Bem que gostaria de escrever algo leve, crônicas charmosas, mas há caos no Brasil. Cidades grandes não permitem estabelecer horários certos de reuniões entre pessoas com trabalho em bairros diferentes. Vale a moda: “tipo assim, 4 da tarde”. Há intervenções urbanas necessárias e outras dispensáveis, realizadas durante o dia. Engarrafamentos. Existe velha mania de se dizer que a solução urbana passa pela cabeça de arquitetos. Nem tanto. É preciso que os profissionais tenham qualificação real em urbanismo, mas isso é outra conversa.
É imperativo um conjunto de profissionais diferentes para pensar uma cidade. Jaime Lerner, urbanista, fez – com equipe multidisciplinar – de Curitiba uma cidade planejada, modelo brasileiro. As demais cidades vivem em função de demandas emergenciais, enchentes e o desencontro da implantação ou ampliação de metrô, saneamento básico com a malha viária existente ou a ampliar.
De um tempo para cá, o Brasil vive a paranoia da Copa do Mundo/2014. Estádios inteiros são implodidos (a palavra está certa), quando poderiam ser ajustados às novas exigências tecnológicas, com custos bem inferiores. Além disso, há sentimento de urgência. Tudo tem de estar pronto. Logo. Criam-se comissões disso e daquilo e, para variar, poucos se entendem. Países existem para os seus habitantes e turistas, mas não para circunstanciais eventos que, quase nunca, duram um mês e deixam um pós-vazio.
A África do Sul está com estádios sem uso, dívidas a pagar e racionamento de energia. A Vila Olímpica do Rio está com aptos. abandonados e o estádio, cedido. Agora, será diferente. Somos a pátria do futebol e as prioridades se invertem. Aeroportos brasileiros são, quase todos, ultrapassados em segurança, acessibilidade e atendimento. Na Europa e Estados Unidos, os despachos (check-in) são feitos na ponte de embarque dos aviões e se pode chegar e entrar rapidamente. No Brasil tudo é corre-corre, sobe e desce escada, o avião muda de posição nos “fingers”, há atrasos, a maior parte dos atendentes dos aeroportos e das companhias não tem treinamento. É terceirizada. E complica o simples. Algumas empresas aéreas são mancas. Uma, até no nome.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2011.
FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS – Jornal O Estado
Tome cuidado ao falar. Especialmente, se você estiver com gente jovem. As relações entre eles, amizades, namoros, e mesmo os casamentos, são fluidas. Assim, atenção ao perguntar por fulana ou sicrano. Pode já ter deixado o rol de amigos, a relação estável ou até o casamento. Não mexa em caixa de maribondos. Hoje, crianças passam a conviver com outras, até então desconhecidas, que, na verdade, são filho(a)s do namorado(a) ou companheiro(a) da mamãe e/ou do papai que já não vivem mais juntos. Até se falam, mas cada um na sua.
Nesse tempo de relacionamento complicado, duas pessoas (pai e mãe), os que não estão – pelo menos naquele determinado momento – com novos relacionamentos, sempre ficam de fora. E, são eles, geralmente, os que apimentam ou fustigam as relações com os filhos, intrigando-os contra os pais/mães e seus novos relacionamentos. Os filhos, muitas vezes, passam a não entender nada e ficam confusos. Os pais se amavam tanto.
E agora? Começam, em face das novas relações de seus pais, a ficar parte do tempo na casa de avós que, se aposentados, têm tempo disponível. Têm tempo, mas ainda não absorveram a volatilidade dessas relações amorosas contemporâneas. O problema, nesses casos, é o ajuste dos sentimentos, das ideias e da linguagem para entender a mistura dos filho(a)s do(a)s filho(a)s com os filho(a)s do(a) novo(a) cara permanente ou passageira que desponta nas festinhas de aniversários e até nos cafés e almoços dominicais.
Quem é? Começou quando? Meu Deus, isso é o fim do mundo, são os costumeiros comentários dos parentes, especialmente do(a)s tio(a)s que nada têm a ver com a história pessoal do(a)sobrinho(a). Os avós, irmãos do(a)s tio(a)s, ficam compassivos, mudos, olham para o infinito, pouco entendem a peça que o tempo lhes pregou e da qual passam a ser atores.
As ramificações surgidas nessas novas relações ficam embaralhadas. De repente, o(a) filho(a) deixa três crianças na casa de seus pais. Duas, são neto (a)s e a outra? É filho (a) do moço que estava na direção do carro e, sequer, desceu para cumprimentar. E o que fazer para juntá-los? Como ter a naturalidade com uma criança estranha que, sem mais, nem menos, chega, com o(a)s neto(a)s querido(a)s para um fim de semana prolongado e a primeira coisa que fazem é pegar e mexer no novo celular do avô para jogar. Enquanto isso, os amantes, ficantes ou casantes se mandam para algum lugar sem barulho das crianças que geraram e prometeram criar com amor, assistência e presenças. Crianças, todos sabem, são manipuladores e os avós, nas ausências dos pais, pagam o pato, mesmo que estejam a tomar remédios para o diabetes, hipertensão, gota e as colunas vertebrais não aguentem abraços fortes dos netos que vêm em desabalada e inocente correria.
E há ainda as reclamações do(a)s filho(a)s quando voltam dos seus passeios: essas crianças não tomaram banho e as mochilas ainda não estão arrumadas? Os avós, silentes, sem terem sequer recebido um beijo do(a) filho(a) que chega esbaforido(a)e apressado(a),ajudam a fazer as mochilas, se despedem dos netos e do novo(a) “sobrinho(a)” que, todo(a) feliz, diz: Tchau, tio. Gostei, vou voltar. Até breve!
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/04/2011
MUSEU SOUMAYA – Diário do Nordeste
Carlos Slim Helú é, segundo a revista Forbes, o homem mais rico do mundo. Mexicano, 71 anos, descendente de libanês, engenheiro, viúvo, seis filhos, comanda grupo de empresas de ramos dessemelhantes. Hoje, o seu maior destaque é na área de comunicação liderado pela América Móvil que, no Brasil, é dona da Claro, Embratel e sócio da Globopar. Slim tem empresas em muitos países na América Latina e Estados Unidos. O nome desse grupo é Carso, fusão de Car de Carlos e So de Soumaya, sua mulher, falecida em 1999. Sua herança fenícia o fazia vender doces para parentes e amigos, aos 15 anos. Ao casar, aos 21, recebeu do pai um grande terreno para construir sua casa. Pensou, resolveu fazer nele um prédio de apartamentos, morando em um deles. Os outros, vendeu e/ou alugou. Começa aí a saga de investidor imobiliário que empreendeu, entre outras coisas, centenas de edifícios. Não parou nisso, comprou uma falida fábrica de cigarros e a recuperou. O mesmo o fez com uma cadeia de restaurantes. Quando da privatização da Telecomunicações Mexicana- TelMex, a arrematou, e a transformou, posteriormente, na América Móvil. O conheci, em agosto de 2002, em recepção e almoço no Palácio do Itamaraty, na assinatura do acordo de redução de tarifas entre o México e o Brasil, pelos então presidentes Vicente Fox e Fernando Henrique. A então embaixadora do México, Cecília Soto, conversava comigo e, à época, a embaixadora americana, Donna Hrinak, quando se aproxima Carlos Slim, a quem não conhecia. Ela o apresentou. Sentamos em uma mesa, mas Slim, ao mesmo tempo em que falava conosco, pedia desculpas, e usava, em voz baixa, mais de um celular. Intrigado, perguntei a ele, por que não desligava os celulares. Ele, polido, disse: esse é o meio com que me comunico com as minhas empresas. Depois, soube que Slim não usa computadores, embora seja um dos maiores vendedores deles do México. Econômico, sua despesa pessoal mensal é de apenas R$ 40 mil reais. Agora, com recursos de sua fundação, inaugurou na cidade do México o Museu Soumaya, grandiosa, arrojada e bela edificação contemporânea, com 66.000 obras de arte, de todo o mundo. O Museu não cobra ingressos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2011.
PENSAMENTOS COLETIVOS – Jornal O Estado
Depois do que aconteceu no Japão neste março de 2011, país bem preparado, por sua posição geográfica, para se defender de abalos sísmicos, mas não tão aparelhado para o consequente “Tsunami”, ocorreu uma inquietação verdadeira na maioria dos habitantes lúcidos do planeta Terra. É preciso que todos saibam do tamanho ínfimo da Terra em meio ao universo. Quem tiver tempo, procure ver a dimensão da Terra comparada a grandes planetas. Nada mais que um mero ponto azul. E é nesse pequeno ponto azul que vivem os sonhos, as esperanças, as ambições, as desditas e mazelas de quase sete bilhões de pessoas. O nosso Brasil, “bonito por natureza”, no verso de Jorge Bem Jor, citado por Barack Obama, vive o sonho da emergente grandeza. Demonstrando atitude mandou 500 milhões de dólares para o Japão. O prejuízo japonês, ainda não calculado, é de muitos bilhões de dólares, isto sem falar no mais importante, as milhares de vidas perdidas que ainda estão sendo contadas e retiradas dos escombros. Voltando às nossas inquietações pessoais ou pensamentos coletivos, é lúcido fazermos algumas perguntas: por quais razões lutamos como desesperados por toda uma vida e, quase sempre, não usufruímos o que, quase no final, conseguimos? Que mistérios são esses que nos impelem à vaidade sem limites em todos os campos do conhecimento? Por qual razão é tão forte o “”lobby” internacional para a construção de usinas nucleares como fonte da energia elétrica que desperdiçamos por descaso ou por entender que isso não nos diz respeito? Será que os ambientalistas ao impedir a construção de barragens para a construção de hidrelétricas, produtoras de energia limpa e barata sabem o que estão fazendo? Sabem vocês qual a potencial intensidade da radioatividade de um reator da usina sinistrada de Fukushima? Cem vezes a bomba atômica que os Estados Unidos lançaram do avião “Enola Gay”, em 06 de agosto de 1945, sobre Hiroshima, quando morreram 140.000 japoneses. A radiação matou gente até cinco anos depois. Vamos orar para o pior não ocorrer agora. O tal progresso que nos permite saber quase tudo a todo instante não descobriu, com todo o aparato científico disponível, solução para prevenir as destruições dos furacões, terremotos e “tsunamis” que, mesmo antecipados, não podem ser debelados. O que ainda se consegue fazer é evacuar populações para abrigos ou para muito longe do perigo. Agora mesmo, abri um sítio eletrônico, www.painelglobal.com.br que nos permite ver, em tempo real, o que está acontecendo na Terra em termos de terremotos, furacões e inundações. Nesse mesmo sítio, pateticamente, você é obrigado a ver anúncios de todos os tipos de quinquilharias para venda. A utilidade faz parceria com a vaidade. É assim, infelizmente, que a Terra gira. Por sinal, o acontecido no Japão mudou o eixo do nosso planeta azul.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/03/2011.
MULHER, POESIA PURA – Jornal O Estado
Segunda, 14, data consagrada a Castro Alves e à Poesia, tive a ventura de juntar poetas. Alguns, em carne viva. Outros, em versos eternizados. De todos, recolhi poemas. Os daqui, eles mesmos os indicaram. Os do além, eu os escolhi. Poemas são mergulhos dos quais emergem respingos de sombras, amores, sonhos e dores. O tema: mulher. Vocês verão aqui, em rigorosa ordem alfabética, pequenos trechos de poema de cada poeta. Recorte e guarde, se desejar. Vou numerá-los, para que você, leitor, possa saber, com clareza, de quem são os poemas, sem aspas: 1. Antonio Girão Barroso: Maria, na doce paz deste poema sem lágrimas/minha mão quer te ofertar rosas e não versos; 2. Artur Eduardo Benevides: Porque ao fim da tarde já cheguei,/sentindo que meus dias vão findar,/jovem- só por te amar – ainda serei;3.Carlyle Martins: E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,/de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos/dirão que enlouquecemos de paixão;4. Carlos Augusto Viana: O teu corpo é um barro alucinado, /fruto de finas águas; e os tecidos/que o cobrem têm o âmbar cultivado/por dedos de farândolas tingidos;5. Carlos Drummond de Andrade: Para amar uma mulher, mais que/tentar conquistá-la/ há de ser conquistado…todo tomado e, um pouco de sorte, também ser/amado; 6. Castro Alves: Eu fui a brisa, tu me foste a rosa,/fui mariposa,/-tu me foste a luz;7.Cecília Meireles: Está vendo os salões que se acabaram/embala-te em valsas que não dançou/ levemente sorri para um homem/O homem que não existiu;8. Cid Carvalho: Pois sigo na lágrima tua e quando encostas /o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso/do meu cavalo louco nos caminhos do fim;9. Dimas Macedo: quero-te o ventre/partilhado de lírios./E os círios acesos/de teus lábios;10.Florbela Espanca: Amo-te tanto! E nunca de beijei…/E neste beijo, Amor, que eu te não dei/guardo os versos mais lindos que te fiz;11. Francisco Carvalho: Assim nasceu o pecado, segundo/a escritura bíblica. Alguns sábios/acreditam/nessa ingênua metafísica;12. Gerardo Melo Mourão:… eterna solidão da eterna noite/ e teu último poeta fere na pedra a boca//súbito lembrada do teu nome;13. Giselda Medeiros: E sei mais: que por amor/tornas gostoso o amargo do jiló/e que fazes nascer um sol indefinido/na escuridão dos eclipses da vida 14. Horácio Dídimo: O pão nosso de cada dia nos dai hoje/pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não há ternura/pelo fruto de suas entranhas; 15. João Dummar Filho: És a virgem exigente/e eu o pecador/és a verdade esplendorosa e eu, da existência a dor; 16. Batista de Lima: E Deus/ criou a mulher/para dar luz/ao homem;17. Barros Pinho: Nos olhos da amada/o verbo edifica/os acentos da solidão; 18. José Telles: Não preciso, sequer, / tocar tuas entranhas, /dá-me apenas a paisagem do teu corpo para ser aplaudida;19. Juarez Leitão: Os pés de Donamaria contam histórias/de muitas lutas e poucas maravilhas!/Os calos são medalhas de suas glórias / conseguidas nos lombos dessas trilhas; 20. Leda Maria: Vez ou outra, acordamos mas/ lentamente, repetindo textos santos,/canções de marinheiros/e versos de partida; 21.Linhares Filho: Meu destino é a quietude que se esconde sobre tuas/algas e sob a tua salsugem;22.Luciano Maia: Ó musa ignota, ser misterioso/caprichosa, lindíssima mulher/ e me fazer ousar: e ainda ouso/ o poema encontrar, onde ela quer; 23.Millôr Fernandes: Deus, a graça é imerecida,/mas dai ainda/ uns aninhos de vida; 24.Octavio Paz: Teu corpo se constela de signos verdes/renovos num corpo de árvore/ não te imposta tanta miúda e cicatriz luminosa:/olha o céu e a sua verde tatuagem de estrelas; 25.Olavo Bilac: Amo-te! Sou feliz! Porque, do Éden perdido,/ levo tudo, levando o teu corpo querido/pode em redor de ti, tudo se aniquilar/tudo renascerá cantando ao teu olhar; 26.Paul Verlaine: E os cuidados que vós podeis ter são apenas/andorinhas voando à tarde pelo céu/-Querida- num belo dia de setembro; 27.Pedro H.S. Leão: eterno é o que um só segundo/ é o que passou tão de repente/ sem dar tempo amanhecer; 28.Regine Limaverde: Sofro pelas mulheres que não tiveram/ os seios tocados/ os lábios procurados;/que se cansaram, em vão, ou jamais dormiram/ no leito de um Deus;29.Roberto Pontes: Felizes são aqueles que amantes/dão-se de todo aos ritos do seu jogo/ e amparam suas mágoas e desejos/ na reciprocidade sacra dos seus ventres;30.Soares Feitosa: Mantive a prisioneira sob algemas/que ninguém é louco de manter/tesoiro tão rico ao léu;31.Vinícius de Moraes: E de te amar assim, muito a miúde/é que um dia em teu corpo de repente/ hei de morrer de amar mais que pude;32. Virgílio Maia: Trago-te a mim, te entrego os corações/que flechados e azuis tragos nos braços. /Quero agora guiar-me por teus passos/ E no teu corpo haurir loucas lições; 33. Walt Whitman: Não se envergonhem, mulheres/é de vocês o privilégio de conterem/os outros e darem saída aos outros; 34. William Shakespeare: Assim é o meu amor e a ri reporto/ por todas as culpas eu suporto.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/03/2011.
DIA DA POESIA – Diário do Nordeste
Poetas mourejam palavras, metafísicos da escrita que são. Acolhem e transmudam em versos a sensibilidade, os sinais, os símbolos, os sentidos, os sentimentos e os sonhos. Madame de Stael, em De l’Allemagne fala que “a poesia é a linguagem oficial dos cultos”. Concordo com ela. Há que haver muita estrada para atingir a Meca do saber. É preciso vida vivida antes de alinhar vocábulos, procurar metáforas, quiçá um mero verso. Dizia T.S. Eliot que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Estar poeta não é ser poeta. O poeta fica, os outros, passam. Castro Alves está, altaneiro, em uma gávea perpétua. Olavo Bilac vive uma alvorada de amor eterno. Carlos Drummond de Andrade faz versos livres no paraíso dos poetas e João Cabral de Melo Neto é o diplomata do uni verso. Vinícius de Moraes povoa birosca celeste cantarolando. Cecília Meireles, talvez atrás da coisa que passa, virou asteroide. A poesia não explica, ela é a dúvida. A poesia não ensina, ajuda a pensar. Alcides Pinto conversa com São Francisco, não mais no Estreito, mas na imensidão do Cosmo. Antônio Tomás, o padre, polvilha sonetos em nimbos celestiais. Gerardo de Melo Mourão fala sobre a invenção do mar para a escuta de Luís de Camões. O poeta, digo eu, não o é porque se assume. Sê-lo-á se for vero e isso tempo leva. Amanhã, segunda, 14 de março, é o Dia da Poesia. A galeria Benficarte acolhe poetas brasileiros, vivos e no além, para mostrar o que disseram sobre o ser mais misterioso do planeta: a Mulher. Não há quem a defina sem que falte algo essencial. A mulher habita a sensatez, mas palmilha o descompasso. Seu coração pode estar fechado, mas suas artérias permitem a circulação do bicho-homem, esse ser dependente/independente que, com ela, povoa o mundo. Virgílio, poeta latino, dizia que a mulher é “inconstante e sempre mutável”. Quem poderia chegar mais próximo de sua essência? O poeta. Por tal razão foram reunidos, de forma plural, para homenagear a mulher, no dia consagrado ao poeta Castro Alves.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2011.
CRÔNICA DO CARNAVAL – Jornal O Estado
Acabou-se a esbórnia. Escrevo nesta quarta, cinza por chuvas que caem em meio a uma cidade que se repovoa depois de quatro dias de sandices. Para que serve mesmo o carnaval? Pergunta um amigo filósofo. Sei não. Apenas sei que é atrelado à quaresma, essa trégua cristã de quarenta dias que, quase sempre, termina em outros feriados não tão santos. A propósito, a CNBB, da Igreja Romana, lançou agora a Campanha da Fraternidade deste ano: Discutir a vida no nosso planeta. A vida eterna fica para depois. Do Rio, Danuza Leão resmunga contra a falta de sentido dos espetáculos do Sambódromo e faz crer que ele apenas é reduto de bicheiros, traficantes, figurantes, celebridades (ela que o foi no século passado, fala de cátedra) e de turistas incautos e insones com as nádegas anestesiadas, enquanto Roberto Carlos e Gisele Bundchen são mostrados com exclusividade por uma rede de televisão. Acabou a festa. Limpe-se o que foi sujo. A presidente Dilma voltou da “Barreira do Inferno”, seu local escolhido para descansar no Rio Grande do Norte. Deveria lançar foguetes contra certos políticos. Enquanto isso, cervejeiros foram presos no Rio de Janeiro por fazer xixi nas ruas. Alegam, alguns dos detidos, que as cabinas plásticas são como celas de presídio, pequenas e sujas. Devem saber do que falam. O ex e futuro candidato a candidato a presidente, Aécio Neves, aparece em feijoada boca livre com a camisa estampando a palavra devassa e é alvo de beijos encomendados ou espontâneos. Romário, o deputado federal, agora de passaporte diplomático, faz o que gosta: aproveita o carnaval para jogar futebol com amigos em país que integrava a URSS. “Bruna, a surfistinha” é vista por todos, até pelo Contardo Calligaris, psicanalista e cronista, que diz ter gostado do filme. Leonilson, artista cearense, nascido no Benfica, morto em 1993, aos 36 anos, ocupa página inteira da Folha. Na sua terra quase não se fala dele. Há uma escultura sua na Beira Mar da Praia de Iracema. Maria Luiza Fontenele e Rosa da Fonseca aproveitam o público da Domingos Olímpio e divulgam sua utopia em folhetos. Por falar em utopia, a feminista Rose Maria Muraro (lembram dela?), aos 80 anos, prepara o seu 36º. Livro: “Um mundo ao alcance de todos”. Quando será isso? Um carro, dirigido por mulher, se recolhe ao leito do canal da Aguanambi de pneus para cima. Ninguém morreu, ainda bem. Nos condomínios lotados da orla leste caminhões limpa-fossas recolhem dejetos, deixam olores no ar e respingos nas estradas. Jovens morrem no país inteiro. Só na Bahia, de todos os santos e axés, foram 4.120 atendimentos em postos de saúde. O péssimo livro “A Cabana”, de William P. Young, continua entre os mais vendidos, certamente para pessoas que deveriam aprimorar a leitura. Raymundo Netto prossegue com sua boa e “serial” crônica “Coisas engraçadas de não se rir”. O Dia da Mulher, terça, 08, foi lembrado por poucos. Estavam quase todos invocando Baco. Evoé. Parabéns a todas as mulheres, construtoras de um mundo sem limites neste século 21.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2011.
EDSON E FRIAS – Diário do Nordeste
Esta semana, lendo a edição comemorativa dos 90 anos da Folha de São Paulo, estabeleci conexão entre Edson Queiroz e Octávio Frias. Ambos eram comerciantes, como Frias gostava de ser chamado, ou empresários, ou empreendedores, como hoje se diz. A diferença entre Edson e Frias é que este comprara em 1962, em sociedade com Carlos Caldeira Filho, a Folha, que já havia passado por duas outras mãos, desde a sua fundação, em 1921. Edson – empresário de sucesso na distribuição de gás liquefeito de petróleo, indústria de eletrodomésticos e pela implantação da Universidade de Fortaleza, decidiu fazer um jornal, a partir do nada. E o montou de forma acelerada, mas planejada, com bons profissionais e consolidou o seu grupo de comunicação, possuidor de televisão e rádio. Ambos, Edson e Frias, eram diretos em seus objetivos. O jornalista Clovis Rossi conta, nessa edição comemorativa, conversa tida com Frias. Rossi era correspondente em Buenos Aires e estava cansado de ficar lá, queria viajar. Ele escreve: “Frias, cortou logo o papo com uma frase que não consegui esquecer… O que você prefere, viajar mais ou ter a independência que tem para escrever o que quiser?”. Edson era também direto, obstinado e ajudava, sempre de forma discreta, como o fez com o seu diretor Astrolábio Queiroz, até o fim. O mesmo, com o radialista Paulino Rocha. Lembro do dia 04 de dezembro de 1981, quando saiu o número zero (teste) do Diário do Nordeste. Amigos de Edson Queiroz, entre eles, eu e o Antônio dos Santos, então presidente da Assembleia Legislativa, que, interinamente, ocupava o Governo do Ceará, confraternizavam, visitavam as oficinas e saiam de lá com exemplares do DN ofertados por Edson, em mangas de camisa e radiante. O primeiro número saiu logo no dia 19. Trazia o editorial “Compromisso de Luta”, falando dos objetivos do jornal com novidades como a segmentação em cadernos e excelente feição gráfica. Hoje, quase 30 anos passados, relembrei esses fatos ao ler a bela edição comemorativa da Folha que, inclusive, relata de forma clara e sem sofismas seus sucessos, erros e percalços. Como dizia Machado de Assis: “O jornal é a verdadeira forma de república do pensamento”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2011.
CUIDADO COM A CHINA – Jornal O Estado
Creio que estamos nos preocupando demais com as crises do mundo árabe/muçulmano e esquecendo a China. Não que as crises e ditaduras do mundo árabe/muçulmano não devam nos preocupar. A China é um país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Capital e interior. Não como turista, mas procurando ver o que não nos mostram e o que estava atrás de muros. Lembram os muros onde os toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois muitas micro-casas (6 m2 ou um pouco mais) ficam atrás de muros parecidos. Alguns muros são bonitos, tem até paisagismo moderno, mas na “passagem do toureiro” para a parte interna há uma brutal diferença. Há ainda muita pobreza na China, a diferença é que o jovem chinês tem mais ambição e foco que qualquer rapaz do mundo ocidental. Eles sabem que só há uma saída para cair fora dos guetos em que vivem, o conhecimento. Assim, estudam, mas para valer. Trabalham, igualmente, sem descanso. As “roupas comuns dependuradas” mostram como se assemelham às favelas brasileiras. Por outro lado, fora dos muros e de edifícios antigos e decadentes, há a China rica, esfuziante, com os mesmos luminosos bregas de Las Vegas. Há os chineses que atingiram o patamar do bem-estar, embora morem em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram os hábitos, vestem roupas copiadas dos ocidentais e até se acostumaram a beber vinho. Um exemplo: no ano passado, 2010, a China foi o maior consumidor do mundo de vinho francês tipo bordeaux. Consumiram 20 milhões de garrafas. Isso não é nada se compararmos com a população de 1,6 bilhão de pessoas, mas é um indício. Os deslumbrados de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Os casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos, não só nos hotéis internacionais, mas nas ruas e em centros comerciais. Você pode comprar bolsas Louis Vuitton originais em lojas do grupo francês LVMH ou, simplesmente, optar pelas imitações em mercados populares. Iguais os da Rua 25 de Março, em São Paulo. Dizia, no começo, que devemos nos preocupar com a China. Hoje, a China industrializada e poderosa – 2ª. economia do mundo – tem tentáculos em toda a África. Nada de ideologia ou guerra. A China tem exércitos de empresas trabalhando em todas as áreas industriais que vão, pouco a pouco, sendo quase donos de parte considerável dos países africanos e em outros continentes. Aqui no Brasil, já se sabe, a China é a nossa maior parceira comercial e vai em frente, acreditem. Hoje, penso eu, que a tal geração Y, a nascida depois dos anos 80 do século passado, deveria estar estudando Mandarim, a língua de lá. A geração Z – que ora assim denomino – nascida já neste século, cruzará, sem erro, com grupos de chineses, seus negócios, universidades e a nova cultura sínica que tem a sabedoria de agregar toda a tecnologia contemporânea, mas sem esquecer os velhos sábios, lendo a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Analectos”, de Confúcio. Esses livros, tais como a Bíblia, têm várias versões através dos séculos, mas dão uma ideia de como a filosofia “Tao” serve, inclusive, para os chineses endinheirados de hoje que se sentem os “tais” e acalentam os sonhos dos pobres que estudam, lutam e pensam atingir outros patamares de vida. Aprender sem pensar é tempo perdido, dizia Confúcio.
João Soares Neto, escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/02/2011.
O QUE É MBA? – Diário do Nordeste
Recebo telefonema de pessoa amiga referindo-se a tópico que abordei último domingo neste DN: a baixa qualidade do ensino brasileiro. Pede que fale “do engodo que são, em grande maioria, os chamados MBAs, espalhados pelo Brasil”. Na verdade, MBA é, originariamente, Master in Business Administration, curso de dois anos de mestrado, criado nos Estados Unidos e disseminado pelo mundo. Profissionais de nível superior, independente de suas formações, se dispõem a fazer esse mestrado para concorrer no competitivo mercado de trabalho de gestão que cobram de engenheiros, médicos, economistas e outros, capacitação e uniformização de linguagem técnica para suportar a dureza da vida profissional. A Harvard Business School era a irradiadora desses cursos. Entretanto, a crise da economia americana em 2008 produziu quebras de empresas e demissões, com alerta para a mudança dos seus currículos. Segundo lista do jornal inglês “Financial Times”, a Harvard caiu para o 3º. lugar no ranking. Patriotada à parte, o jornal escolheu a London Business School(junto com a Wharton/Penn) como a primeira da lista dos 20 melhores cursos de MBA do mundo. Entristece-nos o fato de nenhuma universidade brasileira haver sido incluída. São dez americanas. França, China, Índia e Espanha têm duas. Inglaterra e Suíça ficaram com uma, cada. Nesta semana, Sabine Righetti, jornalista da Folha, escreveu a reportagem “Para Inglês Não Ver”, lamentando que o nosso ensino superior só agora esteja se internacionalizando. Diz ser a língua inglesa básica para a interação de alunos e professores. Sei, por exemplo, que a Unifor está propiciando intercâmbios com universidades estrangeiras. O que ela faz é abrir a mente de professores e dos jovens para o mundo de agora, ao mesmo tempo em que estabelecem redes sociais para seus futuros profissionais. Voltando aos MBAs brasileiros, muitos são prosaicas pós-graduações – sem reprovações – realizadas em alinhavados fins de semana com estudantes de olho no relógio. Assim, são formas rápidas e fáceis de ganhar dinheiro de pessoas que ainda acreditam em diplomas, sem cuidar da sua formação continuada e ajustada à mutante realidade.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2011.
