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SOCIEDADE CONSULAR – Jornal O Estado

A Sociedade Consular do Ceará reúne, atualmente, os cônsules honorários dos seguintes países: Alemanha, Dieter Gerding; Áustria, Elfriede Reinhilde Lima; Belize, Airton Teixeira; Chile, Cleber Cunha; Colômbia, Maurício Duran Dominguez; Congo, Antônio Farrajota; Finlândia, Ednilton Soárez; França, Fernanda Jensen; Holanda, Annette de Castro; Hungria, Zsofia Erros Sales; Itália, Roberto Misici; México, João Soares Neto; Noruega e Suécia, Marcos de Castro; Portugal, Francisco Neto Brandão; Thecoslováquia, Raimundo Viana; Romênia, Luciano Maia; e Uruguai, José Maria Zanocchi. Há boas perspectivas de novos associados para, reunidos e em consenso, torna-la mais forte e coesa. O cônsul honorário é pessoa escolhida entre candidatos, após profunda e criteriosa análise de seu currículo e história pessoal pelo governo do país representado para atuar em determinadas áreas geográficas, podendo abranger vários estados ou apenas um. Após a análise do país indicador, o governo brasileiro, através do Ministério das Relações Exteriores, em exame conjunto com o Ministério da Justiça, concede – ou não – permissão para atuar e lhe é expedida uma Carta Patente. Cada Cônsul Honorário passa a ser portador de Carteira de Identidade do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com matrícula própria, explicitando sua função. O Cônsul Honorário é responsável pelo registro cadastral de todos os nacionais do país representado, aos quais deve dar apoio e orientação, ao ser solicitado. Por outro lado, ele é o elo entre a sua Embaixada e as empresas do país representado com os governos estaduais e municipais, entidades de classe, federações e associações da indústria, comércio e serviço do(s) estado(s) onde tem jurisdição. A atividade de Cônsul Honorário não lhe dá nenhum tipo de remuneração, mas o obriga a, em casos concretos, a manter uma sede, receber autoridades, participar de solenidades, fazer viagens, ir a hospitais, delegacias de polícia e até a necrotérios para reconhecimento e autorizar trasladação de corpos. Cada Cônsul Honorário é ligado a um Cônsul pré-determinado da Embaixada de seu país, com quem troca informações sobre concessão de vistos, missões comerciais, mostras de arte, comunicação social etc. Voltando à Sociedade Consular do Ceará, ela estava sendo presidida pelo Cônsul Honorário da Suécia e Noruega, Marcos de Castro, mas, nesta semana, houve a eleição de uma nova diretoria cuja posse será às 19h00min horas do próximo dia 21 de fevereiro, uma segunda-feira, no Centro Cultural Oboé, na Rua Maria Tomásia, Aldeota. Os novos integrantes da diretoria da SCC estão cônscios de suas responsabilidades e esperam ter relacionamento mais próximo com as autoridades governamentais, de modo a ensejar afinidades e concretização de negócios beneficiando nossas exportações e importações de bens e serviços, bem como a divulgação adequada da educação, cultura e das artes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/02/2011.

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CONSTATAÇÃO ÓBVIA – Diário do Nordeste

Cidade é, literalmente, lugar onde vive o cidadão, muito embora muitos que nela habitam não possam ser considerados como tal. Cidadania pressupõe pleno gozo de direitos civis e políticos. Aqueles, portanto, que se obrigam a morar em condições subumanas, em encostas de morros, vias públicas ou zonas de risco, sem emprego de onde tirar o sustento e a dignidade, dependendo de favores ou mendicância, certamente não podem ser considerados cidadãos. Catadores de lixo e puxadores de carroças não estão, certamente, exercitando os seus direitos civis. O que se vê, todos os dias, em cada esquina deste Brasil urbano, além dos flanelinhas assumidos, são crianças com malabares, ambulantes, mendigos e as carroças pachorrentas cheias de materiais descartados pelos “privilegiados”. Basta de empulhação, de negar o óbvio e mistificar o futuro de pessoas que não sabem o que é esperança. Elas sobrevivem de forma instintiva e vegetativa, tirando do nada o seu sustento e, se se marginalizam, é porque não possuem habilitação para quase nada. Por ser tão baixa a qualidade do ensino no nível médio, as empresas, em sua maioria, empregam em seus escritórios e para funções simples, pessoas com formação superior. É claro que nas indústrias os operários não precisam da educação formal, mas carecem de treinamento profissional para lidar com máquinas e instrumentos mecatrônicos cada vez mais sofisticados, exigindo qualificação continuada. O avanço tecnológico é veloz e resulta em obsolescência e redução de mão-de-obra, de insumos e de custos fixos. A ordem é produzir mais com menos. Por outro lado, o Estado cobra tributo de tudo. O preço final de um bem ou serviço sempre dobra por conta da energia elétrica, carga tributária, obrigações sociais e afins. Muitos dos que nos representam nos parlamentos gastam o pouco tempo que dedicam às suas funções públicas em busca de verbas para prefeitos que os elegem, a barganhar votos por cargos em comissão e empregos terceirizados e dar entrevistas ocas. Por esta razão é que, entre tantos, cacique mora e domina Estado de mais baixo índice de desenvolvimento humano, é votado noutro, tão miserável quanto, e aceita mais do mesmo encargo com resignação.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2011.

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OS DETALHES IMPORTAM – Jornal O Estado

Quem usa dinheiro de plástico ou cartão de crédito/débito geralmente não sabe o que assina quando contrata com a empresa distribuidora. Na maioria das vezes, um “gerente de banco amigo” pede e você, como bom cliente, concorda. Vejo pessoas com dezenas de cartões desses em suas carteiras gordas. Não sabem o que estão pagando. Serão cobrados e renovados automaticamente. Nesta semana, li um artigo zangado de Lucy Kellaway, colunista do Financial Times, reproduzido aqui pelo Valor. Ela trocou de trem com um bilhete de preço superior ao cobrado naquele. Ao ser abordada pela bilheteira, mostrou o bilhete. A bilheteira disse: não vale. A senhora tem que pagar 91 Euros. Lucy respondeu: o meu é mais caro. Bilheteira: o seu só vale para aquele trem. Lucy: Por qual razão devo pagar? Bilheteira: A senhora deveria saber os termos e condições que estão disponíveis na Internet para usuários desta linha de trem. Enfim, Lucy acabou pagando, com raiva. Um dia desses entrei em uma grande loja e fiz uma compra simples. A vendedora me abordou com delicadeza: o senhor não quer receber o cartão tal? Respondi que não. Ela: é rápido e não custa nada. Para me ver livre da persistência, concordei. Depois de assinar um contrato e responder a um questionário insano que, idiotamente aceitei, ela disse obrigado e que eu receberia o cartão em casa. De fato, recebi não um, mas dois. No mês seguinte: vieram as cobranças de mensalidades dos cartões sem uso. Eu não havia lido os “Termos e Condições” que tinha assinado. As letras eram pequenas e o contrato/formulário era grande. O fato é que já procurei cancelar os ditos cujos cartões e até agora não consegui. O mesmo acontece com as compras pela Internet, com os bilhetes aéreos que compramos, não olhamos os “detalhes” e nos ferramos quando queremos mudar o dia ou horário. Todos os outros bilhetes são mais caros que os nossos, temos que pagar multa e ainda o custo financeiro ou avenças são prolixos e/ou chatos. Um exemplo típico: “Os clientes que usam este site devem estar cientes de que as páginas com endereço na internet tal são administrados por…” e tome blá, blá, blá sabido. A prova maior de que a maioria das pessoas não lê tais documentos foi a brincadeira feita pela empresa “Gamestation”. Ela mandou circular a seus clientes em que se comprometiam a vender suas almas. Dizia assim: “Se quisermos exercer essa opção, você concorda em abrir mão de sua alma imortal, e quaisquer direitos que você possa ter sobre ela…”. Quase todos concordaram. Sei que estou escrevendo sobre um assunto não muito leve, mas o meu objetivo é que você, a partir de hoje, não assine nada sem ler de fio a pavio, mesmo que isso tome tempo e sua vista fique cansada. O que vem depois que assinamos é que são elas. Experimente contatar para um Teleatendimento (call center) para ouvir a ladainha e a protelação de pessoas terceirizadas com nada a ver com a empresa responsável. Tudo na vida parece estar no detalhe que deixamos de ver.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/02/2011.

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O PREÇO DA ARTE – Diário do Nordeste

Newton Freitas, colecionador apaixonado por artes, editou em 2004 o seu Dicionário de Artes com verbetes em que ele registra, com ética, as autorias. Há pouco liguei para ele para falar de uma mostra de arte aberta nesta quarta-feira, em São Paulo, no Paço das Artes, que leva o esquisito nome de “R$ 748.600,00”, querendo traduzir o valor captado para financiar a exposição. Essa mostra, segundo Silas Martí, jornalista da Folha, “parece uma alegoria do que se propõe a discutir, a relação entre os artistas e o dinheiro”. Fique claro que estou falando de arte plástica e sigo André Malraux, escritor francês, morto em 1976, para quem a arte é “aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. Todos sabem que São Paulo reproduz o que aconteceu um pouco antes na Europa e Estados Unidos. Assim, essa “alegoria” tem sido objeto de exposições, ensaios e livros em todo o mundo. A Editora Zahar publicou o livro “Arte&Dinheiro”, de Katy Siegel e Paul Mattuck, que trata do assunto. A subjetividade da arte e sua idiossincrasia tornam alguns pintores célebres. Outros, não. Alguns conhecem a fama e a fortuna em vida. Muitas vezes é preciso morrer para ser bem vendido. Em dezembro passado, o quadro “Sol sobre Paisagem”, do pintor cearense Antônio Bandeira, falecido em 1967, foi vendido, em São Paulo, por 3,5 milhões de reais. As obras de arte dependem não apenas do verdadeiro talento e estilo dos seus criadores, mas do local e tempo onde são expostas, de agentes e vendedores ou “marchands”. Há muito marketing e vaidade em jogo nas ricas exposições e leilões regados com bebidas e comidas finas. Nem tudo vendido é bom e até há falsificações tidas como “genuínas” obras de arte que vão ocupar paredes de quem não quer perceber a distinção, às vezes sutil, entre o real e o copiado. Mas isso não cabe nesta história. O que vale dizer é que a arte continua viva, discutida, apreciada e até sendo objeto da recente criação, em Paris, da primeira bolsa de valores de artes do mundo. Assim, o mercado transforma a arte em mercadoria ou “commodity”, fazendo desaparecer o sentido idílico e a pura visão estética para a qual foi concebida. Uma pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2011.

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LEÔNIDAS, ENGENHEIRO E ESPÍRITA – Jornal O Estado

Conheci o engenheiro civil Leônidas Alves de Souza quando, ainda muito jovem, fui cuidar da administração de uma empresa de economia mista, a Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações, depois Companhia Cearense de Saneamento. Nesse tempo, Leônidas fazia a instalação de poços profundos por todo este Ceará tentando diminuir a carência de água do nosso sertão. Era um trabalho duro e ele o desempenhava com muita energia e responsabilidade profissional. Entretanto, vez por outra, Leônidas metia os pés pelas mãos e sumia por alguns dias. Homem forte, alto e capaz, deixava-se levar pelo temperamento que o transtornava, em alguns momentos. Sempre conversávamos e, ao final, tudo ficava resolvido. Logo, logo, saí dessa empresa de economia mista para ser dono do meu próprio destino, fundando, com a coragem e a cara, uma empresa. Passados alguns anos, procurei Leônidas e o convidei para trabalhar comigo. Ele já era quarentão, estava no segundo casamento, mas ainda tinha o mesmo temperamento forte e a fama de valentão, por ser destemido e não levar desaforos para casa. Tempos depois, Leônidas veio falar comigo sobre sua vida familiar. Recomendei cautela e que deixasse a cabeça esfriar. Ao mesmo tempo, sua velha amizade com Cid Sabóia de Carvalho, confesso seguidor da doutrina espírita, ia mexendo com sua cabeça. Parou de beber, reacendeu a sua fé e passou a usar roupas brancas como a mostrar que a paz estava se estabelecendo em seu coração, tornando-o manso e feliz. E nessa trilha foi se transformando em seguidor de Alan Kardec. Durante sete anos, visitava, nas manhãs de domingo, o Leprosário Antonio Diogo. Não contente apenas com sua transformação existencial, foi morar na área metropolitana de Fortaleza e montou com seus recursos e de amigos, no município do Eusébio, o Gepol- Grupo Espírita Portal da Luz, misto de grupo espírita, escola e abrigo para pessoas de todas as idades, especialmente idosos. Desligou-se enfim, após muitos anos de trabalho, da sua boa relação profissional comigo e se tornou, de verdade, um missionário da fé e protetor de centenas de pessoas que o procuram desde então. Virou o Irmão Leo. Sua fé avassaladora não se quedava. Hoje, dedica sua energia na área de cura, minorando ou extirpando males reais ou somatizados. Vai, inclusive, começar em Recife um novo trabalho, para o qual diz ter recebido chamamento. Há algum tempo, escreveu seu primeiro livro, “O Caminho da Felicidade”, lastreado na fé que professa e apaziguou seu espírito. Esse livro foi reeditado e vendido com êxito em todo o Brasil. Leônidas escreve com simplicidade, mas com embasamento teórico, abrindo sua alma e mostrando com clarividência a doutrina que professa sem alardes. Agora, nesta quarta-feira, lançou o livro “Sete Gotas de Espiritualismo Cristão”, com dupla apresentação, de autor e obra, pelos jornalistas Heraldo Pereira e Nonato Albuquerque, sem esquecer do trabalho silente e eficaz de Moacir Maia.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/01/2011.

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FELICIDADE E VIDA – Diário do Nordeste

Esta semana encontrei uma amarfanhada revista Época de maio do ano passado. E por acaso, pus-me a folheá-la. E não é que encontrei um artigo sobre felicidade? Este substantivo feminino com origem no Latim, língua que dizem estar morta, mas preenche vazios dos que escrevem e ainda dá nome a astros e plantas medicinais, entre outros. Desde a antiga Roma, o poeta Públio Siro dizia: “Não é feliz quem não se considera como tal”. Lá perto, na Grécia antiga, Ésquilo, um trágico, arrematava: “Apenas quem terminou sua vida sem sofrimento pode considerar-se feliz”. Horácio, também poeta latino, acreditava que “não existe felicidade completa”. John Stuart Mill, filósofo e economista inglês do século 19, sugeria: “Perguntai a vós mesmos se sois felizes e deixareis de sê-lo”. No século passado, Ezra Pound, poeta americano, criticava: “Felicidade: circulação apropriada de lubrificantes endócrinos”. Voltando ao artigo: ele afirma que a Dinamarca é considerada o país mais feliz do mundo. Em 2006, pesquisadores da Universidade Leicester, da Grã-Bretanha, acreditaram ter descoberto a fórmula de um “mapa mundial de felicidade” que trazia como pressupostos: saúde e educação pública de qualidade e o grau de satisfação da população com o futuro de seu país. A Dinamarca saiu vencedora por desenvolvida, alegre e onde a maioria das pessoas é irônica, como o era o seu falecido filósofo Soren Kierkegard. A razão da felicidade dinamarquesa é justificada pela absoluta liberdade de expressão, cidades seguras, a ironia ou a capacidade de dizer o contrário do que se pensa. E o Brasil, perguntam vocês? Não ficou entre os 20 primeiros classificados, mesmo com futebol, BBB, propaganda de cerveja e roda de samba. A propósito, outro dia a seguinte afirmação de Cristóvam Buarque gerou polêmica: “O Brasil ficou entre 8 melhores do mundo no futebol e entristeceu. Mas é 85º em educação e por isso não há tristeza”. Queremos parecer o que não somos, não nos contentamos com o que somos ou temos. Ou com o que importa. Somos perdedores ou vencedores, dependendo dos embates e batalhas, esquecendo, como queria André Malraux que a vida não vale nada, mas que nada vale uma vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2011.

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PAPÉIS AVULSOS – Diário do Nordeste

Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2011

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O DIA EM QUE MATARAM O PRESIDENTE – Jornal O Estado

Quis o destino que conhecesse Elano Paula e Chico Anysio no final da década de 60. Era eu pretensioso a ponto de conversar com eles, pensando falar de igual para igual. Imagine! Mal saído da universidade, conheci os dois irmãos e amigos, já consagrados.
Elano, engenheiro civil e empresário, tinha um pé no concreto, outro no rádio e na televisão. Veio ter à Fortaleza para fazer o novo em termos habitacionais e gestão empresarial, no tempo em que o computador era um grande móvel e precisava de climatização constante para funcionar sem problemas. É o letrista da música “Canção de Amor”, que imortalizou Elizete Cardoso, tem vários livros publicados, sabe pintar e é um conversador nato.
Chico Anysio ou Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho. ator, era e é como aquele polvo alemão, o Paul, que adivinhava o resultado dos jogos da última Copa do Mundo: sabe de tudo, antes. Atua, escreve livros, dirige, pinta, gosta de casamentos, filhos e de cavalos, tem mais de mil faces, bastando rodopiar no palco de cara limpa – ou não – para ser quem ele quiser. Tornou-se, por obra e graça de seu talento e profissionalismo, o maior humorista do Brasil.
Eles, cearenses, do Rio e do mundo, têm um amor declarado à cidade de Maranguape, onde nasceram. Há poucos anos, me convidaram para participar com os dois de um projeto novo: um blog com o nome Maranguape. Fiquei orgulhoso pela formação do trio e pela lembrança, pois a vida, o espaço e o tempo nos separavam. Agora, mais uma vez, sou surpreendido. Convidam-me para escrever a orelha do livro “O Dia Em Que Mataram o Presidente”, que fizeram juntos.
Eles, Elano e Chico, acostumaram-se, desde há muito, a trabalhar na área da literatura a quatro mãos. Esse novo livro é um romance brasileiro na feitura, personagens e enredo. Começa com um sequestro no Rio, perto do Arsenal de Marinha; explode um Boeing em Buenos Aires; um Senador da República, com a sua jovem e bela amante, sobe a serra de Petrópolis para encontro em fazenda da família; e, entre outros cenários, aparece o Planalto Central onde novas tramas são urdidas para matar o Presidente da República em Fortaleza.
O leitor deve saber que livro é um objeto precioso, de validade indeterminada, silencioso, sempre à disposição, sem nada reclamar. Esse livro vai torná-lo, se já não o é por natureza, curioso. Tão intensa é a sua exposição não linear que cada página poderá transformar o texto escrito em imagens mentais televisivas de um verdadeiro folhetim policial. As cenas irão sendo criadas pelo próprio leitor, acredite. Ele terá a oportunidade de saber como funcionam as cabeças de pessoas geniais como o Elano e o Chico. Duas palavras finais, orelha de livro serve também para marcar a página em que se para de ler. Nesse caso, penso que o leitor só parará na última que, por sinal, tem algo a ver com a primeira. É só aguardar o lançamento.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/01/2011.

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CHUVA E SOL – Diário do Nordeste

Chovia em Brasília quando a presidente eleita Dilma Vana Rousseff entrou, na sexta-feira passada. Foi na altura da Catedral desenhada por Niemeyer, no velho Rolls Royce, com capota levantada, para a posse no Congresso Nacional. Ao sair, o sol espreitava e ela pode, junto com a filha, desfilar de pé e acenar para a multidão. Nada do que digo neste escrito é novo, todos viram, leram ou ouviram. As televisões aclararam ao Brasil, no dia da posse e da transmissão de cargo, as diferenças básicas de personalidade entre o presidente que sai e a nova presidente. O que todos já sabíamos. Lula foi e é espontâneo, derramado, desenvolto ao falar, pouco se preocupando com o conteúdo, mas sempre focado na emoção e na reação do público que o ouve. Foi assim ao sair do Palácio da Alvorada, em carro fechado. Abaixou o vidro e foi acenando com a mão direita. Na hora da decolagem do avião que o levaria para São Paulo, lá estava ele na cabine do piloto, de vidro aberto, quase com a cabeça de fora. Na outra janela, D. Marisa Letícia também acenava. Dilma é diferente. Já deu para ver. É metade mineira, metade búlgara. Sua mãe, também Dilma, tem Silva no sobrenome. Seu pai, o imigrante bem-sucedido, Pétar Roussef, registrou a filha apenas com o Roussef. Aliás, na parte brasileira ela não é só mineira. De lá saiu adolescente, indo para São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília. Seu discurso escrito, como manda o protocolo, tinha 48 páginas. Não lembro de ter ouvido qualquer menção a seu falecido pai. É claro que discurso protocolar presidencial é feito em equipe, mas traduz, em sua essência, a característica de quem dá as diretrizes. Ela, a presidente, corta, acrescenta e até finaliza. Uma das palavras mais citadas no seu discurso foi mulher. Deu ênfase ao compromisso de erradicar a miséria de 18 milhões de pessoas, até 2014. Hoje, 43% das moradias brasileiras ainda são insalubres, não têm água e esgoto, causando doenças e mortes. Esse é um grande desafio, sem falar na carência de educação pública de razoável qualidade e das reformas tributária e política. A par disso, já estão circulando e-mails pedindo o fim da reeleição.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2011.

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O QUE HÁ DE NOVO APÓS O ANO NOVO? – Jornal O Estado

Há o que você tiver feito de diferente. Promessas foram feitas, está firme ou não vai cumpri-las? Ler este caderno Linha Azul é algo admirável. A palavra linha dá sinal de ser uma reta (a linha do trem), mas se a prolongarmos, imaginariamente, ela fará curvas sobre o planeta Terra até se encontrar com a ponta inicial. Lembra da Linha do Equador? Linha indica também a expressão “andar na linha”, isto é, fazer as coisas certas. Mas o segredo não é só fazer as coisas certas. O segredo, de verdade, é fazê-las no tempo certo. Acontece que só se sabe qual o tempo certo depois que ele passa. E depois que passa não tem mais graça. A linha, além disso, é parte da trama de um tecido, assim como as pessoas formam o tecido social, este que está contido neste caderno leve e que abre o fim de cada semana mostrando algo do que já aconteceu ou louvando, em sua primeira página, fatos ou pessoas. O caderno além de linha tem o nome azul. O azul pode ser a mistura do ciano com o magenta. É uma cor primária, calma, aquietada e que dá enlevo às pessoas. Configura a noite clara, lua plena, decorada com estrelas e constelações. Mas, todas as cores têm nuances, o azul tem um sem-fim. Nos enxovais de criança o azul representa o sexo masculino. Mera convenção. Em inglês, entretanto, a palavra azul (blue) pode, igualmente, significar tristeza, melancolia ou o nosso banzo herdado dos africanos. Os mesmos que, nos Estados Unidos, inventaram o “blues”, gênero musical melancólico, cantado ou tocado com expressividade, a partir de sua origem natural em cânticos nos templos religiosos, antes e após a libertação dos escravos. Assim, estar blue pode significar estar triste. Mas o jornal não pensou nessa hipótese, quer celebrar o fim de semana de forma alegre, prazenteira, com registro fotográfico, crônicas leves, artigos, colunas e muito mais sobre as pessoas, a matéria prima essencial deste caderno. O jornal cotidiano sabe de seu existir efêmero: um dia, horas, minutos, dependendo da paciência e interesse de cada leitor. Por tal razão, o caderno Linha Azul se faz agradável para a leitura de um público multifário espelhando a sociedade que retrata. E jornal – ou o caderno – só faz sentido quando passa de mão em mão, comentado, elogiado, criticado, recortado e até pisoteado. O ex-presidente Lula, em seus amuos, dizia não ler jornal para não ter azia. Mera metáfora para dizer que tinha adversários na imprensa. No primeiro dia, após Brasília, em seu apartamento no bairro Santa Terezinha, em São Bernardo do Campo, SP, lá estava ele com óculos, camisa regata e jornais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/01/2011.