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NATAL REVISITADO – Jornal O Estado

Já acreditei em Papai Noel. Já fiz cartinha pedindo presentes e acordava cedinho para ver se tinha ganhado. Aos quatro anos, no Jardim da Infância, arrisquei e declamei à véspera do Natal: “Hoje é Noite de Natal, ninguém se deita em colchão, pois nasceu o menino Deus entre palhinhas no chão”.
Já assisti ao Pastoril, com todo o peso das tradições e a brejeirice de nossa juventude. Já me embeveci com presépios e lapinhas. Pobres e ricos, ridículos ou adequados aos costumes, estáticos, mecânicos ou movidos à energia. Lapinhas com tudo o que você possa imaginar. Umas até com aviões e barcos sobre espelhos d’água feitos de restos de vidro. Lapinhas com as luzes acendendo e um trenzinho apitando ao redor do presépio para a glória do presepista (ou seria presepeiro?) e delírio dos meninos que olhavam deslumbrados.
Já fui a muitas missas do Galo, celebradas à meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro. A ceia era servida mais cedo e lá se ia toda a família com missais e terços rezar contrita a pedir graças aos céus. Nessa época, os perus não eram vendidos prontinhos como os de hoje. Desde novembro começava a engorda dos perus trazidos do interior que serviriam de adorno para o centro da mesa e saciariam os apetites vorazes de adultos e crianças. Os perus eram recheados com farofa, ameixas, azeitonas e assados na padaria próxima ou nos poucos fornos que existiam nas casas.
O tempo foi passando e a lapinha e o presépio cedendo espaço para as árvores de Natal. Umas pequeninas, mirradas até, feitas de galhos secos cobertos com algodão e papel crepom. Outras já compradas com estrutura de ferro e com umas luzinhas mixurucas. De uns anos para cá surgiram as árvores de Natal importadas, de todos os tamanhos e para todos os gostos com lâmpadas multicores e músicas, adornadas nas suas bases com caixas e pacotes, vazios ou cheios, à guisa de presentes para serem trocados após a ceia.
As missas de Natal ou do Galo foram saindo de moda e, talvez por causa dos assaltos, passaram a ser mais cedo com uma quantidade mínima de fiéis. Os padres celebram com o olho no relógio, preocupados.
Hoje as coisas mudam com a vertigem da informática e das comunicações por satélites que acionam os canais de televisão e estes nos bombardeiam com visões mis de natais com neve, natais com enchentes e terremotos, natais com guerras e armistícios, natais com ceias pantagruélicas, natais com fome.
Não pensem que estou sendo saudosista. É que o Natal nos remete ao passado com todas as suas lembranças e nos dá alento para procurar um pouco da fé que já tivemos. O Natal faz as pessoas ficarem mais mansas como, aliás, deveriam ser o ano inteiro. O Natal produz o milagre das comunicações telefônicas entre pessoas queridas que se quedam distantes e se aproximam com o calor de seus espíritos e se despojam das couraças que as revestem na luta insana do dia-a-dia.
O Natal pode até nos fazer um pouco piegas, meio bobos e de olhos marejados de lágrimas, quando não podemos dizer, de coração aberto, Feliz Natal a todos os que amamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/12/2010

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BOM DOMINGO – Diário do Nordeste

Se você está lendo o que escrevo, obrigado. Hoje é 19, domingo, dia de não fazer nada ou até de ler o que vai sendo escrito. A primeira letra foi um s. S de sabedoria, s de sofrimento, s de sono, s de silêncio, s de satisfação e de se… Enfim qualquer letra pode dar origem a uma infinidade de palavras.
Assim como as letras, nós podemos criar muita coisa. É claro que a criação depende do que somos, nossos sonhos, sentimentos e de toda a nossa história de vida. Você pode até pensar que o Bill Gates é o mais inteligente dos homens. Será que ele acha? O fato de ter alimentado um sonho e esse sonho ter dado certo não o faz menos falível, menos humano e sujeito a todas as intempéries que uma vida encerra.
Os seres humanos não são simples e, por tal razão, não devemos presumir que fulano é mais que beltrano e que cicrano não é o que pensa. Cada dia é uma surpresa, tudo deve ser construído a partir do instante que acordamos. Abrimos os olhos e nos deparamos com um novo dia. Pode ser de sol ou nublado. Quem precisa de sol para lhe dar energia deve agradecer, mas os que necessitam de chuva para o que plantaram se alegram com o tempo nublado e isso é que faz o mundo intrigante. Estamos em dezembro, o mês que encerra o ano.
Neste dezembro, relembre os dezembros passados e projete outros dezembros. Não se fixe apenas em ser um mês festivo, mas um tempo em que as pessoas, queiram ou não, rediscutem suas esperanças ou quimeras. É certo que neste domingo muitos não estarão de bem com a vida, mas ela nos foi dada de graça. É bem verdade que a cada dia, com jeito ou não, estamos pagando o nosso pedágio ou dízimo. O viver é uma conta corrente.
De um lado está o que fazemos, do outro o que deixamos ou nos negamos a fazer. Não importa se você é jovem, adulto ou já esteja para lá da idade de continuar trabalhando. Em qualquer fase do existir há sempre uma contraprestação. Cabe a nós procurar saber o que deve ser feito. Ninguém sabe o amanhã. A vida tem tateios, acertos, erros, decisões, na medida dos humores e valores de cada um. Vá fazendo o que pode, não se cobre demais. O dia está aí, ele é seu, o seu olhar é o seu ponto de vista. Bom domingo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/12/2010

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TOLERÂNCIA E CONVIVÊNCIA – Jornal O Estado

Tão logo aprendemos a falar é-nos ensinado pelos pais o quão importante é saber conviver. Respeitar os mais velhos, evitar brigas com as “pestinhas” dos irmãos que temos; aguentar desaforos na escola, ouvir que nós não correspondemos ao esforço, ao sacrifício e à dedicação de anos e anos, faz parte do aprendizado de convivência da infância e juventude. Conviver bem significa ser tolerante. É importante não esquecer que para ser tolerante é preciso determinar o que é intolerável. Conviver é estabelecer limites e saber que a partir daquele ponto nós estamos perdendo a liberdade de ser gente, de caminhar com os próprios pés e assumir os defeitos em toda plenitude. Ser livre é aceitar-se. Aceitar os outros, tudo bem, mas até aquele ponto em que você ainda tem coragem de se olhar no espelho. A convivência mansa e pacífica é o ideal a ser perseguido por pessoas, famílias, instituições e nações. Enquanto isso, as diferenças inerentes aos seres humanos colocam farofa no ventilador e produzem estilhaços em estruturas aparentemente blindadas. Os pais, os amigos, os esposos, os filhos e a sociedade são todos agentes cobradores de comportamentos tão puros quanto irreais. Cobram o que não oferecem em contrapartida, por não saberem ou não terem como.
Fiquemos nos pais. Há pais que se imaginam senhores dos destinos de seus filhos e não sabem que a rebeldia, o ranço e até o enfrentamento inconsequente são meras ações libertárias.
Os pais imaginam ser, na maioria dos casos, supridores das necessidades de seus filhos.
O grande problema é que as pessoas não vivem para as suas necessidades e sim para os seus desejos. Os desejos fazem as pessoas ser livres da ditadura do afeto que nos chantageia com a oferta do necessário. Parece que foi Shakespeare quem disse que “o homem é um ser complexo” e é essa complexidade que move o mundo. São os diferentes, os que saem do quadrado, da mesmice e fogem ao combinado pela mediocridade dos usos e costumes de sua época que constituíram e constituem a vanguarda do mundo.
Ser pessoa é admitir o desejo de ter uma individualidade, um misto de solidão que nos distingue até dos irmãos e uma solidariedade que esbarra na liberdade do próximo. Todo sofrimento não deixa de ser uma ação pedagógica, uma forma de aprendizado e de purgação. O sofrimento que nos impomos em não aceitar a tutela da ditadura do afeto é um ato que nos engrandece e nos toma livres.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/12/2010.

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CONY E MATEUS – Diário do Nordeste

Carlos Heitor Cony é especial. Tinha um grande amor canino. Acompanhei o drama da morte de seu cão em suas crônicas. Ele sofreu e deixou sua dor ser derramada e conhecida. E Cony tem mais de 80 anos. Pelas manhãs, ele dispara a sua sensatez em comentários em emissora de rádio e fala com a história pessoal a seu favor. Mistura e acolhe assuntos que lhe são apresentados de bate – pronto e o faz com a sensatez que falta a muitos. Mas, o que eu gostaria de falar, além da pessoa, do jornalista, escritor e acadêmico Cony seria sobre suas preferências literárias, a pedido de um amigo. Ele diz que “livros há que gostaria de reler e – infelizmente – já não há tempo nem modo para esse tipo de prazer, substituído por outros razoavelmente inconfessáveis”. Ao deixar a palavra inconfessáveis no ar, Cony respira vida e deixa que o leitor interprete como bem entender. Ele faz mistério com o prazer e isso cria o clima para que se continue a leitura. Para ele “se alguém me perguntasse pelos livros prediletos, a resposta, seria outra. O que o amigo pede é quais os livros que ele gostaria de reler. E ele responde: “Incluiria, como mandam os figurinos literários, os ensaios fecundos, os grandes romances formais, o Gibbons em não sei quantos volumes, o Moliére, o Racine, o Dante, Montaigne, Flaubert, enfim, os autores sempre citados por todos. Mas incluiria também o Arquibaldo Benjamim Xavier, autor de um alentado opus intitulado “As asas de Ícaro dos Impostos”. Eu nunca ouvi falar de Arquibaldo. Você já ouviu? Penso que tem gozação com a palavra impostos ao final do título. Depois de muitas filigranas, Cony, como ateu convicto, apesar de ter estudado em seminário, fala na preferência, um largo trecho do Evangelho Segundo Mateus. Não cita, entretanto. Que parte seria essa? Abri São Mateus e saí procurando, o que penso ter encontrado diz: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde seu sabor, como tornará a ser sal? Não serve mais para nada; é jogado fora e é calcado aos pés pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no monte”. Se essa for a parte – quem sabe – Cony estaria falando das favelas que cercam o lugar onde mora?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/2010.

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FÉRIAS E VIAGEM – Jornal O Estado

Agora que as férias estão chegando, todos se aprestam para viajar. Dizia o grande Montaigne, escritor francês do século 18, que “as viagens dão uma grande abertura à mente: saímos do círculo de preconceitos do próprio lugar (ou país) e não nos sentimos dispostos a assumir aqueles dos estrangeiros”. Viajar é sair do usual, do previsível. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer e do conhecimento. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, de descontração, para torná-lo apto a novas obrigações. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão emitir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. É tempo para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, a insegurança em aeroportos para fazer conexões ou a trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. A primeira recomendação para quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, de pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Leia, antes, sobre os lugares que vai conhecer em revistas, livros e na Internet. Anote o que lhe for interessar. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe se falar errado, não compreender o cardápio ou em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar (onde foi que você comprou isso? barato?). Deixa pra lá. Nada de ficar curtindo o apartamento ou se esparramar no hall do hotel. Ande, marque pontos de referência para ir e voltar ou use um GPS, se você for bem moderno. Os metrôs têm mapas em todas as estações e há sempre uma alma caridosa, principalmente pessoa em idade de aposentadoria, disposta a ajudar. Descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia, se tiver um, ou ao pessoal do hotel para lhe indicar shows, shoppings, restaurantes, eventos gratuitos, museus etc. As cidades, nos pontos turístico, e as empresas de viagens têm folhetos gratuitos com as atrações. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia ou faça o seu próprio roteiro. Defina o que lhe é proveitoso. Tente descobrir por seus próprios pés, um lugar que lhe interesse, seja um barzinho, um museu ou loja com uma liquidação. Você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer juízos de valor. E curta, pois a vida é breve. Estes são apenas alinhavos, referências básicas, que ajustados a cada situação, poderão, quem sabe, até servir para orientar os que acreditam que os limites do mundo passam muito além das suas portas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/12/2010.

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TELES, BEZERRA E EDNILO – Diário do Nordeste

Há identidades análogas nos três novos eleitos para a Academia Cearense de Letras, a decana das academias brasileiras. Capazes, maduros e ativos no que fazem. José Teles é reconhecido médico, José Augusto Bezerra é administrador de empresa e Ednilo Soárez dirige de faculdade de nível. São oriundos da Academia Fortalezense de Letras. O primeiro a tomar posse foi Teles, livros publicados, entre eles “O Solo das Chuvas”, “O Lacre do Silêncio” e “Sermões da Padraria”. É poeta apaixonado refinando seus versos. Dante Alighieri dizia, em “Purgatório”, o que é poeta: “Sou um que escreve apenas/quando me fala o amor e tenta relatar fielmente/o que ele dita dentro de mim”. Assim é Teles, da Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores, dirige o capítulo cearense da Alane, dirigente operoso da área de cultura do Ideal Clube que, sob sua tutela, promove certames para jovens, intelectuais consagrados e edita regularmente “Poemas de Mesa”, prenhe de lírica. O segundo é José Augusto Bezerra, ora empossado, bibliófilo Mindliano, detentor de rica biblioteca e a quem Maria Luiza, irmã de Rachel de Queiroz, escolheu para guardião de seu acervo, neste ano do centenário da autora de “O Quinze”. Agrega o galardão de Grão-Mestre da Maçonaria. Coube a ele a difícil tarefa de substituir a Eduardo Campos, cultura poliforma, orador nato e então presidente do Instituto do Ceará. Bezerra, tal qual o biografado em seu livro “O Espírito do Sucesso”, Alexandre, o Grande, destacou a personalidade de seu antecessor e soube, com prudência e zelo, imprimir característica pessoal na condução da entidade. O terceiro é Ednilo Suárez, administrador e mentor de jovens por hereditariedade. A ele coube a incumbência de ser o diretor acadêmico de faculdade de nível. Como intelectual tem-se mostrado merecedor de críticas lisonjeiras de quem costuma ser rigoroso em suas apreciações sobre o seu romance “A Brisa do Mar” e o ensaio “Miscigenação nos Trópicos” (tristeza ou alegria?) que tem como referência o escritor português Ramalho Ortigão. Sua posse, tão aguardada, ficará como presente de ano novo. Parabéns à Cearense e, especialmente, a Teles, Bezerra e Ednilo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/2010.

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SÃO PAULO E O JABUTI – Jornal O Estado

Estive agora em São Paulo. Dizia Edson Queiroz que a cidade era tão legal que o povo falava a língua portuguesa, entre outras. É claro que não é o português brasileiro, mas qual seria o português brasileiro? O quase castiço do Maranhão? O dos “esses” dos cariocas? O jeitão duro e o emprego do tu pelos gaúchos? Ou a ginga dengosa baiana? Importa não, todos se desentendem na mesma íngua. Enquanto andava por várias partes da cidade, inclusive na região que os paulistas chamam de Berrini, uma nova Avenida Paulista, pude ver, ali perto, sob pontes e viadutos, lugares de morar dos sem teto. Muitos lugares, centenas de sem teto. Não estou falando de favela, mas de tocas humanas. Ao mesmo tempo, a cidade zoa veloz por sobre os tetos dos sem teto. Carrões e carrinhos, ônibus articulados, tipo três em um, motocicletas, táxis e assemelhados formam uma grande lagarta modorrenta multicolorida iluminada no entardecer. A terra recebe a chuva forte para minimizar a baixíssima umidade do ar, essa secura deixando a todos nervosos e suarentos E as emissoras de TV, a exaustão, falavam da “ocupação” do complexo do Alemão, no Rio. Todos paravam, vidrados. Foi preciso juntar as polícias e as forças armadas para a operação ficar ao gosto do sensacionalismo de certos canais de televisão. Esquecem os paulistanos que já aconteceu isso em Sampa. Não precisam ficar espantados. Basta lembrar o passado recente. Ônibus queimados, delegacias metralhadas etc. Foi neste século. Juro que não queria escrever sobre isso, a intenção era dizer que a região dos jardins é maravilhosa, especialmente o Jardim Europa. Por lá, revendedoras de veículos, envidraçadas e iluminadas, açulam a cobiça dos que podem e frequentam, entre outros, o Clube Harmonia, nas proximidades. Mas, no duro mesmo, o que gostaria de falar seria sobre a confusão criada pelos editores paulistas Luiz Schwarcz (Cia. Das Letras) e Sérgio Machado (Record) acerca da escolha concedida pelo Prêmio Jabuti a Chico Buarque, o escritor. É briga de cachorro grande e tem a ver com a não eleição do jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre, que lançou um romance e já seria o premiado, não fosse Chico quem é. Depois, talvez conte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/12/2010.

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O BRASIL DESEJADO – Diário do Nordeste

Agora que as eleições passaram. Enquanto todos se preparam para o Natal, seria um bom tempo para se pensar no Brasil. No final de outubro, a revista Época, edição 01.11, contratou pesquisa, elaborada pela Marcondes Consultoria, sobre o país que o brasileiro quer ter. Essa pesquisa fala dos desejos dos brasileiros. Em 160 cidades de todo o país foram feitas 2.544 entrevistas com pessoas em idade de votar. Havia uma lista de 70 palavras envolvendo valores básicos, tais como responsabilidade, respeito, corrupção, iniciativa, justiça, ética etc. Cada entrevistado (a) deveria responder quais os itens mais identificados com ele próprio, quais os que mais importariam para o país e ainda como a pessoa gostaria de ver o Brasil no futuro. Não houve surpresa quando responderam os fatores que definem o Brasil atual. Saíram, pela ordem: corrupção, pobreza, crime/violência, desemprego, analfabetismo, poluição ambiental, agressividade, incerteza sobre o futuro, desperdício de recursos e discriminação racial. Paralelo a isso, os fatores que poderão identificar o país no futuro. Eles, pela ordem, são: justiça, redução da pobreza, moradia confortável, cuidados com os idosos, oportunidades de emprego, cuidados com a saúde, respeito, qualidade de vida, justiça social, honestidade, cidadania, democracia, inovação, liberdade pessoal, criatividade, liderança e liberdade de expressão. Como se vê, na hora de pensar com seriedade, o brasileiro, seja de que parte for, sabe ordenar seus pensamentos. Você poderá dizer que ele recebeu uma lista com 70 palavras, mas é preciso lembrar que ele tinha a liberdade de escolha. Em um dos quadros-resumo há a indicação de como o brasileiro se vê. Ele dá valor à amizade, família, honestidade, respeito, alegria, humildade, saúde, justiça, esperança, paciência, responsabilidade e, por último, coragem. Este artigo/pesquisa é uma forma de fazê-lo pensar um pouco em você e na forma como se vê no pedaço de chão que ocupa no Brasil. As pesquisas não são necessariamente verdades, mas indicam tendência do rumo que cada um deve tomar para a solução dos seus problemas pessoais e, igualmente, ajudar o Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/2010

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A POESIA DE BARROS PINHO – Jornal O Estado

Dizia Madame de Staël, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia é a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ovídio, vivido no então Império Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro “Poemas para orvalhar o outono”, de José Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observações acima. Barros Pinho, administrador, professor, político e, acima de tudo, poeta, é uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retraído – quando necessário -, ardente, cálido, prestativo e sabe que veio ao mundo com missões múltiplas. Vejam-no: “o comércio/faz a festa da vitrine/nos olhos dos meninos/o operário/desfila na fila do governo/sob a plácida complacência/na espera eterna/da bondade burocrática/nas ruas/a vida/ é uma máquina”.
A capacidade de síntese é a característica deste registro poético que também não deixa de ser uma crônica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: “Digo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável fartura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo sábio”.
Tudo o que Rimbaud disse está inscrito na seleção dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As memórias, essas que voltam sem ser chamadas, estão no poema O velho longe do Rio: “meu avô morreu/na chapada da distância/procurando a lua de olhos/vivos no rio o rio mais/longe de sua vontade/as mãos sem carne/ os pés sem perfume/a rastejar fantasmas/na superfície das pedras/o engenho abrigo do tempo/moendo moendo seus ossos/ossos no destino do vento/vento vento outro vento/não o vento de sua terra/hoje passa montado no cavalo/ arco-íris pelos céus e as esporas/ a rasgar as nuvens da chuva”. Belo, contundente.
J. Ortega y Gasset, filósofo espanhol quase contemporâneo, pois morto em 1955, admitia que não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos sístoles e diástoles. Consegue sintetizar tudo, assim: “o rio encheu/os olhos/do menino/cheio de espanto/a menina/encheu-lhe a vida/de paralelas”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/11/2010

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ELIMINAÇÃO DA POBREZA – Diário do Nordeste

Semana passada recebi convite de uma revista para fazer uma pergunta ao governador eleito, Cid Gomes. Não sei se a minha pergunta será considerada, mas a que me veio à cabeça na hora foi a seguinte: o senhor acredita na eliminação ou erradicação da pobreza até o ano 2020? No Brasil, pobre é alguém que tem renda per capita até 140 reais. Indigentes são os que têm renda de até 70 reais. Na verdade, o número ideal seria o do salário mínimo. Mínimo quer dizer pequeníssimo ou ínfimo. O Nordeste ainda possui 13,5 milhões de indigentes e 17,6 milhões de pobres. Estes dados são do Censo de 2.000, mas atualizados pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios. Em estudo recente da Fundação Getúlio Vargas/CPS/FSP determinou-se um custo médio per capita para eliminar a pobreza, por mês, de R$ 9,33. No Ceará, o custo foi R$ 16,16. Verificou-se quanto cada área influi no aumento do rendimento individual e familiar. A resposta veio do trabalho: 71%. Os programas sociais/bolsa família respondem por 5,3% e a previdência social com 24%. O trabalho é a alavanca que deve dignificar a vida da pessoa. O que fica claro é que é preciso aumentar o número de oportunidades de trabalho, seja para o autônomo, o vinculado a cooperativas e a empresas. Há queixas recorrentes sobre os custos sociais de cada empregado e a morbidade crescente de micro, pequenas e médias empresas que, por não terem condições de pagar as obrigações sociais e os impostos diretos e indiretos, encerram suas atividades. É cena comum, nas médias e grandes cidades brasileiras, o movimento noturno de artesãos, vendedores, ambulantes, distribuidores e afins que se acercam dos pontos que, já na madrugada, são visitados por compradores que abastecem seus pontos comerciais com essas mercadorias feitas de forma artesanal ou, quando muito, com algum viés industrial. Essas aglomerações urbanas se fincam, criam raízes e aumentam a economia informal que não tem, por mais que deseje, condições de se estruturar até como microempresários. A transferência de renda dos programas sociais é um caminho, mas não a saída para a verdadeira inclusão social.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/2010