Sem categoria

CALMARIA E BRASA – Diário do Nordeste

Estamos empanturrados de comida ou cheios de graça do Natal. Agora, nesta calmaria até o meio dia do 31, cuidamos de nossas vidinhas, agradecendo mimos recebidos, levantando as contas a pagar no novo ano, fazendo planos, a deletar ou aceitar as mídias sociais a nos assolar por todos os lados. Somos colecionadores de instantes. Eles nos agradam ou maltratam.
Ninguém é tão forte para já não ter esmorecido por conta de fatos ou pessoas. O ímpeto nos transforma em brasa; é a inquietação salvadora, a loucura a nos impelir ao desconhecido e a nos moverem cada jornada. Não há ano novo se as trilhas forem as mesmas. Devemos ter dúvidas, mas sejam elas dizimadas pela coragem de retirar a nossa âncora da masmorra existencial da inação. Mexa-se, dispense guias e vá abrindo as suas picadas, mesmo se cansar. Os mortos não cansam.
Cansar é estar vivo. Recupere-se, a água está ao seu alcance. Basta procurá-la como se fazia em criança brincando de esconde-esconde. Não se meta a besta. O homem lá de cima e os cosmos não gostam disso. Deixe de se achar. Não pose. Os cliques da vida e do insondável gravarão seus desvios. Seja você; não pense em adornos. Nenhum vai modificá-lo.
Todos ficamos nus. Há, a cada dia, um volume de inquietude a ser removido para não deixar sequelas. Não chore em silêncio, há ombros disponíveis. Ache-os. Divida, não subtraia. A calmaria é um hiato. A brasa é a constância. Queime-se. Enumere seus objetivos, mas dê um jeito de ajudar o destino ou a sorte. Não há jardins sem se estrumar o chão com as nossas próprias mãos. Para as rosas, dizia Machado, o jardineiro é eterno. Vida sem luta é pena. Feliz 2013.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2012

Sem categoria

PEDAÇOS DE NATAL – Diário do Nordeste

Agora que o fim do mundo se foi sem nos levar, poderemos comemorar o Natal. E perguntei a um homem do povo: se você tivesse dinheiro para comprar uma cesta de natal a quem daria?. Respondeu: Ao da minha raça, o Dr. Joaquim. Ontem, um sapateiro/engraxate, que conhece todos os cantos onde ando, pediu uma grana e falou que ia viajar para o interior. Agradece: Deus o abençoe. Semana que vem ele volta. A mesma conversa de sempre.
Neste começo de noite, recolho-me para cumprir estas linhas e antevejo o fim do ano, mas ninguém me explicou porque o peru é quem tem que paga o pato na ceia natalina. A propósito, há poucos dias, dialogava com um político em fim de mandato Ele dizia uma frase que ficou martelando: “política é para rico besta e pobre sabido”.
A sabedoria é diferente da sapiência, mas até bem pouco não se notava a diferença. Parece que neste Natal os sabidos estarão preocupados. Há no mundo uma mudança de ares e de cores. Sai, pouco a pouco, o branco anglo-saxão e emerge o amarelo da terra de Lao Tse. Países oscilam. Cá por nossas bandas os netos de escravos estão comandando o ainda maior país do mundo e duas cortes superiores brasileiras. É tempo de mandar a prepotência para o brejo, a falácia recolher-se em contos de fada ou botecos e os que se imaginam permanentes em qualquer coisa que leiam os obituários.
Gilberto Freyre, amado e odiado, dizia ser o Brasil o país das impossibilidades possíveis. Mas é Natal. É um breve tempo de reflexão, de encontros e fraternidade. Seria bom que fôssemos verdadeiros, sem farsas ou disfarces, como os do Papai Noel. Feliz Natal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/12/2012

Sem categoria

ANO NOVO, NÓS, FILAS E COTAS – Jornal O Estado

O ano vai ficar novo e nós seremos os mesmos? Desataremos os nós? O Brasil deu uma pequena repaginada – ainda sem versão final – em seus costumes no ano de 2012. Neste tempo de fim de ano cada pessoa tem direito a planos pessoais para o futuro. O futuro é depois do hoje. Eu gostaria, portanto, caro leitor, fosse acrescentado mais um item em seus projetos de vida. Adote um princípio consagrado na maior parte do planeta: ficar em fila. Nada de ser careta ou moralista. Não ficar em fila mostra pouca educação, incapacidade de obedecer a regras não simpáticas e achar-se com mais direito que os outros. Ficar em fila é questão de educação.
E por falar nisso, há ainda muita coisa por fazer no Brasil. Por exemplo, a péssima educação -ou instrução- nos coloca em 84º. lugar na fila do mundo, no campo do conhecimento. No censo atual (2010) do IBGE há registro de apenas 7,9% dos brasileiros com curso superior completo. No Nordeste, esse percentual cai para 2,3%. Se verificarmos o número de analfabetos maiores de 15 anos, chegamos a 13% ou 26 milhões de gente quase surda e cega para ouvir, ler e entender algo complexo. A informação, a educação, a leitura e o conhecimento aclaram as ideias e nos transformam em pessoas críticas ajuizando fatos com menor propensão de erro.
Estudamos quase nada, lemos pouco e não nos preparamos para as guinadas e os embates do mundo. Ele está girando em ciclos cada vez menores por conta do avanço tecnológico e da Web. Repito, 26 Milhões de compatrícios não sabem ler, escrever ou sequer garatujar o nome na carteira de trabalho. A educação, direito fundamental da pessoa, ainda não contempla, em nosso país, um arco significativo. É privilégio.
Entretanto, surgiu há algum tempo a ideia das cotas (por critérios sociais e raciais; e para alunos de escola pública) já em processo de consolidação e alguns milhares estão conseguindo, nesse caso, “furar a fila” do atraso para entrar na universidade pública e gratuita. Paradoxalmente, esse fato não é burlar a fila, tanto o uso das aspas, mas um reparo do Brasil na sua história permeada de injustiças e de desamparo. Por questões de raça, status e cultura, muitos não foram assimilados por uma sociedade preconceituosa a se julgar superior por força de sua pele, do local de nascimento ou dos cobres em seu bolso. As cotas vão eliminando desigualdades.
Ainda agor o nordestino migrante em São Paulo, levado em velhos ônibus clandestinos para ser porteiro ou zelador em prédios ou mão-de-obra barata em projetos ditos sociais, é tratado por “baiano”, como adjetivação pejorativa e preconceituosa. Ele vai direto para uma favela onde já tem parente ou amigo. Isso não é destino, é tragédia, tudo por conta da ausência de oportunidade de sua família incrustada em um grotão qualquer e da inexistência de educação básica na infância.
Voltando às filas: furá-las, no contexto, é não aceitar o outro à sua frente. É não respeitar a ordem natural das coisas. É procurar regalia em qualquer situação. É valer-se disso e daquilo para burlar os costumes e as leis. A esperteza, a malandragem, a promiscuidade entre o público e o privado é uma furação de fila enraizada a ser extirpada. Inclua o respeito ao outro e a si mesmo em seus desejos para 2013. O brasileiro precisa de epifanias. Feliz Ano Novo.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/12/2012.

Sem categoria

CULTURA E ARTE – Diário do Nordeste

Há anos, a profa. Universitária, Walda Weyne, realizou pesquisa em hemerotecas. Ela objetivava revelar ações culturais e artísticas dos anos 60 em Fortaleza. Valeu-se da coluna do Correio do Ceará, “Informes Acadêmicos”, escrita por mim. Comecei no jornal em novembro de 1962. Nessas colunas abordava a emergência da Universidade do Ceará, depois UFC, política universitária, cultura e arte. Dei uma lida nas centenas de páginas. Passo alguns com o cuidado de colocar datas, para referências. Começo com notas de 17.11.62: 1. “O Presidente da UEE, Barros Pinho, deverá executar um programa administrativo assessorado por capacitados alunos das escolas…”.2. “Surgem rumores que é pensamento do novo Governo criar uma Universidade Estadual…”. No dia 27 do mesmo mês, o Reitor Martins Filho rebate críticas do jornal Correio da Manhã: “Disse o Magnífico que se faz cultura popular na UC através do Museu de Arte, do Coral e do Curso de Arte Dramática”. Em 24.01.63 registro a discussão sobre a criação de uma revista cultural: “Cabe, portanto, ao diretor (da Imprensa Universitária)Paulo Elpídio e ao Reitor Martins Filho, que é também presidente da Academia Cearense de Letras, apoiarem tal iniciativa, que é séria e decidida”. No dia 06.05.63, falo do acidente de Lambretta do Prof. de Artes , o suíço Jean Pierre Chabloz: “tem recebido visitas dos mais destacados vultos das letras, artes e cultura de nossa terra”. Em 23.08.63: “Parsifal Barroso, Mozart S. Aderaldo e João Clímaco ministrarão aulas no curso de arte e literatura coordenado por Artur E. Benevides e que tem o patrocínio da Academia Cearense de Letras”. Eu fiz esse curso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2012

Sem categoria

MEDALHA DO SESQUICENTENÁRIO – Jornal O Estado

Quis o provedor Luiz Marques acolher, ontem à tarde, o meu nome para, de princípio, falar em nome das ilustres pessoas aqui agraciadas. Ora, a tarefa poderia caber, pela precedência, ao Deputado Federal, Padre e Provedor José Linhares Pontes, perene da Santa Casa da Misericórdia de Sobral. E, certamente, a todos os outros. Ser agraciado com uma Medalha Impoluta por instituição que comemora o seu sesquicentenário, com a respeitabilidade e o aprumo de conduta da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza é motivo de honra aos quinze laureados. As santas casas de Misericórdia no Brasil, sabemos todos, são entidades de benemerência nascidas antes da proclamação da República.
A Igreja Católica de Roma, de forma pioneira, criou, no século XIII, as universidades de Bologna, Paris e Oxford, para disseminar a cultura e a informação que se transmudam em reflexão e amadurecem como conhecimento a iluminar o mundo. Essa Igreja teve, séculos depois, a sabedoria e a compaixão de modelar, organizar e gerir, de princípio junto com o Estado, hospitais de caridade para atendimento aos pobres que eram, e ainda o são, a maioria da população brasileira. Resistir por 150 anos às bruscas mudanças de regimes políticos e às derivações episódicas – ou não- das múltiplas ordens econômicas e do intricado sistema financeiro, pressupõe o trabalho silêncio e profícuo dos que fazem o bem e, claro o descortino de suas gestões.
Um dos fatos que nos surpreende, com alegria, neste século XXI do quase esgotamento da colossal Europa, da emergência da China, da Índia e do Brasil, dos tempos e caminhos cibernéticos que suprimem palavras e empobrecem a linguagem culta é a manutenção de terminologias da pré-modernidade para a designação de suas mesas administrativas, seus mordomos e suas provedorias.
A tradição permanece na forma, mas há na pessoa do professor e engenheiro Luiz Marques a capacidade de gestão qualificada para dotá-la, junto com seus pares, de conteúdo científico e administrativo que supera as dificuldades entre as despesas, sempre crescentes, e as receitas defasadas impostas pelo SUS e demais órgãos que gerenciam a saúde pública brasileira.
Sabemos que cada um dos agraciados estabeleceu uma ponte, um “stent” ou uma sutura sem queloide com esta majestosa Casa, feita de pedra e cal, monumento arquitetônico alicerçado na fé de seus fundadores, mas, principalmente, no relacionamento atual dos dirigentes com os clientes, a sociedade, o seu corpo clínico, a sua área de enfermagem e o seu setor administrativo
As homenagens prestadas há poucos dias a médicos de nomeada que por ela passaram em processos de formação acadêmica e a demonstração publicada de afeto pelo Dr. Candido Pinheiro são atestados magníloquos dessa convivência prazerosa.
Ana Maria Fontenele, Antonio Edmilson Lima Júnior, Antonio Palácio de Queiroz, Horácio Marques, in Memoriam, Jaime Tomás de Aquino, Jorge Alberto Studart, José Kalil Otoch, José Linhares Pontes, José Raimundo Arruda Bastos, Luciano Pamplona Júnior, Raimundo Gomes de Matos, Roberto Proença de Macedo e Walter Belchior Fernandes não carecem de apresentação. Cada um de per si representa uma mostra qualificada e multifacetada da coletividade de Fortaleza. Nada haveria a acrescentar aos seus brilhos peculiares.
De minha parte, digo que sou, com orgulho, sobrinho-neto do Padre João Saraiva Leão, erudito e pastor verdadeiro, que foi Capelão com desvelo desta Casa abençoada pelo Criador, em boa parte do século passado. Faz-se mister destacar fato acontecido há décadas. Ao ser solicitado pela Prefeitura de Fortaleza para sugerir estudo sobre a então futura regulamentação dos cemitérios particulares da cidade, tive a acuidade e a lembrança de tornar obrigatória que parte significativa das receitas brutas desses campos-santos se destinassem, especificamente, a esta Irmandade e ao Instituto José Frota, o IJF.
Estas, talvez, sejam as razões da nossa presença nesta solenidade que consolida a convicção de que fazer o bem sem grandes alardes é um dos caminhos que justificam a breve passagem do homem pela vida. Por fim, em nome dos agraciados, o nosso reconhecimento ao Provedor Luiz Marques e a todos os integrantes deste íntegro sodalício.
O Estado-Ce, em 15.12.2012)

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2012.

Sem categoria

ALERTA AO GOVERNADOR – Diário do Nordeste

Senhor Governador: Fortaleza, segundo o Ipece, possui 130 mil analfabetos. Na verdade, se aditarmos os funcionais, os querabiscam o nome e não sabem juntar letras em frases, o número sobe para 500 mil. Além disso, metade de seus 2,5 milhões é pobre. Pobreza não é fato. É falta de estudo e chance. É bom que a cidade se renove para as Copas, mas melhor seria se não houvesse mendigos, catadores de riquixás das sobras alheias, meninos cheirando “crack” e famílias faveladas.
A educação deve ser prioridade tal como o Centro de Eventos, o Castelão, o Aquário, a refinaria, a integração do metrô, comunicação, estradas e viadutos, casas populares, água e esgotos, delegacias, hospitais, presídios e a futura ponte estaiada. Em toda a cidade há pobreza e delinquência. Até na rua da residência do governo desfilam jovens “dependentes” e ociosos.
O óbvio: a cultura decorre da educação. Analfabetos têm dificuldades em concentração para pensar, ver peças de teatro e filmes. Convoque gente capaz para os conselhos de Educação e Cultura, não aceite imposições de lobbies. Conselhos devem aprofundar argumentos e não interesses. O Dragão do Mar, o Centro de Eventos e tantos outros equipamentos estaduais podem servir de núcleos de ensino fundamental. Repito: educação é base. Cultura é consequência.
O Ceará não pode ter cara de rico enquanto não resolver a miséria, o saneamento básico e o analfabetismo. Exemplos: 1. as mortes e sequelas diárias decorrentes da profusão de mototaxis são atestados da procura de sobrevivência por ausência de qualificação. 2. Camelôs são empreendedores potenciais a busca de espaço para a lida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/12/2012.

Sem categoria

ENERGIA CARA – Jornal O Estado

Todos, exceto os poucos que têm energia subsidiada, sabem que o Brasil pratica um dos mais altos preços do mundo. As distribuidoras falam dos graves e grossos impostos que nós, os consumidores, pagamos -além da conta -para encobrir os lucros exorbitantes que têm. O Governo precisa de impostos para manter a mastodôntica máquina de funcionários e terceirizados que infla a sabor dos interesses políticos. Enquanto isso, empresas há que paralisam por não ter condições de trabalho com o preço alto cobrado. Tinha um amigo que finou por não aguentar as pressões de uma conta astronômica todos os meses. Preferia pagar os empregados. Cortaram-lhe a energia e a vida feneceu.
Agora, surge, enfim, uma Medida Provisória (579) que pretende baixar, em 2013, 20% da conta de energia. Entretanto, alguns dos deputados e senadores que elegemos estão boicotando a sua votação. Sabe-se, a partir de fatos, que os conselhos criados para as agências reguladoras, a de energia, inclusive, servem para pouca ou nenhuma coisa. Igualmente, os conselhos das empresas concessionárias de energia são compostos por representantes de entidades que compactuam com os elevados preços das tarifas, dos serviços que lhes são exclusivos e, via de regra, terceirizados por uma ninharia a pequenas firmas.
É hora de se ter um olhar sério para a coisa pública. Não é republicano, tampouco justo, o modo como o sistema brasileiro de energia elétrica funciona. Não há cabimento para que no horário de (pico) maior demanda (das 17h30min as 20h30h) empresas paguem até 300% a mais pelo custo da mesma energia, enquanto em muitas repartições públicas, Brasil afora, as luzes ficam acesas apenas para deleite ou para fingir que há alguém trabalhando no horário noturno.
O Brasil tem hidrelétricas e pagamos todos os meses, impostos para construções de novas termelétricas e hidrelétricas. Demos a metade da Itaipu ao Paraguai, por meras razões políticas. Por que tudo é transferido para o consumidor? Qual a parte do Governo? Apenas aumentar impostos?
O próprio Maquiavel, ídolo de políticos ilusionistas, dizia no século no século XVI: “Uma república sem cidadãos de boa reputação não pode existir nem ser bem governada; por outro lado, a reputação dos cidadãos é motivo da tirania das repúblicas.”

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/12/2012.

Sem categoria

O CENTRO E A CULTURA – Diário do Nordeste

Esta semana fui ao centro. Era o menino da Major Facundo que conhecia as famílias Pinheiro, do prof. Edmilson; Rocha, do Sr. Campoamor; Vidal, do Sr. Luiz; Siqueira, do Sr. Geminiano; Barreira, do prof. Dolor; Maia, do livreiro Luís Maia; Carvalho, do prof. Valdevino e outras. O significativo eram as pitangas, o Farias Brito, o Ginásio Municipal, a Igreja do Carmo e o Posto Citroën.
A pouco passos ficava a Praça do Ferreira, com seus fícus-benjamim, a velha coluna, aleias e bancos. Acolhia ônibus, carros de corrida, jornaleiros, engraxates, o Excelsior Hotel, o São Luiz, a Leão do Sul, o Mundico, a Flama e o Abrigo Central, idealizado por Edson Queiroz. Na esquina, a Rotisserie e, em seguida, a Igreja do Rosário “dos Pretos”, assim descrita e pintada por Descartes. Ao lado, o Palácio da Luz, com duas alas, a do governo e a residência oficial.
Passa o tempo, já universitário, aluno de Parsifal Barroso, Governador do Ceará, lá fui deixá-lo por vezes, em meu Anglia. Só havia um carro oficial, um Ford preto, G-1, que cumpria outras tarefas. O amigo Rui Filgueiras e os colegas Alfredo Couto e Gerard Boris, eram guapos oficiais de gabinete.
Décadas giraram. Voltei, pela Fortalezense, ao casarão, agora centro da cultura, e o vi sujo e grafitado. Pedi ao então Presidente da Casa, prof. Murilo Martins, permissão para pintar o seu exterior. O fiz com a ajuda do José Macedo e do Corpo de Bombeiros. Depois, reunimo-nos com arquitetos, engenheiros e historiadores. Foi elaborado um projeto para restauro e afins que tramita no Ministério da Cultura. Preservar é preciso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2012

Sem categoria

CRÔNICA DE NATÉRCIA CAMPOS – Jornal O Estado

Em pequenas folhas de papel, com gravuras do francês Claude Monet(1840-1926), recebi, em janeiro de 2002, esta carta de Natércia Campos, a amiga escritora que perdi para o inescrutável, depois de anos de luta.
Natércia viajava a Brasília para a posse da filha Clarissa em função pública, decorrente de concurso. Escrevi, antes da sua viagem, algumas palavras em postal do reconhecido pintor americano Edward Hopper (1882-1967), que retrata, basicamente, situações que falam de solidão. Como dez anos passaram, creio poder dar a palavra à Natércia Campos, com partes do texto integral, por escrito, que guardo:
“João, estou no saguão de espera. O vôo sai às 15.40hs. São 15.10hs. O que me faz feliz é ter recebido seu cartão ‘de surpresa’, ler e ser por você instigada!. As perguntas me levam a pensar, a imaginar e esta expectativa é a pitada exata de sal…se não houvesse esta reprodução de Edward Hopper eu estaria aqui a espera, lendo a “Veja”(acabei de adquirir) e no “ao” vou ler o Mainard… e lógico pensarei na próxima alegria da Clarissa quando avistar a Mâiñha (assim ela me chama).
Agora já afivelei o cinto. São 15.50hs. Atrasou. Você e o seu cartão me levam para outros caminhos e devaneios. Bem prática, olho a mulher e penso que ela aproveita o sol estival. Assim também é o sol que atravessa minha janelinha deste avião. As janelas da sala dela são altas e os vidros refletem um céu azul sem nuvens. Ela é uma mulher ordeira. Na mesa só vaso com flores quebra com a luz o frio da cena. Ao longe vislumbro uma cidade. Ela já deve estar em um subúrbio, pois é grande a distância. Ela está impecável, o cabelo bem cortado revela seu pescoço longo e branco. Os reposteiros estão levantados quase na mesma altura. Eu não gostaria de aqui viver. Nela descubro coisas que diferem de mim: não gosto de estar sozinha e de costas para todo um ambiente (quarto ou sala)…tenho a sensação de estar indefesa. O avião começa a se mexer… vai de ré. São 16,05! Gostaria de tê-lo ao meu lado. Engraçado, a cadeira está vazia. Um cheiro d’eu.”
E continua, após a decolagem: “Você é também Campos daí tanta afinidade…Eu também sou Soares… é recíproco. A Carol ficou feliz com o seu cartão. Tudo “lá fora” é branco e a sensação é de voar em avião pequeno. O sol tem luz de prata. O comandante pede que ‘os passageiros fiquem sentados e com os cintos’. Continuamos no mundo branco. Não me admiraria se visse, de repente, um anjo! Veja como foi uma maravilha seu cartão. Fez esta viagem trepidante tornar-se amena. Palavras e pensamentos são companheiros”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2012.

Sem categoria

AS SARAIVAS – Diário do Nordeste

O Padre João Saraiva Leão, ex-Capelão da Santa Casa de Misericórdia, foi, no dealbar do século passado, figura de proa no clero. Culto, virtuoso e destemido. Além disso, o valor de ser líder dos Saraiva Leão. Falo disso, pois sou seu sobrinho-bisneto, neto que sou de Luiza Saraiva, sua sobrinha. Ela foi aluna do Colégio da Imaculada Conceição, de quem recebeu como distinção/ prêmio o livro “Le Parc do Mystére”, da Societé St-Augustin, Desclée, De Brouwer & Cie, na França e Bélgica. Em bico de pena: “Premio do C.da. I.C. 3ª. Classe, 1ª. Divisão, em 27 de dezembro de 1912”.
Luiza, essa menina estudiosa, veio a casar com o farmacêutico João Caminha Monteiro que, muito jovem, morreria de câncer. Era pai de Margarida, minha mãe. Quando minha avó, desolada e viúva, aos 40 anos, com uma récua de filhos a criar, foi o seu tio, o Pe. João Saraiva Leão, quem a ajudou a comprar a casa de morada.
Dito isto, falo de duas outras Saraivas, as irmãs Ediméa e Maria Alice, primas de Margarida. Elas, ao amadurar, resolveram contar suas histórias pessoais e o fazem com graça e desenvoltura. Ediméa narra a sua saga no livro “Costurando Minha Vida”, quando poetisa: “Costurando minha vida/também costurei bonecas/ Eram lindas e bem vestidas/Pareciam que tinham vida… Não falta nada mais/Na costura tudo fiz/Bordados, bainha e festão”. Maria Alice lançou “Vida Plena”, aos 90. “Uma lição de vida”, diz a filha Mafata. Com depoimentos, filhos e netos ressaltam o amor por sua mãe e avó, viúva de José Oriá Serpa, um homem de bem. Este breve resgate familiar é, para mim, sentimento de justiça e alegria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/11/2012