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CINEMAS DO DRAGÃO – Diário do Nordeste

Não foi por falta de avisos e conselhos. Familiares e amigos disseram:
não se meta, não vão entender o seu apoio. Por outro lado, via que as salas clamavam por uma mexida. Os cinemas do Centro Dragão do Mar viveram, nestes 13 anos, em função de patrocínio- que acabou – de instituição financeira. Reuni equipe, obtive informações, analisaram e a conclusão, unânime: os cinemas dão prejuízo. Desista. Não, respondi. Estou entrando na luta, e conto com você. Assumo, mesmo sabendo que poucos acreditem que alguém possa, sem interesse, bancar uma causa.
Dou exemplos: há 12 anos criamos a galeria BenficArte, que pouco fica a dever às demais. A diferença: tudo sai do nosso bolso, desde a montagem das exposições, os folders e até o coquetel. Mantemos há quase quatro anos, mais de 30 adolescentes estudando – e já no fim do curso – no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Inventamos uma Fábrica do Bem para multiplicar artesãos. Sem incentivo fiscal algum. Quem duvidar pergunte a uma instituição séria local que cuide de crianças, adolescentes, idosos e doentes.
Repito, sou teimoso e cinemeiro. Chaplin dizia: “Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação”. Aprendi um pouco nos incontáveis filmes que vi. Já pagamos os equipamentos de som e imagem. Estou vibrando. Gosto de desafios. Vou gerir os cinemas com entusiasmo. Espero contar com o seu apoio. As antessalas estão charmosas. As salas, limpas. Vá lá. Ajude-nos a saber que tipos de filmes você quer ver. Responda, por favor: cinedragãodomarsugestoes@gmail.com.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/05/2012.

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BARROS PINHO, PALADINO, POETA E POLÍTICO – Jornal O Estado

Ontem, no jornal O Povo, falei sobre José Maria Barros Pinho. Hoje, amplio um pouco o que contei sobre o jovem magro, altura mediana, branco de tez, mãos inquietas e claros olhos profundos que conheci em 1961. Ele saía da esquina da Rua Pedro Pereira com a rua Padre Mororó à procura do seu destino. Encontramo-nos. Éramos aprendizes de profissão incipiente em uma escola que fora fruto de um acordo entre políticos que lotearam cátedras. Tínhamos um sonho e o perseguimos como ciganos, começando na Faculdade de Ciências Econômicas na Av. da Universidade. Como invasores ou sem teto, fomos expulsos para não contaminar os que pertenciam à novel Universidade Federal do Ceará. De lá, mudamos para uma casa de telha vã e goteiras mis na Av. Duque de Caxias, esquina com a Rua Jaime Benévolo. Paradoxalmente, essa casa pertencia a uma irmã do então Reitor da UFC, Martins Filho.
Pois foi ali que ele e mais duas dezenas de pessoas foram, dia a dia, amalgamando essa profissão de Administrador que, sequer, tinha sido reconhecida. Unidos nessa luta interna contra o preconceito dos que nos viam de forma atravessada, Barro Pinho os desafiou, em 1962, e conseguiu, imaginem, ser eleito presidente da União Estadual dos Estudantes- UEE, entidade cativa e inexpugnável dos integrantes da UFC. A essa época, era um feito histórico. Fora a porteira derrubada pelo jovem teresinense, com raízes em Crateús, aclimatando-se na brejeira Fortaleza de então. Entrara por mérito, eloquência e destemor e daí a senda que palmilhava foi, pouco a pouco, virando estrada de refregas contínuas. O que lhe fizeram em 64 foi o condão, uma espécie de elixir que fortificou suas convicções libertárias
Estava sendo forjado o paladino. Passada a tormenta, apascenta seu coração nos braços da meiga Isabel Aracimy, colega de escola, apascentadora de seus arroubos e companheira de vida. Fez-se, por mérito e luta, vereador, deputado, prefeito da já sua Fortaleza, secretário da cultura do estado e condutor das curtas rédeas da franciscana Fundação Cultural de Fortaleza. Pai de cinco filhos que cresciam como gente, sob os olhares de uma comparte ciosa de seus deveres e sempre relevadora dos arrebatamentos do inquieto marido. Agora, aplainamos as nossas lembranças, inquietações e desassossegos com escritos.
Gervásio de Paula, Airton Monte e Juarez Leitão, já disseram tudo – e muito bem – sobre Barros Pinho, esse colecionador de punhais, ourives de poemas e político por sentimento e destino. Pensei até em transcrever partes de seus escritos, mas seria apropriação indébita do mérito alheio. Quedei-me ao universo limitado que vivemos em tempos idos e revividos em inconsequentes colóquios na sala plural do Sérgio Braga, onde surgiu o Clube do Bode, uma anárquica criação coletiva sob as bênçãos do Barros Pinho e a pena satírica do Audifax Rios.
Agora, nesta sexta-feira, com ou sem fé, às oito da noite, na Paróquia de São Vicente de Paulo, cada um se achegue por lá com a sua consciência. Se possível, para tentar (des) montar o quebra-cabeça que nos faz náufragos sempre que a dita cuja nos prega peças.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/05/2012

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EPIFANIA DO BARROS PINHO – Jornal O Povo

Não invoco amizade com Barros Pinho. Ele não está aqui para confirmá-la. Fomos colegas de 61 a 64. A Escola de Administração do Ceará nos usava como alunos e cobaias. Éramos aprendizes em sedes mutantes, goteiras a marcar o cimento do piso. Fundamos o Centro Acadêmico Juscelino Kubitschek para nos dar compasso e Barros Pinho emerge na presidência. Fomos à luta. Ninguém nos reconhecia como universitários. Que escola era aquela? Veio o agosto de 61. O presidente Jânio Quadros renuncia. Há impasse com a presença na China do vice Jango.
Aqui, jovens conseguem de Moisés Pimentel, então dono da Rádio Dragão do Mar, um transmissor volante. É decretada greve universitária. Barros Pinho fazia parte do “Comando da Legalidade”. Jango assume o governo. Floresce o ano de 1962 e o também Zé Maria luta pela presidência da UEE, reduto exclusivo de universitários da UFC, a única de então. E vence. Em julho, fomos ao conturbado congresso da UNE em Petrópolis, Rio. A comitiva cearense recebe uma Kombi do Governo Federal, por iniciativa do Senador Paulo Sarasate. Sou designado para dirigi-la por lá até que fosse enviada para Fortaleza. Paralelo a isso, BP intuía que “a ponte e o rio/me ligam à vida/vida que se liga/na solidão”. Conhece Isabel Aracimy que o tirou da solidão e virou seu mote de vida permanente fugindo do “amor nas veredas disputado no chão com as serpentes”.
Abril de 64, uma tormenta o leva para as “terras barrentas do Parnaíba” e é trazido para a avenida 13 de Maio, mas não para a igreja. Tudo era o “trágico do apocalipse no último cata-vento”. Ultrapassa o portão verde e sai com “a indignação do poeta a rasgar no punhal”. Com eloquência, destemor e desenvoltura é eleito vereador de Fortaleza e, no pleito seguinte, elege-se Deputado Estadual. Mas o poeta encobria um educador que precisava construir uma escola. Com unhas e dentes constrói e dirige um colégio a homenagear o abolicionista e escritor Oliveira Paiva, autor de “Dona Guidinha do Poço”. E disse: “Fui além de mim para acender uma luz”. Luzes nunca o ofuscaram.
Em 1985 assume a Prefeitura de Fortaleza e sai tal como entrou: limpo e festejado. T.S. Eliot acreditava que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção”. Eu direi que a poesia era o seu remanso ou o catalisador de suas infinitas angústias, humano pensante, profundo e engajado que foi. Depois, o gestor e homem de letras reflexivo pastoreou, por anos, com aprumo e retidão, a cultura do Estado e a de Fortaleza sempre fazendo milagres com os tostões contados.
Poetou e contou versos que se transmutaram em prosa. E ei-lo maduro, pai e avô, temente a um Deus que imaginara (des)acreditar na reflexão e no mourejo da lida e escrita. Cãs, com 70 poemas para orvalhar o outono, canetas no bolso da camisa, em plena madureza sentia e vivia a sua epifania no planisfério do castelo azul. O circo encantado o chama, como antevira, em Núpcias das Águas: “o céu se preparando pra noite com o lençol da camarinha”. E no outro lado, além do planisfério, é recepcionado pelo poeta e amigo Gerardo Mello Mourão: “amadureceram-me as narinas sábias tal a rosa-dos-ventos dia e noite do navegante.”

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O POVO EM 03/05/2012.

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FOTOGRAFANDO FORTALEZA – Diário do Nordeste

Faz doze anos que promovemos concurso fotográfico, sempre em abril. para homenagear o aniversário de Fortaleza. Neste ano há 84 fotos inscritas. As fotografias, sabe você, saíram do processo único de captar, formar e fixar uma emulsão à imagem de uma pessoa ou um objeto sobre papel especial. Hoje, há simplificação e, ao mesmo tempo, tecnologia sofisticada com filtros, lentes e que tais. Cada fotógrafo é livre para escolher o equipamento, o processo e o objeto do seu olhar.
O que tem me chamado a atenção no concurso são os locais dos “clicks” escolhidos. No imaginário deles, a cidade parte da Praça do Ferreira que é vista e irradiada de várias formas: a mistura do povo com os ambulantes, o Theatro José de Alencar, a Catedral, o Passeio Público, o Parque da Criança, a Secretaria da Fazenda e o Centro Dragão do Mar. Destacam ainda aspectos do Benfica com ênfase nos centros de Cultura, do Maracatu – na Av. Domingos Olímpio – e o panorama da cidade, a partir do alto de um edifício.
Há uma facetada atenção às praias. Barra com a Vila do Mar; Iracema, com a ponte dos Ingleses, a estátua da guerreira e o espigão; Meireles, com um resto de navio encalhado e Mucuripe, com o concreto da Guardiã, velas, vento e o anoitecer; A do Futuro, com as suas barracas. A natureza é aquinhoada pelo Parque do Cocó. A comissão julgadora terá profissionais do nível de A.Capibaribe Neto, Eduardo Queiroz, Mauri Melo e Alcides Freire. Eles terão trabalho para escolher os vencedores. E isso é bom. Ia esquecendo:
A exposição estará disponível para ser levada a escolas públicas. De graça.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2012.

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CHOVIA EM BRASÍLIA – Jornal O Estado

“Na verdade quem projetou Brasília foi o Lúcio Costa. Eu fiz uns prédios e avisei que… não ia dar certo.” Oscar Niemeyer Soares
Estive em Brasília. Em trânsito. Era noitinha. Chovia. Nada a fazer, o avião demoraria horas. Apanhei um coletivo e a chuva aumentou. As repartições estavam fechadas com luzes acesas. Os limpadores do para-brisa trabalhavam para me mostrar, entre grossos pingos d’água, o Eixão com os prédios bonitos e os monumentos projetados por Niemeyer Soares, o Oscar. Ele não usa este último sobrenome. Talvez seja implicância comigo. Em troca, repito o que dizem alguns usuários dos prédios que projetou no meio do cerrado: são bonitos, mas mal divididos internamente.
A cidade de Lúcio Costa completa 52 anos neste abril e já comporta, dentro e fora do plano piloto, muitos problemas urbanos e aqueles outros criados ou urdidos pelos que acreditam que nela moram. Meros passantes nas casas nobres da cidade. O que são alguns ou muitos anos no tempo infinito? São eles, os passantes, quase todos, usuários de aviões que os levam e trazem, plenos de empáfia e vazios de brasilidade. Até pagariam para estar lá. Integram clubes. Nesses clubes jogam fichas com todas as cartas de terça à quinta. Refestelam-se alhures nos fins de semana ou em seus torrões com os que os incensam em troca de favores. O veículo faz a curva e entra no Setor Hoteleiro. Quantas bandeiras. Quantas tramas foram maquinadas em seus apartamentos impessoais. Começou no Hotel Nacional. Tempo de Juscelino.
Lembro que Carlos Heitor Cony acredita ter sido JK vítima de “acidente forçado”. Como?. O carro Opala em que ia de São Paulo para o Rio, dirigido por pessoa de sua confiança, atravessou o canteiro central da Rodovia Pres. Dutra e foi colhido por um caminhão Scania em sua mão de direção, em Rezende, RJ, no dia 22 de agosto de 1976. Falou-se que um ônibus da Viação Cometa teria batido na traseira do carro e o desgovernara. Cony diz que JK, Jango e Lacerda, os não amigos e integrantes circunstanciais da “Frente Ampla”, morreram por encomenda num espaço de nove meses. Coincidência e especulação jornalística?
João Goulart, cardíaco e abstêmio compulsório, estanciava no exílio do Uruguai. Na companhia da sua mulher Maria Thereza e amigos viajou muito em um só dia. Usou avião pequeno, barco e, depois, dirigiu um carro até Corrientes, Argentina, onde tinha outra fazenda. Chegou exausto, jantou churrasco, foi dormir e não mais acordou na madrugada de 06 de dezembro de 1976. Carlos Lacerda, estressado por natureza, tomava remédios, gripou e acreditava-se cardiopata. Desidratou e foi levado de ambulância à renomada Clínica São Vicente, no Rio. De lá saiu o esquife em 21 de maio de 1977.
Volto ao aeroporto. Desço, entro em uma livraria, compro livros. Passo pelo controle, embarco e coloco o cinto. O avião taxia, limpo os óculos e começo a ler “O Corretor”, de John Grishman.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/04/2012

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A LIVRARIA – Diário do Nordeste

Para mim, livraria é lugar bendito. Jorge Luís Borges na sua sabedoria argentino/europeia dizia que “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”. Na Internet há um blog: “Quero morar em uma livraria”. Dia desses, andando por aí afora, revi uma que considerava das melhores do mundo. Agora, pouco a pouco, deixa de ter a aura que o livro lhe confere. Vende livros, cds, dvds, equipamentos eletrônicos, jogos, revistas e jornais. Pais com filhos procuram iniciá-los na leitura/literatura, o mundo da introspecção. Adolescentes liberados, com piercings e tatuagens, usam laptops e os I da vida – pad, phone e pod. Sentam-se em qualquer lugar e sugerem “entrar em alfa” ou algo assemelhado. Fecham os olhos ou os arregalam mirando o infinito. Nada de livro à mão.
Aposentados ou assemelhados, esgrimindo com a solidão, leem livros de forma continuada, dia sim, outro também. A custo zero. Usam marcadores após a leitura do dia e os repõem nas estantes classificadas. Parecem ser estacas fincadas, página a página, adiando o encontro certeiro.
Há silêncio e ruídos na “cafeteria” que supre a fome no espaço gourmet com aromas de café e bolos. A área de informática aumenta e o uso gratuito de Wi-fi permite a conexão com as redes sociais. Plasmam ou imaginam o vir-a-ser do incógnito futuro que aporta em todas as manhãs orvalhadas. Comprei livros e não saí pela porta principal. Ela exalava o cheiro da impressão aligeirada das novelas de ocasião, acolitadas pelo mar de livros de autoajuda. Vade retro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2012

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CINEMAS, ONTEM E HOJE – Jornal O Estado

Comecei a ir a cinemas ainda de calças curtas. Morava na Rua Major Facundo e ia a pé para o centro que distava apenas três quadras.
Havia filmes e seriados. Explico: tais como as novelas de televisão de hoje os seriados apresentavam muitos capítulos e sempre, cada um deles, concluía com cenas e momentos de perigo para o mocinho acossado pelo bandido. A ansiedade era o elo para o espectador não perder o próximo capítulo e o fio da meada. Uma das mais importantes era “Flash Gordon”, estrelado por Steve Holland. Nós recebíamos filmes e seriados com anos de atraso.
Hoje, os lançamentos são mundiais e simultâneos. Quase sempre.
Agora, neste 2012, o cinema está mudando não só do tradicional filme de 35 mm para o digital com sons e efeitos compatíveis com o avanço da informática. A televisão aberta e as operadoras de canais fechados têm roubado grande parte da clientela dos cinemas. A solução encontrada foi a de transformar a sala de cinema como uma extensão da casa do espectador. Vi, neste mês de abril, salas de cinemas em que os aficionados sentam em poltronas largas – tipo as chamadas do papai, reclináveis, com uma mesinha retrátil e consulta um cardápio com acepipes e bebidas. Garçonetes servem. Como se já não bastassem a pipoca, os docinhos e refrigerantes. O cinema, em face da crise, resolveu concorrer com a sala de estar das casas que possuem televisões de todos os tamanhos e a comodidade da geladeira e da cozinha. Essa inversão é para reconquistar os adultos e as crianças que se empolgam também com as guloseimas.
Afora isso, a chegada definitiva do filme digitalizado, tal como se faz há anos nos estúdios das redes de televisão, marca o fim do charme e encanto dos grandes rolos de fita que ainda são colados por operadores diligentes em prosaicas máquinas manuais. Era e ainda é assim aqui e em Los Angeles ou qualquer canto do mundo. O fim do cinema analógico está programado para até 2015. O que escrevo não é novidade para os cinéfilos J.G. Miranda Leão, Pedro Martins Freire, Frederico Fontenele Farias e José Augusto Lopes, entre outros, que, certamente, estão atônitos. Essa mudança acontece ao mesmo tempo em que os filmes gerados em três dimensões – 3-D,aprimoram enredos consequentes e não confiam apenas nos efeitos especiais. Chaplin, em outra dimensão, pegará a bengala de Carlitos – seu personagem – com raiva e virará as costas em seus passos sincopados.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/04/2012.

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O CANGAÇO E SUA INFLUÊNCIA NA ESTÉTICA – Jornal O Estado

Na Exposição da Galeria BenficArte “Nosso Chico Anysio” em abril passado, descobrimos vários talentos. Um deles, Jô (Joaquim) Fernandes, paranaense que deixou as araucárias, os pinheiros-do-paraná, símbolo das árvores daquele estado, para se embrenhar, desde 1974, no imaginário da caatinga local. E o fez com o destemor do publicitário, do vendedor de sonhos, do marchand que cria e comercializa adornos e do artista plástico que se propôs a entender as vidas e as artes/manhas do cangaço, como se fosse um oriundo culto.
Jô Fernandes preparou para a Galeria Benficarte esta bonita exposição. Ele busca, em acrílico sobre telas, como se fosse um antropólogo/pintor ou um sociólogo da arte do cangaço, mostrar esse lado pouco coligado e cultuado do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. E o faz misturando consciente/inconsciente, e descobre que os adereços usados pelos cangaceiros constituem parte do conteúdo da arte armorial identificada, codificada e pontificada, desde 1970, pelo escritor paraibano/pernambucano Ariano Suassuna.
O drama, a carnificina, a pilhagem, a revolta, ou como que se queira chamar o tempo do bando de Virgulino Ferreira, de sua companheira Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e de seus asseclas, foram, paradoxalmente, os despertares de uma arte singela na criação, estilização e produção do múltiplo de saqueador / vingador / estilista / bordador / costureiro/ dançador. Desde os chapéus de couro adornados com espelhos, flores e desenhos octogonais em gibões, calças, camisas / blusas, perneiras, embornais, sacolas/bolsas, cantis, alpercatas e até nas bainhas de armas de fogo e brancas. Tudo é estilismo puro, mesmo que essa palavra quiçá tenha passado pela mente desses facínoras/criadores de arte.
É essa face lúdica e estética de Lampião, de Maria Bonita e dos demais cangaceiros que Jô Fernandes, um “nordestinado”, como ele auto se intitula, tenta expressar no projeto “O Cangaço e sua Influência na Estética”, que a Galeria BenficArte expõe a partir deste domingo, 03 de junho, aos olhos e ao pathos dos seus visitantes. Ela é uma visão social transformada em arte.
João Soares Neto não é crítico de arte
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2012.

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PLANTE UMA ÁRVORE – Diário do Nordeste

Camões louva as árvores: “Se não te celebrar como mereces,/cantando/te, sequer farei contigo/doce, nos casos tristes, a memória”. Na minha juventude a maioria das árvores que existia na cidade era composta de fícus-benjamim. Houve uma praga(“lacerdinha”). Árvores morreram. Outras, sacrificadas. Hoje, há carência de árvores. O calor que nos acompanha todo o ano, chovendo ou não, demonstra que se pode, ao plantá-las e cuidá-las, diminuir a incidência dos raios solares em praças, parques, empresas, instituições, jardins e vias. Instituições têm, na última década, consagrado especial atenção a esse mister.
Com os recursos da informática é fácil ver as áreas da cidade ainda carentes de vegetação. Desde 2002, agindo isoladamente, ou em parceria com a CDL, CRolim, Semam, Semace e o Horto Municipal, temos distribuído milhares de árvores, acompanhadas de orientações de plantio, poda e rega. Pois, sendo a terra sujeita a escassez de chuvas é preciso regá-las, sempre. Florbela Espanca, fala da seca: “Árvores! Não Chores! Olha e vede:/ Também ando a gritar, morta de sede/Pedindo a Deus a minha gota de água”.
E devemos plantá-las por uma questão simples. Sombras são benfazejas nesta terra em que termômetros giram em torno de 30º graus e cânceres de pele proliferam. Agora, o Grupo Edson Queiroz destaca, todos os dias, neste DN: “Plante uma árvore. Semeie esta ideia”. Devemos plantar, hoje e sempre, pois quase não temos companhias para o velho baobá do Passeio Público. Plante uma. Esta semana é a festa das árvores.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/04/2012

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RÉQUIEM PARA CHICO ANYSIO – Jornal O Estado

Às 14h45m da sexta passada, 23 de março de 2012, Chico Anysio morreu. Pela última vez. Desde dezembro ele brincava de morre-vive ou esconde-esconde com Hades, Ceifador, Angeu, Hel, Ankon, Nefitis, Yamaraz, Valdemort, Azrael, Catrina, alguns dos nomes da morte. Matavam os seus personagens, não o Chico. Enfim, A luz o abraçou e levou. Liguei, em seguida, para Elano Paula, seu irmão mais velho e querido. “João, ele teve hoje quatro paradas cardíacas e se foi na última”. Elano era contra a missão impossível de manter o irmão, confidente, parceiro em artes, cultura e amigo, vivendo por meio de aparelhos com risíveis melhoras e declarações piegas nas mídias sociais por gente que o cercava. Elano fala do irmão: “O Chico é o meu amigo especial, somos admiradores um do outro. Começamos juntos, eu mudei de vida e ele seguiu subindo a escada do sucesso”. Os irmãos de Chico têm, tal como ele, inteligência privilegiada, mas não são expansivos ou “show off”.
Dos seus irmãos, já morreram Lília e Lupe. Lília era casada com médico paraibano. Certa vez conversamos, por horas, do seu “desterro” em João Pessoa, da sogra chata, de cultura, da família e do Rio, onde cresceu. Em seguida, ela se foi. Chico tinha um show no mesmo dia, o fez. Depois, chorou.
Lupe, a irmã mais velha, igualmente casada com médico, este carioca, trabalhou no rádio, televisão e cinema, a contragosto do marido. Daí sua vida artística ter sido entrecortada, limitada e a pessoal, aflita. Zelito Viana, nas palavras do próprio Chico: “é um cara muito bom, profissionalmente, Foi o produtor dos sonhos de Glauber Rocha e dirigiu filmes admiráveis como “Os Condenados” e “VillaLobos”. O problema é que ninguém muda o temperamento de ninguém. Assim, como eu sou 220 volts, o Zelito é 12 volts, nem dá choque”.
Em janeiro de 2004 tive uma longa conversa com o Chico, a quem conheci desde os fins dos anos sessenta. À época, num fim de tarde, revendo juntos pontos de Fortaleza, falei para ele: vamos dar uma passada na casa da D. Margarida, minha mãe? Claro, João. Entramos, sentamos à mesa da sala de jantar e ele disse: D. Margarida, podemos tomar um café com bolo? Foi um momento especial e descontraído.
Voltemos para 2004: Ele se queixou da emissora em que trabalhava, das suas limitações pulmonares por conta do cigarro e me apresentou à sua sexta mulher, Malga, que havia sido mordida no ombro por um mosquito e foi procurar remédio. Ficamos sós. Resolvi, então, propor a ele uma entrevista que hoje está no meu livro “Gente que Conta”. Aproveito para citar alguns trechos do que ele me disse. 1. Sobre ele mesmo: “No fim sou um covarde, que se esconde atrás de várias caras por temor de me expor ou um mau-caráter que, em vez de se dar ao trabalho, prefere por vários infelizes para trabalhar no seu lugar. 2. Sobre genialidade: É uma palavra muito usada e, por esta razão, mal usada, nos dias de hoje. Acho que a palavra gênio só se aplica a um homem como (Alberto) Sabin, que inventou uma gota que tirou dos pais do mundo inteiro um grande medo, a milagrosa vacina que evita uma doença tristíssima para as crianças”.
3. Sobre a sua terra: “O Ceará é importante demais para mim, porque representa a minha infância, o momento melhor de minha vida, quando eu, filho de rico, tinha um rio em Maranguape que parecia correr somente para mim, uma casa onde havia o quarto onde nasci…No quintal da nossa casa no Benfica, eu brincava de cabeçulinha, gol-a-gol, rodava pião e nunca o meu pai ou a minha mãe encostaram a mão em mim, num gesto de castigo”.4. Sobre a sua arte de pintar: “Quem dera, João, que eu pudesse ter, no que pinto, qualquer mínima coisa de Renoir. Ele é um dos meus ídolos, como Velásquez, Van Gogh, Sérgio Telles e Matisse…O sentido final das minhas tintas é que elas sejam o emprego da minha velhice”.5. Sobre a sua personalidade, perguntado por mim se era um simples que se tornou sofisticado: “Para com isso, João. Quem é sofisticado? Eu sou a coisa mais simples do Brasil. Mais simples do que eu…só…Só…O quê? Arroz com feijão – que é o que eu como todos os dias”.
Nesta sexta, 30, sete dias após a sua morte, este relato foi a forma que encontrei de homenagear um cearense, cidadão do Rio e do mundo, maior humorista do Brasil, ator, escritor, artista plástico e gente, sobretudo. Réquiem, Chico. “Acta est fabula” (O espetáculo terminou), atribuído a Augusto, romano que fez o papel de imperador.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/03/2012