Não sou dos que fazem muita fé no acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não acredito que trema, hífen, acento etc. sejam a solução para as nossas diferenças no falar e escrever. Somos 190 milhões de brasileiros. Os do sul do país falam com sotaques e vocabulários diferentes dos do Nordeste e do Norte. Os do centro-oeste têm peculiaridades que os do Leste não compreendem. Imaginem os outros países lusofônicos com diferenças nítidas na comunicação. O Português em África é distinto do falado em Portugal. Essas regras são uma tentativa para dar identidade ortográfica ao Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor Leste. Eles somam 30 milhões de pessoas. Fique claro que não sou linguista (se escreve com trema ou sem trema?), mas leitor compulsivo. Agora mesmo, estive lendo o livro alemão “Neblina sobre Mannheim” traduzido, em Portugal, por Fátima Freire Andrade. Cito exemplos de textos e palavras com significados distintos para portugueses e brasileiros. Vejam: sobre um percurso de carro que “foi feito em pára-arranca, e eu teria gostado de ter três pés para embraiar, travar e acelerar”. O que foi dito? Que um carro aumentava e diminuía a velocidade (pára-arranca), usando-se a embreagem (embraiagem), travando(freando) e acelerando. “Agarrei na mão do miúdo”, segurei a mão do menino. “Berma” expressa acostamento. “Era patusco de se ver” é engraçado de se ver.” Empregados e empregadas de mesa” são garçons. “Uma balda às aulas” é gazetear, faltar às aulas. Estudantes portam “badamecos”, que são pastas ou bolsas. O “urinol” não é o de antigo uso, mas o mictório público. “Descapotável” é o carro conversível. “Comboio” é trem e “autocarro” é ônibus que tem bicha(fila). Maria “está a me fazer olhinhos”, está a piscar os olhos para mim. “Isco” é isca de peixe. Português não usa paletó, usa “fato”, que pode estar na “montra” (vitrina). Enfim, ortografia não disciplina linguagem. Vou parar por aqui, certo de que vocês estão confusos, mas não estão sós. Também estou. Pois, pois.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/04/2009
