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PÁSCOA OU FERIADÃO “SANTO”? – Jornal o Estado

Os judeus acabaram de comemorar a sua páscoa (Pessach), a festa em que celebram a libertação do jugo do Egito, de onde fugiram para o chão hoje chamado de Israel. Segundo a História, eles, os judeus, foram os algozes de um seu patrício, Jesus, filho de José, um dissidente político ou da fé que professavam. Agora, nesta semana, somos nós os cristãos ocidentais, que temos a Semana Santa que ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até domingo. Para os que realmente creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana seria mais que isso. Ela se prenderia a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois réus. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes com a capacidade de decidir, em conjunto, os problemas gerais das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição, ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria, repito, um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus um bom amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimateia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimateia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com um lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro da família. Hoje, o dito Santo Sepulcro, é um local de visitação diária permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá e constatei. Depois de amanhã, domingo de páscoa, segundo narra a Igreja em seus evangelhos, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem saber mais, a fim de que possam, se for o caso, encontrar respostas para a sua fé e vida. Consta que São Paulo, o apóstolo, teria dito algo como: a fé é a substância de coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se veem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/04/2010

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TERREMOTOS E O FUTURO – Diário do Nordeste

“É necessário reunir tudo aquilo que a imaginação consegue conceber de mais terrível para representar, ainda que precariamente, o horror em que as pessoas se veem quando a terra se move sob seus pés, quando tudo ao redor vem abaixo, quando a água agitada em seu leito completa a desgraça com inundações e quando o temor da morte, o desespero pela perda total de todos os bens e, por fim, as visões de outras misérias arrasam mesmo o ânimo mais resistente. Uma tal narrativa seria comovente e, por ter um impacto direto sobre o coração, talvez possa torná-lo melhor. Só que eu deixo essa história para mãos mais capazes.” A descrição parece de um jornalista atual sobre os terremotos do Haiti e do Chile, mas foi feita por um filósofo, Emanuel Kant, em 1755, sobre o grande terremoto de Lisboa. O texto faz parte de ensaio do prof. Marcus Mazzari para o “Mais”. O que se pode ver é que o alemão Kant, o autor das críticas da razão pura e da razão prática, fala em “impacto direto sobre o coração”. Dessa forma, deduz-se que alguns filósofos são, além de pensadores, plenos de sentimentos. Das cinzas e escombros do terremoto de Lisboa emergiu a figura do Marquês de Pombal, o reconstrutor e gestor do novo traçado urbano da cidade e parte da instrumentação legal portuguesa. Agora, quase 300 depois, o Haiti e o Chile vivem problemas similares. O Haiti, por seu histórico de pobreza e dominação estrangeira, tem uma diáspora e muitos dos seus filhos andam pelo mundo. Os que lá ficaram não têm, pensa a ONU, capacidade plena de autogestão e, por conta disso, ela fez pouso permanente para minorar o caos e a segurança. O Chile, saído a 20 anos de uma ditadura, conseguiu ser um cartão de visita da América do Sul, mas deixou as mãos capazes e limpas de Michele Bachelet, para os planos e ações práticas de Sebastian Piñeda, espécie de mistura de Eike Batista e Jorge Lemann, os brasileiros da lista dos endinheirados do mundo. O que se espera da ONU e de Piñeda é que se inspirem na figura do Marquês de Pombal, que também era Sebastião, e façam da reconstrução o mote para a motivação de todos os atingidos pelos sismos, que não avisam quando chegam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2010.

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CALDO DE CANA – Diário do Nordeste

Li em jornal recente que caldo de cana pode causar a doença de Chagas. Na verdade, talvez não seja o caldo de cana, mas seu manejo primário, desde o plantio, possa transmitir a doença. Agora, há pouco, estava a esperar a abertura do semáforo, em trânsito bloqueado por carreta, enquanto um prosaico vendedor de caldo de cana tentava, na esquina movimentada, esmagar os já não suculentos bagos que produzem a sacarose tão apreciada. Olho para os detalhes do carro ambulante e vejo que, sobre uma precária estrutura de ferro, foi montada uma moageira acionada por pequeno motor a gasolina. Esse motor traciona uma correia a fazer girar os dentes serrilhados que produzem, por pressão, o esmagamento. Entre o chassis do carro, equilibrado sobre duas rodas e um suporte de ferro que forma um tripé e a “plataforma de vendas”, há um depósito onde repousam as canas cortadas. Alguém, certamente, falou em higiene para o vendedor. E, por conta disso, ele usava um par de luvas plásticas que serviam também para acionar o motor, que rateava, e fazia a correia deslizar. A mão direita foi ao encontro da correia, enquanto a esquerda segurava o copo descartável aguardando o sumo. Esse instantâneo relata a luta de pessoas que, em maioria, lutam de todas as formas para superar as exigências dos empregos formais a cobrar escolaridade e experiência. Ali, naquele carro ambulante, estava uma trindade: o homem de força que empurrara o carro da casa ao local escolhido para ponto de vendas, o mecânico a acionar, parar ou consertar o velho e adaptado motor e, enfim, o comerciante a vender e a receber, com as mesmas luvas, em moeda corrente, o produto de seu suor, o sumo da cana plantada por outro trabalhador igual a ele em terras do interior. Esta cena, só vista e repetida em países com grande nível de desigualdade, inclusive por conta do analfabetismo, mostra que, se houvesse um pouco mais de oportunidade e apoio público na formação escolar e treinamento, essa pessoa poderia ter se tornado bem maior. Sobram-lhe energia, independência, criatividade, capacidade de trabalho e boa índole, dicções básicas para o viver como gente.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2010.

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AGENDE A BIENAL DO LIVRO EM ABRIL – Jornal O Estado

Ouvi, com atenção, as apresentações de Karine David e Auto Filho sobre a próxima Bienal do Livro do Ceará, em abril, homenageando Rachel de Queiroz. Será a nona. Uma bienal não é um evento para seres iluminados, é para todos os da América Latina. Os que amam os livros, para os que não têm medo de livros e, especialmente, os que não sabem responder a esta simples pergunta: O que você está lendo? Plínio, o Velho, escritor latino do tempo de Cristo, já dizia: “Nenhum livro é tão ruim que não possa ser útil para alguma coisa”. Sim, os livros servem para muitas coisas: estudo, entretenimento, cultura, ajuda etc. Para quem tem vida interior profunda, o livro é um bálsamo. Aplaca a solidão, fortalece o espírito, forma, informa, analisa, questiona e aponta saída. É claro que nós todos, desde cedo, tivemos que ler por obrigação, para sairmos da escuridão do analfabetismo. Depois, para perceber a linguagem, fazer contas, saber história, localizar-nos no mundo e crescer como estudantes. Mais tarde, decidimos o que fazer de nossa vida, o caminho a seguir. E aí os livros vão mostrando a nossa tendência, a vocação, o desígnio para o qual viemos ao Mundo. É claro que os leitores sabem de tudo isso, mas não há tempo, mesmo que percorridos todos os caminhos, para deixar o livro de lado. Os jornais são livros com um dia de duração, expressam múltiplos aspectos da sociedade. As revistas trazem resenhas ou análises do que aconteceu na semana que passou. O livro, só ele, pode ser totalmente atemporal, desligar-se do calendário e caminhar pelas praias leves da poesia, as nuances sutis das crônicas, os relatos dos artigos, a ficção engenhosa dos contos e a urdidura mais complexa dos romances. Deixei de fora os livros didáticos, os de autoajuda, e-books e que tais. Mas, nesta próxima Bienal do Livro existirão livros para todos os sentimentos, gostos, idades e bolsos. E por falar em bolso, os estudantes devem procurar suas escolas e colégios para receber um vale-brinde inicial de cinco reais. Pegue os cinco reais e junte um pouco mais e vá ao Centro de Convenções, a partir do dia 09 de abril e verá o que estará sendo mostrado pela Secretaria da Cultura do Ceará, Sindilivros, editores independentes e academias de letras. Não se intimide se encontrar escritores por lá. Os escritores só existem se tiverem leitores. Escritor sem leitor é como cadeado sem chave. Você é a peça mais importante dessa festa. Converse, peça autógrafos, critique, dê sua opinião e se integre no mundo da leitura. Ele não é sagrado, não tem dono, cada um tem o interruptor. Fiat Lux. Cada livro é um facho de luz, saiba disso. Procure acompanhar a programação que leva quase dois anos sendo montada para você ter o melhor para ver, além dos livros, as entrevistas, shows, debates, lançamentos e brincadeiras. Leve seus filhos. Lembre-se que apenas 7,47% da população brasileira compra livros para deleite e gasta somente 0,05% de sua renda familiar com eles. Vá namorar por lá. Puxe o seu pai e o arraste até lá. Se quiser saber mais, use a internet e veja logo o site www.secult.ce.gov.br. O livro é saber continuado procurando a essência sensorial de leitores.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/03/2010

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O SONHO – Diário do Nordeste

Em 21 de março de 1965, há exatos 45 anos, Martin Luther King Jr abriu o longo e duro caminho para a liberdade racial na América, então preconceituosa e indiferente. E o que fez Luther King nesse dia? Marchou com mais de 3.000 pessoas de Selma a Montgomery, no estado do Alabama. Bradava com a autoridade de detentor do Prêmio Nobel da Paz, de 1964. Era o mentor maior da luta pelos direitos civis e defendia a não violência de Mahatma Gandhi, de quem fora amigo. Seu breve discurso “I have a dream”(Eu tenho um sonho), proferido em Washingto n, em 28 de agosto de 1963, foi o marco da consolidação da Lei dos Direitos Civis, assinada por Lyndon Johnson, a ferro e fogo, e o estopim da efetivação, em 65, da Lei dos Direitos Eleitorais. Assim, os negros estabeleciam pegadas fortes na busca da igualdade de direitos. Ano passado, em meio ao inverno, estive em Atlanta, sua terra natal, e pude percorrer alguns de seus caminhos. Fui ao Memorial onde estão as lembranças materiais e imateriais de sua trajetória política, da luta desmedida pelo direito de fazer-se respeitar pela maioria branca. Vi seu túmulo, em granito preto, e senti que as balas que o assassinaram em1968, em Memphis, talvez tenham ajudado a eleição de um negro à presidência dos Estados Unidos, em 2008. Ele dizia, no seu discurso, que: “Eu tenho um sonho de que um dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado dos seus princípios”. Relembro, com clareza, o início da marcha dos negros em agosto de 1963. Eu, jovem quase imberbe, estava por lá e vi o alvoroço de um país em dilema: abrir-se ou se autodestruir. Nesse tempo, três grandes líderes foram assassinados em série: John Kennedy, em 21 de novembro de1963; Luther King, em 04 abril; e Bob Kennedy, em 05 de junho, ambos em 1968. Paradoxalmente, esses crimes foram sendo introjetados, pouco a pouco, no seio da grande imprensa que parecia tender, inicialmente, pelo “apartheid”. A perda da Guerra do Vietnã talvez tenha contribuído, a seguir, para a formação de um caldeirão de americanos não brancos a agir politicamente por mudanças que só devem ser, a meu ver, registradas pela História com a eleição de Barack Obama.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/03/2010.

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SÃO JOSÉ, A IGREJA E AS CHUVAS – Jornal O Estado

A Igreja Católica tem certos paradoxos, dogmas ou dilemas difíceis de serem entendidos por mim. A fé seria a resposta. Há uma pequena frase atribuída a Santo Agostinho, mas que é de origem desconhecida: “Creio por ser absurdo” (Credo quia absurdum). São Paulo, na epístola aos Hebreus, XI, 1, dizia: “A fé é a substância das coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se veem”. Einstein, judeu e cientista, falava que a “A ciência sem a religião é manca, a religião sem ciência é cega.” Assim, qual a razão de Maria, mãe de Jesus, ser tão celebrada, reverenciada e amada e de José, seu marido – com quem não coabitara, mas assumiu a paternidade de Jesus – ser tão pouco festejado? Hoje, 19 de março, é o dia escolhido para homenageá-lo. Ele, São José, é o padroeiro do Ceará, terra tão desértica quanto à região da Palestina/Israel onde, segundo a História, habitaram Maria, Jesus e José. O Ceará ainda é uma terra de Josés, os que acreditam na redenção que virá das águas das chuvas ou dos rios, do plantio de subsistência e da precária escola frequentada por seus filhos, para não serem tão pobres quanto eles. Voltando ao fio da meada: Dessa forma, a Igreja assumiu uma face mariana, a divulgação pelo Novo Evangelho de que uma mulher pura teve um filho concebido sem pecado pelo Espírito Santo. José, na sua visão de velho carpinteiro, não entendeu a razão de Maria estar grávida, pois relação não houvera. Veio o sonho e lhe foi dito que aquilo era uma graça e obra do Espírito Santo. Por outro lado, na trindade cristã, há o Pai, mas o pai é Deus, o Senhor Absoluto, criador dos céus e da terra; há o Filho, Jesus, o enteado de José, e o Espírito Santo, o verbo. Como se vê, as figuras de Maria e José estão fora da santíssima trindade. Resumindo, a Igreja é mariana, romana e tem em São Pedro, o seu fundador. Pedro, o que negou a Cristo por três vezes, foi o disseminador da ideia que saiu de Nazaré e Belém e se transmudou para Roma, a sede da Santa Sé. Não quero confundir ninguém com estas digressões ligeiras, mas o que peço a São José, o esquecido, é que se lembre estarmos na passagem do equinócio, fenômeno em que o sol cruza o plano da linha do equador, quando os dias e as noites têm tempos iguais e caem as chuvas que tantos precisamos. É tempo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/03/2010

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DESASSOSSEGO – Diário do Nordeste

Lamento. Não queria estar escrevendo sobre violência e morte. Bastam os jornais e os programas policiais de muitos ouvintes e telespectadores. Queria dizer aos que andam pelas cidades brasileiras que estão seguros. Queria dizer que jovens se recuperam, se reclusos por delitos. Queria dizer que os órgãos públicos dão combate eficaz à delinquência e assistentes sociais e psicólogos se sentem vitoriosos com a mudança de comportamento de imberbes membros de gangues. Queria que todos entendessem que favelas não são lugares de delinquentes. A delinquência está em todos os níveis e lugares. Queria acalentar pais, pobres ou ricos, que perdem filhos como assaltados ou assaltantes. Queria, mas não sei como. Dizia o filosofo alemão Shopenhauer que a vida não existe para ser aproveitada, mas para ser suportada. Assim, nós suportamos ler nos jornais todos os dias os assaltos, mortes e violências por gangues alimentadas pelo “crack”, maconha e outras drogas. Precisam ficar espertos para agir. E, por trás dessas gangues, existem fornecedores e cobradores das drogas. O assalto é um meio de pagamento e a arma alugada é o lugar comum entre os que ainda não possuem as suas próprias. Queria não ficar assustado com os pedintes em todas as esquinas que disputam com os “flanelinhas” e os distribuidores de panfletos o direito de importunar os que estão aprisionados em suas bicicletas, motos e carros. Queria que o trabalhador, cansado, voltasse para a casa em ônibus e pudesse cochilar antes da descida. Não, não se pode cochilar. O medo é fruto da insegurança e o desassossego lateja sob a pele dos que não sabem quem é o inimigo. Queria que tudo fosse fácil de ser resolvido. Que se entendesse que hoje um jovem de 16 anos é diferente do menino do século passado. Há informações demais. Para o bem e para o mal. O que se entende é o que se vive. Os pais, sempre eles, ficam cientes de seus despreparos em estabelecer limites, apontar valores e medo de virar “caretas”. Todos os pais, analfabetos, letrados, endinheirados, medianos, pobres ou miseráveis, estão sempre com medo da noite, por seus encantos, desvios ou perigos. As ruas têm nome de desassossego e rastro de sangue.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2010

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CINCO MULHERES – Jornal O Estado

Deixem que misture a luz da razão e invoque sonhos. Neste sonho, agora acordado, vejo o transcurso (em ordem alfabética) das vidas de cinco mulheres. Mulheres de Bem. Primeira: Ana Studart, mulher que se uniu a um jovem destemido e soube, por prova provada, que a vida é uma roda gigante. Acompanhou-o em todos os passos com amor, serenidade e companheirismo. É mãe de quatro filhos, senhores de seus destinos, que têm nela a âncora de seus passos. Foi a profissional de administração que cumpriu, com responsabilidade, tarefas no serviço público. Recentemente, veio ter nas águas difíceis da benemerência, procurando distinguir doação de ação social. Soube que isto implica em integração com o próximo. O que vale é o ato de doar-se, de engajar-se, de interagir com pessoas que merecem suas benesses. Segunda: Imaginem uma jovem normalista da Rua da Assunção, filha de Pio Rodrigues, sendo cobiçada por galante paraibano que aqui se instalara com talento e capacidade inovadora para passo a passo, se tornar referência no comércio e na direção de entidade classista. Pois foi assim. Clóvis e Edyr Rolim descobriram-se e uniram-se para o sempre. Mas, em 1984, o insondável transformou em viúva a mulher e mãe de quatro jovens cavaleiros sedimentados na luta e se fez chefe de família e de empresas em áreas diversas que dignificam os sobrenomes Rodrigues e Rolim. A partir daí, com discernimento, Edyr e os filhos formaram um núcleo familiar coeso, exuberante e sempre cavalgando para o futuro. Futuro que já é hoje. Terceira: Gisela Nunes da Costa aqui estudou para subir e descer com pergaminho à mão os degraus do velho prédio da Faculdade de Direito. Dois anos depois, por concurso, seria das mais jovens magistradas dos anos sessenta. Optou por casar com a Justiça e se fez acompanhar, por onde andou, da família e animais que cria e ama. Armou–se de saber e sabedoria para enfrentar os sertões com a simplicidade de nativa. Voltou à capital por mérito. E ela não queria apenas saber de jurisprudência e doutrina. Foi professora universitária e eclodiu a desembargadora simples, no falar, viver e vestir, amante de fuscas e jeeps. A que sabe ouvir e contar histórias com a fé dos que superam enfermidades, vencem a soberba e galgam, mesmo sem cobiça, os lugares devidos. Quarta: Maria virou Nice para casar com Nilo que se tornou Estrigas. E da firmeza da relação despontaram dois artistas, cada um do seu jeito, fontes distintas de um saber comum. E entre linhas, agulhas, pincéis e tintas, emerge o seu simbolismo naif com cores fortes, denunciadoras do apego à vida, família e jovens, ao chamego com a natureza do Mondubim, onde, junto com Estrigas, montou o Mini-Museu Firmeza. Despretensiosa, mas com trabalho e destemor, está no mundo da fantasia, desde os anos 50. Quinta: Sílvia Magalhães saiu do colégio da Imaculada para ser médica, mas focou as lentes do seu microscópio em plasmas e células em suspensão, dando ênfase à Hematologia. Tornou-se mestre e doutora por acreditar na necessidade do saber continuado. Vê, no dia a dia, a doença insólita como a noite e veloz como um raio e sabe ser preciso a clareza do microscópio e o olho vigilante para diagnosticá-la e debelá-la no tempo certo. Participa de pesquisas nacionais e internacionais, que a ressaltam em eventos médicos. Seu jeito cioso e centrado no outro a tornou vulnerável. Parafraseando o ensaísta inglês Charles Lamb: A doença amplia as dimensões internas da pessoa. E assim o fez, com força interior, superou males e se reafirma sadia e plena como cientista, leitora voraz e praticante do esporte diário como fontes de energia. Parabéns a todas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/03/2010.

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CIDADES INOVADORAS – Diário do Nordeste

Como bato pernas por aí afora e tive experiência na condução de planos de desenvolvimento urbano de cidades, quando existia o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo- Serfhau, cismo com a quase paralisia do Estado e das cidades brasileiras em face do já consagrado e usado em todo o mundo. Exemplos? Quase não temos trens metropolitanos. Um país perto de 200 milhões de habitantes tem rede de metrôs similar a da cidade de Nova Iorque. Está certo? E ferrovia nacional existe? Um país com costa imensa e várias bacias fluviais não pode ter no transporte rodoviário, usando estradas de baixa qualidade, a sua base logística. Portos são entrepostos de riqueza, por qual razão não os temos em maior escala? Os aeroportos brasileiros estão, pelo menos, dez anos atrasados em relação às operações do hemisfério norte. Como vamos querer turistas de qualidade se não temos capacidade de bem recebê-los? Cidades são atrações, desde que as tenham e mostrem. A maior circulação da riqueza existe por conta das cidades. Nas grandes cidades vivem mais da metade da totalidade da gente. E elas estão envelhecidas por falta de ousadia. Já não se fala da favelização endógena, mas da incapacidade de se dar soluções lógicas a problemas estruturais de inundações, saneamento básico, paisagismo, transporte, novas vias públicas e habitações para todos. Na próxima semana, em Curitiba, vai acontecer a Conferência Internacional sobre Cidades Inovadoras. Um dos conferencistas, o urbanista Jonas Rabinovitch, fala sobre o que poderá ser discutido: “Hoje em dia, não acredito que inovações urbanas sejam necessariamente tecnologias milagrosas ou fórmulas mágicas que automaticamente resolverão todos os desafios. Inovações são processos – não eventos pontuais – , mas precisamos apresentá-las pontualmente para que sejam entendidas.” Seria bom que gestores das grandes e médias cidades brasileiras acorressem a Curitiba para ouvir os palestrantes, de nível internacional, capazes de oxigenar ideias e dar informações que precisamos conhecer para agir. Afinal, temos um orgulho e um problema nacional, a Copa de Futebol de 2014. E o que fizemos até agora?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/03/2010

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JOSÉ MINDLIN – Jornal O Estado

As pessoas que admiro são, quase sempre, mais velhas. Desde jovem, tive o prazer de conviver com os de mais idade. Elas nos enriquecem com suas sabedorias e até as rabugices. A minha referência de velhice sempre teve um marco: velho é que tem 20 anos a mais que eu. Agora, por circunstâncias, diminui para 10. José Mindlin, desde há muito, foi uma dessas pessoas. O admirava como empreendedor da Metal Leve, indústria de sucesso. E passei a admirá-lo mais a partir do dia em que decidiu vender a sua empresa e dedicar-se, integralmente, a seu amor eterno: os livros. Mindlin morreu no último sábado, 28 de fevereiro aos 95 anos. Um detalhe chamou a minha atenção: a TV a cabo, Globo News, reprisou, sábado e domingo, por 04 vezes, uma entrevista que ele concedera em sua biblioteca em 2006. Falava, entre outras coisas, da doação de parte de sua biblioteca, a denominada Brasiliana, composta de 17 mil títulos e 40 mil volumes para a Universidade de São Paulo, onde se formou em direito e conheceu Guita, sua mulher. Na segunda, a Folha de São Paulo, na sua manchete, fala no bibliófilo, mas o texto que acompanha sua foto, o identifica como empresário. Ora, não há impeditivo de um empresário ser bibliófilo. Não há também nada que o impeça de ser intelectual. E esse conjunto de características foram os vetores da vida de José Mindlin, esse vitorioso paulista, filho de imigrantes judeus ucranianos. Participo da Associação Brasileira de Bibliófilos, uma das poucas entidades que luta para, na sua vertente, manter vivo o amor e cuidado com os livros, especialmente em suas primeiras edições, desde que raros. Assim, o livro precisa “envelhecer” para tornar-se raro e ser objeto de desejo dos que são, de fato, bibliófilos. O leitor lê os livros, o bibliófilo é um seu enamorado, cuidador ou até adicto. O próprio Mindlin confessou em seu livro de memórias “Uma vida entre Livros” que tinha a doença. Revela: “Mas uma doença que me fazia sentir bem, ao contrário das outras e, que, além do mais era incurável”. Aqui no Ceará, por algumas vezes, recebemos a visita de José Mindlin, graças ao esforço de José Augusto Bezerra, presidente da ABBI, que acumula duas das características de José Mindlin: é empresário e bibliófilo. Em uma dessas ocasiões, na Casa José de Alencar, provoquei Mindlin para falar de seus autores preferidos. Ele, sábio e judeu, se fez reticente, mas acabou revelando alguns nomes. Roubo de Antônio Candido a descrição que, para mim, melhor definiu José Mindlin: “Indiscriminado e seletivo, glutão e refinado, ele é (era) o tipo ideal de leitor, porque sabe que nenhuma leitura é perda de tempo se der prazer”. Nossa ABBI, que o tinha como lume e porto, adotou o seu nome para a comenda que confere a poucos. Mindlin, a leitura como princípio e fim.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/03/2010.