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DE REPENTE – Jornal O Estado

De repente, saio do trem moderno, executivo – garçons, acepipes e jornais – sóbrio em seus detalhes pertinentes e jogo meu corpo amigo em outro comboio elétrico, velhusco, poltronas simples e gastas. Ar de dever cumprido. É cedo da noite. A vidraça do tempo leva-me em um quase sacolejar para a imersão consciente em outras eras quando a vontade de vir e conhecer me guiara desde o Cais de Sodré até Narvik, lá na calota do norte, com muitas paradas de permeio. Agora, décadas depois, escolho o imprevisto e me visto de jovem sem destino. Cato identidades, fé e fulgores em lugares repassados e novos. Não miro o destino, saboreio o percurso e os nomes das estações mostram que tudo se move. Aqui, uma casinhola com tijolos carcomidos pela infiltração onde a hera descuidada divide a paisagem com a gorda senhora à janela. No pasto, cordeiros se unem para banir o frio e não balir. Ali, a moderna indústria está cinzenta pelo tempo frio e os salpicos das chuvadas não param de cair. Há luz feérica. Trabalham na noite. Operários usam equipamentos de segurança e se aquecem em grossas vestimentas enquanto constroem o futuro, quem sabe, em aço ou tecnologia. Após, um grande pátio abriga milhares de carros novos, encalhados. O compasso muda e cruzamos uma ponte. Do lado esquerdo diviso pela grande janela a berma do rio com a sequência de grandes árvores, troncos pintados de branco, decepadas em suas copas. De lá, vem um dos sobrenomes do meu avô materno e as luzes desaparecem tão logo a curva desponta para afirmar a mudança de rota. Singularidades de pessoas estão no vagão. Quanto mais vejo, menos me entranho. À frente, uma mulher silente de cabelos multicores dedilha um pequeno computador e parece entretida com as palavras não captadas pelo soslaio. Do lado direito, frente a frente, dois casais maduros mantêm conversas trocadas e estranham o que se fala do mais jovem dos três faraós -ou reis- das célebres pirâmides, em Gizé. Eruditos? Não há crianças a bordo. Um bêbado estouvado sobe no instante em que as portas se abrem, em automático, na nova estação. Pede dinheiro e seu hálito é forte. Esgueira-se, fugindo do controle. Descerá na próxima. É costume. Abro os olhos. O sonho acaba na leve câimbra do dedão do pé canhoto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2010.

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CAMINHO DE VOLTA – Diário do Nordeste

Acabou a folga. Estou voltando. Gosto de ir, mas voltar me dá mais prazer. Aqui é o meu lugar. Vejo o jeito do povo, a falta de paisagismo, taludes sem grama, pedintes no sinal e o som alto do carro ao lado com a tampa do bagageiro aberta. É um “plus” bobo. Bom seria se o guiador estivesse dentro ouvindo o som estridente. A avenida larga é margeada por invasões. Casas viram oficinas, bares, salões de beleza, “lan houses” e fazem despontar microempresários em busca da vida. O carro dá solavanco em cratera e vejo a função do cinto de segurança. Olho à direita e sinto um esforço público para desvendar a face oculta do rio – cheio de aguapés -com a derrubada de biroscas e a construção de pequenos e alegres parques de esportes e lazer. Espero que cuidem deles. É preciso fazer entender ao povo que aquilo é dele. Ele é o usuário, guardião ou depredador. Uma curva à esquerda e miro um dos parcos viadutos. Precisaríamos de muito mais. Nas passagens de trens, cruzamentos densos de veículos e plenos de assaltantes ligeiros sabendo o tempo de cada sinal vermelho. Assaltam de arma em punho, verdadeira ou falsa, e se embrenham em caminhos tortuosos. Um micro-ônibus cruza pela esquerda e o trocador se pendura na porta aberta para refrescar o calor e gritar o destino do coletivo. É noite e a brisa morna prenuncia chuva. Uma freada, xingamentos e tudo sai da inércia momentânea. Um motel de gosto duvidoso anuncia promoções e nenhum carro se apresta para aceitar a oferta. A cidade define os seus contornos sutis e as luzes ficam mais claras. Há um hospital com ambulância à porta, dois paramédicos com uniformes azuis retiram a maca com um jovem deitado a segurar o plástico a lhe oferecer o soro revificador. Penetraram na emergência. Ao lado, um carro preto com luzes piscando, fitas e latas amarradas ao para-choque traseiro, anunciam casamento e a fé no encontro que se pressupõe duradouro. Dobro à esquerda e sinto o cheiro da maresia e as partículas de areia afagando meu rosto ávido por um cerrar de olhos. Abro a porta, o rabo do amigo fiel entra em movimento acelerado e ele late de alegria. Cheguei, estou em casa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/02/2010.

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DE VOLTA À REALIDADE – Jornal O Estado

O carnaval se foi. Ficam o calor, a chuva ou a falta dela. O inverno no hemisfério norte ainda está forte e os mercados de valores oscilam ao sabor dos que o controlam com um simples toque de computador ou telefone. Fevereiro se apresta para terminar com 28, tirando os dias de carnaval, quatro sábados e igual número de domingos, fica quase nada. Virão os meses com 31 e 30 dias e com eles a comunicação que nos é imposta nos elevadores, outdoors, busdoors, celulares e, certamente, em toda a mídia hoje dita tradicional: jornal, rádio e telefone. Já não se fala mais em Zelaya, Bush é integrante da história americana, Clinton dá palestras e acompanha sua mulher, o Haiti dizimado saiu das manchetes e Obama já não é mais novidade. Nós, os que estamos trabalhando e que não entramos em nenhuma escola de samba ou bloco, vivemos agora diante da proximidade de março. Com ele, a chegada de mais recalls (chamadas) de veículos com defeitos ao redor do mundo. Pode ser que seja respeito ao consumidor, mas pode ser também o olhar incômodo do concorrente que aponta a falha e usa clientes como denunciantes. A gripe A ou suína ameaça voltar. Ela fez a alegria de laboratórios ao redor do mundo no ano que passou. Foram bilhões em vacinas. Afinal, os laboratórios não foram feitos para ajudar a humanidade. Eles precisam dar lucros e, para isso, que venham as doenças e os governos de todo o mundo sejam solícitos na compra de grandes estoques que envelhecem em depósitos por falta de logística na distribuição. O que vale é a manchete da compra. A foto da vacinação. O resto que se dane. O Brasil está bem na foto mundial, apesar da favelização de milhões nos cinturões das grandes e médias cidades. Ainda bem que todos são segurados do Sistema Único de Saúde com hospitais plenos de vagas, médicos com excelentes salários, auxiliares descansados, remédios franqueados e a certeza da cura de quaisquer doentes despejados às suas entradas por ambulâncias de municípios que não sabem nada de assistência primária. Ora, os municípios estão a cuidar de coisa mais séria: a eleição que decidirá os governos estaduais, a presidência da república, os senadores e os deputados federais e estaduais. Acham pouco? É muito trabalho para prefeitos que se cansam em viagens às capitais ganhando parcas diárias e lutando pelo bem comum.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/02/2010.

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NOVOS APRENDIZADOS – Diário do Nordeste

Muito antes do século XX ir embora já existiam por este país centenas de cursos, faculdades e universidades particulares. Já faz parte do passado dizer, como referência, que fulano estudou na tal universidade, certamente pública. Já há algum tempo, a educação tomou rumo diferente do pretendido pela geração de Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Paulo Freire. Hoje, as escolas, vamos dizer assim, estão lutando para entender as mudanças acontecidas no mundo, a intromissão bem-vinda da Internet, o exigente mercado de trabalho, o crescente desenvolvimento científico e tecnológico e da nova comunicação. O antigo professor, dos métodos discursivo/peripatético, pode ser considerado avis-rara. O que se pede no ensino de hoje é foco, colaboração, discussão em grupo, muita leitura, aprender a desenvolver raciocínios abstratos e, em contrapartida, a análise dos fatos. Seriam, quem sabe, as tais experiências essenciais que faltavam aos formados nos anos “enta” do século passado. Os que então saiam da universidade não estavam prontos, precisavam de estágios, mestrados, treinamento e isso mexia com suas autoestimas. O cobrado na vida real de hoje é a competência. Competência para passar em concurso público, conseguir emprego privado ou montar o próprio meio de viver. E essa competência só é atingida se cada pessoa souber ser a senhora do seu destino. Humildade para aprender e apreender o ensinado pelos professores, a fala do povo, o visto na televisão, os livros lidos e o facilmente pesquisado na Internet. Ideias surgem, consolidam-se em projetos e, às vezes, transformam-se em oportunidades de trabalho, mas só para os cooperadores do tempo e das circunstâncias, não desperdiçando habilidades cultivadas na família, salas de aula, bibliotecas, grupos de estudo, relações sociais e na fácil, mas intricada, teia de informações como, por exemplo, o Google. Na verdade, cada pessoa deseja dar sentido à sua vida e ser bom profissional. Isso implica em ter motivação, saúde emocional, senso ético, boas companhias, explanar ou refutar argumentos, enfim ter conteúdo naquilo que teoriza ou pratica. Paixão e garra, ajudam muito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/02/2010

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MARACATU AZ DE OURO – CULTURA COM ARTE – Jornal O Estado

O BenficArte, espaço cultural localizado na esquina das avenidas Carapinima e 13 de maio, apoia há anos manifestações pré-carnavalescas, especialmente as dos maracatus cearenses. Durante este período pré-carnavalesco homenageia com uma exposição, os 74 anos do Maracatu Az(com z) de Ouro. Entende o BenficArte ser preciso que os mais jovens conheçam a razão, a essência e o porquê de pessoas de todas as idades e raças que, por decisão própria e volúpia, metamorfoseiam-se em nigérrimos, colocando roupas singulares com adereços característicos da África e encarnam, em épocas carnavalescas, nativos daquele continente. Eles chegam dançando sincopadamente, como se contassem e cantassem a história e a tristeza da suas capturas na África que começaram na Idade Média, séculos antes dos navios negreiros que os trouxeram como força de trabalho para o Brasil e outros países do continente americano, após suas descobertas. Vão, em seguida, fazendo evoluções como lamentos em “cordões” múltiplos, antecedidos por um porta-estandarte iluminado por lampiões levados por guias e um excêntrico baliza. E o mais singular é que para coroar a festa surge gloriosa uma “rainha” que embute em seus gracejos a força de um homem. E ainda, como uma forma peculiar de miscigenação, há as figuras dos índios, os nativos das terras para onde foram trazidos. Creia, isso é cultura popular cearense e resgata bem o que muitos plantaram e apoiam há décadas. Dentre eles, Descartes Gadelha, Calé Alencar, Paulo Tadeu, Pingo de Fortaleza e, especialmente, o não esquecido Raimundo Alves Feitosa, o fundador do Az de Ouro que o criou, em 1936, no tempo em que Fortaleza era pacata e o corso carnavalesco acontecia nas ruas 24 de Maio e Senador Pompeu e na Av. Duque de Caxias. Eles, os integrantes do Az de Ouro, vem do Jardim América, bairro limítrofe com o Benfica, mostrando agora, no Benficarte, vis a vis com os visitantes da rica e mimosa exposição, sob as bênçãos de todos os deuses negros, a sua história permeada das cores amarela, vermelha e preta que formam a sua identidade e tecem a sua memória em fotos, fantasias e estandartes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/02/2010.

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ENCONTRO ACIDENTAL – Diário do Nordeste

Andava eu pela orla em horário que não o de costume. Manhã alta, sol derretendo. De repente, vejo alguém que me parece íntimo. Fazia flexões de pernas amparado em um poste. Tal como o faço. Apresto o olhar, reflito e concluo que já o vi em solenidades, televisão e jornal, mas nunca havíamos falado. Em dúvida, perguntei-lhe o nome. Confirmou, com simplicidade. Era quem pensava. Estávamos de calção e camiseta. Somos da mesma década e, por conseguinte, imaginamos saber algo do Brasil desde muito tempo. Cada um com seu olhar. Carregava uma garrafa de água na mão direita e nada na cabeça suada que sofria com o sol. Recomendei que usasse um boné. Responde que o perdera no último voo. Enveredamos pelas sendas que mais gosta: política e Brasil. Fomos de fio a pavio. Do que fizera, do que deixara de fazer e como se sentia hoje na vida que não planejara. Impuseram-na e tiraram-lhe a legitimidade necessária para estar, quem sabe, no lugar dela nesta pugna de 2010. Apesar disso, estará junto para o que der e vier. Sua voz ainda traz o jeito mineiro do interior, não o erudito dos personagens modernistas de João Guimarães Rosa, em “Primeiras Estórias”, mas, quem sabe, o da simplicidade da linguagem de Fernando Sabino. Falou da mãe, que tem a idade da minha, e hoje, em face de sua nova faina, ganhou a primeira casa própria em toda a sua vida de mulher do interior. Ele, “globetrotter” por vida e circunstâncias, resolveu, agora, sair da cidade grande para morar nos arredores, mas sem deixar de cuidar dos escritórios que lá montou em profissão até então inativa e hoje em perfeita ordem. Disse que estivera em Portugal, não era dado a vinhos e comilanças e isso o deixara com um laivo de ardência que não o disponibilizava para o guaraná artesanal. Caminhávamos em direção ao sol. Cumprimentei amigos que não o identificaram. Aumentamos os nossos passos enquanto a terra dos irmãos Castro entra no papo e ele, que lá morara, acredita que, nesta década, a pequena ilha manterá o brilho eclipsado pelos embargos já nos estertores. Ao final, sob uma copa de árvore, pede licença e consulta o seu BlackBerry. Deixa seu e-mail. Apertamos as mãos. Atravessa a pista.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2010.

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ELANO PAULA – Jornal O Estado

Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns – o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. E por saber que a vida não é sonho é que Elano Paula ou Elano Viana de Oliveira Paula perdeu o umbigo em Maranguape e a inocência no Rio de Janeiro. Seria dual ou múltiplo, sempre. Fez-se adulto, ainda jovem. Misturou engenharia civil com serviço militar. E se fez capitão. A guerra já era e ele entrou noutra. A da vida. E por ser hábil em várias coisas, se fez radialista, produtor, compositor, engenheiro, construtor, escritor, pintor e cético/crente. Como os homens não vivem sós e não podem dublar sentimentos viu-se apaixonado por uma voz e uma cabeça e o corpo veio junto. Acasalou-se por pouco menos que meio século. E, enquanto viviam, Elano mexeu com quase tudo, ao mesmo tempo. É testemunha da ação da mortalidade, a contragosto. Daí viu-se só. Mas não seria o ocaso. Veio o acaso – se existe – bem de perto, mas era de longe, do Estado onde o seu pai se exilara para viver como queria. E aí o ardor hibernado, aflorou. E foi jorro de benquerenças, desafiando diferenças e enfrentando até olhares dúbios. Que olhares? Ninguém vive a vida do outro. O outro é que sabe – quando sabe – de si. E então neste primeiro ano da segunda década do século XXI, no mês segundo, do dia 1 ao 5, estamos comemorando o baobá em que se transformou Elano de Paula. E esse baobá frondoso é madeira de lei, com viço, energia, inteligência, argúcia, capacidade crítica e vida plena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/02/2010

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QUE BICHO É ESTE? – Jornal O Estado

Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringonça – o bicho estava no sonho – era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, coçou a cabeça escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. Não consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Será que a coisa que tinha às mãos era um mero telefone? Não queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir rádio ou tv. Meucci já morreu. Só queria o meu velho celular.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/01/2010.

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CUAUHTÉMOC – Diário do Nordeste

Ver a terra do mar é sempre luminoso. Somos e não somos. Pertencemos ou não? Esta semana estive em um veleiro. E o que faz um grande veleiro em mares brasileiros neste ano de 2010? Ele singra as águas do continente americano para dizer da alegria dos que há 200 anos se libertaram do jugo espanhol e criaram, nesta banda da Terra, uma identidade própria, peculiar, multicultural e racial. Octávio Paz advertia que o contador de história tem visões como poeta, daí olho o veleiro Cuauhtémoc e lembro da poeta mexicana Margarita Paz Paredes quando diz em seu poema Busca: “Veio depois às minhas famintas praias e era um peixe rutilante em minhas redes de assombro. Mas sobre a areia desmanchou-se-lhe a estranha pele de azougue”. O México, como o Brasil, é um país derramado em verso e prosa. O México é também um país fustigado pelas guerras, mas teima em viver em paz. A palavra Cuauhtémoc refere-se a um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria azteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes. Assim, o belo veleiro Cuauhtémoc é a águia-proa do México a tocar em missão pacífica os mares e portos do mundo para falar da latinidade que nos é comum. Veio em cruzeiro de instrução da Armada do México, com 246 tripulantes, sob o timão firme do Comandante José Francisco González Galindo, e já aportou, nesta viagem, em Balboa (Panamá) e Barranquilla (Colômbia), Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, de onde seguirá para cidades argentinas, uruguaias, chilenas, venezuelanas e dominicanas, até chegar a Vera Cruz, no México, em 23 de julho próximo. Que suas brancas velas amantes do vento se enfunem com os ares brasileiros e leve a nossa maresia e algas como um toque de amizade em seu casco. Como dizia o meu parente pelo lado materno, Pero Vaz de Caminha: “E Deus que aqui nos trouxe, alguma razão tinha para isso”.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/2010

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O OTIMISMO DO ROBERTO – Jornal O Estado

Roberto Gaspar é o próprio Otimismo Itinerante. Vive alegre e circula muito. Gosta de ver e ser visto. Ao vivo e em fotos. Transpondo essa energia para o papel, Roberto é livre, descontraído, amável e sabe embaralhar episódios de sua vida, desde a bacia de picolés comprada com o primeiro dinheiro ganho até vivências em Canoa Quebrada onde se mistura com todos e narra a vida surreal de seu cunhado Rodolpho -“um “príncipe” -; a chegada e a rápida saída de brancosos paulistas; a mulher vendendo óleo de coco, o Raimundo Carpinteiro; a rezadeira e os pais de santo. Ele é ainda, segundo narra, marido apaixonado. Vejam: “Fecho a porta devagar e deixo os anjos a velarem o sono justo da mais linda e mais extraordinária mulher que conheço”. Estar arrebatado de amor em plena maturidade é uma graça e ele extravasa essa alegria em várias partes de suas estórias. Myriam é citada muitas vezes, sempre com amor e carinho explícitos. É paizão e não deixa de citar os filhos, Renata, Adriana, Andréia e Beto, suas outras paixões e acompanhantes de existência/viagens. Multifacetado, não fala só de família e Canoa Quebrada, onde descansa, à beira-mar, o seu corpo nos fins de semana prolongados, admirando o mar e as falésias. Conta conversa com engraxate sobre proeza sexual, viagens ao Quixadá, ao Piauí e se aventura pela Europa, começando pela mãe Lisboa, reza em Fátima, católico declarado que é, segue ao Porto e se deslumbra com Santiago de Compostela. Vai em frente e chega a Paris, pleonasticamente “com alegria e entusiasmo” e não foge da narração de lugares visitados e pelos quais se enamora. Ele é assim, derramado, uma avis-rara neste mundo de pessimismo, futricas e olho grande. O seu livro é um itinerário de estórias vividas, sem preocupação literária. Em todo o percurso zigzagueado do livro há sempre a marca do Roberto. O jeito de gente boa a não baixar a crista e saber se postar em todas as mesas e rodas, seja no chão escaldante de praia quase nativa, ou em rodas sociais das quais participa com regozijo e constância. No afã de escrever, diletante que é, está no terceiro livro, ontem lançado pelo selo da Academia Fortalezense de Letras. Com sua disposição, certamente, não será o último. Escrever é um ato de coragem e isso Roberto tem. Abra o livro, veja a primeira estória, a do título do livro, e prepare-se, com certeza, para chegar à França, sua última parada. Por enquanto, repito.

João Soares Neto,
presidente da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2010