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HSTÓRIA DA ACI, PERPETUADA POR IVONETE MAIA – Jornal O Estado

Nas andanças que fiz pela última Bienal do Livro, paro no Stand da Associação Cearense de Imprensa- ACI e recebo, de presente, de seu atual presidente, Nilton Almeida, a derradeira obra da jornalista e professora Ivonete Maia, uma lutadora , capaz e obstinada pelas causas que abraçava. Fosse lutar pela classe, ajudar uma igreja de sua terra natal ou resgatar, como presidente, a história da ACI, o que o fez pela pesquisa séria, composição harmônica e consequente da escritora Angela Barros Leal.
O documento/livro “ Associação Cearense de Imprensa – 85 anos na Pauta do Ceará” parte do jornalista e professor Perboyre e Silva, de quem fui aluno na Faculdade de Direito e amigo da sua família, especialmente da filha Ruth, que, após a inesperada morte do pai, dedicou-se integralmente ao desmanche das injustiças de que teria sido vítima o construtor da Casa do Jornalista do Ceará.
Ítalo Gurgel, prefaciador da obra, escreve: “Na Fortaleza de meados do Século XX, Perboyre e Silva torna-se o principal protagonista. Reeleito Presidente em sucessivos mandatos,atravessaria vários capítulos construindo os alicerces da Associação, dando-lhes forma, redimensionando sua presença física e sua importância. Angela ocupa-se de cada período administrativo, detendo-se naqueles mais ricos em realizações e que deixaram marcas mais duradouras na entidade”.
E isso só foi possível porque Geraldo Nobre, Adísia Sá Stênio Azevedo deram, cada um a seu tempo e forma, os elementos básicos para os fundamentos desta obra que vale porque permeia as lutas, as conquistas e até os problemas que a ACI enfrentou em sua história pautada no bom caminho da verdade.
Deliciei-me ao ler o livro e me vi subindo no velho elevador de porta pantográfica para associar-me à ACI há mais de 40 anos, da qual tive a honra de ser membro do seu Conselho Superior, em um dos seus períodos recentes.
Os jornalistas do Ceará têm, nesse livro, um documento sério, mas o nunca esquecido Dorian Sampaio patrocina um episódio engraçado, quando reage à escolha da “supérflua” Rainha da Imprensa e, em seguida, encanta-se com uma escolhida. Ele mesmo reconhece: “A presença de Regina Lúcia Meyer seria o suficiente para abalar a quem ali chegara, como eu cheguei”. Regina que, ao casar, tornou-se Marshall, é até hoje colunista do Diário do Nordeste e tornou-se amiga do Dorian.
Poderia contar outros acontecimentos, ações e lutas, mas tiraria a graça dos leitores e me quedo, enlevado, à menção do Clube do Cinema de Fortaleza, do inesquecível Darcy Costa, que no prédio da ACI, tentava nos passar, pacientemente, conhecimentos de cinefilia. Todos os jornalistas cearenses, os estudantes de comunicação e os cultores da Historiografia devem conhecer esse legado definitivo de Ivonete Maia.
(publicado no jornal O Estado, 23 de novembro de 2012)

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/11/2012.

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MANCHETE NO CHÃO – Diário do Nordeste

Os que nasceram dos anos 90 para frente, se não virarem historiadores ou jornalistas, não saberão que houve um grupo de comunicação chamado Manchete. Aconteceu assim: uma família de judeus ucranianos, em 1922, imigra ao Brasil com parcos capitais. Entre eles, um jovem de 14 anos, Adolpho Bloch.
Esse menino era filho de gráficos que conseguiram comprar uma pequena impressora para fazer cadernetas do “jogo do bicho”. Nos anos 40, destemido e capaz, passa a trabalhar com Roberto Marinho, na Rio Gráfica, e ali cresce profissionalmente. Em 1952, funda a revista Manchete que, em pouco tempo, passa a ser a mais lida do Brasil.
Seu ex-colaborador Carlos Heitor Cony, sarcástico como sempre, diz que Adolpho não tinha vocabulário maior que 500 palavras. Mesmo assim, reuniu a nata dos escritores de então e deu-lhes emprego e espaço. A partir de Clarice, Drummond, Sérgio Porto, Otto Maria Carpeaux, o próprio Cony e outros. Arnaldo Niskier, jornalista, professor, escritor, acadêmico e uma espécie de sobrinho de “Seu Adolpho”lançou, agora, o livro “Memórias de um Sobrevivente”, focado na sua figura, que tinha JK como o seu maior amigo.
Niskier fala da vida e da obra do velho judeu, com suas revistas, emissoras de rádio e a TV Manchete, criada em 1983. Casado, sem filhos, morre em 1995. Em 2000 foi decretada a falência das empresas Manchete. A sede, invadida por sem tetos. Hoje, em notícia de pé de página na Folha, leio que foi implodida. Ali,o Governo fará apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”. Thomas Mann, escritor alemão, dizia: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2012

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A PROPÓSITO DE PSICANÁLISE – Jornal O Estado

Há um ciclo de saber em São Paulo e em Porto Alegre denominado “Fronteiras do Pensamento”. Nele são discutidos faces distintas do conhecimento humano para um público de nível. O curso, na verdade um ciclo de palestras, custa 820 reais por pessoa. Um dos convidados, neste ano, foi o filósofo francês Michel Onfray, que escreveu, entre outros, o livro “Le Crépuscule d’une Idole, l’Afalabulation Freudienne” (O crepúsculo de um ídolo, a fabulação freudiana) que deu elementos para o título para o seu livro “Sem Freud…”.
É preciso deixar claro que a opinião de Onfray faz parte de uma onda antiga – que ora se renova – de negação da herança cultural/científica do grande médico judeu Sigmund Freud. Muita gente vai a um psicanalista por razões diversas e, durante múltiplas sessões de 50 minutos, fala de sua vida e do que a incomoda no presente ou passado. O psicanalista ouve e faz intervenções pontuais.
Para Onfray: “a psicanálise é uma lenda, Freud acredita que a partir de suas introspecções pessoais descobriu a verdade universal do inconsciente”. Há que ser feita, a guisa de esclarecimento, referência de que a psicanálise não é uma profissão reconhecida pelos Conselhos de medicina e de psicologia.
Qualquer profissional de nível superior pode dizer-se psicanalista, a partir de cursos breves ou longos, que fez em uma das muitas correntes que constituem o mundo pós freudiano do estudo da mente. Assim, é preciso cuidado ao escolher alguém a quem se vai falar sobre a vida e a dos que com ela interagem.
Onfray, que tem fama de desmistificador e polêmico, acredita que essa quase-ciência “funciona como uma religião e está na hora de desconstruí-la, como todas as outras religiões”. Colocando a psicanálise como uma religião, ele, pelo menos, alerta que devemos escolher com cuidado os padres-confessores, pastores, gurus rabinos e psicanalistas.
Eles ouvem, em confiança, os problemas existenciais ou de fé dos seguidores de suas crenças e impõem limites às suas condutas. Sempre é bom saber de suas – deles – histórias pessoais, dos seus passados e ouvir opiniões dos que já os conhecem bem, antes de revelar suas dores, humores, amores ou temores.
Estas observações espelham apenas, de forma simplificada, o que li na “Ilustrada” da Folha, de 12 de outubro passado, e ora procuro transmitir aos leitores. Elas não refletem, necessariamente, a minha opinião. A defesa do austríaco famoso Sigmund Freud não precisa ser feita por mim. Ele próprio, no livro “O mal-estar da civilização”, afirma: “contra os ataques é possível se defender: contra o elogio não se pode fazer nada”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/11/2012

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ANJOS GUERREANDO – Diário do Nordeste

Fui convidado pelas irmãs Ana e Eliana Matos para o lançamento de romance póstumo de seu irmão, Alcides Matos, de cuja família sou amigo. Na verdade, o Dedé, como o o chamavam, era dos que vieram ao mundo com o espírito curioso, o olhar crítico, o silêncio sarcástico e a verve dos que (des)aprenderam a ser gente comum. Aprestou-se no Colégio Cearense e daí para o Colégio Naval, em Angra dos Reis. Descobriu que o mar não era a sua praia, pois coturnos dão calos e tampouco batia continência. E aí se fez redator de televisão, formou-se em direito e, em mais um concurso vencido, entrou para a Justiça Federal. Mas, justiça seja feita, Dedé gostava mesmo era de ler, estudar música no Conservatório Alberto Nepomuceno, assuntar bares e viajar.
Esses atributos o faziam distinto dos que não veem os cultos como normais. Assim, o seu livro “Que anjos são esses que andam guerreando”, ficciona a realidade que, no dizer da professora Eliana Matos: são “histórias que se abrem e se encerram em cada capítulo, que se encadeiam entre si, num elo simbólico como poucos encontrados no gênero romance, até porque, além do respeito que o autor mantém pelos vínculos afetivos entre os seus personagens, ele tem total domínio de seu estilo… é a questão existencial do autor posta em romance em que várias vozes se fazem ouvir, cada uma com sua trajetória e desfechos traçados a filigrana. Afinal, como diz Jorge L. Borges: ‘son formas de felicidade, no objeto de juicio’”.Na Livraria Cultura, reencontro parte dos Matos, do branco sobrado da Assunção. Alegrou-me a ponto de imaginar que Alcides estava olhando enlevado para todos.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/11/2012.

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DIÁRIOS E DN – Diário do Nordeste

Revisito papéis. Aos 15 anos fazia política como diretor da União Cearense dos Estudantes Secundários. Vejam anotações esmaecidas em caneta tinteiro:“Dos dias 17 a 22 de março aconteceu o 4º. Congresso Estadual dos Estudantes… Estou agora em sua vice-presidência. Os temas principais foram:Reforma do Ensino Secundário, Biblioteca do Estudante, Teatro do Estudante etc.”. Páginas 71 e 72 do Diário que guardo.
A partir daí, viagens, congressos, palestras, cursos e seminários, aqui e alhures. Psicologia, com o Prof. Vilhena de Moraes, do Rio. Tenho anotações: “Existe uma íntima relação entre a palavra e o controle muscular”, pag.270. Participei, ainda, como ouvinte, de congresso de Filosofia na Faculdade de Direito. Depois, aluno e “deputado” pelo CA Clóvis Beviláqua, ouvi aula magna de Celso Furtado, advogado com formação socioeconômica. Relendo seus “Ensaios sobre Cultura e o Ministério da Cultura”, observo: “Queria inicialmente ser romancista, ficcionista. A minha grande leitura, até hoje, é literária. A descoberta que faço do homem é através da literatura, nunca pela ciência”.
Entrei em jornal substituindo Pedro Henrique Saraiva Leão na coluna “Informes Acadêmicos”, Correio do Ceará. Lá passei anos, com salário e escrita diária. Tive o privilégio de ter Henry Kissinger como coordenador de curso, por concurso, nos USA.
Depois, aprendi a fazer projetos e planejamento urbano. Elaborei, dirigindo equipes, planos diretores para dezenas de cidades do Nordeste. Ao cabo, empreendi. Há décadas, estou, aos domingos, neste DN, a lançar idéias ou cronicar. Na escrita, oitavo livro. “Brevis ipsa vita est”. Públio Siro, poeta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2012

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SANDY E JORGE – Jornal O Estado

Garanto a vocês que não vou falar de dupla sertaneja. Preste atenção. O Brasil saiu ileso de mais uma eleição municipal, apesar de ataques e contra ataques. Porém, 20% não votaram em ninguém. É um sinal. Os eleitos prometem. Há crimes, mas a natureza nos garante sol, nenhum furacão nos atormenta, o progresso nos convida à parceria, o Neymar está de cabelo novo e “Salve Jorge” entorpece os que não leem.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, país maior do que o imaginário sobre compras em Nova Iorque e Miami e diversão nas Disneys, sofre horrores com o ciclone “Sandy” que dizima o encontrado pela frente. A temporada de furacões vai de março a novembro, todos os anos, na América que se prepara para uma dura eleição presidencial na próxima terça.
Desde 2009, os EUA, têm uma nova cara, a da pobreza realçada pela crise econômica do ano anterior e a chegada de um presidente negro à Casa Branca, o velho e assombrado prédio da Avenida Pensilvânia, 2600, Todo o tempo cercado de manifestantes. Democracia tem disso.
Conheci os EUA ainda envolto em problemas raciais sérios, emendado com os assassínios dos Kennedy, John e Robert. Depois, Richard Milhous Nixon foi obrigado a renunciar, por conta de espionagem no partido adversário, o Democrata. Se espionagem desse impeachment no Brasil poucos homens públicos – e até interesses privados – ficariam ilesos. Hoje, as escutas telefônicas, filmagens e a invasão da Internet são comuns na vida política nacional que usa guardiões. Não é sem razão que o Brasil está na linha de frente dos “hackers” em todo o mundo.
Terça, como disse, Barack Obama e Mitt Romney estarão sendo votados para Presidente da América. Lá, vota quem quiser. Não há a obrigação de se votar. De um lado, um advogado, filho de africano culto, altamente qualificado por sua formação acadêmica harvardiana e política – hoje presidente -enfrentará um Wasp (branco, anglo-saxão e protestante), também ex-aluno da Harvard University, rico de nascença que ficou ainda mais endinheirado, ex-governador do próspero estado de Massachusetts e evangélico – ex-bispo – da singular seita Mórmon.
Na quarta, ao acordarmos, o mundo será o mesmo? Nenhum dia é igual a outro. Mas, a Europa continuará em crise, o Chile persistirá atônito com a abstenção de quase 40% dos eleitores na eleição municipal de domingo passado. O camareiro do Papa permanecerá prisioneiro domiciliar no Estado do Vaticano. Velhuscos europeus descerão em aeroportos nacionais sedentos de aventura. Judeus e árabes trocarão ameaças. Jornais brasileiros falarão de Dilma, Lula, Dirceu, STF, Eduardo Campos, Haddad e do exílio de Serra.
A noite, milhões de brasileiros, de todos os partidos, estarão de olhos postos em “Salve Jorge”. É a Glória, Perez.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/11/2012.

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SENHOR PREFEITO – Diário do Nordeste

Hoje, dois candidatos estão em luta por seu voto. Um perderá. Que Fortaleza vença, ao escolher o melhor. O melhor será o que tiver futuro honesto, diligente e eficaz para os 5,5 bilhões do orçamento de 2013, com suas fontes e usos. Divulgue-os através de plataformas, bancos de dados e o dissemine pela Net e prodigalize o uso de Wi-Fi para que o cidadão saiba o que está acontecendo, no dia a dia. Interaja com os governos Estadual e Federal.
Assim, por meio deste, encarecemos que, passada a refrega, envie, por escrito, o seu Plano de Gestão para a imprensa da cidade, aos vereadores eleitos, ao TCM e o registre em Cartório de Notas com propostas reais/efetivas sobre educação, saúde, áreas críticas, casas populares, desenvolvimento ambiental e urbano, lazer, tudo o prometido na sua propaganda.
A cidade atual rejeitou ser afável e brejeira e tem tantas faces quanto as identidades comprometidas por sua ocupação anômala. Quase a metade dela vive pobremente. Queremos saber apenas como vamos viver os próximos quatro anos com trânsito caótico, camelôs em vias e calçadas estreitas, bocas de fumo, invasões, esgotos a céu aberto, iluminação deficiente e a quase ausência de entidades sérias na capacitação de trabalhadores sem ofício. Faltam espaços de lazer e convivência saudável para os 2,5 milhões de pessoas a espera pela bonança a que têm direito.
Senhor Prefeito, reflitamos, Fortaleza precisa de Plano objetivo, com infográficos, séries estatísticas, glossário, plataformas, tecnologias inteligentes e texto claro. Ela está rebelde e não é mais desposada do sol. Espreme-se, suada e maltrapilha, do Cocó ao Rio Ceará, do Zé Walter à Beira Mar, em espasmos de dor, pelo achaco de seus espaços, vias e mananciais.
Isto é utopia? Precisamos sonhar com o amanhã! Planeje, lidere, assuma.

João Soares Neto,
fortalezense
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/10/2012.

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AMIGOS HÁ – Jornal O Estado

“Fazer amizade fica difícil à medida que os anos passam, mas é possível abrir o círculo recriando, em qualquer idade, aquela antiga disposição para investir em gente nova”. O texto acima é de Amanda Lourenço, colaboradora do caderno “Equilíbrio”, da
Folha de SP. A palavra nova não se refere à idade, mas ao desconhecido, ao inédito, ao buscado. Amanda usa ainda duas impressões destacadas. A do psicanalista Francisco Daudt refere que “é muito raro que amigos de infância mantenham afinidades na vida adulta, mas intimidades antigas também podem ser muito confortáveis”.
Outro ponto de vista é o do antropólogo Mauro Koury, paraibano, apesar do sobrenome árabe. Koury diz que há uma ação ambígua entre o plano de conquista profissional, que exige foco em si mesmo, e a necessidade de compartilhamento social.
Tudo isso me vem ao constatar a atitude de dois amigos do jornalista Lustosa da Costa. Juarez Leitão e Edmo Linhares estão instando amigos a escrever sobre o amigo LC, recentemente transformado em cinzas no Rio Acaraú. Eles não poderão mais agradar a quem se foi, mas criaram uma alçada para mitigar o vazio que surge quando alguém desaparece de nossa vida. E não é preciso morrer para desaparecer, bastam o afastamento e o comodismo, os dois elos para que uma amizade vá para o espaço. Quase ninguém tem a coragem de dizer: eu sinto saudades de você. Tenho prazer em encontrá-lo.
Todos têm saudades de uma ou mais pessoas, e nos deixamos levar pelo afastamento físico, sejam alguns quilômetros ou milhares. O comodismo, decorrente do trabalho ou da preguiça, nos desfoca dos encontros que poderiam acontecer em um restaurante, em uma caminhada, em um telefonema e até por e-mail, que nos aproxima – às vezes de mentira – de estranhos. A procura dos sites de relacionamentos virtuais é uma demonstração da carência humana em apagar os desencontros havidos e aceitar o desafio do novo. Entretanto, nada há melhor do que a conversa. Aquela em que ficamos frente a frente e sabemos, pela fisionomia, pela respiração, pelo gestual e até pelos odores, se somos ou não aceitos, queridos ou, em contrapartida, se aquela pessoa nada tem a ver conosco.
Theodor Adorno, filósofo alemão do século vencido, acredita que existe um critério quase infalível para determinar se alguém é realmente seu amigo: o modo como refere opiniões agressivas ou descorteses a seu respeito. Filosofia à parte, acredito em amizade. Amigos há. Eles se encontram na adversidade, na queixa não referida, nos botecos, nos aeroportos, nos esbarros, ao descobrir nossos achaques e entender os nossos silêncios. E falas.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2012.

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BIENAIS DO LIVRO – Diário do Nordeste

Em novembro teremos mais uma Bienal do Livro no Ceará, agora no Centro de Eventos. A propósito, há queixas recorrentes de visitantes, autores e editoras sobre as Bienais, agora em São Paulo. Raul Wassermann, ex-presidente da Câmara Brasileira do Livro e editor da Summus, diz: “O tempo passou. Veio a informática, passamos dos estandes dos anos 1970, armados a tábuas e pregos, às tentativas de nos tornarmos a Frankfurt dos trópicos”. São Paulo não se tornou a Frankfurt das Américas e, quiçá, uma Buenos Aires. Wassermann diz que nos esquecemos de criar leitores. Uma Bienal não deve ser feita apenas para cumprir calendário, mas trazer algo novo em ideias e não apenas repetir os mesmos cansados expositores e os grandes saldões de livros encalhados, misturados com a autoajuda que se esvai na cabeça de quem tem Paulo Coelho como referência literária.
Esquecer os leitores é uma característica do Brasil atual. Sabem a razão? Todos temem escrever acima do que pensa o “brasileiro médio”. E quem será esse médio? Os leitores de jornais diminuem e crescem noveleiros e amantes de lutas. A morte da apresentadora Hebe Camargo mereceu mais destaque que o centenário de Jorge Amado e Nelson Rodrigues.
Claro que Hebe Camargo foi ídolo da televisão, mas não dos que a desejam informativa, lúcida e imparcial. Bienal de Cultura não é apenas um destino de passeio para estudantes que não se aquietam em um salão para ouvir, por exemplo, sobre Monteiro Lobato, um grande escritor, não só infantil, mas para adultos como “A Barca de Gleyre”.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2012

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OS CORREIOS, O HOJE E AS CARTAS DE(QUASE) AMOR ENTRE PESSOA E OFÉLIA

Hoje, pelos Correios, recebem-se cobranças bancárias, convites, propagandas, oferecimento de cartões de crédito, lançamentos imobiliários, cumprimentos de políticos no Natal e em datas aniversárias, agradecimentos de famílias dos mortos amigos e que tais.
Exauriu-se o tempo em que cartas nos traziam boas ou más notícias, esperadas sofregamente. O Carteiro é hoje um mero despachante abarrotado de envelopes em pastas a tiracolo cujos conteúdos nos dizem quase nada.
Hoje a comunicação é instantânea – pelo computador e telefone e, quase sempre, em palavras abreviadas, como se a pressa impedisse o outro de ser mais explícito ou cordial. Vivemos um tempo minimalista e volátil. Nada é permanente. Tudo é programado para cair em desuso ou ficar careta e antiquado. Os “nerds”, nome dado aos que se ligam em tudo na comunicação informatizada e que pouco se situam no nosso mundo, dito real, viram adictos em mudanças e criam comunidades com comércio e linguagens próprias.
A propaganda nos impinge todos os anos, lançamentos de novas versões de celulares, tabletes e computadores Nenhum de nós, os meros usuários dessas máquinas que usamos para o trabalho e a comunicação com amigos, tem o domínio absoluto dos constantes “upgrades” ou melhorias para os nossos notebooks e celulares, programados que são para a breve obsolescência.
Imagino, por exemplo, como seria a vida do poeta português Fernando Pessoa (1888 -1935), se vivo fosse agora. Pessoa usava vários heterônimos (criaturas inventadas por ele com profissão e características particulares, com estilos e modos dessemelhantes). Cito os principais: Álvaro de Campos (“Todas as cartas de amor são ridículas), Ricardo Reis(“Da verdade não quero mais que a vida”), Alberto Caeiro(“Não sei o que é conhecer-me”) e Bernardo Soares (“Mas não há sossego – e ai de mim! Nem sequer há desejo de o ter”). Se Pessoa tivesse um computador à sua mercê quantos mais heterônimos teria criado e o que eles não haveriam escrito?
Esta semana, conversando com o Embaixador português no Brasil, Francisco Ribeiro Telles, falei sobre a Coletânea das cartas trocadas entre Fernando e Ofélia Queiroz, que no Brasil sairá no próximo ano. Ele, como diplomata, falou sobre o tema, mas estava mesmo preocupado com as medidas fiscais que o seu país está a tomar de modo forçado. Este é o mundo que o Dólar, o Euro e o Yan criaram.
Voltando às cartas trocadas entre Fernando Pessoa e a quase-namorada Ofélia Queiroz, creio que elas dizem pouco, pois nada mais são que um quase com fim. Leio e adoto texto enviado por Isabel Coutinho para a Folha de SP. Pessoa sempre foi esquivo. Ele se auto define: “É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim…” Assim como? Perguntaria alguém. Não sei.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2012.