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JOBS PADECE – Diário do Nordeste

Você já ter lido em jornais e revistas sobre Steve Paul Jobs. Certamente já ouviu falar dos i-Pod, i-Phone e i-Pad, para ficar apenas nos favoritos da Apple, a empresa que Jobs criou. Ele nasceu em 1955, filho de sírio e americana que o deram para adoção. Um eletricista americano, Paul Jobs, e sua mulher Clara, descendente de armênios (Hagopian), adotaram e amaram a criança como filho. Jobs, menino curioso, teve a felicidade de contar com vizinho engenheiro, Larry Lang, que o iniciou no mundo sem limite da criação. Entrou num curso de engenharia em Oregon, mas logo desistiu. Queria criar e assim o fez. Com o dinheiro ganho no primeiro trabalho resolve passar um tempo na Índia e, de lá, volta budista e vegetariano. Conhece Steve Wozniak e acreditam poder trabalhar juntos. Venderam a calculadora eletrônica HP de Wozniak e a surrada van Volks de Jobs. Apuraram 1.300 dólares. Dessa quantia e do talento de ambos surge a Apple, nada mais que a junção do engenho de Wozniak e o genial design de Jobs. Em 1976, em produção independente, teve uma filha, Lisa. A palavra Jobs é o plural de job (trabalho). Assim, Jobs desejava trabalhos, muitos. Em 1980, a Apple abre o seu capital e, em 1985, ele é destituído da presidência (CEO) pelo Conselho, por questões internas. Magoado, mas criativo, funda, – em parceria – os estúdios de cinema Pixar, que já produziu filmes como “Toy Story”, “Procurando Nemo”, “Carro” e outros. A Pixar vira ouro. Forma a NeXT, de tecnologia. Em 1991 casa com Laurene Powell, com quem tem três filhos. Em 1996, a Apple compra a NeXT e ele volta a comandar a sua cria. A Apple toma tento e passa a produzir os famosos i, derivados de internet. O primeiro foi o i-Pod – de música- em 2001. Já bilionário, Jobs, em 2004, é acometido de raro tipo de câncer pancreático. É operado. Em 2007, cria o i-Phone. De lá para cá, o espartano Jobs – tênis, calça jeans e camisa rolê preta- transplanta o fígado, perde peso, e neste final de agosto sai da presidência da Apple, após o sucesso do i-Pad 2. Consciente e alquebrado. Um provérbio árabe diz: “Deus não completa nada para ninguém”. O lado árabe de Jobs vai lutar. O americano, desconfia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/09/2011.

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PEQUENA VOLTA AO MUNDO – Jornal O Estado

Este ano de 2011, dez anos depois do 11 de setembro que fez profundos estragos na defesa e autoestima norte americana, tem sido devastador para os políticos e países, de modo geral. Não falo apenas do que se chamou, desde logo, de primavera árabe. O ano possui 4 estações, lembro. Pondero acerca do que nos chega pela televisão aberta e de assinantes, jornais, revistas, sites e blogs. O que vou narrar é conhecido. Foi exposto à exaustão. Aproveito a didática do sociólogo Ricardo Antunes para ir passando de país a país e/ou de continente a continente. De princípio, a dita Primavera surge na Tunísia, em meio a sindicalistas e revolta popular. Derruba a ditadura de Ben Ali. Brotam flores. A civilização egípcia, com seus ricos museus, as pirâmides Quéops, Quefren e Miquerinos, sob a vista da estátua de Gisé, vê as águas do Nilo banhadas por sanha indomável que fez praça em Tahir e conseguiu a queda de Osni Mubarak. Hoje, réu e doente. Depois, como vendaval, o tempo foi fechando para os governantes da Jordânia, Argélia e Síria. No fim de agosto, cai na Líbia, Gadafi com toda a riqueza explícita de seus vários palácios, jato Air-Bus personalizado com camarinha de luxo, enquanto a pobreza do país é gritante. Ao mesmo tempo, mulheres árabes são presas em vários países por defenderem o prosaico direito de dirigir automóvel e por “traição” a seus maridos que têm tantas mulheres quantas puderem sustentar. Saíamos do mundo árabe e nos instalemos nos Estados Unidos, a Inglaterra de ontem.
Obama sofreu todas as humilhações que o conservador Partido Republicano, por sua ala mais aguerrida e cronologicamente jovem – o atrasado “Tea Party” – conseguiu aplicar no Congresso. Agora, os EEUU estão engessados em sua monumental dívida. Aparece até um terremoto com epicentro na Virgínia, arredores de Washington. Wall Street provoca a queda das bolsas de todo o mundo. 2008 voltou ou continua? Militares americanos vão saindo do Iraque e o país sofre com o “Irene”, o furacão em sua costa nordeste, com prejuízo de bilhões de dólares. Descendo um pouquinho, entramos em Cuba e temos notícia de que Fidel Castro está prestes a sucumbir ao tempo que o consome, fisicamente. “Patria o Muerte”. Não mais ouviremos, por enquanto, os longos discursos de Hugo Chávez, o homem das bravatas na Venezuela petrolífera. Ele luta, de forma pública, contra câncer em sua região pélvica. Lula viaja a países latinos como “speaker” e defende interesses de grandes empresas brasileiras de construção civil que se implantaram em toda a América do Sul para fazer estradas, portos, siderúrgicas, oleodutos e que tais. No Chile, o rico presidente Piñeda, vê a sua aprovação popular cair na casa dos 26%. Greves, patrocinadas por estudantes e centrais sindicais paralisam o país, em pleno inverno. Cristina Kirchner carrega na maquiagem e se prepara para novo mandato na Argentina, o país que foi referência. No Brasil, jornais fazem o papel de oposição e conseguem, após denúncias, a demissão de quatro ministros. Enquanto isso, a deputada Jaqueline Roriz – filmada recebendo propina – é inocentada pela Câmara dos Deputados. Colegas.
Descobre-se o óbvio: político adora viajar de “jatinhos”, preferencialmente sem pagar. Dilma Rousseff ainda é parábola e, todas as noites, conversa – em voz baixa – com a mãe e a tia, pessoas em que pode confiar. Voejemos pelo oceano Atlântico e empaquemos no continente africano: quase dizimado por guerras civis, fome endógena, doenças endêmicas e a Aids com seus perigos. Abandonemos os países africanos, por enquanto. Deixemo-los cuidando de guerras tribais, despotismo, corrupção, dívidas – inclusive às da Copa do Mundo – e a incursão europeia, americana e chinesa em suas riquezas naturais. Vizinha à África, separada apenas pelo Estreito de Gibraltar, a Europa é fustigada. O sonho do Euro, como moeda comum, custa caro a países como Portugal, Espanha, Itália e outros menores.
A conta está para ser paga, o desemprego cresce. Há xenofobia na Velha Albion, a que esnobou o Euro. Viu-se fumegante em Londres, Tottenham, Manchester e Liverpool. Surge a ideia da criação dos “Estados Unidos da Europa”. Ainda não falei da Índia, com greve de fome do pacifista Anna Hazare, presumível novo Ghandi, “que morrerá contra a corrupção”. Cansei, paremos por aqui. Estamos em setembro, faltam quatro meses para o 2012. Que chegue logo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/09/2011.

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O TEMPO SÓ TEM IDA – Diário do Nordeste

Dizia La Fontaine, o das fábulas, “Correr não adianta. É preciso partir a tempo”. E o que é o tempo e a tempo? Pergunto a Santo Agostinho e ele – quase – responde: “Que é, pois, o tempo? (…) Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar (…) já não sei”. O mais maroto e um dos mais belos poetas brasileiros contemporâneos, Manoel de Barros, versa: “O tempo só anda de ida”. Pois é. O futuro chegou como fazia crer Albert Einstein: “Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais”. Colecionei 25.550 dias.
Abrolhei um ano depois de Trotski ser assassinado no México e um antes de Vargas se converter em amigo de Franklin Roosevelt na 2ª. Guerra Mundial. Alfabetizei-me na volta da democracia. Estudei em meio a crises, inflações, secas, enchentes, greves, renúncia, golpes e conclui a universidade pública quando a Revolução de 64 se implantava.
Como durmo seis horas por dia, gastei 6.380 dias a repousar. Assim, não tenho os tais 25.550 dias, mas (25.550-6380) meros 19.170. Em cada ano passei 30 dias alimentando-me (2 horas por dia) ou um total de 50.400 horas sentado em mesas de café, almoço ou jantar. Ponderando que trabalho e estudo sempre andaram juntos para mim, para fins deste raciocínio, digamos que comecei a estudar/trabalhar aos 10 anos.
Apreciando também a média de um trabalhador brasileiro (44 horas por semana) e como o ano tem 52 semanas, chego, a 5.720 dias de efetivos afazeres. Como o meu ócio implica em duas horas por dia, acrescidos do tempo disponível nos sábados, domingos e feriados, direi que, a cada semana, tive 26 horas fora da lida que multiplicadas por anos dá um razoável tempo: 3.944 dias. Conclusão simples: preguiçoso!
Então, cara, você é muito mais jovem do que imagina e não é este trabalhador/estudioso que pensa ser. Descansou pra valer, comeu assaz e dormiu um bocado. Vá lá, encara o tempo que falta e manda ver. Estique as pernas, trabalhe e pare de fazer contas confusas. Afinal, o que conta não é o que se conta, mas o que não se conta.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/08/2011.

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A FOME, HOJE – Diário do Nordeste

Ao ler este escrito você já terá feito hoje, pelo menos, uma refeição. Poderá ter ingerido mais calorias que o recomendado. Em todo o mundo cerca de um bilhão de pessoas não terão o que comer. E eu com isso? Poderá perguntar. A história da fome no mundo é antiga, basta citar que, no século XVII, um terço da população russa morreu desnutrida. O continente africano é hoje o epicentro desse desastre humano. Ocorre na África pela exploração dos países europeus durante o período colonial e a não educação dos nativos para que crescessem intelectualmente e lutassem pela independência. Mesmo assim, o colonialismo acabou. Os poucos letrados que assumiram os poderes foram cooptados pela corrupção que hoje atinge construções, recursos naturais, como petróleo, metais nobres e pedras preciosas. Enquanto isso, o mundo fala apenas da oscilação dos mercados financeiros, popularidade do Obama, ataques fanáticos à Noruega e nenhum destaque à fome que se agrava. A fome é feia e não fica bem nos jornais e televisões. No país onde nasceu o pai de Obama, o Quênia, há 2,4 milhões de pessoas em estado de fome, o equivalente à totalidade da população de Fortaleza. Na Etiópia, temos uma Noruega de fome: 4,6 milhões. Neste agosto de 2011, ocorre a maior seca dos últimos 50 anos em África. Ela faz eclodir saques, a criação de milícias, guerras civis, governos corruptos e o lamento silencioso dos famintos, exauridos pela debilidade física. Estou falando apenas de um grave problema da África: a fome. Poderia falar de outro, o combate à Aids. Fica para depois. Se tiver curiosidade, tempo e coragem, procure ler sobre a fome no mundo. Tomará susto. José Graziano, o brasileiro eleito para dirigir a FAO – Organização para Alimentos e Agricultura da ONU, se prepara para assumir, em 2012, e não terá apoio dos países ricos. Eles possuem outras prioridades. Em outubro, a Terra conterá sete bilhões de pessoas, necessitando de comida, água, roupa, abrigo, educação e trabalho. Enquanto você leu o que escrevi – segundo profetizava o biólogo Paul Erlich, em “A Bomba Populacional”, em 1986 – quatro pessoas terão morrido de fome. Pense nisso.

João Soares Neto,
Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/08/2011.

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NEYMAR, PROPAGANDA, BALADA E FUTURO – Jornal O Estado

Há um jovem paulista do interior com dois sobrenomes bem brasileiros: Silva e Santos. Seu nome é Neymar, homenagem ao pai, ex-jogador, sem fama. Neymar ainda vai fazer vinte no princípio de 2012, mas ganha por mês mais que cinquenta ministros, juízes ou auditores da Receita Federal. Sua figura magra é encimada por cabelos cortados a Moicanos, tribo indígena norte-americana nômade que talvez ele nem saiba ter existido. O fato é que ao abrir a revista brasileira de maior circulação, edição desta semana, vi três páginas de propaganda usando a sua imagem. Fazia publicidade de cuecas, meias e de um serviço móvel de telefone. A agência espalha que dia 22 próximo, segunda, Neymar aparecerá de cuecas nas propagandas. A dos telefones, usa também a imagem do Neymar-pai e coloca o Neymar-filho como “futuro-pai”. Na realidade, Neymar deverá ser pai, mas não porque desejasse sê-lo. Sê-lo-á por exuberância de sua testosterona e o explícito compartilhamento/oferecimento de uma maria-chuteira com quem não tinha laços afetivos. Daí a explorar a sua imagem no Dia dos Pais vai um oportunismo cretino. Saio da revista, abro um jornal paulistano e vejo notícias da festa de outro jovem atleta de futebol, Lucas, que comemora 19 anos. Tudo patrocinado pela agência do Ronaldo, o fenômeno, e uma empresa de artigos esportivos. Na portaria, há lista dos convidados. Há a lista do aniversariante, lógico, mas há também a “lista do Neymar”. Esta lista é composta de novos-amigos e de “bonitonas”, loucas para aparecer, a custo de tudo. Neymar chega de touca preta, camiseta preta, camisa social aberta com listras rosa e branca, brinco fulgurante na orelha direita, crucifixo exposto de igual quilate e óculos escuros às mãos. Falam/brincam/sorriem que Neymar distribuirá 300 camisinhas, pois sabe o que já aconteceu com ele. A balada começa, tudo de graça. O DJ (o animador) aumenta a rotação sua pick-up(som) e todos entram na geleia geral da noite. Lá fora, moças de vestidos colados ao corpo, saídas da malhação e sapatos altíssimos lutam pela oportunidade de entrar. A Hostess (a que cuida das listas) resmunga, mas sempre aparece um “amigo dos amigos dos amigos”. E os seguranças-guarda-roupas, de preto, abrem a porta do paraíso, que se chama, por coincidência, Royal, de real, rei, majestade. É madrugada de domingo para segunda, o treino será logo à tarde, mas quem se lembra dessa chatice. E o futuro, que não dorme e não usa touca, fica do lado de fora da porta, à espreita, lembrando o que dizia Victor Hugo, escritor francês: “O futuro, fantasma de mãos vazias,/que tudo promete e nada possui”.
João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/08/2011.

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PAI EM FORMAÇÃO – Diário do Nordeste

Repito-me, ano a ano. Sou pai dos anos setenta. Jovem, não entendia da vida de casado ou de puericultura. Fui tateando por leitura, intuição e senso comum. Acompanhei pré-natais, partos, visitas a pediatras, escolas, primeiro dia de aula, festinhas de aniversários, primeiras comunhões, natais, carnavais e que tais. Como o diálogo adulto/ criança não é simples, criei dois personagens para auxiliar: Paulinho e Rosinha. Irmãos, exemplares, moravam por perto, um pouquinho mais velhos e nunca os encontrávamos. Rosinha era estudiosa, obediente, não brigava com o irmão. Paulinho era alegre, compreensivo e dividia o que tinha com a irmã. Foram crescendo. Frequentei reuniões de pais e mestres, festivais de dança, vestia camisas borradas de tintas por elas e usava de inventividade nos aniversários. Em um deles aluguei ônibus e saímos, com outras crianças, passeando pela cidade, ouvindo música, vendo animais, parques, fazendo a festa ao ar livre. Cresceram. Veio a fase difícil da puberdade e no meio de cinco mulheres, eu, meio sem jeito. Era comunidade feminina ciumenta e possessiva. Acontece que além de pai, era marido. Já adultas, ocorreu a separação, difícil, e o divórcio. Sofreram. Sofri. Superamos. Hoje, elas têm filhos e sabem o que criança cobra e apronta. Uma me disse: “pai, as minhas filhas têm o mesmo ciúme de mim que eu tinha de você. Estou pagando”. Outra: “A oldest lê igual a você”. Outra mais: “O caçula tem seu temperamento”. Rosinha, o personagem, parece rediviva. Na medida da ignorância paterna, minha versão é mais amena. Tentei passar o que intuía, imaginava que sabia e o que admitia ser correto. Nossa casa, grandes árvores frutíferas, era um mini-parque ecológico/esportivo a acolher amigos para brincar, estudar e celebrar. Acordava-as, não faltava às refeições, chegava cedo do trabalho, íamos, por anos, à praia da Tabuba, viajávamos nas férias e ajudava nos deveres escolares. Acompanhei escolas, vestibulares, fins de cursos, procurei tê-las por perto no trabalho. Vieram namoros, fases difíceis, noivados, casamentos, partos e, agora, aniversários de netos. Hoje, dia dos pais, posso dizer a elas: contem comigo.

João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/08/2011.

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A EXPOSIÇÃO SOBRE JOZE PLECNIK, A REPÚBLICA TCHECA E O CONCURSO – Jornal O Estado

A Tchecoslováquia, como país, surgiu em 1918, com o fim do Império Austro-Húngaro. Tão logo nasceu o país, Jo%u017Ee Ple%u010Dnik foi chamado para ser o arquiteto-chefe do Castelo de Praga, em 1920. Ali trabalhou até 1934, mesmo que passasse, desde 1921, a viver em Liubliana, sua cidade natal, onde veio ao mundo em 1872. Liubliana era e é da parte Eslovênia. Seu pai era um carpinteiro durão que queria que seus três filhos tivessem “profissões práticas”. Por conta disso, Ple%u010Dnik formou-se em marcenaria – aos 16 anos – na Escola Profissional de Graz, em 1888. Com a morte do pai, Plecnik vai para Viena aos 20 anos onde estuda arquitetura com Otto Wagner, um dos luminares da arte na época. Wagner acreditava e professava que os motivos decorativos históricos não deveriam permanecer e propunha a criação de ornamentos mais leves e orgânicos. Findo o curso, Ple%u010Dnik, em 1911, viaja à Praga para lecionar no Colégio de Artes e Ofícios. Em 1920, repito, é convidado para ser o arquiteto-chefe das obras do Castelo de Praga. Seu trabalho dura 14 anos. Em 1948, a Tchecoslováquia passou a integrar, forçadamente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, através do Golpe de Praga. Finda a 2ª Guerra, a Tchecoslováquia continua com as duas etnias, os Tchecos e os Eslovacos. Finalmente, em 1993, com o desmantelamento da URSS, se reparte em duas, surgindo, através do acordo chamado “Divórcio de Veludo”, por ser amistoso, as República Tcheca e a Eslovênia. Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, morto em 1957, volta a ser cultuado após os anos 80 e suas refinadas obras de arquitetura, escultura e marcenaria estão agora expostas, graças à Embaixada da República Tcheca, o Consulado Honorário local e a Sociedade Consular do Ceará em múltiplas e belas fotografias, na Galeria BenficArte (Av. Carapininima, 2.200, Mezanino) As fotos poderão ser apreciadas, com calma e atenção, gratuitamente, por toda a próxima semana. A Exposição do “Arquiteto de Praga” dever ser visitada, quase como parte da grade curricular por estudantes de arquitetura, bem como arquitetos, artistas plásticos, especialmente escultores, amantes da arte e pelo público em geral, como expressão eloquente do arquiteto, artesão e escultor Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, na terra de Franz Kafka. A cidade de Praga fica no centro da Europa, rasgada pelo rio Vltava que obrigou a construção de belas pontes. Lá no alto de uma colina, no lugar chamado Hradcany, está o Castelo de Praga que, longe de lembrar os nobres seus ocupantes, nos remete à obra de um de seus arquitetos, mostrando que a arte transcende a política e a nobreza. Nela, os gênios nunca morrem. A propósito, no próximo mês de setembro, o Consulado da República Tcheca no Ceará, na pessoa do Cônsul Honorário Raimundo Viana, lançará com o apoio da Sociedade Consular do Ceará e da equipe cultural do Shopping Benfica, concurso exclusivo para estudantes, regularmente matriculados, em universidades públicas e privadas, que deverão escrever sobre o tema: “A República Tcheca e Praga são uma bênção”. O(a) vencedor(a) terá direito a viagem aérea de ida-e-volta à Praga, com permanência paga por dez dias. Que tal?
João Soares Neto,
Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2011.

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O QUE É UM CÔNSUL? – Jornal O Estado

O dia de hoje é consagrado ao Cônsul. O que é um Cônsul? Na Antiguidade Romana era o Magistrado Supremo. No ano de 509, antes de Cristo, Roma substituiu o rei por um magistrado, o pretor, cuja atividade tinha a duração de um ano. Nos meados do Séc. V a.C. essa atividade foi desdobrada em duas, sendo designados cônsules. Para exercer essa função exigia-se idade mínima de 33, depois 37 e, em seguida, 43 anos. O consulado era o ponto culminante da carreira política, sendo eleito pelos comícios centuriais. Durante um ano exerciam os poderes de Chefe de Estado. Emprestavam seus nomes ao ano em que exerciam suas funções. O fim dos poderes dos cônsules deu-se no crepúsculo do Séc. II a.C. Depois, já na era cristã, o imperador os designava e já no Séc. IV certas funções permitiam a inscrição na casta consular hereditária. Depois disso, a figura do Cônsul teve proeminência na Primeira República Francesa, em 1799, perdurando até o surgimento do Primeiro Império, em 1804, na chamada Revolta dos 18 de brumário, tendo sido escolhidos três cônsules, Napoleão, Sieyès e Ducos. De fato, o primeiro Cônsul Bonaparte exercia totalmente o poder. Na diplomacia atual, em todos os países, diz-se do funcionário que representa, em uma nação estrangeira, o seu país e tem como missão proteger os cidadãos desse país constituinte, ser fomentador de relações, notadamente comerciais e práticas de boa vizinhança. No caso do Brasil, os cônsules são funcionários de carreira, formados, a partir de 1945, no Instituto Rio Branco – assim intitulado em homenagem ao historiador e cônsul José Maria da Silva Paranhos, com atuação diplomática eficaz no final do século 19 e começo do 20, o Barão do Rio Branco – órgão do Ministério das Relações Exteriores. O lugar onde exerce a sua função é chamado de consulado ou repartição consular, que tem imunidade diplomática. No caso específico dos cônsules honorários eles devem ser cidadãos maiores de um país, reconhecidamente capazes, com penetração social, nele residente, e representar os interesses de outra nação. O processo de formação de um cônsul de carreira segue, em cada país, um rito próprio. Aqui no Brasil para exercer a diplomacia é necessário ser brasileiro, nato ou naturalizado, ter curso superior completo e submeter-se a um concurso público anual. O processo de escolha dos cônsules honorários começa com a indicação de um ou mais nomes pelo Embaixador ao governo do país por ele representado. Esses nomes são submetidos ao seu Ministério de Relações Exteriores e um deles é escolhido. Posteriormente, seu nome é enviado ao Brasil onde terá jurisdição que o submete aos órgãos de informação e ao próprio Itamaraty. Aprovado o nome, a ele é fornecida Carta Patente, por ordem da presidência da República do país que lhe concedeu o título, e a carteira do Corpo Consular Honorário Estrangeiro do MRE, com matrícula e número de série. Parabéns a todos os cônsules. Próxima segunda, dia 8, a Embaixada e o Consulado da República Theca juntam-se à Sociedade Consular do Ceará e abrem, às 19 horas, na Galeria BenficArte, exposição de fotos sobre a trajetória do arquiteto e artista Plástico Joze Plecnic. Vá lá.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2011.

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CRÔNICA DO DESVARIO – Diário do Nordeste

Não sei por onde começar. Escolho Amy Winehouse. A primeira vez que a vi, pela televisão, foi em Beijing. O telão do bar do hotel reproduzia show seu. Os caracteres e a locução eram em Mandarim. Só descobri o nome ao final. Entre estarrecido e curioso fiquei pasmo com a figura gótica, franzina e voz marcante. O sobrenome judeu Casa de Vinho (Winehouse) não se mostrou suficiente. Era adicta de tudo e ninguém parecia cuidar dela. Tinha cara de jovem desvalida e o que a distinguia dos consumidores contumazes de cocaína e crack eram o talento e a irreverência consequente. Morreu aos 27, por absoluta desconexão com o mundo que a aplaudia. O mito surgido pela insensatez humana. Pulo para Oslo e a Ilha de Utoeya, no país que tem, ao meu olhar, o sol da meia-noite mais bonito do planeta, Dinamarca, sempre admirada por seu recato social coletivo. Agora, um desatinado – porém inteligente – “cavaleiro templário moderno”, Anders Behring Breivik, talvez leitor de romances do americano Dan Brown, como o “Código Da Vinci”, ativa carro-bomba em Oslo e daí, friamente, se desloca, falsamente fardado, para matar dezenas de jovens reunidos em Utoeya. Volto à China, país que vende tecnologia para todo o mundo e vejo que dois trens se chocam e matam 43 pessoas. Como? Os Estados Unidos, por sua vez, sofrem a angústia que só terminará depois de amanhã, 02 de agosto. Se os partidos Democrata e Republicano não chegarem a um acordo, mínimo que seja, o país poderá dar o maior calote mundial. Se isso acontecer, tudo o mais virá em ondas gigantescas como um Tsunami macroeconômico para todos, Brasil, inclusive. Aqui, a presidente Dilma está quase terminando a gravidez de nove meses, desde o seu primeiro dia no Alvorada. Neste período, já não aceita mais os conselhos do médico Palloci, devolve o enxoval e os presentes do “republicano” Ministério dos Transportes, enquanto rumina como chegará à délivrance marcada para fins de setembro. Ao cabo, um registro pessoal de pesar: o falecimento nos EEUU da arquiteta Maria Clara Nogueira Paes Caminha, profissional de brio, filha exemplar e mãe de filhos capazes e cidadãos do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2011.

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ROBERTO MARTINS RODRIGUES – Jornal O Estado

Os que foram alunos, nos cursos de bacharelado e pós-graduação, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, a partir da década de 60, certamente concordarão comigo: o prof. Carlos Roberto Martins Rodrigues foi, sem dúvida, o mais comunicativo entre todos os mestres daquela escola centenária. A par disso, ele é um dos expoentes do Direito Administrativo em nosso país, mercê de sua formação acadêmica distinguida. Roberto, quando criança, sofreu uma grave desidratação, que já matara seus dois irmãos mais velhos, Maria Taís e Carlos Eduardo. Foi salvo pela alimentação da avó materna e a promessa de d. Zilda, sua mãe, de nunca mais usar joias, incluída aí a aliança de casamento. O menino, são e salvo, estava pronto para, ao chegar à adolescência, estudar piano e pedalar a sua bicicleta alemã Singer com buzina personalizada. Por outro lado, o aluno foi um dos integrantes da turma pioneira do Instituto Lourenço Filho e teve a ousadia de fundar, com outros jovens, o jornal “Fortaleza Repórter”, a Liga Exemplar Joaquim Albano – em desagravo ao mestre que o ensinara a falar francês precocemente – a Associação Mirim de Imprensa, o Circo Mascote e a “Beautiful Virgínia Band”, em homenagem à primeira namorada. Seu pai, o advogado, professor de Direito Civil e dep. federal José Martins Rodrigues, resolveu levá-lo para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde atuava, com brilhantismo, na Câmara dos Deputados. O jovem Roberto encantou-se com a cidade. Ia aos ensaios da Mangueira, admirava a música de Ary Barroso e as jogadas de Heleno de Freitas, o Pelé da época. Andava pela ainda brejeira Copacabana e aprendia a dançar na Avenida Danças e Brasil Danças, ao pé do Palácio Monroe, na Av. Rio Branco. Ao mesmo tempo, ingressava, de forma brilhante, na Faculdade Nacional de Direito, tendo sido aluno de Evaristo de Moraes Filho, Hermes Lima, Haroldo Valadão, Afonso Arinos e Mattos Peixoto, dentre outros. Depois de formado, tornou-se amigo e seguidor de Hely Lopes Meireles, a quem se deve a sistematização do Direito Administrativo, como ciência, no Brasil. Volta ao Ceará, e funda o Clube dos Advogados, nos moldes ingleses. Um clube de classe. Em seguida, é eleito o mais jovem presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, tendo exercido três mandatos. A par disso, ingressa nos quadros de professores da Faculdade de Direito da UFC, da qual é Mestre e Doutor, e na Procuradoria Geral da República, ocupando a sua direção por longo tempo. Hoje, o dr. Roberto, advogado de nomeada e professor consagrado, coordena o Curso de Direito de uma faculdade privada, sem esquecer de amar, como sempre o fez, conversar com aprumo e ouvir suas músicas preferidas, entre elas o jazz americano. Este perfil, a destempo feito, é um pálido reparo à sua involuntária não inclusão no meu livro “Gente que Conta”. Acontece que o andamento e o desencontro tramaram contra nós. Seu nome foi um dos primeiros a ser lembrado, a Internet não cuidou disso. Roberto concorda com Cervantes ao entender que o amor, se é amor, é sempre verdadeiro. Para ele a vida é um traço de união do nascimento com a morte. Uma ponte que se consegue atravessar com trabalho, otimismo, bom humor, amor, afetividade, realizações úteis, prazer, fé no bem e na felicidade. Esta é uma pálida aquarela da vida cintilante desse cearense que honra o Ceará, dignifica a advocacia e enobrece o nosso magistério superior. Roberto é Gente que Conta.
João Soares Neto,
escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2011