Já acreditei em Papai Noel. Já fiz cartinha pedindo presentes e acordava cedinho para ver se tinha ganhado. Aos quatro anos, no Jardim da Infância, arrisquei e declamei à véspera do Natal: “Hoje é Noite de Natal, ninguém se deita em colchão, pois nasceu o menino Deus entre palhinhas no chão”.
Já assisti ao Pastoril, com todo o peso das tradições e a brejeirice de nossa juventude. Já me embeveci com presépios e lapinhas. Pobres e ricos, ridículos ou adequados aos costumes, estáticos, mecânicos ou movidos à energia. Lapinhas com tudo o que você possa imaginar. Umas até com aviões e barcos sobre espelhos d’água feitos de restos de vidro. Lapinhas com as luzes acendendo e um trenzinho apitando ao redor do presépio para a glória do presepista (ou seria presepeiro?) e delírio dos meninos que olhavam deslumbrados.
Já fui a muitas missas do Galo, celebradas à meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro. A ceia era servida mais cedo e lá se ia toda a família com missais e terços rezar contrita a pedir graças aos céus. Nessa época, os perus não eram vendidos prontinhos como os de hoje. Desde novembro começava a engorda dos perus trazidos do interior que serviriam de adorno para o centro da mesa e saciariam os apetites vorazes de adultos e crianças. Os perus eram recheados com farofa, ameixas, azeitonas e assados na padaria próxima ou nos poucos fornos que existiam nas casas.
O tempo foi passando e a lapinha e o presépio cedendo espaço para as árvores de Natal. Umas pequeninas, mirradas até, feitas de galhos secos cobertos com algodão e papel crepom. Outras já compradas com estrutura de ferro e com umas luzinhas mixurucas. De uns anos para cá surgiram as árvores de Natal importadas, de todos os tamanhos e para todos os gostos com lâmpadas multicores e músicas, adornadas nas suas bases com caixas e pacotes, vazios ou cheios, à guisa de presentes para serem trocados após a ceia.
As missas de Natal ou do Galo foram saindo de moda e, talvez por causa dos assaltos, passaram a ser mais cedo com uma quantidade mínima de fiéis. Os padres celebram com o olho no relógio, preocupados.
Hoje as coisas mudam com a vertigem da informática e das comunicações por satélites que acionam os canais de televisão e estes nos bombardeiam com visões mis de natais com neve, natais com enchentes e terremotos, natais com guerras e armistícios, natais com ceias pantagruélicas, natais com fome.
Não pensem que estou sendo saudosista. É que o Natal nos remete ao passado com todas as suas lembranças e nos dá alento para procurar um pouco da fé que já tivemos. O Natal faz as pessoas ficarem mais mansas como, aliás, deveriam ser o ano inteiro. O Natal produz o milagre das comunicações telefônicas entre pessoas queridas que se quedam distantes e se aproximam com o calor de seus espíritos e se despojam das couraças que as revestem na luta insana do dia-a-dia.
O Natal pode até nos fazer um pouco piegas, meio bobos e de olhos marejados de lágrimas, quando não podemos dizer, de coração aberto, Feliz Natal a todos os que amamos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/12/2010
