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O RIO, A AMIGA E O HOTEL

Parece nítida a imagem. A Av. Atlântica ainda era estreita e abrigava, do posto 02 ao 06, vários casarões e sobrados. Em um deles, a proprietária, uma ex- nobre viúva de muitos e muitos anos, hospedava moças de “fino trato, bem recomendadas e de boa família”. Entre elas, uma amiga que viera passar as férias de julho no Rio. Eu me deslocava para visitá-la lá da Ilha do Governador, onde ficava na casa de uma tia.
Em horários marcados para sair e voltar, passeávamos alegres e despreocupados. Um desses passeios era ir até à esquina da Rua Sá Ferreira, onde se erguia o bonito e majestoso Miramar Palace Hotel. Lá, um empresário destas plagas, hospedava-se com toda a sua família por semanas seguidas. Éramos recebidos no “lobby” e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos mármores e a vista do mar descortinada de suas sacadas.
Aquilo ficou gravado na minha memória. Anos após, já formado e começando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensação gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo “lobby” e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude.
Semana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, não passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda térrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados.
Hospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, décadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sofás, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou à tona. Mas não havia mais perguntas e as respostas pareciam não fazer mais sentido.
A Av. Atlântica, alargada, já não comporta mais o fluxo de veículos, e é ainda essa mistura de encanto, sedução – e agora – permanente medo. Os sobrados e casarões foram, há muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de então quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. Eu, por outro lado, já não tenho os fervores da juventude e da imaturidade e, o barulho seqüenciado – e monocórdio – do mar parece mostrar, sem nenhuma dúvida, que os sonhos são engolfados pela realidade, que nos puxa para frente, mesmo que as lembranças do passado estejam por perto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2000.

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O DINOSSAURO E O FUTURO

Eu sou um dos dinossauros da profissão de administração. Fui aluno da primeira turma e, se me lembro bem, junto com um punhado de colegas, andei ajudando no processo de reconhecimento do curso de administração, na regulamentação da profissão e até nas escolhas do símbolo e da cor da pedra do anel de formatura.
A profissão era absolutamente nova. Ninguém tinha idéia exata do que aprender e, muitos professores, do que ensinar. Era um processo de ajuda mútua, de erros e acertos, ajuste de currículos e mudança de sede emprestada, para alugada e, finalmente, própria.
Foi uma luta muito grande. Pouca gente sabe disso e, os poucos que sabem, não lembram ou fazem idéia das idas ao MEC e das vindas de comissões do Ministério de Educação para aprovar o curso. Vestibular, pasmem, foram dois. O primeiro não valeu, apesar de aprovados e cursando até outubro. Tivemos que fazer um novo e repetir o primeiro ano. Alguns desistiram, outros foram em frente.
Hoje, passados tantos anos, vejo que a luta não foi sem sentido. Da Escola de Administração já saíram ministros, um governador e um vice (os atuais), prefeitos, senadores, deputados federais e estaduais, administradores de empresas multinacionais, nacionais, regionais, estaduais e locais. Isso é um dado bastante positivo e pode servir de referência para a história.
Por outro lado, sei que isso pode parecer coisa do passado e “o passado não move moinhos”. Acontece que não temos moinhos de vento e o passado, neste caso, é que dá autoridade a algumas pessoas para propor uma revisão crítica da carreira do administrador e a conseqüente melhoria da qualidade do ensino. Melhorar significa dar uma qualidade maior às coisas boas que são feitas. Melhorar é tornar-se capaz em face das condições emergentes deste século novo que vai começar em poucos meses.
A globalização e a competição desenfreada germinaram tudo isso. Nós estamos ai com um mundo completamente diferente, por exemplo, de há dez anos. A velocidade das transformações dos processos de gestão cria essa angústia em profissionais recém formados que não têm ferramentas para ingresso no escasso mercado de trabalho e, por outro lado, elimina os que não souberam se ajustar ao mundo informatizado e prenhe de novas informações e conhecimentos.
Não basta, por exemplo, fazer esses cursos de especializações e MBAs, muitos sem consistência e visando apenas fornecer diplomas em troca de dinheiro.
Recentemente, soube de um processo de seleção promovido por um “headhunter” para “trainees” ou profissionais recém-formados. Fizeram uma pré-seleção com avaliações específicas da profissão e de conhecimentos gerais. Passaram uns 20% dos inscritos. Na segunda etapa, colocaram todos em uma sala às 7.30 horas da manhã e disseram: quem não leu os jornais de hoje pode sair da sala. Em seguida: quem não falar inglês fluentemente, pode sair da sala. Quem não souber utilizar a informática como ferramenta básica, até logo. Os poucos que ficaram ainda tiveram que fazer uma última prova.
O mercado está a exigir mais capacitação, excelência e eficácia. E o mercado não manda mais avisos. Age de olho no futuro que se prenuncia nebuloso para as pequenas e médias empresas e cruel para os profissionais que não estiverem de acordo com as suas exigências, cada dia maiores e mutantes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2000.

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OPINIÕES

Algumas pessoas têm me perguntado sobre a repercussão que teve o meu livro “Sobre a Vida e o Amor”. De princípio, evitei falar. Mas, por dever de gratidão, reproduzo, em rigorosa ordem alfabética, algumas opiniões generosas. Nenhuma delas foi provocada. Todas absolutamente espontâneas, umas publicadas na imprensa, outras remetidas diretamente para mim. A todos, meu muito obrigado.
“Tenho lido assim: saboreando aos pouquinhos. Assim, vem a alegria, a ternura, a reflexão, o sonho, o criador, força, nostalgia, saudade, sensualidade, tranquilidade, graciosa descrição, tristeza, ação, fraternidade e verdade. Tantas coisas”. Ana-Isa Barbosa – pedagoga
“Cronista bom é aquele que tem olhos para ver e alma para sentir o drama do cotidiano. Suas páginas agradam não só pela suavidade do estilo como pela objetividade dos conceitos”. Blanchard Girão – escritor
“Gostei bastante da maneira com que você apresenta certos temas, atacando mitos, criticando o ridículo, denunciando o absurdo ou, então, expondo seus sentimentos, suas vivências, suas alegrias, seus sofrimentos. De tudo, o que mais me agradou, foi a sua coragem de se expor”. Claudia Broetto – analista Bacen
“Concordei com suas colocações. Não só concordei. Ri e chorei. A sua linguagem é simples, precisa e correta. Suas ideias são ótimas e você sabe tirar do cotidiano salutares lições de vida”. Célia Vause – professora USA.
” Sabia que você escreve bem, é lido e sabe diversificar os temas para as suas crônicas. Você não me surpreendeu mais, porque o conheço de anos atrás, sempre inteligente…” Eduardo Campos – escritor
“Gostei muito. Também me diverti com as artimanhas que usa para esconder, ou proteger sua individualidade. Parece que é ET, algumas vezes pairando sobre o bem e o mal, a vida e o amor. Conhecedor profundo de seus mistérios, todos”. Eliana Palma, radialista
“Gostei sobremaneira do modo como consegue ser profundo e sucinto ao mesmo tempo. Você se revelou um homem sensível e justo diante da vida, com opiniões e conselhos sábios”. Neusa Veríssimo -mestra de Yoga
“Foi lendo seu livro na varanda da pousada onde me hospedei por três dias que tive o ensejo de violar o espaço sagrado de seu interior através das palavras que suas crônicas me proporcionaram.” Ubiratan Aguiar – dep. federal
“Amei sobretudo ‘Meu pai’ e os artigos em que você fala sobre sua dependência das mulheres, isso é grande, um homem inseguro não revelaria isso”. Nícia Cláudia Marcílio – juíza do trabalho
“Além de um belo conteúdo, este livro tem servido para um leitor atento verificar que, no Brasil, as coisas nunca mudam, e quando mudam, quase sempre, para pior. Eu gostaria de lhe pedir permissão para emprestar este seu material, para alguns amigos, professores e estudantes do Brasil, que se encontram aqui em Cornell.” Raimundo Souza – professor doutor visitante, Cornell University-U.S.A
“Aprendo e me delicio com os seus textos”. Roberto Martins Rodrigues – professor e procurador da república.
” Ficou mesmo bonito. Voltei a folhear os seus artigos e gostei de relê-lo, mais do que da primeira vez”. Saulo Neiva – professor doutor, França, prefaciador do livro.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2000.

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O FUTURO MEXICANO

O México está vivendo neste domingo, 02 de julho, uma data extremamente importante. Serão realizadas eleições gerais em todos os níveis. Cerca de 58 milhões de mexicanos irão às urnas para escolher o novo Presidente da República, 500 deputados, 128 senadores, prefeitos e vereadores.
O México é pouco conhecido para a maioria dos brasileiros que o associam a “sombreros”, “tequillas”, “tacos”, mariacchis”, às praias de Cancún e Cozumel, às novelas que a SBT retransmite e à grande população (20 milhões) de seu Distrito Federal. O México é mais que isso .É um país que luta tenazmente para conseguir um estágio de crescimento que permita a diminuição das suas desigualdades sociais. E o faz demonstrando uma grande pujança econômica, após a crise eclodida em dezembro de 1994. O petróleo e as empresas montadoras decorrentes do NAFTA, entre outros, dão ao México um relativo suporte para seguir em busca de seu grande destino.
Com uma população de quase cem milhões de habitantes, vive um instante importante nas suas exportações com 150 bilhões de dólares neste ano de 2000 a uma taxa de crescimento de 5% do seu Produto Interno Bruto, com uma característica especial. Das 40 mil empresas exportadoras estabelecidas no México, 95% são pequenas e médias
Sendo a segunda economia latino-americana – e o país latino mais próximo dos Estados Unidos- está sob os holofotes da imprensa internacional, inclusive brasileira, neste instante significativo de sua trajetória em busca da sua consolidação democrática.
Observadores, jornalistas e integrantes de organizações governamentais internacionais e ONG’s estão dando especial atenção ao processo eleitoral de hoje que escolherá, para um único mandato de seis anos, o novo presidente da República, pois no México não há nem reeleição, tampouco segundo turno.
Esse caldeirão,reunindo progresso e ainda desigualdades, tem sido o principal argumento dos três principais candidatos à sucessão do Presidente Ernesto Zedillo que assegura um pleito limpo, pois, segundo ele “o sistema eleitoral mexicano é eficiente e os resultados serão transparentes”.
Os três candidatos mais fortes são Francisco Labastida Ochoa, do Partido Revolucionário Institucional, Vicente Fox Quesada, da Aliança pela Mudança (Pan/Pvem) e Cuaúhtemoc Cárdenas da Aliança por México (Prd/Pt/Psn/Pás/Cd).
Os candidatos com mais chances de vencer são Francisco Labastida Ochoa e Vicente Fox Quesada que estão praticamente empatados em todas as pesquisas de opinião levadas a efeito.
Com matizes ideológicos semelhantes, os dois principais candidatos focaram as suas campanhas em ataques aos adversários e na indicação de soluções para os problemas da nação, sob a proteção da dualidade cósmica da águia e do jaguar, que representam o dia e a noite, o céu e a terra mexicanos. Isto sem falar em orações à Virgem Morena (N.Sra. de Guadalupe), apesar do país ser laico.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/07/2000.

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PENSAR EM VOTAR

Este ano teremos eleições municipais. O Brasil, de ponta a ponta, vai escolher vereadores e prefeitos. Você tem consciência disso? Faltam apenas 90 dias.
A propósito, você sabe bem o que faz um vereador e um prefeito? como funcionam uma prefeitura e uma câmara de vereadores? como são feitas as leis municipais? o que é uma lei? para que serve? como o dinheiro público – nosso – é empregado?
Creio que o TRE, as escolas, colégios, universidades, organizações não governamentais e entidades de classe deveriam dedicar mais atenção às eleições. Todos, especialmente os jovens, deveriam receber informações sobre o voto, partidos e seus programas, candidatos e seus planos, sistema de votação, processo de apuração, a declaração dos eleitos e os deveres e direitos de cada vereador e prefeito. É preciso deixar claro que os vereadores e prefeitos são delegados do povo, ou mais claramente, são a cara e a voz do povo que os elege.
Vejam como surgem, por exemplo, os candidatos a vereador: Imaginemos um dirigente comunitário ou corporativo com a capacidade de liderança em um bairro pobre ou de classe média ou em determinada categoria profissional. Esse dirigente se destaca e um partido lhe oferece uma legenda, isto é, a oportunidade de ser candidato a vereador. Ele preenche uma ficha de filiação a esse partido e torna-se apto a se candidatar. Vai para uma convenção como pré-candidato e, nessa convenção, passa a integrar a lista de candidatos do seu partido à Câmara de Vereadores. Faz propaganda, visita amigos, participa de reuniões, comícios, debates etc. e, se ao final do pleito, for um dos eleitos, terá um mandato por quatro anos.
A palavra mandato deixa claro que alguém lhe deu essa oportunidade. Quem manda no vereador, e no prefeito é o povo. Pouca gente sabe disso e até imagina o contrário.
Procure saber da vida pública dos candidatos a vereador e prefeito, especialmente se são candidatos a reeleição. Veja se não estão metidos em escândalos, respondendo a processos e se os seus próprios partidos estão satisfeitos com eles. Verifique nos casos dos candidatos a Prefeito se têm experiência administrativa, o que comandaram nas suas atividades pública e privada, se conhecem os problemas de sua cidade e quem são as pessoas que o assessoram e acompanham. Tem aquela velha estória: “diz- me com quem andas, que te direi quem és”.
Na próxima eleição de 01 de outubro você vai ter oportunidade de mandar um vereador para a Câmara e um prefeito para dirigir a sua cidade. Mal comparando, é como se você estivesse delegando – dando uma procuração ou mandato – a sua capacidade de decidir sobre o futuro da cidade onde vive a duas pessoas em quem confia e, principalmente, a quem pode cobrar prestação de contas.
Temos tempo. Se você já votou, procure se lembrar em quem votou nas últimas eleições municipais. Caso os seus candidatos tenham sido eleitos, procure saber o que eles fizeram. Telefone, informe-se, leia jornal, veja televisão, participe de comícios de vários candidatos e pense muito. Procure saber como esses candidatos viviam antes de se eleger e como vivem hoje. Perca – ganhe, na verdade – tempo analisando os nomes das pessoas que lhe pedem voto e imagine como se comportarão após eleitas.
Dedique um tempo a pensar neste assunto. Converse, ouça e decida por você mesmo. Se você pensar mais e escolher melhor poderá começar a entender o que é cidadania e o poder do voto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2000.

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ANÁLISE E INTUIÇÃO

Os tempos de hoje são, essencialmente, analíticos. Quase toda pessoa ou microempresa pode ter um computador e até o mais modesto merceeiro sabe fazer contas, estabelecer comparações e tirar conclusões.
Vivemos uma época de um aparato tecnológico exuberante. Todos se servem da tecnologia nas mais diferentes áreas do conhecimento. Mas, são poucos os atrevidos a usar a intuição nas decisões mais intrincadas, sejam pessoais ou profissionais. Até mapa astral e horóscopo são feitos por computador, imaginem.
Os anatomistas e os neurologistas falam que possuímos, nos nossos cérebros, dois hemisférios: um do lado esquerdo, cuidando da análise e outro, do lado direito, valendo para as intuições. Segundo eles- se não estou errado – os canhotos têm as ligações cerebrais invertidas. Eu sou canhestro, logo os meus fios cerebrais estão trocados. Igualmente, dizem ser as mulheres mais sensíveis, humanas etc. Teriam elas também as ligações trocadas?
De minha parte, pelo sim, pelo não, acho a intuição muito forte no meu dia- a- dia. Não cresci com a tecnologia, cresci com as humanidades e uma tintura muito tênue de ciências exatas. Aprendi a ler e escrever e tomei gosto. Aprendi a fazer cálculos e a coisa ficou por ai. O fato é que, por necessidade, fui, aos poucos, ingressando no mundo da tecnologia e, consequentemente, das análises lastreando decisões, de modelos a serem respeitados se desejamos que as coisas saiam certas.
Por cauda de tudo isso, sou um bi-hemisférico. Tenho horas em que me vejo como um analista racional e, paradoxalmente, me considero um intuitivo nato. É claro que essa intuição já me fez poucas e boas, quebrando a cara muitas vezes, especialmente acreditando em pessoas que eram um simulacro do que aparentavam ou não me aproximando mais de gente sem máscaras e autênticas.
Igualmente, as minhas análises, precedidas de cálculos e estudos, também já falharam muitas vezes. O que pode parecer uma ambivalência, na realidade é, pelo menos para mim, uma graça que me confere a capacidade de acertar e errar pelos dois lados, mostrando-me o ser comum e falho que sou.
Algumas pessoas chamam essa dualidade de pensamento integrado. Esse pensamento integrado faria parte de uma revolução mental no cipoal do mundo tecnológico, sob pena de soçobrarmos no caos desrespeitador das glórias do passado e desmistificador, a cada dia, das vitórias presentes.
Independente de tudo isso, se tivesse – e se fosse possível – de optar apenas por um hemisfério, faria, sem medo, a escolha pelo do lado direito. Nele são geradas as criações e a imaginação flui sem medo, aparecendo os “palpites”, as “sensações”, os “pressentimentos” ou o que os de língua inglesa chamam de “feeling”. Apesar dos meus erros nas intuições, repito, creio na empatia e me restam a sensatez e a sensibilidade de não acreditar apenas em números, gráficos, fórmulas ou postulados.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2000.

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NÃO MORAR

É claro que sabemos ser amanhã o dia dos namorados, véspera do dia de Santo Antônio. Mas, não sabemos por qual razão, independente da nossa vontade, tem uma frase martelando na cabeça: namorar é não morar. Essa frase veio sem pedir licença, com “gosto de gás” e impôs-se forte e já está ai, escrita.
Convivemos com gente de todas as faixas de idade e sabemos ser a ideia básica do namoro o conhecimento, a explosão do amor e o acasalamento, o morar junto. Aí é onde o namoro pode bater asa, até o casamento aparecer e, mesmo sem querer, fenecer.
Estamos convencidos de que os seres humanos foram feitos para amar e um dos pressupostos para amar pode ser a liberdade: estar-se preso a alguém pelos invisíveis laços do amor. Sonhar é um dos mistérios que nos mantém vivos.
Por que nos rendermos ao cotidiano do pão e café, do banheiro dividido, da cara amassada ao acordar e da falta de ar em meio aos ventos que sopram e não afastam os males? Amor não é consórcio de problemas.
Não morar talvez seja o mais romântico no namoro e diz do desejo de visitas e das premências em ver o outro, rever o rosto, sentir as mãos, aconchegar o corpo, ouvir a voz e escutar o silêncio, após tudo.
Namorar não é sugar o mel, mas ver a flor desabrochar e sentir o seu perfume sem asfixiá-la, deixá-la livre, até que sua fragrância esvaeça, pouco a pouco, tornando-nos ébrio de sentimentos meio desataviados e, paradoxalmente, atados pelos liames do indizível, mas sensível e, até, palatável.
Não morar pode ser a solução anti-habitacional do amor, mas talvez seja também a resposta gravitacional do escravo- livre que, como o João- de- Barro volta ao casulo pelo prazer que dá em construí-lo, sem a obrigação da perpétua residência.
Como seria bom rimar namorar e morar, transformar em versos o que é diverso. Saber que, apesar de iguais, somos absolutamente diferentes e inexoravelmente destinados a uma solidão compartilhada (ou não) ou a namorar sem morar. Paradoxo pouco ortodoxo? Ou a irreverência de uma prudente imprudência? Tempos permissivos?
Morar pode ser conhecer o todo. Pode negar a navegação da descoberta, das trilhas do desejo e dos arrecifes dos amuos. Morar, quem sabe, seja banalizar-se, tornar-se cúmplice de um crime não cometido, proscrito ou prescrito. Por outro lado, se livre estivermos voltaremos felizes em busca da água que sacia a garganta seca e amacia os lábios crestados.
Não nos peçam para ser mais claros. Clareza em excesso cega e só os cegos aceitam guias, pois não têm alternativas. Sejamos essas pessoas confusas, difusas e, até, obtusas que têm a impureza necessária ao pecado de viver.
Façamos do namorar o bem a vir e, do morar a inutilidade, o supérfluo, mas aquilo que talvez fuja à essência do devaneio e escancara a face velada da hipocrisia. O namorar é a esperança. O não morar é a fé no outro.
O morar não deve ser a caridade indesejada ou a acomodação lentamente suicida. O morar deve ser a consciência amadurecida, independente das cobranças, mas produto da vontade e não da obrigatoriedade ou necessidade.
Não se tenham como cínicos, descrentes ou desiludidos. Devemos ser, pelo contrário, um condão de esperanças aos que ainda acreditam que amarras não podem ser confundidas com amarás compulsoriamente pois, caso contrário, o (mesmo) teto cairá sobre nossas cabeças.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2000.

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RETRATO DE DORIAN

Era pouco mais que uma criança quando conheci Dorian Sampaio. Foi em dia festivo na casa dos meus pais e me puseram para falar. Ao terminar, ele me disse: esse menino leva jeito. Pouco tempo depois, fui com ele assistir a reuniões do centro cultural Humberto de Campos, se me lembro bem, congregando intelectuais e afins aos domingos pela manhã.
No início dos anos 70, já era metido a empresário, quando Dorian me procurou para falar de um projeto que tinha em mente. Disse-me, em linhas gerais, da idéia de montar um anuário que contaria a história do Ceará e do seu povo, a exemplo do que já fizera Waldery Uchoa. Ele acertou comigo que desenvolveria o projeto por um determinado valor, independente de eu aceitar ou não participar. Dito e feito, depois de algum tempo, ele me entrega uma pasta (que lhe devolvi como relíquia em 1998) com todo o delineamento do que viria a ser o “Anuário do Ceará”. Falei que a idéia era muito boa, mas fugia do foco do meu negócio, paguei e lhe desejei boa sorte.
O Anuário do Ceará foi o sucesso que todos conhecem, mas Dorian tinha uma questão não resolvida com a política. Retirado de cena no auge da sua brilhante carreira parlamentar, Dorian desejou voltar e o fez de forma estóica. Lutando com a palavra e o caráter que Deus lhe deu. Não foi o bastante. Saiu tão digno quanto entrou, vencendo em Fortaleza, elogiado e respeitado até por adversários.
No ano passado, ele, Demócrito Dummar e eu, nos reunimos para repensar o Anuário do Ceará. Fizemos algumas reuniões, mas o assunto não evoluiu. A par de tudo isso e, ao longo de todos esses anos, existia uma amizade respeitosa e francamente cordial. Na edição comemorativa dos 25 anos do Anuário ele me pediu para fazer uma espécie de prefácio, o que escrevi com prazer.
No dia 25 passado, uma quinta-feira à noite, o vi sentado na platéia por ocasião do lançamento do excelente livro de Juarez Leitão, “Sábado, Estação de Viver”. Estava quieto, ouvindo atentamente as falas de seu ex-sócio Lustosa da Costa e a do próprio Juarez. Sábado, 27, dia em que dormiu para acordar na posteridade, o vi no começo da tarde em roda de amigos que freqüentamos há anos. Ele me deu um abraço e falou que havia recortado o artigo que escrevi sobre “Dona Margarida”.
No dia seguinte, Edison Silva me liga informando da morte do Dorian. Fui imediatamente ao velório e olhei fixo para o seu rosto inanimado e lembrei do então vereador da “Vila São José” no Jacarecanga, onde montou uma prefeitura paralela para denunciar os desmandos do prefeito de então. Dorian, algumas horas depois, voltaria para pertinho da “Vila São José” e nesse instante deve ter reiniciado uma nova luta no ainda, para nós, insondável mundo eterno.
Lembro que no dia do lançamento do livro do Juarez, que contém, entre outros, um retrato do Dorian, falei ao Gil Vicente Bezerra que andava relendo Oscar Wilde. Ao chegar em casa, naquela noite, abri “O retrato de Dorian Gray” e agora repasso um dos trechos que sublinhei: “sou de parecer que se o homem vivesse plena e totalmente a sua vida, desse forma a todo sentimento, expressão a toda idéia, realidade a todo devaneio…creio que o mundo receberia um novo impulso eufórico.”
Esse era o retrato de Dorian.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/06/2000.

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SENNA VIVE

Ao vencer mais uma das suas muitas corridas, Airton Senna disse ” É engraçado. Quando acho que cheguei ao ponto máximo, descubro que é possível superá-lo”. Ele era assim, só o próximo “grid” contava.
Ayrton Senna foi, em vida, uma das poucas unanimidades do nosso país. No seu jeito manso de falar, na sua obstinada manutenção da privacidade e na loucura planejada de suas corridas. Era especial sendo simples e nem os milhões que conseguiu amealhar acelerando no pequeno espaço de um “cockpit”, conseguiram freiar a sua indiscutível timidez. Quis a mão do destino que uma curva encurtasse a sua trajetória. Foi-se o corpo, mas seu espírito parece permanecer vivo e de uma maneira tão clara que o seu Instituto Ayrton Senna ocupa, com méritos próprios, a “pole position” dos avançados projetos de responsabilidade social operacionalizados no Brasil.
Semana passada participei de duas reuniões em que, Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna pontificou. A primeira foi uma palestra, seguida de debates, em que ela mostrou competência, serenidade, fair play, agudeza de raciocínio e jogo de cintura.
Psicóloga de formação e batente, elegante sem perder a simplicidade, voz pausada dos que não precisam gritar para serem ouvidos, foi concatenando idéias e fatos com um didatismo que pouca gente tem. Realçou, entre outras observações, que as pessoas jovens no Brasil têm potencialidades, mas não tem qualificação para responder às necessidades do mercado. O seu trabalho ajuda os jovens a se qualificarem.
Recebeu homenagens e presentes, pousou com crianças e adolescentes, dividiu cerimoniosos beijinhos nas faces de pessoas que eram íntimas ou se faziam passar como tal. Ao final da palestra e dos debates atendeu, pacientemente, a todos os que queriam falar de seus trabalhos e não entenderam que o Instituto Ayrton Senna exerce uma ação proativa e pinça, após análises próprias, por este Brasil afora, projetos e parceiros para a obra que vai executando.
Após a palestra, ela participou da segunda reunião, um jantar reservado. Mais uma vez pude constatar a fleuma de Viviane Senna que, a todos tratou com alegria e atenção, mas deixou patente o seu recato público. Ouviu discursos equilibrados, veementes e até extemporâneos. Após o jantar, distribuiu sorrisos, cumprimentos e, como uma mortal comum que é, não se fez de rogada e subiu, com classe, o alto estribo de um jeep, recolhendo-se ao hotel.
De tudo o que vi, ouvi, senti e intui, ficou uma idéia recorrente: a de que, paradoxalmente, Senna morreu para viver. E vive pelas mãos de uma mulher capaz, dedicada a uma causa que conduz com lucidez, sem ares quixotescos, melodramas ou choros próprios de nós latinos, dando-nos exemplo e lição.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/05/2000.

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QUEM SOMOS NÓS?

Será que realmente sabemos quem somos? Ou será que imaginamos ser uma pessoa e somos outra?
Você, eu, nós temos uma autoimagem construída a partir do que achamos que somos e de como imaginamos que os outros nos vêem. Os espelhos em que nos miramos, apenas, mostram um reflexo. Da mesma forma, a nossa auto-imagem é ilusória, embora pensemos ser ela real.
Ora, se a auto-imagem é uma miragem, ela, por certo, não nos ajuda nos momentos reais em que precisamos ver o mundo e as pessoas com clareza e sem as distorções e os antolhos de nossos preconceitos e defeitos.
Cada um deve ter a consciência de que, em determinadas ocasiões e situações, desconhecemos os nossos pontos fracos. Reconhecer os nossos pontos fracos é um “start” na reviravolta talvez necessária em nossos comportamentos. Daí, é partir para mudanças, ao invés de tentar camuflar nossos defeitos – comum a tantas pessoas – e impedir o nosso desenvolvimento como pessoa.
O que fazer, então, para nos tornarmos mais verdadeiros, menos sujeitos às tiranias da auto-imagem e do que os outros pensam a nosso respeito?
Não sei bem a resposta. Podemos, apesar disso, ir tentando descobrir juntos. Descubra, por exemplo, como você é para você mesmo (quando está só) e como você é ou aparenta ser para os outros. Não tenha medo de dar uma de detetive e siga sua história e seus próprios passos e imagine-se um Sherlock Holmes, a seu próprio serviço. Fotografe-se mentalmente, grave-se, escute-se, veja o seu modo de andar, gesticular, comer, beber e encarar as pessoas. Certamente, como diria o próprio personagem de Conan Doyle, será elementar descobrir quem é você, sem esconder o que tem de positivo e de negativo.
Na hora em que você começar a se enxergar com clareza e se aceitar sem receios, certamente haverá uma fusão entre o seu “eu real” e o “eu produzido” para consumo externo”. Sendo uno, fundido em sentimento e verdade, sem medo de seus defeitos, você emergirá do meio das tormentas, derrubará os muros ao seu redor e, certamente, passará por um processo de crescimento, sem desperdiçar energia, tentando mentir, fingir, enganar-se ou enganar os outros.
A partir daí, certamente, tornar-se-á mais fácil viver com simplicidade, clareza, agir com firmeza, perseguir seus objetivos com determinação e enxergar as qualidades das pessoas que realmente contam e com as quais convivemos ou pretendemos conviver.
Nunca é demais lembrar, como dizia Gilbert Arland, “que quando um arqueiro erra um alvo, vai buscar o erro dentro de si mesmo. Se você não acerta na mosca, isso não é culpa do alvo. Para melhorar a sua mira, melhore a si mesmo”. Nunca culpe a flecha ou o alvo, tente acertar a pontaria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2000.