou a trabalhar na área de mercado de capitais, ficou multimilionário criando e gerenciando fundos de investimentos internacionais. Tornou-se cidadão americano, afinal o Tio Sam adora quem faz sucesso e abomina fracassados.
Personagem três: O Brasil somos todos nós.
Pensei então: não seria melhor deixar que os próprios Armínio e o Soros comentassem a crise brasileira? Vamos ler o que eles escreveram. Se vocês quiserem conferir é só comprar o Livro.
Comecemos com ARMÍNIO FRAGA:
01.O Brasil tem vivido ao longo dos últimos 20 anos um processo de transição política… em parte detonada pelo esgotamento do modelo econômico anterior caracterizado por uma economia fechada na qual o Estado participava diretamente do processo produtivo… Por um lado o Brasil não tinha o mecanismo básico de orçamento para alocar os escassos recursos disponíveis de acordo com as novas prioridades. Por outro lado, também não tinha instituições monetárias para evitar que o resultado desequilíbrio fiscal se transformasse em combustível para a explosão inflacionária.
02.A estabilização foi possível graças à combinação de um engenhoso processo de desindexação aliado a uma política monetária restritiva de moldes ortodoxos, aplicada através de uma âncora essencialmente cambial.
03.O processo de estabilização desembocou em uma situação superior à inicial, mas ainda é cedo para declarar vitória… O Brasil voltou a ser um tomador líquido de recursos na economia internacional.
04.O déficit do setor público é hoje o maior entrave à retomada do crescimento pois reduz a poupança disponível para o investimento e pressiona para cima as taxas de juro.
05…. países que se financiam tomando recursos de curto prazo, especialmente para cobrir déficit público, são mais vulneráveis aos ciclotímicos movimentos do capital internacional.
Agora, vamos ao que escreve GEORGE SOROS:
01.A fuga de capitais atingiu o Brasil e, se o Brasil cair, a Argentina estará em perigo.
02.Também precisamos estabelecer alguma modalidade de supervisão internacional sobre as autoridades supervisoras nacionais.
03.O Brasil ainda está padecendo da fuga de capitais externos e internos e não será capaz de conviver por muito tempo com taxas de juros estratosféricas.
04.O caso do Brasil é mais complexo… Evidentemente, o Brasil precisaria empreender medidas agressivas para reduzir o déficit fiscal. Mesmo assim, há um risco efetivo de fracasso do programa.
05.O papel da opinião pública e da sociedade civil reveste-se de primordial Importância, pois, numa democracia, os políticos são sensíveis às demandas populares. Nas verdadeiras democracias, os estadistas talvez assumam a liderança na mobilização da opinião pública.
Para concluir, deixo apenas uma pergunta no ar: temos estadistas?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/02/1999.
