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COISAS SIMPLES – Diário do Nordeste

Agora que o Obama está em paz com a Hillary e a Dilma fez a sua bioplastia, vamos falar de coisas simples. E uma das coisas que incomoda a muitos é a falta de zelo e cortesia de alguns com a cidade. Semana passada, esperando o semáforo abrir, vi o motorista do carro ao lado jogar o conteúdo de um saco plástico pela janela. Ele usava o saco plástico para coletar o que não lhe servia, e a rua, como lixeira. Baixei o vidro e disse: isso não se faz! Ele, com cara de menino pegado no flagra, disse: “foi bobeira”. Não, não foi bobeira. Foi falta de educação, civilidade e respeito pela cidade. Não importa que ela esteja suja ou limpa, isso não nos dá o direito de ser mais um sugismundo. Situações como essa vivemos em outras ocasiões. Certa vez, um grupo de jovens em um “buggy” jogou um saco de lixo na rua. Parei, apanhei, emparelhei e disse que o saco pertencia a eles e não à cidade e devolvi. Eles, em algazarra, jogaram o saco sobre o capuz do meu carro. Recolhi e ri para eles. Não sei se a lição serviu, mas pararam de rir e fugiram. Creio que histórias como essas todos têm para contar. Quem não vê, todos os dias, pessoas levando seus cães para passeio e deixando ali seus dejetos nas combalidas calçadas. Já não basta desviar dos buracos e ambulantes, é preciso também não sujar o sapato com imundície alheia. Há ainda, além dos flanelinhas, os atletas de maratona e ciclistas de toda a ordem que resolveram, em nome de suas formas físicas, andar em bandos pelas vias públicas, ocupando espaços que não são só seus. E têm até atletas precursores que, apitos ou sinalizadores à mão, resolvem parar o trânsito nas esquinas para dar prioridade a seus colegas. Nada contra os esportes e os esportistas, mas há que haver um mínimo de atenção com o trânsito para não ocorrer acidentes. Nas cidades de hoje, onde os agentes de trânsito pouco orientam e multam sem clemência, parece cômodo ser omisso e não sofrer afronta de quem não faz a sua parte. O escritor italiano E. Amicis dizia: “a educação de um povo pode ser julgada, antes de tudo, pelo comportamento que ele mostra nas ruas. Onde encontrares a falta de educação nas ruas, encontrarás o mesmo nas casas”. Alguém duvida?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2009

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PEDRO, POETA, PRESIDENTE – Jornal O Estado

O advogado e conselheiro-fundador do Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, Manuel Pio Saraiva Leão, era irmão de minha avó Luiza. O novo presidente da Academia Cearense de Letras, ontem empossado, é o seu filho único, Pedro Henrique Saraiva Leão. Foi ele quem, em 1962, ao viajar para o exterior, me convidou a assumir a coluna “Informes Acadêmicos”, da qual era redator, no jornal Correio do Ceará, Diários Associados, onde permaneci até 1968. Esse preâmbulo é feito apenas para dizer da minha alegria ao vê-lo na presidência da mais antiga academia de letras do Brasil, fundada em 1894, no mesmo lugar onde pontificaram Antonio Martins Filho, Eduardo Campos, Cláudio Martins, Artur Eduardo Benevides e Murilo Martins, para ficar nos mais recentes que, reunidos, somam quase meio século de presidência. Ele substitui a Murilo Martins, médico, professor e intelectual, figura singular da cultura cearense que agrega amizades, não falta a compromissos e cumpre horários. Pedro Henrique também é médico, cirurgião, professor universitário em duplo grau, poeta, editor e articulista. Curioso, arguto e inteligente, sabe eleger leituras e o faz com o mesmo esmero com que usa o bisturi, identificando o que deve ser extirpado e o que deve ser preservado. Como poeta, Pedro Henrique estabelece, como disse o poeta espanhol Dámaso Alonso, um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor. Abraçou com arte e ofício o concretismo, sendo um experimentalista da palavra, focando seus versos na mensagem, dando realce aos elementos constitutivos da expressão e ao seu sentido conotativo. Como concretista, utilizando o visual gráfico, o processo de criação, a montagem e a semiótica, nada fica a dever aos paulistas Haroldo e Augusto de Campos, autodenominados criadores do concretismo no Brasil. Esse movimento, na verdade, surgiu na segunda metade do século passado, a partir da vinda de Max Bill, arquiteto, pintor, intelectual e design gráfico suíço que, em 1956, montou a primeira exposição nacional de Arte Concreta. Autor de mais uma de uma dezena de livros, Pedro Henrique é ainda membro da Academia Cearense de Medicina e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Seção do Ceará. Edita há anos, com zelo gráfico e o cuidado de revisor, a revista Literapia, de excelente feição gráfica, que reúne poetas, cronistas e ensaístas do nosso Estado. A comunidade acadêmica o recebe com júbilo, acredita na capilaridade cultural e social do novo presidente da ACL e sabe que os planos em andamentos, como o restauro da sede e a sua adequação ao mundo tecnológico, serão implementados, ao mesmo tempo em que ele dará vazão ao seu espírito de editor contumaz. Walter Whitman, um dos bardos lidos por Pedro Henrique, disse certa vez: “Para que haja grandes poetas é preciso grande público”. Parodiando o poeta americano eu direi: para que haja uma grande administração da ACL é preciso que haja um grande público.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/01/2009

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BUSHOBAMA – Diário do Nordeste

A palavra bush significa arbusto. George W. Bush acaba de ser substituído por Barack Hussein Obama, deixando o poder com a pior popularidade de um governante nos últimos 50 anos. O que terá ocorrido de tão grave para a maioria da América pensar assim? Terá sido ele um arbusto a encobrir soldados americanos batalhando e morrendo em guerras sem sentido? Bush é republicano e representa uma espécie de fundamentalismo político, acreditando serem os EUA o centro protetor do mundo, com a capacidade de intervir onde achar por bem para assegurar a liberdade. Essa ação, ao procurar vingar o país dos ataques de setembro de 2001, o ano de sua posse, incorreu no erro de usar mentiras para justificar o ataque ao Iraque. Essa guerra, entre outras, foi deixada de herança. Por outro lado, o fim da prosperidade com a bolha das ações de tecnologia, os maus tratos em presos em Guantanamo e no Iraque e a inadimplência das hipotecas de imóveis deu origem à atual crise mundial, quebrando bancos, criando medo e demissões de milhares na indústria. Essa é a herança de Bush para Obama. Houve a perda de confiança no sistema financeiro e foi preciso a emissão de bilhões de dólares para tentar apagar o fogo da recessão. Não apagou, está em fogo-fátuo e aguarda os primeiros passos do governo Obama com demissões singulares – antes das nomeações – por conta de escândalos pessoais e fiscais. O representante da esperança das minorias raciais e sociais é agora de todos. Os EUA esperam o milagre da recuperação da autoestima nacional. Grande parte da humanidade, ainda aceitando a liderança americana, deseja soluções para as repetidas crises do Oriente Médio, o fim do embargo a Cuba, a aceitação dos muçulmanos, sua religião e ortodoxia sem taxá-los, sem provas, de terroristas ou ligá-los ao grupo Al Qaeda, de Bin Laden. Será lúcido admitir novas lideranças como Gordon Brown, da Inglaterra e Nicolas Sarkosy, da França e dos quase ricos Brasil, Rússia, Índia e China a pleitear menos protecionismo e maior participação nas decisões. Essa tarefa é para um novo super-herói, como acostumamos ver no cinema, desde o Super-homem até o Homem Aranha. Câmeras, ação.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/01/2009.

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AS FALAS DE OBAMA – Jornal O Estado

Algumas pessoas estão impressionadas com os discursos de Barack Obama, o novo presidente americano que tomou posse nesta semana. Dizem que eles expressam o novo, mas, agora tem tempero moderado ou até conservador. Dizem ainda que as frases são precisas, certeiras e que ele fala o que povo precisa ouvir. Por trás de todos os últimos discursos do senador, do candidato a presidente e o da posse, no dia 20, nesta terça, está alguém vinte anos mais jovem que Obama. Ele se chama Jon Favreau e não deve ser confundido com o ator e cineasta americano de mesmo nome que dirigiu o filme Iron Man. Favreau, o escritor, tem 27 anos e cara de estudante, embora tenha concluído Ciências Políticas na Holy Cross, em Worcester, Massachussets, uma escola sem grande notoriedade. Favreau, com um currículo mínimo, conheceu Obama em 2005, pois havia sido um dos elaboradores de discursos de John Kerry, o último candidato democrata derrotado por George W. Bush. A partir de então, Favreau – já seu assessor no Senado – e Obama, criaram uma estratégia de trabalho comum. Sempre discutem o tema do próximo discurso, Obama diz as suas linhas de pensamento sobre o assunto e Favreau faz a montagem que, ao contrário de outros políticos, é rediscutida e até revista por Obama, um vaidoso harvadiano. Dessa forma, Favreau, um ghost writer solteiro e livre, pode seguir, como um fantasma todos os discursos, passos e entrevistas públicas de Obama. Há, entretanto, admiração e respeito de Favreau ao pensamento político e social, história pessoal, sonhos e esperanças de Obama que, após eleito, modulou a sua retórica e teve que assumir uma postura mais moderada para obter votos dos republicanos e mostrar aos americanos que a crise é mais profunda que imaginava. Esse tom moderado já está sendo chamado de conservador, por alguns democratas e pelas várias facções da contraconcultura e da esquerda americana que, em peso, votaram em Obama. Um exemplo disso é que dos 59 senadores democratas, somente 52 votaram no que Obama lhes pediu por telefone ou em contatos pessoais. Na véspera da posse, por exemplo, Obama foi a um jantar de gala oferecido por seu adversário de eleição, John McCain que, inclusive retribuiu no dia seguinte, sendo visível no palanque oficial. Desta forma, a realidade entrou cedo no discurso, pensamentos e ações de Obama e isto tem feito Jon Favreau ser um pesquisador da História americana e dos discursos dos ex-presidentes de ambos os partidos. Quem não fala, Deus não ouve, diz o povo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2009

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Fórum de Literatura – Jornal O Estado

Há alguns anos, Murilo Martins e eu, fomos a Recife para um congresso de academias de letras do nordeste. Acorreu gente de diversos estados. Achei estranho que na noite da abertura à mesa diretiva só tivesse pernambucanos. Comentei com o Murilo. No dia seguinte, observei a mesma coisa. Só pernambucanos na direção das mesas e grupos de estudos e todos os demais nordestinos na plateia. Levantei-me e reclamei. Foi um escarcéu. Conto este fato para dizer que, nesta semana, por iniciativa da Secretaria de Cultura do Ceará, houve uma reunião, previamente agendada, para se criar um Fórum de Literatura Cearense. A conversa foi aberta, franca e todos tiveram vez. Não se agiu à moda pernambucana. Auto Filho parece ter auscultado o seu espírito gramsciano e agiu como um democrata. A pauta foi discutida por todos, desde as secretarias de cultura do Ceará, de Fortaleza e de Maracanaú, academias Cearense e Fortalezense, grupos que publicam jornais culturais, autores, intelectuais, curiosos e até por membros do Clube do Bode, essa desinstituição – desinstituição mesmo – que comete cultura, vez por outra. Pois bem, louvo o modo como todos se conduziram, sem pensar em hierarquia, discutindo, ponderando no todo e admitindo haver necessidade de repensar coletivamente a literatura cearense que, no dizer do Carlos Emílio Correia Lima, vanguardista e polêmico escritor, precisa se tocar e mostrar uma nova cara. Não dá mais para brincar de cultura e literatura, ou restringi-la apenas aos acadêmicos, tampouco se empanturrar com salgadinhos e bebidas em lançamentos contínuos de livros que são publicados e que não têm, na sua maioria, qualidade literária alguma. É bom lembrar o célebre diálogo shakespeareano entre Polônio e Hamlet em que aquele pergunta a este: “O que estais lendo, meu Senhor?” Ao que Hamlet responde: “palavras, palavras, palavras”. Um aglomerado de palavras não é, necessariamente, um livro. É bom que a fogueira das vaidades diminua suas chamas e a modéstia possa habitar as mentes dos que estão, a partir da tarefa delegada, incumbidos de institucionalizar o Fórum, como elemento condutor de um novo tempo para a literatura cearense. Seja este ano de 2009, regido pelo sol, o astro a iluminar a nossa equatorial terra comum e que, igualmente, possa aquecer a imaginação de todos os intelectuais e agentes da cultura, encarregados da faina. Mãos à obra.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/01/2009

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FAIXA DE GAZA – Diário do Nordeste

Imaginem que a cidade de Fortaleza é vizinha de Sergipe. Fortaleza tem a mesma área da Faixa de Gaza. Sergipe, o mesmo tamanho de Israel. A Faixa de Gaza é uma estreita extensão de terra, onde foram alocados parte dos palestinos que ocupavam, até 1948, a área onde hoje fica Israel. Ela tem jurisdição especial, sem ser Estado, possui, junto com a Cisjordânia, parlamento, Presidente e dois partidos políticos: Hamas e Fatah. O Hamas parece uma mistura do antigo PT e do atual PSOL, com tendência sunita e tem o apoio do Irã. O Fatah seria um cruzamento do DEM com o PSDB. Perdeu as eleições, em 2006, e saiu de cena. Em Gaza, a cidade da faixa, moram 1,5 milhões de pessoas, com renda média mensal de 210 reais e um poderio militar comparável a de qualquer pequeno país da África. De cada 100 palestinos adultos de Gaza, 45 estão desempregados, face ao bloqueio econômico de Israel, com o apoio americano e da Europa. Esses desempregados, famintos e revoltados, são a base do terrorismo. O Hamas, inconformado, lança foguetes sobre Israel e treina homens-bomba para ataques aleatórios a prédios públicos e privados. Em Israel habitam 7,1milhões com renda mensal de 5.100 reais. Exército permanente e equipamentos militares de Primeiro Mundo. Há, portanto, desequilíbrio na luta que, certamente, não terminará no próximo cessar fogo, se acontecer. Esse desequilíbrio e o bloqueio, não desautorizam Israel de defender seus cidadãos dos ataques de foguetes e dos homens-bomba. Eu já estive lá e vi. Agora, entretanto, acontece ataque terrestre massivo com apoio aéreo sem distinguir civis e crianças palestinas. Essa é a realidade. Por trás dela está a permanente luta pelo poder, religiões e ideologia. Ocorreu também o combate ao terrorismo do Al Qeda. especialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos e o início da Guerra contra o Iraque, país onde existiam, além de um governo truculento e terroristas, milhões de civis e grandes e cobiçadas reservas de petróleo com refinarias. No inverno de Nova Iorque, nos calafetados salões da sede da Organização das Nações Unidas, há demora do Conselho de Segurança em decidir. Até quando?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/01/2009

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CONSTRUÇÃO – Jornal O Estado

Meus queridos, foi linda a cerimônia. Ela teve a marca de vocês. A hora, o local, as músicas, as lágrimas, os risos, as crianças, as famílias e poucos amigos. Ela foi tal como vocês queriam e a fizeram. Ainda bem. É preciso saber querer, mesmo sendo diferente do usual. Cada um tem sua passagem e o voo do sonho não tem limites. Os seus anseios nunca serão iguais. Somos semelhantes, mas distintos. Estive, nestes últimos tempos, pensando em vocês dois. Muito mesmo, mas sou esse ser estrangeiro no meu bem querer, sentir e dizer. Queria ter tido com vocês uma conversa sem peias. E, no meu pensar, teria sido à hora do pôr-do-sol, sob a tocha avermelhada assomando lá da Barra. Eu teria dito da minha alegria em vê-los de mãos dadas na construção do seu futuro. De ver, em vocês, o sorriso fácil dos amantes e repassaria, talvez, algumas experiências. Enfim, o século virou e nos mostrou cada um em seu ninho e, agora, de forma ousada, vocês vão construir o seu. Não apenas com estrutura, adornos, mas, especialmente, com sentimentos, fazeres e deveres. A vida, queridos, nos experimenta a cada dia. Quase sempre, não temos sabedoria para colher as lições surgidas das formas as mais singulares. Erramos, por humanidade. Se vocês me pedissem para dizer quais argamassas são necessárias para a construção de uma vida em comum, falaria primeiro em compartilhamento, em troca de energia, cumplicidade, adesão e identidade de linguagem. Depois, aí sim, falaria de amor. Há, acreditem, pessoas com amor comum, mas sem saber compartilhar a vida, com todas as suas sutis nuances, medos, falhas, faltas, alegrias, circunstâncias, disputas, ciúmes e palpite de terceiros. Depois, falaria no trabalho árduo, consciente e contínuo a dignificar o ser humano e o torná-los, por sua conta e risco, senhores de seus próprios destinos. Diria também: sejam pacientes e cuidadosos um com o outro, especialmente nos detalhes. Não se tranquem em silêncio quando os dissabores ocorrerem. Abram as veias dos seus corações e não tenham medo de sangrar. Há sempre suturas fortes onde existe amor. O não entendido, o não visto ou o não explicado podem ir se transformando em ressentimentos e isso só desabrocha sem a crença no diálogo. Enfim, peço desculpa pelo alinhavado, mas isso é coisa minha, especialista em erros e alguns acertos. Não acreditem na perfeição do ser humano. Juntos, tenham fé no amor, no trabalho, no estudo continuado, no riso a dois, na esperança, na tolerância, na prudência, na compaixão e na confiança. Sejam felizes. Contem comigo, sempre.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/01/2009.

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PASSO A PASSO – Diário do Nordeste

Estou entre o ano acabado e o chegado. Ainda guardo em mim cheiros de ontem, rastreio olfatos esmaecidos e descubro o sem fim do tempo e a finitude das pessoas. Meu pé esquerdo ficou no passado e o direito teima em ser presente. Mexo em ordenadas e abscissas e não encontro o Equador. É preciso estar na linha para encontrá-lo. Mas minha pele sente o seu calor visceral. Não sei bem se venho do passado ou se meus passos fugiram de lá. Meus caminhos são triviais, há sempre as mesmas pedras, mas, por elas, já passaram outros pés e a areia pisada deixa as minhas solas e cai, grão a grão, entre as fendas. Minha alegria tem dioptrias certas e o meu riso é criança. Nas barricadas da vida luto, muitas vezes, como um infante sem fuzil ou quartel, mas vou quebrando lanças e seguindo, passo a passo. Sonhei com o futuro e ele se fez presente, como presente. E o agora já é passado e o futuro passa. Albergo pensamentos e fazeres trazidos até aqui pelas carroçáveis da vida, ultrapassando porteiras e ribeiras, evocando a lua sem vergonha e dormindo sem sombras. Raras são as chuvas de lágrimas, mas consigo tirar do úbere da terra a semente para o plantio do novo dia. Mesmo tendo havido tormentas, elas se quedaram com as enxurradas do ontem. Miro a essência da vida e sinto as tramelas das portas se abrirem e assomo o seu umbral. E isto importa se há sempre mais portas a abrir? Estou na calçada de um novo tempo, não embarquei em suas veredas e desconheço suas entranhas. Não tenho passaporte para todos os dias, cada um precisa de um visto diferente, depende da lua, depende do sol e de nós, navegantes em terra firme. E se há flores na calçada onde estou foram por mim plantadas, regadas com meu suor e podadas com minhas mãos. E, certamente, há espinhos, também meus. Os passos de cada dia têm registros no cerne da alma e formam a vida com a tonalidade merecida. Os olhos das estrelas podem não ver os meus passos, mas as estrelas têm olhos e registros siderais. Beijo a boca da noite a se aproximar, deixo-me por ela amar e cingir meu corpo com esperança.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2009

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AO TRABALHO OU CADA UM COMO DEUS QUER – Jornal O Estado

Acabaram-se o 2008 e as festas. Estamos na ressaca da preguiça. Aproveite, como faz o Sérgio Braga, para limpar gavetas, rasgar o que não serve mais, e planejar o que deve ser feito nestes muitos dias que faltam para acabar o 2009. Dê uma de Airton Monte e tome a última cerveja da geladeira. Faça como o Carlos Augusto Viana, que cofia os bigodes, enquanto repassa a literatura brasileira. Curta a vida como o César Montenegro. Seja leal como o Marco Aurélio. Enérgico e suave como o Ubiratan Aguiar que traça metas para o TCU apertar mais, o que pode infernizar relapsos e afins da administração pública. Procure furos como o fazem Moacir Maia, Bezerrinha e Roberto Moreira, que falam com políticos com a mesma desenvoltura do Édison Silva. Poetize como o Barros Pinho. Seja romântico como o Iranildo. Calado e bom ouvinte como o Lúcio. Obediente como o Ademar Gondim. Persiga objetivos como o Vinícius Castelo. Chegue e saia discreto como o Saraiva. Curta as amigas como o Siqueirinha. Não adoeça, mas se não tiver plano de saúde, converse com o Narcélio. Se for fazer um show ou filme não esqueça do Ricardo Guilherme, Pardal, Fausto Nilo, Falcão, Rodger, com texto sutil do Augusto Pontes, produção do Giordane e direção de Francis Vale. Em casos médicos complicados fale com o Mariano e o Dionísio. Ame filhos e netos como Luiz César Façanha. Olhe as águas do mar com os olhos do Pitombeira, que confere tabelas e imagina mais navios partindo e atracando off-shore no Pecém. Escreva muito como José Lira, Almir de Castro, BC Neto e Airton Farias. Dirija um jornal onde escreva Dorian Filho com o aprumo e a parcimônia do Ricardo Palhano. Polemize, como o Ruy Câmara. Seja paciente como Josino Lobo. Faça um cerimonial descontraído como o Zé Teles, enquanto Humberto Cavalcante, ao lado, dá uma risada. Dê uma passada sistemática na Biblioteca Lustosa da Costa, em Sobral, como faz o Francisco José. Distribua livros, como planeja fazer Auto Filho. Discurse. Veja o que acontece quando o Juarez Leitão fala. Procure, no exemplo de Cláudio Pereira, a força necessária à vida. Tenha a presteza e a pontualidade do Ednilo Soárez, acolitando jovens para o futuro. Compre livros, como o faz Zé Augusto Bezerra com raras primeiras edições. Adquira obras de arte na surdina como o Newton Freitas. Registre tudo em atas – servem agendas ou diários – como quer o Eduardo Fontes. Cate e descubra contos, histórias e crônicas e as publique como o interessante Assis Almeida. Encurte a sua semana, tal qual o Machadinho.Poderá até usar gravata listrada como faz Pedro HS Leão, mas de mangas curtas para realizar planos na Academia.Cuide-se, com determinação, como está fazendo Eduardo Fiúza. Modernize o seu socialismo, tal o Inácio de Almeida. Seja “cool” como o Tarso Melo, leve como o Igor Martins, pai como o César Renato e voe seguro como o comandante Márcio Andrade. Viaje como o Beto Studart, um “easy-rider” pelo mundo afora. Seja discreto, perspicaz e verdadeiro como as palavras e as tintas do Audifax Rios. More na serra, como faz Antônio Torres, para escrever mais e brilhar sempre. Seja acadêmico com o saber do Marcos Vilaça. Aposente-se, se for o caso, com a ajuda do Elmar Arruda. Ou faça o que sabe fazer. Ore, mas não espere por milagres. E, acima de tudo, faça o bem, sempre. Olhe as estrelas, mas acorde cedo, ande, e sinta a energia do sol. Viva com plenitude e aceite as circunstâncias. Lá para o final dos dias que restarem para este ano virar dez, conversaremos sobre o que andará fazendo Obama, a tal da crise mundial e aí virão papos sobre as eleições para Presidente da República, governadores, senadores e deputados, e a Copa do Mundo de Futebol. Brasil, sil,sil. sil. Bem-vindo 2009.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/01/2009

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NOELULA – Diário do Nordeste

O Natal chegou e Luiz Inácio da Silva, que agregou o Lula a seu nome, está saindo da presidência do Brasil, após oito anos em que foi ele próprio a maior agência de propaganda do que realizou ou deixou em construção. Se alguém, na virada do milênio, perguntasse aos “brazilianists”, os que, sendo estrangeiros, se dizem especialistas em Brasil, se um torneiro mecânico e sindicalista seria presidente e fenômeno de popularidade, certamente zombariam e, com frases complexas, provariam o contrário.
Se qualquer brasileiro, considerado machista, fosse indagado no início dos anos 2000 se votaria em uma mulher descasada e em fase de recuperação de doença séria, responderia: claro que não. O fato é que estamos a menos de uma semana da mudança de governo. Sai Lula, verdadeiro Noel para a grande maioria dos brasileiros que elegeu, por sua conta, Dilma Rousseff. Para ele, pernambucano/paulista, estava reservado papel complexo: substituir o carioca/ paulistano Fernando Henrique Cardoso, político veterano, professor universitário, poliglota e articulado.
Pois bem, no sol de 01 de janeiro de 2002, surge no Rolls-Royce, na Esplanada dos Ministérios, o filho da D. Lindu, retirante abandonada pelo marido que se mandou de pau-de-arara para a periferia de São Paulo. E o seu filho acenava com a cara do Nordeste ainda marginalizado. Trazia na sua história pessoal a lembrança da forme. E disse: todo brasileiro tem direito a comer três vezes ao dia. Falava o óbvio, mas dizia o que vivera e prometeu. Acelerou os programas assistenciais que forjaram a sua popularidade. Falando a linguagem do povo, colocando-se até como opositor a seu próprio governo, reclamava da falta de comida, luz, água e casa. É claro que o Lula de hoje é um “globotrotter”. Soube entranhar-se sem medo, ir a lugares fechados para os não doutos e conseguiu mostrar que o Brasil não era só exotismo e futebol. Queria ser protagonista da nova história do século 21 auxiliado por intérpretes lutando para traduzir suas frases acompanhadas de gestual comunicativo com sisudos e emproados chefes de Estado. Por tudo isso, Lula é o Papai Noel do Brasil, até na barba.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/12/2010.