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O CENTENÁRIO DO “CEARENSE” LUIZ GONZAGA – Jornal O Estado

Luiz “Lua” Gonzaga é quase cearense. Nasceu em 1912, no Exu, Cariri pernambucano, próximo da divisa com o sul do Ceará. Dada a contiguidade, o filho de Januário tocava nas feiras do Crato e de Juazeiro. Ao tempo de “sentar praça” ou servir ao Exército, em 1930, preferiu vir para o 23º. Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Em 1939 Gonzaga mandou-se com mala, cuia, embornal e sanfona para o Rio de Janeiro. Sabia que ia enfrentar preconceito. Lá, por acaso, uniu-se a Humberto Teixeira, advogado cearense ali radicado que dirigia um escritório de direitos autorais e anteviu o sucesso do futuro “Rei do Baião”. Ele e Teixeira fizeram várias parcerias. E aí é que entro na história do Luiz Gonzaga.
Humberto Teixeira, na linguagem política local da época, era “paraquedista”. Vivia no Rio e queria eleger-se deputado federal pelo Ceará, nascido que era em Iguatu. Trouxe, então, Gonzaga para animar os seus comícios. Nascia ali o embrião dos “showmícios”. Menino, calça curta, saí de casa escondido para ver Luiz Gonzaga em show em frente da Igreja da Piedade. Tinha pouca gente, no princípio. Quando o Gonzagão começou a tocar, o adro foi ficando repleto de gente e o Humberto acenava para o povo. Cheguei perto do “Rei” e vi sua vestimenta adornada como os dos cangaceiros de Lampião.
Passa o tempo. Já adulto, via Gonzaga pela televisão que, preconceituosa, não dava a ele os créditos que merecia pelos versos simples, mas poéticos de suas músicas.
No ano de 1984, Gonzaga foi homenageado com o Troféu Sereia de Ouro, pelo Sistema Verdes Mares, quando tive a alegria de revê-lo em Fortaleza e reverenciá-lo. Morto em 1989, hoje, produtores musicais, veem que “Gonzaga foi o primeiro a atingir, com a mesma música, o povo e a elite”, no dizer de Thiago Marques Luiz. Thiago reuniu agora, entre outros, nomes como Dominguinhos, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Amelinha, Zeca Baleiro e Zezé Mota para produzir e gravar três CDs com 50 músicas do Gonzagão. Em julho, o nosso Fagner estará em São Paulo, em show no Sesc Vila Mariana, também para louvá-lo.
O cantor e compositor Felipe Cordeiro considera que “ele afirmou, de uma vez por todas, a música nordestina no país, sem ser caricato. Ele foi um acontecimento do tamanho de um Tom Jobim”. Para quem não sabe o surgimento da agitação vanguardista “Tropicália”, nos anos 60/70, com Caetano, Gilberto Gil, Raul Seixas e muitos outros, tem um pezinho nas estacas musicais binárias plantadas pelo menino/homem de Exu que respeitava o pai Januário. Pena que o filho Gonzaguinha tinha outro pensar. Isso é outra história.
Agora, neste junho de 2012, quando se comemora, antecipadamente, o centenário do seu nascimento que, de fato, será no próximo dia 13 de dezembro – paradoxalmente, Dia de Santa Luzia, a protetora da visão – resolvi homenageá-lo. E o fiz no 4º. Festival BenJunino, no BenficArte, evento musical que empreendo para homenagear e incentivar compositores, cantores, promissores sanfoneiros de xotes e baiões, com prêmios e a mesma alegria que tive, quando criança, o vi em praça pública na boca da noite.
O menino que fui, afinal, está quite com o Gonzagão.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/06/2012.

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CAPIM ALTO – Diário do Nordeste

Quando você for às compras lembre-se como o dinheiro chegou às suas mãos. Se foi dado por alguém, que reabastece sempre, não tenha dó. Mande brasa. Se for suado, contado e fruto do seu trabalho, vá com calma. Procure fazer uma lista do que realmente precisa. O impulso é, muitas vezes, maior que a razão. Lembre: grife não produz, terceiriza e cola etiquetas.
Agora, quando for comprar comida, frutas e verduras, veja se não está dentro de uma multinacional atrás de nome brasileiro. Acontece assim: um português/árabe/judeu/nordestino chega à cidade grande e monta uma mercearia. Moureja de sol a sol. O negócio prospera, o empreendedor aumenta a área e, tempo depois, vira mercadinho, supermercado e loja de departamentos.
O mourejador cansado, enfarta. Morre no hospital luxuoso. Filhos choram. Uns menos que outros. Passa o luto. Herdeiros fundam uma sociedade anônima e resolvem abrir o capital. Há anúncios, reportagem em TVs e os netos chegam à festa em carrões e cabelos vaselinados. O barco vai singrando e as famílias aumentam. Há filhos, noras, genros, netos, mulheres e maridos dos netos, uns com ciúmes dos outros. Brigam e ficam distantes.
Uma assembleia geral extraordinária é convocada para ouvir proposta de grupo estrangeiro. A cobiça aumenta e, após discussões, ouve-se a firma de consultoria contratada por hora. Ela diz: é hora de vender. Os estranjas assumem o controle e vocês recebem ações e parte em dinheiro. Exultam. O português/árabe/judeu/nordestino revira no túmulo que está com capim alto e luminárias enferrujadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2012

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DEZ ANOS DA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS-AFL – Jornal O Estado

Cidadãos nascidas em diferentes décadas do Século XX demonstraram no dia 14 de junho de 2002 que acreditavam no associativismo, na necessidade de trocarem informações que geram o conhecimento e que as instituições, tais como os seres humanos, têm períodos peculiares de formação, iniciação, de acolher os conselhos das entidades consolidadas e tentar, por fim, consolidar-se.
A Academia Fortalezense de Letras nasceu do sonho do jovem José Luís Lira, que via na cidade grande a oportunidade para o seu aprimoramento social e cultural. Estava ele acompanhado de Matusahila Santiago, mulher destemida, senhora de si, a frente do seu tempo, precursora das lutas femininas pelo reconhecimento, não de gênero, mas pela cultura na Casa de Juvenal Galeno.
Eles chegaram a Academia Cearense de Letras-ACL com uma ideia em ebulição e receberam o apoio do poeta Artur Eduardo Benevides, então presidente e hoje presidente emérito das academias ACL e AFL. Igualmente, foram acolhidos por Murilo Martins, honra e glória da medicina cearense, professor, historiador respeitado pela sociedade local que o admira. Artur e Murilo, nos passos iniciais da novel academia, estiveram acolitados por Regina Pamplona Fiúza, diretora executiva sutil e zelosa guardiã da história que se encerra nestes últimos lustros da ACL.
Os 40 integrantes iniciais da Fortalezense pareciam saber o que dissera em 1897, na Revista Brazileira o poeta cearense Antônio Sales:
“Condeno as academias em tese, por estar convencido de que jamais conseguem os fins para que são criadas, quer se trate de ciências, quer de letras”.
Mas, saibam também que no ano seguinte, 1898, a mesma Revista Brazileira, tinha, institucionalmente, mudado essa concepção:
“Nós, brasileiros, somos a incógnita de um amor de muitas raças. Se há uma coisa que nos fará manter unidos, será a paixão literária”.
Tiveram eles a sabedoria de mesclar o corpo social da AFL. Aliaram o conhecimento de pessoas, já acadêmicas, à expertise de outras portadoras de credenciais que os habilitavam ao munus por suas produções jornalísticas, musicais, culturais e literárias nesta cidade de José de Alencar. Talvez eles soubessem o que disse o filósofo e poeta espanhol George Santayana:
“A cultura está sempre entre o dilema de ser profunda e servir a poucos ou popular e tornar-se superficial”.
Agora, passados dez anos, um nada na contagem universal do tempo, a Academia Fortalezense de Letras apresta-se a fazer a contraprova de seu reconhecimento na vida literária e cultural de Fortaleza. E o comprova com uma larga produção literária de seus acadêmicos, num total de mais 120 livros/títulos das mais diversas naturezas, produzidos pós 2002.
O momento é de referir também que esta Fortalezense já disponibilizou para os quadros da ACL os fortalezenses José Teles, Ednilo Soárez e José Augusto Bezerra, que hoje preside o vetusto e glorioso Instituto do Ceará. A par disso, outros quatro dos seus integrantes presidem, respectivamente, a Academia Cearense de Retórica (Maurício Benevides), a Academia da Língua Portuguesa(Vicente Alencar), Academia de Letras Municipais de Fortaleza(Lima Freitas) e a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (Seridião Montenegro).
A par das glórias, os da Fortalezense acreditam que só são dignos de estarem vivos aqueles que cultuam os seus mortos transmudados em lembranças permanentes. Por tal razão, reverenciamos o Mons. André Camurça, orador sacro e intelectual; Natércia Campos, escritora premiada; Orlando Leite, maestro consagrado; Cláudio Pereira, anima e cuore da cidade; Marcelo Linhares, bancário, político e historiador embasado; e José Maria Barros Pinho, poeta, político e paladino.
Somos o que criamos, mas se não o fossemos não teríamos a identidade transmitida pelo cometimento e o arrojo inoculados pelo primeiro presidente Cid Sabóia de Carvalho, brilhante Senador da República, comentarista esportivo e propagador da cultura nas emissoras de rádio e televisão. Bibliófilo e discógrafo inveterado, encanta-se com a plumagem e o canto dos pássaros e suas leituras transcendentais, nas quais busca desvendar os mistérios da vida.
Singulares, elegemos uma presidente mulher, a advogada Cybele Pontes que já experienciara a gestão da Sociedade Amigas do Livro. Viajante contumaz, organizada, articulada e destemida, pôs-se a dar nova feição e distinção às reuniões com o seu jeito especial de ser com acepipes e congraçando os acadêmicos.
Depois, veio o terceiro presidente, Ednilo Gómez Soares, na madureza de vida, administrador e educador de escol, pesquisador e historiador que lança nesta sexta, dia 26, ao por do sol no Iate Clube, o seu quinto livro, este “Desvendando a Ilíada”.
Agora, a quinta gestora é a Desembargadora, professora e pesquisadora de história Gizela Nunes da Costa que, superando problemas de saúde, dá o que pode para o êxito na comemoração deste decênio.
Por fim, somos dos que acreditam como dizia o filósofo alemão Arthur Shopenhauer que “A glória deve ser conquistada; a honra, basta que não seja perdida”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2012.

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GREVE E VIOLÊNCIA – Diário do Nordeste

A palavra greve, tal como hoje é usada, tem origem na “Place de Grève”, em Paris, local próximo ao porto do Rio Sena onde, no século XIX, trabalhadores e desempregados faziam manifestações de toda a ordem por melhores condições de trabalho e salários justos.
Aqui, a jovem democracia brasileira consagrou o direito de greve. A Constituição de 1988, no seu art.9, diz: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele exercer”. No ano seguinte, a regulamentação da greve (lei 7783/89) no art.6º., parágrafo 3º., estabelece seus limites: “As manifestações e atos de persuasão utilizados pelos grevistas não poderão impedir o acesso ao trabalho nem causar ameaças ou dano à propriedade privada”.
O que se viu, nesta semana, em Fortaleza, no atentado à sede deste Diário do Nordeste, foi o total desrespeito às normas estabelecidas para o indiscutível direito grevista. Quando se ultrapassa a sensatez e, como horda, viola-se a propriedade privada, há uma ruptura do direito e do diálogo, que deve ser o fio condutor para a solução de todos os problemas individuais e coletivos.
A ação dos sindicatos é cabida, mas é preciso preservar o que assegura e determina a lei. A propriedade privada que é atingida é a mesma que assegura empregos e, ao que consta, a maioria era de trabalhadores da construção civil e não haviam sido esgotados os canais de comunicação que viabilizam o entendimento entre as partes. Greve é direito. Depredação é violência.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2012

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A CPI E OS JOGOS – Diário do Nordeste

No Brasil todos acreditam na sorte. Vai dar certo. Deus ajuda. Por essa razão traquinam, apostam ou jogam em tudo. Jogam no “bicho”, diversas loterias, cavalos, galos e futebol. Em praças públicas, bancos, botecos e bancas. Em 1946, na redemocratização, o presidente Eurico Gaspar Dutra baixou decreto fechando os cassinos e proibiu os jogos de azar. Na verdade, atendia, a pedido de sua mulher, Carmela, a D. Santinha. Ela pedira ao marido: 1. acabar com os cassinos e jogos; 2. fechar o Partido Comunista Brasileiro e; 3) construir capela, nos jardins do Palácio da Guanabara, então residência oficial. Dutra, honesto, marido ardoroso e católico, atendeu aos pedidos.
Hoje, 2012, o Partido Comunista Brasileiro é aliado do governo, sua dissidência criou o Partido Comunista do Brasil (PC do B), também aliado, e a capela está intacta no Rio. Neste país laico, segundo a Constituição de 1988, mantiveram-se os feriados religiosos. De fora, apenas, os cassinos e os jogos de azar. Na realidade, só os cassinos, pois a Caixa patrocina jogos diários/semanais nas análises combinatórias possíveis.
Dizia Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore, jogo “é um vício irresistível. Contra ele a repressão policial apenas multiplica a clandestinidade”. O sociólogo Gilberto Freyre comentava que era “uma das poucas atividades sem discriminação de classes”. Agora, por que não se aproveita a atual CPI mista e se dá, além da pauta, uma geral nos jogos da Caixa, nas concessões públicas das loterias e se deslinda o “invisível” jogo do bicho?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/05/2012

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A REALIDADE E OS PROBLEMAS – Jornal O Estado

O Brasil tem cerca de 70 milhões de veículos circulando por estradas e vias de discutível qualidade. Neste ano teremos eleições municipais em 5.500 cidades. Eleições para prefeitos/vices e vereadores. Todos, quando eleitos, são bem pagos. Não saiu ainda, de nenhum partido, qualquer menção a programas ou projetos aos problemas básicos das cidades. Só se fala em coligação ou aliança com A ou B, tempo de rádio, televisão, recursos, quem será o cabeça de chapa etc.
Quem quiser ver o Brasil real viaje pelo interior de qualquer Estado. É claro que há exceções, entre as 5.500 cidades, a grande maioria é de causar indignação. As cidades acolhem quase 85% da população total e geram 90% de todos os bens e serviços, as riquezas. Em contrapartida, há deficiências claras nos sistemas de transportes urbanos (metrôs, trens, ônibus, micro-ônibus, táxis, mototáxis) pavimentação inadequada ou insuficiente, pouquíssimas obras com soluções estruturais e sequer, as simples, para circulação segura de bicicletas. Há mortes, diárias, no trânsito pela imprudência de uns e outros. O que funciona bem são os fotos sensores e pardais, os das multas.
O governo reestimula agora a venda de carros encalhados para diminuir a crise, mas não constrói as estradas necessárias e inexistem parquímetros no Brasil e escassos são os edifícios-garagem. Os aeroportos estão com as capacidades de suas gares esgotadas e são ultrapassados física e tecnologicamente. Um exemplo: semana passada, uma grande chuva em Vitória, Espírito Santo, fez ruir parte do teto do aeroporto, exato onde funcionavam os check-ins, assim tudo passou a ser feito manualmente.
Os poucos grandes portos são feudos indecifráveis. Construtoras pujantes são o delta, o alfa e o ômega das questões, especialistas em tudo, independente de partido, seguem incólumes. O Brasil, na contramão do mundo, ainda não usa trens para ligações entre os estados. Na Europa e nos Estados Unidos, isso foi feito no século 19.
O saneamento básico nas cidades é grande gargalo, pois os recursos sempre estão atrasados para pequenas e médias empresas sérias que participam de acirradas licitações e são levadas a desistir de obras, pois não recebem o que produzem, por conta de convênios que emperram e pela descontinuidade de administrações sem entender o processo que deveria ter um plano mestre, independente de interpretações casuísticas.
Sem saneamento, a dengue mostra o descaso e custará caro, muitos morrerão. A leptospirose grassará em meios a valas de lixo e esgoto a céu aberto onde animais e crianças convivem. Isso é desenvolvimento? São Paulo, a maior capital, tem um milhão de pessoas que não usam sequer rede de esgotos.
Na área de telecomunições, serviços de terceira, preços de primeira. O baixo índice de resolutibilidade em banda larga carece de investimentos de 20 bilhões para que o acesso de cada 100 habitantes não patine nos percentuais atuais e atinja a 30%. Sem comunicação, um país não funciona. Precisa para fins escolares, acadêmicos, controles públicos, pesquisas, científicos, empresas e instituições. A comunicação de dados é gêmea do progresso. Só agora, haverá leilão para a rede 4-G, a quarta geração tecnológica.
As concessionárias de energia elétrica desconfiam dos consumidores ao colocarem medidores expostos enfeando as fachadas de empresas, prédios e residências; prestam serviços de baixa qualidade – sempre por terceirizados mal pagos – e não atualizam redes causam blecautes que queimam aparelhos domésticos e industriais. São, paradoxalmente, coniventes com os ocupantes de invasões de áreas públicas e privadas urbanas e rurais, pois permitem ligações sem pedir prova da propriedade ou da locação. Não será hora de reavaliar as concessões?
Logo mais, os marqueteiros de sempre, darão um jeito. Venderão ilusões, tais Mefistófeles comercializarão as próprias almas, se as têm. Aguardem. Os circos vão chegar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/05/2012.

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FUTEBOL E VERGONHA – Diário do Nordeste

O futebol brasileiro já não é o melhor do mundo. Campeão em 1958. O último, 2002. Afora isso, a gestão dos clubes é primária. “Bicheiros”, que comandam os carnavais do Rio e de SP, demonstram melhor organização. O futebol teve CPI, há acusações aqui e alhures contra ex-dirigentes da CBF. O atual parece ter saído da aposentadoria para comandar, atarantado, o caos. As federações são feudos de donatários. Os clubes, deficitários e anárquicos. Violência nas torcidas. As televisões determinam a hora dos jogos.
Foi-se o tempo em que jogadores tinham identidade com clubes. Pelé, no Brasil, só jogou Santos. Jogadores viraram mercadoria para “empresários”. Mudam de clubes, saem, voltam e só o dinheiro lhes interessa. Árbitros decidem partidas com expulsões, penais e fica nisso. Ronaldo Nazário criou firma na área e faz parte do comando da Copa de 2014.
Tal como aconteceu na África do Sul, a Copa causa escândalos e estragos na economia. Estádios que funcionavam foram demolidos em nome de modernidade fajuta que inclui camarotes e frivolidades. O Brasil tinha mais com que gastar esses bilhões. Posar de rico, como? Estradas e vias ruins. A dengue grassa. Educação fraca. Há carência de esgotos nas capitais e as favelas, surgidas e consolidadas pela discriminação, mostram a passividade de governantes, no passado e agora. Hospitais superlotados e sucateados. Mortos nos corredores. Indústrias e construtoras de obras públicas viram sócias do Governo, via BNDES. A cúpula “Rio+20” comprova agora a voracidade dos hoteleiros. Com será em 2014?

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/05/2012.

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CONTO, DESCONTO E RECONTO – Jornal O Estado

Estou no caminho sem volta que é o viver. Ou você avança, passo a passo, mesmo que isso custe a ausência de pessoas essenciais, ou vai se deixar invadir pela lassidão, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Mas não é esse o objeto desta minha conversa com você. Alegro-me hoje com pequenas coisas. Não preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso de qualquer natureza e provar que sou isso ou aquilo.
Quero andar de sapatos sem meias, conversar com estranhos, sair de qualquer reunião antes da meia-noite, não conviver com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas. Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho, que me dá o prazer de criar. Viver do que acredito: benquerença desinteressada, consciência social, viajar, ver filmes, ler e escrever da forma sempre difusa como sempre o fiz.
Idealizei. Quis muito que minha gente vivesse os meus sonhos e seguisse a estafante trilha. Decidiram por outras opções. É provável que não tenha sabido engajá-las com ternura, nessa dura e crua lida. Assim, deverei continuar só, do meu jeito, meio sem jeito. Não cobro mais. Já não cometo a tolice de querer demonstrar o que fui, sou e o que não sei.
Sou péssimo ator, não sei contar piadas, bebo pouco e não tenho frases de efeito. Todas já foram ditas. Encanto não é, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como menino em parque de diversões. A vida é. Não se arquiteta, não é nada romântica, tampouco fácil, pois “fácil é o comum”, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos, quando já lia tanto quanto agora.
Agora, neste platô com escarpas ao meu redor, não deixei de amar e acreditar, mas um pouco de ceticismo me acicata. Fui, apesar de me acharem arguto, presa fácil para pessoas embusteiras. Os embusteiros são como pacotes bem produzidos, mas os laços que os adornam são cegos e só com o tempo ficam desfeitos e aparecem a podridão, o malfeito e o mau caráter que evolam do nada bem escondido na aparência. A aparência que muitos pensam ser tudo e nada é. Todos pagam um preço, o dos embusteiros é a ignomínia.
Desde sempre, tento ser pontual nos meus compromissos e encontros. “Fazer o outro esperar é uma prerrogativa de poder, poder que eu não tenho”, já dizia Roland Barthes. Considero a adulação, a bajulação ou o puxassaquismo uma forma de vileza abjeta. Os bajuladores são como vampiros, sempre atrás de sangue novo. Não acredito em quem tem muitos amigos. O homem se encontra em si mesmo. E, quiçá, com poucos.
Sabem vocês o nome da profissão dos que cuidam das aparências dos cadáveres? Vi, há tempos, o filme japonês “A Partida”, de 1998, em que o protagonista, antes violoncelista de orquestra desfeita, vai trabalhar, sem contar – por vergonha – à sua companheira, no embelezamento de cadáveres que serão, em seguida, cremados. Ao final, ele que era distante do pai que morre, paradoxalmente o prepara para o forno que o transformará em cinzas. Ironia ou destino?
Faz tempos estudei Sociologia, mas hoje, ano 12 de um século que vai mudar o mundo, como todos os outros pretendiam, descubro que há um velho sociólogo judeu, Zygmunt Bauman, que fala da “modernidade líquida” e isso por intermédio de Marcos Flamínio Peres, que o entrevista. Assim, a modernidade líquida, assevera Bauman, faz-nos perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos. Ele escreve livros, tais como “O amor Líquido”, “A Vida Líquida” e o “Medo Líquido”.
Segundo Peres, em consequência dessas sociedades ‘leves’ e ‘líquidas’, “o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com a incerteza”. Pois é, não há autonomia sem perda. A incerteza é e será constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei lá no primeiro parágrafo. Carlos Fuentes, escritor mexicano, falecido nesta semana, sabia disso quando intuía que “a realidade não é suficiente”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/05/2012.

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MÃE É PROFISSÃO? – Diário do Nordeste

Oriana Falllaci, escritora italiana, dizia que “ser mãe não é uma profissão; não é nem mesmo um dever: é um direito entre tantos outros”. Hoje, as mães do século XXI, isto é, as mulheres com filhos de até 12 anos de idade, são bem diferentes das que os tiveram antes da Segunda Guerra e das que conceberam durante a Guerra Fria. As que nasceram após 1978, a tal geração Y, hoje comandam, com garra e capacidade, as suas próprias vidas. Essas novas mulheres estudam, correm em parques e trabalham iguais a homens, com quem disputam espaços profissionais.
Não invocam a maternidade como obrigação do casamento ou união. Decidem, sozinhas ou com o (a) companheiro (a), quando será o momento azado para conceber. Se não o conseguem no sentido bíblico, vão à luta em busca de formas outras de reprodução. Sabem bem o que é fertilização “in vitro” e até compram sêmen em clínica de homem que nunca vai conhecer sequer a descendência. Novos tempos e costumes. Há relação sexual programada, inseminação, fertilização, doação – ou venda – de óvulos e sêmen.
Estas constatações não pretendem chocar ou desmerecer as mães que tivemos. Louvemo-las. Mas aclarar a todos da nova realidade que impõe menos preconceito e mais respeito pelo direito alheio de fazer o seu próprio destino. E acabar com a encenação, vitimação e golpe de mulheres livres que, sabedoras de seu momento fértil, deram e dão o golpe da gravidez – desejada – em homens incautos, cúmplices fortuitos da trama urdida, despidos quase sempre de laços afetivos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/05/2012

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COMPROMISSO COM A MÃE – Jornal O Estado

Depois de amanhã você tem um compromisso com a sua mãe. Importa não que ela tenha morrido há tempos. Vá ao cemitério, remexa no álbum de família e ore, se fé tiver. Importa não que ela não suporte com quem você vive. Importa não que ela já não entenda – ou ouça – a metade do que você diz. Importa não que ela more longe. “Longe é um lugar que não existe”, diz Richard Bach em uma linda novela.
Dê um jeito de chegar. Hoje, com os recursos da tecnologia, você pode gravar uma mensagem e enviar para que repassem para ela. Se não sabe, peça a alguém para fazer isso com você. Mas, por favor, diga apenas o que falaria se estivessem juntos. Não siga as fichas bregas dessas mensagens ou cartões para as mães que oportunistas colocam em carros de som, lojas e livrarias para vender. Escreva, diga ou grave apenas o que sente, mesmo que ache bobo. Sua mãe sabe quem é você.
Filho não tem idade, deixe-se levar por seus sentimentos, mas nada de pieguices, lágrimas falsas, aquelas flores compradas no semáforo ou os hediondos jarros que ficam na entrada dos supermercados. Faça algo de coração ou quede-se quieto. Mãe entende até o que não se diz e faz.
Fui o primeiro filho de uma mulher destemida, inteligente e companheira do meu pai por 50 anos. Morto em 1991. Ela tem agora 92 anos e dá conta da sua casa, empregadas, vida, presença ou ausência de filhos, netos e bisnetos. É independente e distribui o seu dinheiro segundo os seus critérios de justiça. Todos os domingos tomamos café juntos. Levo sempre uma lembrança para ela, mínima que seja. Ela, meio sorrindo, meio séria, diz: “o João pensa que sou criança com esses presentinhos que traz”.
Ela é assim. Clara e direta. Mora em casa cercada de árvores e flores. Lê jornal todos os dias, assinante que é. Vê e ouve as missas das emissoras católicas de TV e movimenta as mãos fazendo “fuxico” com pedaços de panos coloridos, linha, agulha para criar tapetes e adereços para os que a visitam.
Certa vez, uma amiga da família, quis colocar a Margarida numa sinuca. Era dia do seu aniversário. Ela ia cortar o bolo. A amiga disse: vamos ver para quem ela dará o primeiro pedaço. A bonita Marga olhou de soslaio, ajustou os óculos, pegou um prato grande e começou a cortar pequenos pedaços e nos deu a todos, ao mesmo tempo.
Assim, depois de manhã, espante a preguiça e vá ao encontro de sua mãe. Não importa se viva ou morta. Ligue-se a ela. O admirável será o encontro e ele só acontece se você for simples e verdadeiro. Desnude-se dos aparatos como a criança que ela embalou e acalentou no seu colo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/05/2012