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NÓS E AS CHUVAS – Diário do Nordeste

Sexta, 22, foi o dia da biodiversidade, aproveito então para dizer o óbvio. Nós todos somos o planeta Terra. Todos sabem – ou deveriam saber – sobre a diversidade biológica, isto é, a heterogeneidade da natureza viva. Sabem, mas não cuidam. Tenho esperanças de mudanças em nossos comportamentos pessoais, os péssimos costumes advindos da origem rural de parte da população urbana. Não respeitamos a fauna, tampouco a flora e somos predadores do ecossistema de nossas cidades. “Jogar no mato” transformou-se em jogar em qualquer lugar. A rua é a lixeira gerada pela falta de educação. Agora mesmo estamos vivendo uma crise decorrente de um bom inverno – sempre pedido – que chegou e encontrou esgotos entupidos, rios, lagoas, riachos, córregos com margens ocupadas por famílias carentes em permanente situação de risco e uma malha viária mal asfaltada sem calhas de escoamento por gravidade ou por drenagem. As cidades viram caos, acontecem enchentes não só por culpa da pluviometria, mas por despreparo coletivo e falta de ação preventiva dos seus gestores públicos. Escolas, colégios, universidades, repartições, sindicatos, igrejas, clubes e afins precisam formar grupos de pessoas e começar um processo profundo de educação ambiental para crianças, jovens e adultos. Não basta enviar donativos e entregá-los a gestores acostumados a clamar. É preciso tornar permanente o cuidado emergencial e incutir nas mentes das pessoas a necessária relação entre nós e o meio ambiente. Não sou ambientalista, nada de eco chato. Sou apenas alguém que já viu esse filme se repetir e sabe que a saída é a educação a gerar respeito pelo outro e pela terra que nos abriga e alimenta. A ênfase é produto da indignação com a indiferença a começar na família descuidando dos restos ou resíduos gerados a cada dia. Há ainda pessoas tidas como de nível a jogar pontas de cigarro, latas ou garrafas plásticas pelas janelas de seus carros. Há também quem não possa ver um terreno não edificado e lá despeja sobras de construções ou reformas. Um dia, o inverno chega e a água precisa, além de banhar a terra, seguir o seu curso. Como, se tudo está entupido com as nossas sujeiras?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/05/2009

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FILGUEIRAS LIMA: BALADA DO CENTENÁRIO – Jornal O Estado

Ontem, 21, Antônio Filgueiras Lima, com a alma certamente genuflexa na eternidade, completou 100 anos. O marido de D. Amazônia, o pai de Ruy, Antônio e José aliava a sensibilidade de poeta à devoção do educador que formava pessoas para a vida. Em 1959, quando Filgueiras Lima completava 50 anos, recebi de suas mãos uma folha de papel, de razoável gramatura, que continha o poema Balada do Cinquentão: “Fatiguei-me tanto, amada/Viajei cinquenta léguas/por essa sinuosa estrada/ que toda, a pé, percorri/dentro d’alma fatigada/dos tesouros que juntei/ não resta nada? a saudade/ de tudo quanto gozei/de tudo quanto sofri/dos beijos que te ofertei/ dos vento que te devi/de um rio que atravessei/ inda criança e… perdi/claro sino que escutei/na cidade em que nasci/ doces rimas que rimei/quando menino – e esqueci/ das gerações que eduquei/pelas quais tanta lutei/ e das quais tanto aprendi/dos tempos da mocidade/ambiciosa, em que sorri/embalado na esperança/ de um bem que nunca se alcança/de um futuro que… não vi/ oh! futuro! espelho mágico/ montanhas de ouro, brilhantes/ as rosas caem do céu/abre-se o mar em corais/ tudo um sonho evanescente/ hoje só tenho passado/ hoje só tenho presente/ mais passado que presente/ futuro não tenho mais”. Esse poema é uma espécie de autobiografia/testamento literário e revela haver em Filgueiras Lima uma quase premonição de sua prematura e inesperada morte, quatro anos depois. Nesse intervalo de tempo é que fui seu aluno na Escola de Administração, tendo sido distinguido por ele como Monitor de sua cadeira. Via-o chegar, sempre bem composto, de terno e gravata, com uma leve fragrância de colônia, a ministrar suas aulas quando, por vezes, o poeta falava mais alto e saia do script do conteúdo programático. Esse homem, que veio dos confins das Lavras da Mangabeira, batizado pelas águas do Rio Salgado, aqui se fez poeta e educador verdadeiro. Cavalheiro por excelência, tinha tamanha ligação com os estudantes que foi o autor da letra do Hino do Estudante – cuja música é de Silva Novo – em que dá uma última e ainda atual lição aos jovens que hoje frequentam os bancos escolares deste Brasil, ainda esperança: “É chegado o momento da luta/ mocidade vibrante e viril/ este brado de angústia se escuta/vinde, jovens, salvar o Brasil”. Salve Filgueiras Lima, vate do ensino.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/05/2009.

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MÍDIAS E ESTRANHOS – Diário do Nordeste

Não considero salutar o uso de revistas, televisões, rádios, cadernos e suplementos de jornais, sejam de cultura, entretenimento, arte ou sociedade, para enfocar, com destaque exagerado, figuras estranhas ao nosso meio social e à área de influência do veículo. Um exemplo: o simples fato de o cantor e compositor Bob Dylan ter lançado um CD foi objeto de notícias em TV, artigos e páginas de jornal. Ora, há tanto a divulgar sobre artistas locais, regionais e nacionais. Acho despropósito o verboso incenso ou confete em artista internacional sem nada a ver com a nossa cultura. Nada contra o cantor e compositor Bob Dylan, mas a favor de quem não tem espaço na mídia. “Deu no New York Times” é uma expressão a dizer: o fato – ou a pessoa – é tão importante ou raro a merecer a citação naquele jornal nova-iorquino. Sendo o fato importante ou raro é justo se louvar alguém de fora, mas usar isso como rotina ou como pretensa demonstração de inserção na cultural internacional é bobagem. A reciprocidade não é verdadeira: os jornais, redes de TV, bienais de cultura e arte, ignoram, quase sempre, nossos valores da cultura e da arte. Nós todos, brasileiros, devemos acabar com o provincianismo no endeusamento de mediocridades, efemeramente pululando no ‘show business’ internacional, na cultura e artes e recebidos ou citados como semideuses. Há ainda os casos de palestrantes econômicos – nada sabiam sobre a crise- a tentar explicá-la e autores de livros de autoajuda prometendo isso e aquilo, mas produzindo mediocridades travestidas de falsa cultura e farta propaganda. Existe cultura verdadeira e arte em nossa terra. Há múltiplos valores precisando ser reconhecidos pela mídia, produtores culturais, editores, curadores de bienais. Não têm espaço para suas obras de arte e livros com real densidade acadêmica, cultural ou artístico. Nenhum País, Estado ou cidade se torna importante culturalmente e nas artes com bajulação a estranhos ao seu meio. Nada de xenofobia. Deseja-se apenas sair desse endeusamento bobo a nos tornar ridículos aos próprios olhos dos incensados. Certamente, lá em seus íntimos, pensarão: qual a razão de esse povo estranho me ver assim?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/05/2009.

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SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS – Jornal O Estado

Li com atenção um pequeno livro. Escrito em 1752 por Mathias Aires: “Reflexões sobre a vaidade dos homens” é uma excelente leitura. O título parece dizer quase tudo, mas é um ensaio filosófico de fácil absorção. Mathias Aires era brasileiro, nascido em São Paulo, em 1705. Adolescente, acompanhou seus pais a Portugal e lá quase concluiu seus estudos em Coimbra, mas foi na Galícia onde se licenciou em Artes. O livro teve a transcrição e adaptação do Português da época para o do nosso tempo feita por André Campos Mesquita. O autor se baseia, de partida, no trecho bíblico do Eclesiastes, escrito em latim: “Vanitas vanitatem et omnia vanitas”. Traduzindo: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. É preciso contextualizar a época: a Península Ibérica era essencialmente católica e a Inquisição dominava a fé. Tanto isso é verdade que o livro, como todas as outras produções literárias e artísticas da época, precisou do aval do Santo Ofício. Havia um Qualificador da Fé. No caso, o frei Marcos de Santo Antonio. Ele diz, ao conceder a licença: “Revi por ordem de Vossas Ilustríssimas, o livro intitulado Reflexões sobre a vaidade dos homens, que pretende imprimir seu autor Mathias Aires… parece-me não conter coisa que se oponha à nossa Santa Fé, ou bons costumes, e que merece lhe concedam Vossas ilustríssimas à licença que pede. Esse é o meu parecer”. Como se nota, o escritor era previamente censurado, o que talvez tenha impregnado sua filosofia de “discursos morais”. De pronto, Aires afirma: “Trazem os homens entre si contínua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade é um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo que expõem à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que são. A nossa vaidade é a que nos faz ser insuportável à vaidade dos outros; por isso quem não tivesse vaidade, não lhe importaria nunca que os outros a tivessem”. É bom ver o autor analisar os dois lados da questão vaidade. Diz ele: “Assim se vê que há vícios de que a vaidade nos preserva, e que há virtudes que a mesma vaidade nos ensina”. Agora, vejam a parte moral: “Buscamos a Deus quando o mundo não nos busca; se alguma ofensa nos irrita, deixamos a sociedade, não por arrependidos, mas por queixosos, e menos por amor a Deus, que por aborrecer os homens. A vaidade nos inspira aquele modo de vingança, e parece, com efeito, que deixar o mundo é desprezá-lo. Assim será: mas quem deseja vingar-se ainda ama, e quem se mostra ofendido ainda quer”. Essas lições, escritas nas trevas do século XVIII, são tão claras e mostram o quanto foi e é vão o mundo dos homens, daí parece ser verdadeiro que a vaidade é uma forma de querer reconhecimento.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/05/2009.

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HISTÓRIA DO DIA DAS MÃES – Diário do Nordeste

Há uma ilação entre o Dia das Mães e a pieguice. Agora, nestes tempos, não há como ser piegas. A mãe não é mais a mulher com 30 dias de resguardo, e se contentando em procriar, fiar e cuidar da casa. A mãe de hoje é alguém preocupada com os filhos colocados no mundo. Ciosa de suas crias trabalha tal qual o companheiro e acompanha o desenvolvimento dos filhos. Procura entender suas angústias, carências e dificuldades em obter êxito profissional. No tempo restante, cuida de si e de sua vida afetiva. A história do Dia das Mães remonta à mitologia grega e passa por Rhea, mãe dos Deuses, em nome de quem era celebrada festa na entrada da primavera. Séculos se passaram até a Inglaterra, século XVII, antes da Revolução Industrial, quando todos trabalhavam sete dias por semana. Concedia-se, então, às operárias britânicas uma folga dominical, no quarto domingo da Quaresma, para ficarem em casa com suas mães ou seus filhos. Esse dia, chamado de “mothering day”, a celebração com um bolo da mãe, o “mothering cake”, para torna-lo mais festivo. Pulamos para o século XX e estamos nos Estados Unidos com a tristeza de Ana Jarvis, moradora da Virgínia Ocidental, ao perder sua mãe, em 1905, e cair em depressão. As amigas inventaram, para alegrá-la, uma festa para homenagear a sua mãe. Refeita do mal passageiro, Ana resolveu estender a todas as mães a festa preparada para a sua. E usava o cravo branco como o símbolo da maternidade. Assim, passou a lutar pela instituição oficial do Dia das Mães, conseguido em 1910, em seu Estado, e em 1914, por ato do presidente Woodrow Wilson, foi definido segundo domingo de maio como a data oficial nacional. O estranho nessa história: Ana Jarvis nunca conseguiu ser mãe. O cravo virou travo. No Brasil, em 1932, o presidente Vargas instituiu a mesma data móvel para celebrar a mãe. Hoje, não se louva mais a mãe pela simples maternidade, mas pelo êxito na criação de seus filhos: prepará-los para o mundo com dificuldades e ameaças reais como drogas, estudos, competitividade, desemprego, sexualidade solta e casamentos descartáveis. Mãe é ofício perene de difícil aprendizado na pele da vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/05/2009.

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A VOLTA À PRAÇA – Jornal O Estado

Estava ali parado. Sentara na praça de sua infância, mas não era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a memória. A propósito de revitalizá-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali não era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembranças invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular após a vitória da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, não vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros. Chegara à praça com a mão esquerda metida no bolso da calça de brim afagando as contas de um terço aliviando a sua fé dúbia, mas a cobrar respeito à promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posição daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus botões e admitia se encontrar entre a lembrança do passado e o tédio daquele involuntário passeio em procura de sua alma. Agora, está preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de São Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camelôs em profusão, sua alma se investe de silêncio e faz girar a ampulheta do tempo, grão a grão, a se esvair em sua existência sem grande expressão. A época do encantamento havia tomado outro rumo. Não sabia bem a razão de estar ali, em dia da semana, ao cair da tarde. Vivia um momento trafegando entre a paz ilusória e o vazio da solidão imposta pela aposentadoria e a separação de corpos da mulher, levando, de roldão, os filhos. Na sua cabeça era 1958 outra vez e se sentia o menino refugiado no silêncio não compartilhado. O futuro era a porta da vida, pensara naquela tarde festiva quando todos se rejubilavam pela vitória na Suécia. Agora, já estava no futuro e se lembrava do seu ego passado, o mesmo a acompanhá-lo até agora e, dentro dele, voltara à praça. Ego envelhece ou permanece tal qual era? Não sabia a resposta e isso pouco importava, pois aquilo não era uma equação matemática, mas existencial onde os números contam pouco e valem as pessoas. Limpava o silêncio do passado com as lembranças armazenadas em seu cantil de lágrimas quando o peito se fez em fogo por uma bala perdida com dores ziguezagueadas. Tombou e ouviu o cinza do silêncio.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/05/2009.

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DILMA E O LINFOMA – Diário do Nordeste

“O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro
Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009

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AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE – Jornal O Estado

“Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates
Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009.

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NOTÍCIAS MEXICANAS – Diário do Nordeste

Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009.

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A ARMÊNIA E O 24 DE ABRIL – Jornal O Estado

Há algumas semanas os irmãos Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de armênios, receberam, com suas famílias, os membros da Sociedade Consular para uma reunião social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do salão com telas afixadas às paredes. A área iluminada fronteiriça à praia mostrava, aos nossos pés, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. Nós, representantes de múltiplas nacionalidades, escutávamos músicas clássicas internacionais e as nativas da Armênia. Fez-se silêncio. Ouvimos então um relato dos dramas dos antepassados dos anfitriões quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve início o genocídio de um milhão e meio de armênios pelo Império Otomano. Para quem não sabe, a Armênia é um pequeno país-com menos de 30.000 km2 – situado entre o fim da Europa e o sudoeste da Ásia, no que se convencionou chamar de Eurásia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Irã, o Azerbaijão e a Geórgia. Esse país sofreu, em meio à Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fatídico 24 de abril, a intelectualidade, políticos, religiosos e profissionais de destaque armênios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Começava, nesse dia, o massacre e a fuga de armênios que habitavam os territórios asiáticos à época ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopotâmia, onde eram largados à míngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milhão e meio de pessoas. Nessa diáspora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas famílias, sempre em obediência ao trabalho árduo e à fé cristã que professam desde o século IV. O que restou do povo armênio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e há agora esperança de que o genocídio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos após o massacre, feridas profundas não foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro silêncio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouvíamos. Os grossos pingos d’água eram acompanhados de relâmpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se lágrimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu vácuo o silêncio para que queixas e compaixões saíssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E nós, estrangeiros na dor centenária, estávamos impregnados de um encanto triste que, mesmo tênue, permaneceu em mim deste então e me fez, exato neste 24 de abril, contar para vocês o que vivenciamos naquela noite. Salve a Armênia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2009.