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FREUD E OS SONHOS

Embora leigo, não resisto à ideia de fazer uma leitura de “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud, obra que está completando 100 anos. Ela nos remete a sentimentos de alegria e perplexidade.
Alegria, por estarmos procurando respostas coerentes para esse ainda grande mistério que é o sonho. Perplexidade, por ser um assunto de múltiplas interpretações, ensejando visões de todo tipo, em que se misturam conhecimento com religião, culpa com desejo, enfim, um amálgama. É claro que o estudo dos sonhos continua a ter um lugar destacado na psicanálise e sendo “A Interpretação dos Sonhos” uma referência, apesar de escrita há cem anos, não há como desconhecer o que o próprio Freud considerou como a mais valiosa descoberta que tivera a felicidade de fazer.
O sonho parece ser o fenômeno da vida psíquica normal em que os processos inconscientes da mente, incluindo o aprendizado, são revelados de forma bastante clara e acessível ao estudo.
A interpretação dos sonhos trás a tona os conteúdos mentais reprimidos ou excluídos da consciência pelas atividades de defesa do Ego. A parte do Id, cujo acesso à consciência foi impedido, é a que se encontra envolvida na origem das neuroses. Daí o grande interesse de psicanalistas pelos sonhos dos pacientes. Ora, se os sonhos são fenômenos comuns e normais, devem servir para ajudar a identificar e entender os processos desencadeadores dos sintomas neuróticos.
Fica claro que os sonhos, além da mera compreensão dos processos e conteúdos mentais inconscientes em geral, revelam o que foi reprimido ou excluído da consciência. Para o fundador da psicanálise até os sonhos de angústia, os pesadelos, os que fazem as pessoas acordarem no meio da noite, são realizações de desejos.
Ele justifica essa teoria agrupando os sonhos em três tipos ou categorias: Primeiro – sonhos em que a realização dos desejos está tão clara que quebra as regras que se estabeleceria entre as forças motivadoras do sonho: o desejo de dormir e a realização disfarçada dos desejos inconscientes. Segundo – os sonhos punitivos ou masoquistas, quando os “sonhadores” estão vivenciando momentos satisfatórios em suas vidas. Passam a ter um caráter punitivo ou masoquista ao surgirem como pesadelos que estragam o prazer dos bons momentos vividos acordados. Terceiro – sonhos em que a angústia é produzida por fatores alheios a eles próprios: doenças físicas, entre outros. Nessas hipóteses, os desejos inconscientes que, em outra situação, teriam ocasionado esse mesmo desenvolvimento de angústia, aproveitam para surgir sem disfarce. Posteriormente, Freud faz menção a uma única exceção a essa fórmula, a dos sonhos traumáticos.
Para Carl Jung, um dos seguidores de Freud: “O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e de mais íntimo; abre-se sobre a noite original e cósmica que pré-formava a alma antes da existência da consciência do eu e que a perpetuará até muito além do que possa alcançar a consciência individual”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2000.

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OS FALSOS AMIGOS

Dizia Mark Twain que são necessárias duas pessoas para uma calúnia prosperar: um inimigo caluniador e um amigo para contar a história.
Quem propaga uma calúnia não é amigo, Twain errou. Quem conta são os falsos amigos. Quase todos têm falsos amigos. É uma praga universal tão velha quanto a história da humanidade. Há muito dos sete pecados capitais nas relações de falsa amizade. O mais visível deles é a inveja. Os falsos amigos invejam o que imaginam que o outro tem, muitas vezes, sem ter. Idealizam a pessoa invejada e tornam-na alvo de seus petardos, frutos de sua própria pequenez e não da suposta grandeza do outro.
Há, entre várias, uma característica própria dos falsos amigos: a encenação. Os amigos têm gestos, discretos, velados até. Os falsos amigos são ruidosos, expansivos e supostamente fervorosos. Existem livros e mais livros tratando das relações de amizade; uns as tratam de forma pueril, como se fora uma coisa maravilhosa, outros as veem com desconfiança e, ainda, há os que não acreditam em amizades. Penso que não é bem assim. Há amigos verdadeiros que fazemos ao longo de nossas vidas e permanecem ao nosso lado em todas as ocasiões; e há amizades circunstanciais que se desvencilham pelas próprias mudanças de estados de espírito e civis, de lugar, de trabalho e da forma que, em determinado instante, passamos a ver o mundo.
Há gente boa, íntegra e capaz que, por razões várias, não nos diz mais respeito. Passam a faltar o sal e a naturalidade no falar. Para um amigo não se procuram palavras, elas brotam e têm a naturalidade do falar de uma criança. Se você fala de forma estudada com uma pessoa, provavelmente essa pessoa não será sua amiga. O sal é o clima que transforma as coisas mais pueris em conversas sem fim, em bem-estar, ao sentir que o outro tem algo a ver conosco, mesmo que pense de forma totalmente diferente. Aliás, amigo verdadeiro não é um prolongamento dos nossos pensamentos, é um ser soberano que compartilha ideias, mas não alguém que nos bajula ou serve.
O amigo é uma espécie de espelho em que nos vemos, pois as suas reações mostram o que estamos fazendo de certo e errado. Mas é preciso saber se o espelho está refletindo um amigo ou um falso amigo, pois muitas pessoas são eternas fingidoras e, por serem assim, perdem a sua própria identidade e o que se vê no espelho é um disfarce ou uma visão desfocada.
Um sinal de maturidade é não compactuar com os falsos amigos. Não é preciso agredi-los, basta dar sinais inequívocos da inexistência de intimidade, uma característica básica da amizade. Desconfie dos que lhe afagam em demasia, elogiam tudo e procuram ser íntimos sem serem, ao mesmo tempo em que transmitem estórias e mazelas sobre amigos comuns, ou alguém que você não gosta. Na primeira oportunidade, eles farão o mesmo com você.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/12/2000.

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APARÊNCIA E REALIDADE

Um sociólogo e semiólogo (aquele que estuda os fenômenos culturais como se fossem significações ou imagens, gestos, vestuários, ritos etc.), Andrea Semprini, tem estudado a influência das marcas nas roupas, joias, produtos de beleza etc. Segundo ele, as marcas oferecem aos usuários a oportunidade de viver em mundos paralelos, fugindo à realidade do dia-a-dia através da construção de um universo simbólico. Ele denominou a isso de “mundo possível”, isto é, aquele em que o consumidor consegue conviver ou sobreviver.
Diz o italiano Semprini que no mundo atual “o lugar da realidade fica reduzido em favor de outras dimensões. Nós passamos dentro da realidade menos de um terço das nossas vidas, preferindo sonhar com coisas mais interessantes”. Atuando como consultor internacional para a análise de mudanças sociais, estratégia de marca e comportamento de consumo, Semprini deixa claro que as mudanças dos estilistas se tornaram comuns a partir do instante em que conglomerados financeiros começaram a controlar o mundo. Em outras palavras e em sentido amplo, os estilistas, perfumistas, joalheiros, desenhistas de veículos etc. são direcionados a criar novos modelos, fragrâncias e designs, de modo a fomentar e aplacar a necessidade intrínseca de consumir de pessoas que substituem o encontro com a ‘realidade’pela fuga das compras.
A moda, para Semprini, tem duas características singulares. Uma seria o caminho de auto-expressão (olhem eu aqui) que produz confiança às pessoas. Reforço e ego e o bem-estar. A outra vertente, uma espécie de identidade (eu faço parte da turma) ou passaporte a grupos socias, econômicos ou culturais.
Se é que um extrato considerável da gente brasileira vive em uma sociedade de consumo, são explicáveis – se não justificáveis e aceitáveis – os apelos que os publicitários e os meios de comunicação utilizam para induzir os consumidores. Um desses absurdos é que grande parte deste país tropical – que só tem a estação da chuva e a estação do sol – seja compelido a acatar as modas de outono e inverno, verdadeiras agressões ao nosso clima. Tudo em nome do desejo criado em comerciais veiculados sem nenhum compromisso ético ou social. Tão artificiais quanto o de certas “griffes” que não tem produção própria, mas utilizam pequenas fábricas, inclusive com mão-de-obra infantil, colocam suas etiquetas em produtos comuns, apenas com alguns detalhes diferenciados. E o pior, ou melhor para elas, conseguem convencer incautos de que estão vendendo algo muito especial para pessoas “necessariamente especiais”.
Uma pessoa que utiliza casa, carro, roupas e joias para ficar cheia de si, talvez não sabia do vazio em que se encontra.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/11/2000.

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DUAS ESTORIAS

Estória um: Ao atravessar a avenida, ela foi abordada por dois homens que lhe disseram imediatamente: abra a bolsa. Ela, sem nenhum sinal de medo, abriu a bolsa e um deles meteu a mão. Viu o cartão de retirada de dinheiro no caixa automático de um banco.
Chamou um táxi e lá se foram os três ao banco, onde ela entrou sem que nenhum guarda visse que estava cercada de dois marginais. Colocou o cartão, digitou a senha e retirou R$ 2.000,00. Os bandidos receberam o dinheiro e a colocaram em um novo táxi. Ela chegou em casa e, incontinenti, resolveu voltar ao banco, pois ainda tinha R$ 900,00 e os marginais sabiam de sua senha. Retirou o saldo, trocou a senha e voltou, calmamente, para casa.
Somente após nove meses, relatou o fato aos filhos, pois, certamente, iriam proibi-la de andar sozinha pela cidade. Contou rindo, como se fora uma aventura pela qual pagou um ingresso de R$ 2.000,00. Os poucos filhos que souberam, olharam-na desconfiados e disseram o de sempre: “Mãe, a senhora não tem jeito”. A mãe, sem jeito, criou todos eles e, mesmo após viúva, continua no albor da sua octogeneidade estudando música, lendo jornais e, de leve, palpitando sobre a vida de cada um.
Estória dois: Chegaram dois caminhões com quinze homens encapuzados e renderam todos os empregados. Colocaram-nos em um depósito e ficaram esperando que os donos da fazenda chegassem. Era uma sexta-feira. Data marcada para toda a família deslocar-se à fazenda, fazer as contas com os moradores, e,naturalmente, descansar.
Já era meia-noite e os donos não chegavam. O chefe dos encapuzados dizia que estava louco para matar os donos da fazenda e que a demora era injustificável. Ocorre que um dos filhos dos donos da fazenda foi acometido de um grave problema de saúde justo ao cair da tarde da dita sexta-feira. Ao invés de irem à fazenda, tiveram que cuidar do filho enfermo. E os encapuzados, na manhã de sábado, roubaram alguns pertences, um trator e se foram deixando um recado: voltariam.
Estas duas estórias, ainda bem que, com finais felizes, são o retrato deste nosso Brasil inseguro, onde ninguém sabe mais o que fazer, pois os bandidos usam fardas para assaltar, as polícias se dizem desequipadas e sem pessoal suficiente e ninguém toma uma providência mais séria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/11/2000.

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ELEIÇÃO EMBANANADA

Há muitos anos corre nos Estados Unidos a expressão “banana republic”, referindo-se, de modo pejorativo, a países da América Latina que, durante algum tempo, foram meros exportadores de banana. Agora, o grande país do norte, está embananado e teve as vísceras de um arcaico sistema eleitoral exposto à exaustão para todo o mundo via televisão, internet, jornais, rádios e revistas. No domingo passado, havia escrito que a eleição seria muito difícil e que ambos os candidatos tinham chances Na madrugada do último dia sete para o dia oito, passei quase toda a noite defronte o meu aparelho de televisão acompanhando o processo eleitoral americano, vendo e ouvindo as duas CNNs, a BBC, a Globonews, a RAI e a, cada notícia, eu ficava mais confuso. Houve um instante em que Al Gore telefonou para George Bush cumprimentando-o pela eleição. Pouco tempo após, ligou novamente pedindo para desconsiderar o telefonema anterior. Cedo da manhã fui andar e referi a amigos que a eleição americana parecia a de uma cidade do interior do nordeste, antes do advento da urna eletrônica. Com um detalhe, não terminava.
Pesquisei as razões de tanta confusão e descobri: 01. O Estado de New York utiliza máquinas de votar com 38 anos de idade; 02. Incluindo New York, 25% dos eleitores votam nessas engenhocas. 03. Dois por cento do eleitorado americano votou em cédulas de papel como se fazia antigamente no Brasil. 04. Somente oito por cento das cidades utilizaram urnas eletrônicas. O5. As cédulas eleitorais não são padronizadas. Cada Estado pode fazer um tipo, inclusive delegar para municípios, como ocorreu em Palm Beach. 06. Por causa disso, a cédula eleitoral utilizada em Palm Beach, na Florida, era confusa – embora tenha sido aprovada pelos dois partidos, pois ao lado do nome de Al Gore tinha quase três círculos (um deles deveria ser perfurado com uma ponta de caneta). 06. O candidato do nanico Partido da Reforma, Pat Buchanann recebeu cinco vezes mais votos em face do círculo com o seu nome ter ficado (e confundido) ao lado do de Gore. 07. Dezenove mil votos foram invalidados por terem sido perfurados (acidental ou propositadamente?) duas vezes. Em quase todos, o circulo de Al Gore estava perfurado junto ao de outro candidato. 08. Três ações populares já deram entrada na Justiça da Florida pedindo a anulação das eleições. 09. Parece haver um choque de competência entre a Justiça da Florida (governada por Jeb Bush, irmão de George)e a Justiça Federal para decidir a validade ou não do processo eleitoral naquele Estado. 10. Pode até haver decisão no tapetão, como diria um locutor esportivo.
Para concluir, a jornalista Maureen Dowd, do “The New Times”, disse: “agora a campanha de Gore declarou guerra às excentricidades eleitorais digna de uma república de bananas”. Viram em que dá falar mal dos outros: o feitiço virou contra o feiticeiro. E agora Tio Sam?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/11/2000.

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BUSH E GORE

Na próxima terça feira, dia 7, George W. Bush e Al Gore estarão se defrontando para a escolha -por um colégio eleitoral de 270 votos – do sucessor de Bill Clinton nos Estados Unidos. E daí? E daí é que o Brasil precisa ficar atento e saber o que pensam os dois candidatos, especialmente sobre a América Latina e o crescimento de guerrilhas e narcotráficos na América do Sul. Nos limites das fronteiras brasileiras há plantações de coca, traficantes e guerrilheiros. Nós não podemos fazer a pose da avestruz. Os Estados Unidos são os maiores consumidores de cocaína do mundo, o que parece conceder direito àquele país de apoiar países produtores a erradicar plantações e caçar narcotraficantes.
Por outro lado, eles são um grande mercado para os produtos brasileiros e a onda protecionista americana tem afetado as nossas exportações. Essas, entre outras, as razões para que saibamos a quantas andam os pensamentos de Bush e Gore.
A campanha, na última semana que antecede a eleição, tornou-se mais acirrada. As pesquisas mostram uma ligeira vantagem de 3% de Bush sobre Gore, o que não significa muita coisa, pois uma declaração em falso ou qualquer episódio pode reverter esse quadro. Sem falar na margem de erro de 2%.
George W.Bush, do partido republicano, é filho do ex-presidente George Bush que foi derrotado em 1992, em pleno mandato, por Bill Clinton .É governador do Texas, irmão do governador da Flórida, conservador, defende corte de impostos e aumento para militares. A propósito, vejam o que ele falou: “O moral está baixo entre os militares.Não conseguimos atender as nossas necessidades de recrutamento. Estamos vendo capitães abandonando o serviço militar porque o soldo é baixo”. Ele diz que a América Latina faz parte dos “interesses estratégicos americanos”. Segundo ele, “Do Canadá ao extremo sul”. Misturar Canadá com a América Latina é coisa de quem nunca estudou geografia, matéria em que os americanos não são muito fortes. Essas gafes têm dado oportunidade ao candidato a vice de Gore, Joseph Lieberman, de afirmar que põe em dúvida a capacidade intelectual e a experiência de Busb para ocupar a Casa Branca.
Al Gore, democrata, tão rico, cinquentão e simpático quanto Bush, é o vice-presidente- e amigão- de Bill Clinton nos dois mandatos e é considerado inteligente, moderado e experiente, mas Joe Klein, da revista The New Yorker, disse, recentemente: “Ele parece ter perdido tudo isso na campanha eleitoral. Há uma desesperança triste e uma falta de graça no contato de Gore com o eleitorado”. Acresça- se que Bill Clinton, andou falando demais na revista Esquire (pensando que a entrevista só seria publicada após as eleições, mas jornalista…) quando afirmou que a maioria republicana no Congresso “deveria pedir desculpas ao povo americano” por havê-lo processado no caso Mônica Lewinsky. Era o que os republicanos queriam. Ressuscitar o caso. A propósito, indagado sobre referido caso, Gore disse: “Só fiquei sabendo quando ele admitiu publicamente. Eu tinha minhas suspeitas, mas não sabia o que era. E quando um amigo nega um fato, você concede o benefício da dúvida. Ou isso ou rompe a amizade”.
Para encerrar: lá como cá, há uso de baixaria e casos pessoais. É aguardar para ver, pois como diz o escritor Gore Vidal: “o país não é governado por presidentes, e sim pelas grandes corporações”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/11/2000.

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AO NOVO PREFEITO

Todos nós estamos felizes com o fim desta campanha eleitoral para Prefeito. Fortaleza e mais 30 cidades brasileiras tiveram 29 dias de prorrogação. Candidatos e eleitores estão saturados. Apurados os votos, definido o eleito, gostaria de fazer algumas sugestões.
Sei que as promessas foram muitas. Algumas exequíveis, outras decorrentes do clima da campanha e da imposição de marqueteiros políticos, a doce reencarnação eletrônica e midiática de Maquiavel nestes estertores de fim de milênio.
Tenho algumas sugestões, simples, sem precisar de muito dinheiro e fáceis de serem executadas. Só precisará de modéstia para examiná-las e torná-las factíveis. Muitas vezes, o simples é tão óbvio, mas não se vê. Alguém da equipe do prefeito eleito deve ter cuidado de registrar o que foi prometido. Essa mesma pessoa poderia, se desejar, agregar as idéias abaixo. Por outro lado, seria bom que a nova equipe fosse definida logo para a sociedade tomar conhecimento de seus nomes, de seus planos de trabalho e das fontes dos recursos. Fortaleza vai cobrar as promessas feitas, mesmo as mirabolantes. Daqui há quatro anos os eleitores serão ainda mais esclarecidos.
Mas eu falava de sugestões e aí vão elas. Vou enumerá-las para tornar mais fácil. 01. É preciso que a Prefeitura e o Governo do Estado passem a agir com maturidade, bom senso e equilíbrio. Governador e Prefeito são prepostos da população e a ela devem satisfação. Não fica bem essa disputa boba e sem sentido entre Estado e Prefeitura, quando poderiam, entre outras coisas, somar esforços para erradicar os habitantes das áreas de risco, melhorar as condições sanitárias da cidade, equipar os hospitais e definir, seguindo a Constituição, quais as reais áreas de competência do Município e do Estado. Um exemplo dessa briga boba é uma placa colocada no local do antigo Fórum Clóvis Beviláqua, dizendo ser a área de propriedade do Estado. Na verdade, a área é do povo e a ele deve ser restituída, futricas e vaidades à parte. 02. Todo final de ano a Praça Portugal é lindamente decorada. Por que não deixar a iluminação permanente, tirando apenas os adereços natalinos?03. Por que não se aproveita o largo em declive defronte ao Labomar e ao Edifício Granville na Beira Mar e se faz uma praça bonita, com um relógio de sol e canteiros de flores?. Não há flores nas praças de Fortaleza. 04. O Mercado Central dá as costas para a Monsenhor Tabosa e o Centro Dragão do Mar. Bastaria uma alça metálica, com uma desapropriação mínima, para ligá-lo ao maior corredor de compras da cidade. 05. Considerando que as casas que margeiam o lado sul da Avenida Leste Oeste (do viaduto do Marina até à Escola de Aprendizes Marinheiros) não devem ser retiradas, por que não torná-las atraentes, pintando-as de cores diferentes, como se fosse um grande casario e gramando os acessos paralelos à antiga via férrea? 06. Falou-se tanto em “parada fácil” para ônibus, por que não fazer três: nas saídas da Unifor, da Uece no Itaperi e da UFC no Pici? 07. Os taxis locais são de todas as marcas e cores, mas poderiam ser padronizados com um simples adesivo axadrezado com as palavras:Taxi, Fortaleza com amor. Custa fazer? 08. Por qual razão não se utiliza a Rua José Avelino para escoamento de parte do tráfego da Monsenhor Tabosa?. Bastaria alargá-la (enquanto não há edifícios), asfaltá-la e fazer um binário à altura do Sebrae. 09. Criar uma linha de jardineira (ônibus abertos) para turistas entre a Beira Mar e o Mercado Central, passando pelo Centro Histórico, Monsenhor Tabosa, Mercado dos Pinhões, Praia de Iracema e Beira Mar. Qual o impecilho? 10. Criar postos anticorrosivos de salva-vidas ao longo da orla marítima, da Barra do Ceará ao Caça e Pesca. Pessoas se afogam por falta de assistência imediata. 11. Já que não se pode extinguir, por falta de empregos, por que não institucionalizar a atividade de “vigilante de veículos”? Cadastrados, com crachás, fardados e treinados poderiam ser distinguidos de marginais. 12. Em todas as avenidas abertas há grandes paredes remanescentes de desapropriações sem tratamento paisagístico. Por que não utilizar pintores populares e embelezá-las?13. Criar um painel informativo computadorizado na frente do IJF, mostrando o atendimento diário, a internação instantânea, os acumulados no mês e no ano.
Vou parar por falta de espaço. Não de ideias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2000.

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NARCISISMO

Para começo de conversa, é bom que se fale sobre a razão de se chamar alguém de narcisista. “Fulano é um narcisista” ou “este é um comportamento narcisista”. Por quê se diz isso?
Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem por quem a ninfa Eco se apaixonou. Eco fora privada da fala por Hera, a esposa de Zeus, e só podia repetir as últimas sílabas das palavras que ouvia. Incapaz de dizer a Narciso de seu amor, foi por ele rejeitada e morreu de tristeza. Os deuses puniram então Narciso por seu desamor, fazendo-o apaixonar-se pela própria imagem. Um dia, quando olhava sua face em uma fonte, ficou enamorado por ela e recusou-se a abandonar o local. Morreu de debilidade e transformou-se numa flor (o narciso) que cresce à beira das fontes e mananciais. A psicanálise, a psiquiatria e a psicologia apropriaram-se desse mito e, a partir dele, começaram a desenvolver seus estudos e teses.
Essas observações são mero produto da leitura do livro “Narcisismo, negação do verdadeiro Self”, de Alexander Lowen, Editora Cultrix, e decorreram da verificação óbvia e real de que o narcisismo está em franca ascensão em todas as camadas sociais e faixas etárias. Como não tinha conhecimento sobre assunto tão sério, resolvi dar um passeio sobre o livro em referência. Do que li, ouço e vejo, ficou claro que o narcisismo sinaliza uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self (ego, o eu, a individualidade).
Avulta também que os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem, daí negarem quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar.
Via de regra, são egoístas, concentrados em seus próprios interesses, mas carentes dos verdadeiros valores do self – notadamente, auto expressão, serenidade, dignidade e integridade. Parece faltar aos narcisistas um sentimento do self derivado de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do ego, vivem a vida como algo vazio e destituído de significação. Muitos dos narcisistas são bem-sucedidos em suas atividades profissionais ou negócios, o que sugere uma divisão entre o que realizam no mundo e o que acontece em seus íntimos.
Por outro lado, apresentam combinações de ambição intensa, fantasias de grandeza, a par de sentimentos de inferioridade e excessiva dependência da admiração e aprovação externas. Olhem as colunas sociais, joalharias, salões de beleza, boutiques, academias de ginástica, igrejas, universidades, reuniões sociais, entidades de classe, clubes, empresas, imprensa, profissionais liberais, os poderes constituídos e vocês identificarão muitos narcisistas. Alguns temporários, outros incuráveis.
Os narcisistas têm a clara necessidade de ser perfeitos e de fazer com que os outros os vejam como tais. É bom estabelecer uma distinção entre a preocupação saudável com a busca da perfeição profissional e da própria aparência, baseados no senso do self, e o deslocamento da identidade do ego para a imagem, o que é característico do estado narcisista.
Ora, dirão vocês, se o narcisismo é um comportamento patológico que fica patente, apesar dos disfarces, adiantaria falar sobre ele em um simples suelto? Entendo na minha visão laica que, pelo menos, algumas pessoas poderão fazer uma autoanálise ou identificar melhor as suas companhias e tirar, quem sabe, algum benefício, pois como disse Shakespeare há 400 anos em “Muito Barulho Por Nada”, Ato III, Cena I, sobre o narcisista: “tem-se em tão alta conta o seu espírito que tudo o mais para ele é sem valia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2000.

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ESTAR CRIANÇA

Quinta-feira foi o Dia das Crianças. É claro que a mídia tem interesse em fomentar os dias disso e daquilo. Mas, nós também vivemos de símbolos, arquétipos, lembranças, ícones, motivações e sonhos. Sonhemos, então em estar criança.
Os que já passaram há muito do tempo de ser criança poderiam aproveitar seus imaginários para revisitar as crianças que foram. Poderiam ver o “making off” de suas infâncias, analisar com olho adulto e serem mais indulgentes com os pais e irmãos. Olhar de onde vieram seus pais, quais eram os seus valores, as suas formações e as lutas que travaram para ocupar seus lugares neste tão vasto mundo. É preciso, repito, ver o passado com olhar indulgente, sem a lente zoom que particulariza e aumenta os defeitos. Os nossos pais talvez sejam como nós, mas no tempo deles.
De um tempo para cá, especialmente nestes cem anos freudianos, os pais passaram a responder por muitos dos nossos erros, das nossas frustrações, dos desencontros existenciais e por ai vai. Os pais foram ficando na berlinda com os estudos edipianos e as visões de Electra. De princípio, todos os pais eram castradores, cerceadores de nossos desejos, balizadores de nossas condutas e indutores dos nossos destinos. Depois, veio o contraponto. Deixaram de proibir. Liberaram geral e são culpados por omissão, dos mimos em excesso ou pela falta de tempo para os diálogos necessários entre pais e filhos.
Cá entre nós, na minha revisita pessoal, me vejo cercado de irmãos com idades parecidas e gostos díspares, na grande mesa da sala de jantar com uma jovem mãe dedicada, equilibrada e ciosa de suas responsabilidades. Um pai mantenedor e coadjuvante no processo de tentar transformar aquela “miuçaia” de gente. Sendo o mais velho, precisava ser exemplo e, na verdade, não sabia ser nada, era massa em formação em meio a um mundo que se encantava com a televisão, a liberação feminina, a pílula anticoncepcional, a militância estudantil, a magia dos livros, os enlevos dos filmes e a obrigação de estudar o que muitos professores mandavam e eu já intuía que pouco valeria na vida real. Foi assim comigo, não deve ter sido muito diferente para vocês, humanos e contemporâneos que somos.
Mas falava de estar criança. Estar criança é não complicar, é tentar dormir o sono dos justos, diminuir a autocensura, ouvir histórias, rir de qualquer coisa, meter a mão em tinta fresca, embevecer-se, não levar a vida muita a sério, acreditar em sonhos e não ter medo de bicho papão. Estar criança é muito mais que isso. Parece ser um processo individual de resgate, como se fora uma forma proustiana de desencavar porões para retirar apenas e nada mais que brinquedos, mesmo que simples.
Como diria Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa: “Sim, julgo, às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2000.

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BRASYDNEY

De forma vergonhosa, o Brasil terminou a sua participação nas Olimpíadas de Sydney no 51º lugar (ranking de produtividade). Ficamos atrás do México, Cuba, Uruguai, Belarus, Bahamas, Letônia, Azerbaijão e Moldova, entre outros. Há denúncias de corrupção, recebimento de dinheiro de patrocinadores por baixo do pano, atletas “amarelando” e “sem amor à pátria” e poucas, pouquíssimas (12) medalhas de prata (6) e bronze (6). Necas de ouro. Parece que tudo deu errado e deu, na verdade.
As televisões e os grandes jornais foram, como sempre, os grandes beneficiados. Venderam a idéia – e caríssimas cotas de patrocínio – de que o Brasil ganharia isso e aquilo e fomentaram uma empolgação e expectativas nacionais. Nem uma coisa, nem outra. A diferença de fuso horário, virava de ponta cabeça a nossa idéia de dia e noite. Por outro lado, a divulgação à exaustão com narradores bobos e monótonos, depois de um certo tempo, causava um enfado imenso. A patriotada das redes brasileiras de televisão chegava a desfaçatez de divulgar apenas os cinco primeiros países colocados e o pífio desempenho nacional.
Os jogos Olímpicos, de há muito, deixaram de ser somente uma competição esportiva. São um grande negócio que tira da magia do esporte bons resultados financeiros e de marketing para o país sede. No caso específico de Sydney, os custos foram da ordem de um bilhão e duzentos e oitenta milhões de dólares (muito menos do que o Brasil perdeu com os bancos Marka e FonteCindam). Esse dinheiro foi gasto em recuperação de áreas, construção de estádios, remodelação da cidade, passagens aéreas para todas as delegações (sob o argumento de que a Austrália é muito longe), um grande investimento em marketing, construção de apartamentos-alojamentos que, em seguida, serão vendidos à população local etc. Mas, o dinheiro não saiu apenas dos cofres públicos australianos. Grandes patrocinadores como a Coca-Cola, a BHP (que atua em mineração), a Westerfield (imobiliária) e a Testra (telecomunicações) bancaram parte da festa. A Austrália, distante, passa a fazer parte do imaginário de quantos viram os jogos e as festas de abertura e encerramento. Isso dá retorno imediato e no futuro.
Penso que está na hora do Brasil se candidatar, de verdade, sem carioquice, a ser sede de uma futura Olimpíada. Seria uma grande jogada de marketing, um processo de desenvolvimento forçado da região escolhida, melhoria na segurança pública, trazer o foco das comunicações mundiais para o nosso país e, quem sabe, um pouco mais de medalhas. Temos charme, talento e muitas cidades a escolher. Falta apenas gente séria para tomar a iniciativa. O Comitê Olímpico Brasileiro deve ser mudado, de ponta a ponta. As escolas e as universidades precisam voltar a estimular a prática de esportes e nós, com certeza, deixarmos de ser bobos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/10/2000.