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CHICO DA SILVA –ARTE E VIDA – 100 ANOS – Jornal O Estado

Quem deseja conhecer um pouco mais da obra, da vida e da história do pintor Chico da Silva não deve perder a grande exposição já aberta ao público na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, todos os dias, das 10 às 22 horas. Não paga nada. É só entrar, olhar com vontade de entender o turbilhão que era o pincel/imaginário de Chico da Silva. Ela ficará aberta até o dia 30 de novembro e é comemorativa dos 100 anos de vida desse grande pintor primitivista ou naïf, como querem os franceses, que deixou seguidores e imitadores. Lembro que corria o ano de 1966. Um dia, recebo telefonema de Fernando Heráclio Silva, colecionador de artes, que me pergunta de bate – pronto se eu conhecia as pinturas do Chico da Silva. Claro, respondi. Chico da Silva, naquele mesmo ano, havia ganhado, com suas pinturas primitivas e alucinadas, Menção Honrosa na Bienal de Veneza, Itália. Fernando, objetivo, disse: procure-o e compre todos os quadros que encontrar. Dia seguinte, peguei o carro e fui procurar/encontrar a velha casa do Chico da Silva no coração do Pirambu. O Pirambu, nesse tempo, havia recebido uma demão de boa vontade do padre Hélio Campos que, por sua estatura moral e eclesiástica, bradara alto sobre a miséria da área favelada e a carência de documentação legal das ocupações. O fato é que me vi dentro da casa do Chico, uma mistura de moradia, ateliê e bodega, pois sempre havia família, ajudantes/aprendizes, comida e aguardente por perto. Fiz a compra solicitada, paguei o devido, recebi parte das telas. As outras, o Chico iria me entregar depois. A partir dessa entrega, o Chico, vez por outra, aparecia com uma porção de quadros. O táxi ficava esperando e ele, já meio alto, vendia, agradecia, prometia voltar. E voltava. Esta introdução diz da alegria de ver esta exposição dos supostos 100 anos de vida de Chico da Silva e dos reais 25 anos de sua morte. O acervo apresentado é quase todo do colecionador Lincoln Machado. Para ele, “o que importa é saber quem foi o artista que se dizia índio do Acre (para onde foram e voltaram tantos cearenses, observação minha) e que levou o nome do Ceará para… Moscou, Paris, Veneza e tantos outros”. Roberto Galvão, pintor e mestre, fala da inserção na revista Cahier D’ Art, de Paris, de reportagem com oito páginas quando Chico ganhou a Menção Honrosa… Entretanto, diz Galvão: “É necessário que se faça um resgate de sua obra. Torna-se urgente um registro completo de suas pinturas e as de seus seguidores”. A Secretaria da Cultura do Ceará está associada a essa homenagem e “sente-se no dever e o cumpre ao apoiar esta iniciativa que considera relevante.” A Câmara Municipal de Fortaleza se associou às homenagens. A mostra tem a curadoria do artista plástico João Jorge Melo e apreciações técnicas de Roberto Galvão, conhecedor da vida e da obra de Chico da Silva, figura tão surrealista quanto suas linhas e curvas multicores, urdidoras da tessitura predecessora de figuras como as das aves aladas do filme Pandora. O convite está feito. Veja os comentários, confira o delírio e a arte e desse homem simples e grande que, 25 anos após sua morte, estão sendo discutidos, mostrados e apreciados. Não perca.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/11/2010

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SOLIDÃO NA INTERNET – Diário do Nordeste

Recebo de amigos convites para entrar em redes sociais de comunicação pela Internet. A alguns, respondo que não me agradam as redes sociais. A outros, deixo o silêncio e a inação como respostas. Nasci analógico, escrevendo carta com a mão esquerda, lambendo a parte gomada do envelope para postá-lo nos Correios. Bem que gostaria de ter de volta algumas cartas que escrevi. Elas falariam de mim, de como me situava em relação a este futuro que chegou de forma avassaladora com os aparelhos celulares cada vez menores e mais sofisticados e os computadores com tantos recursos que um mero usuário como eu perca a parte maior e, talvez, a melhor. Recentemente, um sociólogo francês, Dominique Wolton, diretor do Centro de Pesquisa Científica de Paris, afirmou aqui no Brasil que “a comunicação será a grande questão do século XXI”. Concordo, em parte, um século é muito tempo e só gastamos, até agora, um décimo do 21. O que virá nos próximos 90 anos? Creio que ninguém, mesmo da comunidade científica, tem noção do que as novas gerações, as nascidas neste século, viverão com alegria ou pena. Segundo ele, as comunicações tipo Facebook são provas de solidão interativa. O José não preenche a solidão da Maria que, mesmo se comunicando com ele e outras pessoas, continua só com sua esperança e (des)ilusão. Para ele, há um conceito de sociedade individualista de massa. Ora, digo eu, se é sociedade, não pode ser individualista. Isto quer dizer que os componentes de uma sociedade possam ser individualistas, mas a sociedade, não. Ele acredita que a procura da liberdade individual é um modelo que remete à herança do século 18 e a igualdade que todos parecem ter na Internet seria um arquétipo singular de socialismo. Claro que o objetivo das redes sociais é fazer com que as pessoas leiam os anúncios sutilmente visíveis e se descubram face a face, em carne e osso. Deixam de ser as “personas” que se mostravam em suas faces escritas ou visuais e passam a enfrentar o eterno problema e solução dos seres humanos, a capacidade de comunicação real, sem mistificação e idealização, na hora do encontro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/2010.

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A CONTA DA ENERGIA – Jornal O Estado

Thomas Edson, final do século 19, inventou a lâmpada incandescente e iluminou uma rua para espanto dos moradores de Menlo Park, em New Jersey, USA. A partir daí começa a utilização efetiva da energia elétrica. Não é segredo para ninguém que a conta da energia elétrica no Brasil é uma das mais caras do mundo. O detalhe que escapa a muitos é que a maior parte da energia brasileira é de geração hidráulica, de custo baixo. É só lembrar, por exemplo, das hidrelétricas de Itaipu, movida pelo rio Paraná, no sul do país, e a de Paulo Afonso, na Bahia, pelo “velho Chico” ou o rio São Francisco, tão festejado por políticos e trovadores, mas maltratado desde Minas até o Atlântico. Se você morasse na Inglaterra, Portugal, Alemanha, Espanha, México, França, Estados Unidos e mais países pagaria menos pela energia consumida. Imagine a sua conta mensal final como sendo de cem reais. Coloquei final, de propósito, pois do valor da compra da energia, ao custeio da operação e a manutenção das empresas públicas e privadas que operam no setor, 45,08% são referentes à carga tributária e encargos da conta de sua casa, empresa, indústria, hospital etc. Os tributos federais (Cofins, Imposto de Renda, Pis/Pasep), estaduais (ICMS), municipais (ISS) e encargos trabalhistas (INSS e FGTS), além de algo como R$ 9,00 para a universalização, estímulo a fontes alternativas e subsídio a algumas termelétricas. O que todos pedem – e a Justiça está abarrotada de ações nesse campo – é que o ICMS seja reexaminado e não incida da forma como hoje é feita. Este artigo, que foge ao habitual, história apenas o que foi levantado por técnicos do estatal BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, na sua revista no. 29, reeditada pelo Instituto Acende Brasil e Folha de São Paulo. Além da conta tem que ser paga ainda a Taxa de Iluminação Pública. Nós, os brasileiros, precisamos saber que todas as contas chegam às nossas mãos acrescidas de muitos tributos e que as tais agências reguladoras devem justificar suas criações, não como fonte de empregos, mas como fiscais do que a maioria dos brasileiros não sabe, tampouco tem acesso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/11/2010.

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MARGARIDA, 91

“Agora, pois, filhos, ouvi-me/bem aventurados os que guardam os meus caminhos/Ouvi as minhas instruções, e sede sábios, /e não queirais rejeitá-las”. Provérbio, 8:32
Dona Margarida completa noventa e um anos amanhã. Tentei, de todas as formas, mandar confeccionar um bolo com 91 metros de comprimento. Não consegui. Não dava para ser transportado e não havia ambiente, tampouco balcão disponível que comportasse essa guloseima gigante. De qualquer modo, juntei ingredientes vindos das barrancas do meu coração, untei-os com o liame a nos unir e com uma colher de pau gigantesca fiz nascer esse bolo enorme, cheiroso, confeitado, saboroso como o amor e caseiro.
Esse bolo virtual/real terá apenas duas velas. Uma, simbolizará a nona década de sua vida e, outra, o numeral um, a dizer que ela está iniciando a trilha para o seu centenário. Ele será compartilhado por irmãos, filhos, netos, bisnetos e por pessoas amigas que, certamente, ficarão alegres em louvar a vida dessa mulher de fibra, chefe de família exemplar, irmã querida, mãe vigilante, avó crítica e dona de sensatez profunda. Haverá bênção e todos, contritos, mesmo sendo pecadores, agradecerão a descendência que lhes coube na árvore dessa bonita mulher baobá, filha do farmacêutico João Caminha Monteiro e de D. Luiza Saraiva Caminha, educada no Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai, João, morreu cedo, deixando uma grande, honrada e sacrificada família em face das despesas de sua longa enfermidade.
Sua mãe, Luiza, ainda restou grávida do 12º. filho, mas conduziu com dignidade o desígnio que lhe coube. O fato é que dessa tribo eu sai curumim e aprendi que a nossa oca tem fraternidade, olho no olho, decisão de chegar junto no momento preciso. À Dona Margarida, viúva há quase duas décadas, dorida e ciosa de sua casa, cabelo de algodão doce, resposta lúcida e pronta a qualquer questão, mesa posta como se fora uma tasca de estrada, o amor e carinho de seus nove filhos, adultos, independentes e capazes, aqui e alhures. O respeito de netos sem conta, médica, advogados, administradores, arquiteto, psicóloga e que tais e, de bisnetos que, se não levam mais seu sobrenome, têm, sem que o saibam, o indulto da genética a repatriá-los e a cobri-los, não com mimos, mas com o exemplo traduzido em sentido de vida, da aurora ao arrebol, a inocular a todos dignidade e temperança. Saiba, Dona Margarida, que agradecemos por sua lida e louvamos sua vida. Como filhos adultos, estamos e estaremos, agora e sempre, a seu lado, na sua casa com jardim e quintal sombreados por árvores frutíferas, na varanda de tantas conversas sem fim, nas cadeiras que não têm donos, pois somos iguais quando nelas sentamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/10/2010.

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BRASIL SUJO – Diário do Nordeste

Daqui a uma semana você estará escolhendo a pessoa que governará o Brasil. Você tem sete dias para pensar, decidir, confirmar o seu voto no primeiro turno ou mudá-lo. Como hoje é domingo, pense um pouco no Brasil de hoje, esse gigante de quase 200 milhões de habitantes, tomado, sem grandes traumas, dos portugueses, nossos colonizadores. Em 1799, o Brasil tinha três milhões de habitantes e, pasmem somente 12 médicos, todos formados no exterior. Nessa época, as sujeiras das casas eram jogadas pelas janelas. Quem passava pelas ruas, sem pavimento, pisava nelas. Em consequência, as doenças proliferavam e a vida média de uma pessoa era de 30 anos. A médica Cristina Gurgel, professora da PUC- Campinas, SP, publicou o livro “Doenças e Curas: O Brasil nos primeiros séculos”.
Ela diz que no século XVII de cada três crianças nascidas no Nordeste, uma só sobrevivia. É claro que a chegada, forçada por Napoleão Bonaparte, da família real portuguesa, em 1808, trouxe melhoras para o Rio, a capital da colônia, e Salvador, a primeira capital. Cada uma ganhou até uma faculdade de medicina e rudimentos de saneamento básico foram aparecendo. Voltando a 2010 vemos que há ainda situações similares em favelas, especialmente no norte e nordeste. Quase todas as casas têm aparelhos de TV, sons, refrigeradores, movidos à energia elétrica legal ou não. Faltam atenção para a urbanização, a provável ausência de água e esgotos públicos, pavimentação decente e um arruamento simples que dê um ordenamento aos caminhos, vielas e os transforme em ruas iluminadas, com um mínimo de segurança.
A propósito, o filme “Tropa de Elite-2”, mostra agora outra face das favelas do Rio, a existência de milícias paramilitares que, a título de proteção, extorquem pequenos comerciantes. Não faço apologia do filme, tampouco o critico, apenas registro que ele é o maior fenômeno de bilheteria no Brasil, comprovado pela Nielsen, empresa que monitora a bilheteria dos cinemas no mundo. Do que vi e li, há uma percepção geral de que os espectadores saem meio pasmos do filme, como se tivessem levado um soco no estômago. E pisam nas ruas com medo de tudo e de todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/2010.

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FORTALEZENSE, ONTEM E HOJE – Jornal O Estado

Este escrito de despedidas não voa em metáforas, ele se prende à materialização dos desejos e atitudes de Matusahila Santiago e José Luís Lira ao fundarem a Academia Fortalezense de Letras. Fui comunicado por Natércia Campos haver sido eleito. Lembrei então do menino que registrava tudo em seu “diário”, do jovem universitário de direito e administração, a escrever, de forma remunerada, por seis anos, todos os dias, nos jornais Associados. Depois, emergiu o adulto com artigos e crônicas aos domingos, há décadas, no Diário do Nordeste. E, posteriormente, às sextas, neste O Estado. Cessado o receio natural, vieram livros. Por outro lado, nascia uma academia. Foi assim. Sempre acreditei no pensamento de Ralph Waldo Emerson: O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro. Assim, em 2008, como homem e escritor, recebi a tarefa de, por voto unânime, presidir a Fortalezense, e tentar escrever dois anos de sua história com autocrítica, acreditando que uma academia de letras é sempre um vir-a-ser, um projeto em construção, original, essencial ou simples. Como disse Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.Uma entidade literária, no meu pensar, é produto da sinergia de seus componentes, do somatório de suas qualificações pessoais, de suas produções literárias em múltiplos gêneros, dos seus gestos singulares e personalizantes. Recebi o bastão de Ednilo Soárez, que o ganhara de Cybele de Pontes, e, esta, de Cid Carvalho. Grande responsabilidade, a minha. Seguindo as palavras do escritor mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de Literatura, em 1990: “O homem é um ser que pergunta”. A todos perguntei e, a cada um deles, pedi que o fizessem por escrito. Aos ex-presidentes, solicitei encadernassem o registro histórico de suas gestões e experiências. Li tudo, com respeito, o que haviam proposto, escrito e feito. A partir daí, saí da primeira pessoal do singular para a primeira do plural, procurando fazer, em dois anos, algo qualificado como:1. a participação da Fortalezense, em sessões públicas, em duas bienais do livro do Ceará, fato inédito e acreditado; 2. estimular e acompanhar colégios e jovens estudantes de nível médio para que fundassem e mantivessem academias de letras; 3. realizar os eventos “Viajando nos Livros”, com parceria de colégios públicos e privados e milhares de participantes; 4. idealizar e criar, com o apoio do então presidente da ACL, Murilo Martins, e ajuda de Regina Fiúza, grupo de trabalho multidisciplinar para elaborar projeto visando a obtenção de recursos das leis de incentivo para restauro do Palácio da Luz, patrimônio de nossa anfitriã, a Academia Cearense de Letras; 5. a repercussão da atuação ensejou homenagem e reconhecimento público. Por iniciativa do vereador Paulo Facó, a Fortalezense, em outubro de 2009, foi homenageada, em sessão solene, na Câmara Municipal de Fortaleza; 6. propiciar jantar anual de confraternização natalina; 7. realizar mudanças no Estatuto Social e no Regimento Interno para condicionar candidaturas por editais publicados na imprensa e um conselho fiscal para examinar receitas e aplicação dos nossos recursos, mínimos que sejam; 8. conseguir viver estes dois anos com os nossos próprios recursos, sem recorrer a quaisquer ajudas de pessoas, empresas, instituições ou órgãos públicos. Entregamos, ontem, um caixa saneado e maior do que recebemos; 9. conceber a criação de um Anuário da Cultura, projeto esse encampado pelo Secretário Auto Filho e ampliado pela SECULT- Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, ora em elaboração;10.criar o selo editorial Fortalezense de Letras para uso dos acadêmicos em suas publicações;11. publicar mais um número da Acta Literária; 12. criar um Histórico para cada acadêmico para a memória;13. distribuir broches/ bottons e carteiras de identidades sociais para acadêmicos; 14. lutar para que o “Pacto de Fortaleza, a cidade que queremos para 2020”, contemple a cultura entre os seus eixos. Publicamos artigo, fizemos exposição de motivos à Câmara Municipal e lá comparecemos para, de viva voz, dizer da razão do nosso pleito. Em 24 de setembro passado, o pres. Salmito Filho nos assegurou, pessoalmente, que a cultura será incluída. 15. Realizar eleições diretas, precedidas de editais publicados, escolher e dar posse a três novos acadêmicos.
Agora é almejar harmonia, trabalho e dedicação a todos os que compõem a nova diretoria, encabeçada por Gizela Nunes da Costa, detentora de cultura e experiência, fazendo votos que sua liderança, vontade e sensibilidade confluam para um maior relacionamento entre os acadêmicos, instigando-os a escrever obras de nível, pois como dizia Ítalo Calvino, “Os leitores são os meus vampiros”. A todos colegas da Fortalezense, especialmente os da diretoria que sai, os meus agradecimentos. Aos demais, faço votos que cultivem e propaguem, em outras academias a que pertencem, a atitude de que a cultura contemporânea do Ceará deve ser sustentada, ampliada e consolidada pelo compartilhamento dos saberes, integração de competências e a fusão de ideias para o engrandecimento das letras e da literatura. Por fim, Presidente Gizela, lembre o Eclesiástico, 6:2: “Revestir-te-às dela como de uma estola de glória/ e a porás sobre ti como uma coroa de regozijo”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/10/2010.

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A CORUJA E A CULTURA – Diário do Nordeste

Consta na História da mitologia grega que Athena (Minerva, na mitologia romana), considerada a deusa da guerra e da sabedoria, possuía uma coruja como mascote. Sendo a coruja um animal noturno, os gregos, que apreciavam a noite como o tempo de meditação, da filosofia e o da revelação intelectual, a escolheram como seu símbolo. Dessa forma, a coruja passou a ser cultuada, por seus grandes olhos, como referência da busca pelo conhecimento. Da zoologia se depreende que a coruja não aceita bem ser criada em cativeiro, tem visão 180% superior à espécie humana, enxergando muito, apesar de daltônica. Como tem os olhos separados e pescoço flexível, possui a capacidade de girar a cabeça para mirar tudo ao seu redor. Daí a suposição de que teria inteligência, argúcia, sensibilidade e audição privilegiadas.
Consta ainda da história que, em uma língua nórdica antiga, a coruja recebeu o nome de “uglia”, em face do som que emite. Algo como ugli ou uglia. Em inglês, a palavra “ugly” significa feio e ninguém, na realidade, vai afirmar ser a coruja um animal bonito. A partir dessa ilação, consolidou-se mais a ideia ou o estereótipo do sábio, pessoa silenciosa, tal como a coruja, mais preocupada com o mundo interior que com as aparências, segundo afirma o professor da Universidade de São Paulo, Antônio Medina Rodrigues, especialista em estudos helenistas.
Estas explicações alinhavadas são uma introdução para dizer que a Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará – Apesc, acreditada entidade de classe presidida pelo prof. Ari Othon Sidou, tem a coruja como seu troféu maior e, escolhe, em assembleia geral, personalidades/entidades para homenagear, ao seu julgar, por terem contribuído de forma relevante para o desenvolvimento da educação e da cultura.
Neste ano de 2010, em solenidade realizada última quinta-feira, véspera do dia do professor, os agraciados foram a Fundação Beto Studart; o Ministro do STJ, Francisco César Asfor Rocha; o Ministro do TCU, Ubiratan Diniz Aguiar, o prefeito de Maracanau, Roberto Pessoa; e este escriba que, lisonjeado, resolveu, em agradecimento, fazer este registro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/2010.

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RÉVIA, ROBERTO E SERIDIÃO – Jornal O Estado

A noite da última quarta-feira, 13 de outubro de 2010, foi memorável para a Academia Fortalezense de Letras. Celebramos, com efusão, a eleição de três novos colegas, pelo voto direto e secreto. Eles vão agregar à Fortalezense suas capacidades e os amores crescentes pela literatura. Antes, gostaria de falar um pouco de seus predecessores. Começo com Yolanda Montenegro, difusora do Ceará na Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. Ciosa do seu nome e das restrições que a idade impõe, houve por bem renunciar, de forma digna, à metáfora da imortalidade. Cláudio Pereira, referência na dinamização da cultura popular em Fortaleza, hoje deslimitado do nosso convívio, asperge de forma infinita sua energia e criatividade por outras ondas do universo. Ele será sempre saudade. Roberto Pires de Oliveira, carioca que adotou o Ceará como sua terra, optou por ver o desembocar do rio, não o de Janeiro, mas o Coreaú que atravessa a região norte e banha Camocim, seu definitivo amor de duas águas.
Coube aos novéis acadêmicos a honra de saudar seus patronos. O romancista, autor de Luzia-Homem, Domingos Olímpio foi saudado por Révia Herculano; o bibliófilo José Bonifácio Câmara foi apreciado por Roberto Ribeiro; e o historiador Mozart Soriano Aderaldo, meu ex-professor, foi louvado por Seridião Montenegro.
Ao colega Antonio Colaço Martins foi conferida a missão protocolar de dar eruditas boas-vindas aos novos integrantes da Academia Fortalezense de Letras, os já citados Révia Herculano, Roberto Ribeiro e Seridião Montenegro. Gostaria de referir que Révia Herculano é graduada em letras, especialista em literatura brasileira e em educação pela UFC e no MEC- Brasília, autora de livros e detentora de prêmio em concurso literário. Seja bem-vinda Révia Herculano, fortalezense no esporte e na literatura. Roberto Ribeiro é administrador pela UECE, possuidor de voz maviosa que o tornou em forma e conteúdo mestre da retórica, bibliófilo, autor de um dicionário singular e com outros originais no prelo. Seja bem-vindo Roberto Ribeiro, com a sua presença portentosa e constante. Seridião Montenegro é ex-professor universitário no Ceará e em Brasília, procurador da Fazenda Nacional capaz e probo, autor de monografias técnicas e de livro de quase-memória. Seja bem-vindo Seridião Montenegro, de quem tive o prazer de ser colega de turma na Faculdade de Direito da UFC. Aos três, Révia, Roberto e Seridião os meus votos para que sejam acadêmicos criativos, propagadores da literatura, atuantes e presentes na vida da Academia Fortalezense de Letras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/10/2010.

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MARINA, DILMA E SERRA – Jornal O Estado

Recebi, de presente, em agosto passado, o livro “Marina – a vida por uma causa”, escrito por Marília de Camargo César. Li o livro, que não é dos melhores, mas conta a história – meio romanceada – dessa filha de pais cearenses. Pedro, seu pai, nasceu em Messejana que, no livro, é dado como “no sertão do Ceará”. Sua mãe, Maria Augusta, nasceu em Paracuru, cidade praiana. Pobres, como milhares de outros cearenses, foram tentar a vida no Acre e se uniram sob as bênçãos do patrão de Pedro, um dono de seringal.
Sendo filha de pai e mãe cearenses retirantes, Marina é, de fato, cearense. Esse detalhe, pouco divulgado, talvez demonstre sua fibra, razão de vida, mudanças e sonhos. Por outro lado, não recebi nenhum livro sobre Dilma e Serra. Procurei nas livrarias e não encontrei. Vi resumos na Internet. Ambos fizeram política estudantil, em décadas distintas. Serra, paulista, presidente da União Estadual dos Estudantes, em SP e, em seguida, presidente da União Nacional dos Estudantes, a famosa UNE, de então. Entrou na Ação Popular, movimento ligado à Igreja.
Dilma, mineira, estudou no Colégio católico Sion em BH, fez vestibular para economia e, em seguida, em plena revolução de 64, entrou no movimento Política Operária- Polop, radical, depois Val-Palmares, ao mesmo tempo em que casava com um jornalista. Perseguida, entrou na clandestinidade, separou-se e teve um novo companheiro, com quem divide filha e neta. Serra, também perseguido, abandonou curso de engenharia e daí se mandou para o Chile, onde concluiu mestrado em economia. Lá, casou com uma bailarina, mãe de seus filhos e netos. Por lá, trabalhou até a queda do Presidente Salvador Allende. Aportou nos Estados Unidos e fez doutorado na Universidade de Cornell e, após isso, pesquisa na Universidade de Princeton.
Nos anos 80, Dilma, após amargar cadeia, passa a trabalhar no serviço público no Rio Grande do Sul, onde se forma em economia. Eficiente em funções públicas, sempre seguindo a orientação, já menos radical, de Leonel Brizola, do PDT, partido a que pertenceu até 2001.
Serra fez carreira em São Paulo como deputado, prefeito, senador, ministro e governador, pelo PSDB. Foi derrotado por Lula em 2002 e, agora, em 2010, é salvo pela filha de cearenses Marina Silva, está no 2º. Turno. Dilma, por sua vez, entrou no PT em 2001, vindo do RS e, já em 2003, passou a integrar os quadros do governo Lula. Com a queda de José Dirceu, por conta do Mensalão, assume a Casa Civil e desponta, na visão de Lula, como sua sucessora. Mulher forte, descasada, apaixonada pelo trabalho e obediente às ordens de Lula, pouco a pouco, sendo mostrada aos políticos do PT e aliados como a escolhida. E assim feito, surgiu a Dilma, a mãe do Brasil, na linguagem lulista. Quase ganha no 1º. turno. Serra, estudioso, meticuloso e sisudo, lutou contra Aécio Neves e conseguiu ser candidato. Atrapalhou-se na escolha do vice e fez campanha meio perdida sem muita empatia e aliados.
São estes os nossos candidatos a presidente que, no dia 31 deste outubro, vão se encontrar outra vez. Sendo eu o marqueteiro deles, pediria, agora que têm tempos iguais de propaganda e em debates, menos sisudez, uma pitada de descontração e se deixassem perceber em suas essências como seres humanos. Se eu fosse “âncora” de programa de entrevistas pediria que eles me contassem algumas histórias leves e engraçadas, dissessem uma piada, cantassem uma música, algo assim. O Brasil precisa de gente séria, mas não de carrancudos, o tempo todo. Nem tanto Lula, nem tampouco Dilma ou Serra. O ideal seria misturar a descontração total do Lula com a caturrice dos dois e dividi-la em partes iguais. Um lembrete, Obama, antes de ser presidente, escreveu dois livros biográficos. Agora, em meio a guerras com muçulmanos e problemas com os republicanos, tem 2.000 músicas em seu I-Pod. Um dos seus cantores preferidos é John Coltrane. Quais são os preferidos de Dilma e Serra?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/10/2010

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NÓS E O VOTO – Diário do Nordeste

Não sei a que horas você lerá esta parte do jornal. Espero que seja antes de votar. Não sei sua idade, sexo, cor, religião, ideologia e profissão. Sei que pode ser eleitor (a). Hoje, neste 3 de outubro de 2010, você terá alguns minutos para votar. Vai eleger dois deputados, estadual (10 candidatos para 1 vaga) e federal (13 para 1). Dois senadores, governador e presidente da República. Não brinque com seu voto. Não faça dele uma piada de mau gosto, não se enfureça diante da realidade, nem desacredite na raça humana. Pense.
Exercite sua vontade, aquela da qual está convencido. O voto, já se disse à exaustão, tem efeito. Saiba, hoje, o que acontecerá depois. Não se dê por vencido, faça o seu Ficha Limpa pessoal, veja quais candidatos já foram condenados. Os que mudaram de bairro, casa, costumes, montaram negócios do nada e apareceram em outros mundos, sem descobrir-se o milagre. O milagre é que não há milagre. A escolha é sempre entre a realidade e a ilusão.
Você, na hora que entrar na seção eleitoral e se ver diante da urna eletrônica, mesmo que não queira, estará ligado ao futuro e não ao passado, seja de mágoas, desenganos e fantasias. Estabeleça um elo de conexão com sua terra, seu país. Você não tem obrigação de votar só por votar. Renda-se ao seu próprio julgamento e acredite, por instantes, que é senhor de parte do destino do país. Um aperto de mão, olhar distante ou fixo, jeito de dizer o improviso e raiva contida, podem definir uma pessoa. A vida real não tem ensaios, nada é como a televisão com maquiagem, cortes, iluminação, diretor de arte e a edição final. Olhe as imagens, mas não esqueça do que acontece ao seu redor.
Há uma velha estória que vale a pena contar: uma família queria saber o futuro de um jovem ainda imberbe. Deram-lhe uma maçã, um livro de orações e um valor em dinheiro. Esperaram a sua reação. O jovem comeu a maçã, leu o livro e colocou o dinheiro no bolso. Viram, então, que ele havia escolhido sua profissão: seria político. Brincadeiras à parte, não responsabilize os outros pelo que você faz. O seu voto vai definir o modo como a vida vai girar. Não faça roleta russa. Vote certo. Vote no Brasil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/2010.