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CONFERÊNCIAS – Diário do Nordeste

A Academia Cearense de Letras promove agora um ciclo de conferências aberto ao público. Começou, dia 3, com Fernanda Quinderé falando sobre “Vinícius, Cheio de Graças”. Fernanda conviveu com Vinícius no Rio. Não há pré-requisito para participar do ciclo “Literatura e outras Artes”. Basta querer e passar na Rua do Rosário, 01, entrar e fazer a sua inscrição. Se desejar informações ligue 3253-4275 ou acletras@accvia.com.br. A intenção é ir dando a doutos e estudantes de escolas públicas e particulares a ideia de que é possível aprender, rever ou aprimorar conhecimentos de literatura e arte.
As palestras serão as terças, às 17 horas, na ACL, lado da Igreja do Rosário. A da próxima terça, 10, “Teatro e Magia: uma abertura para o estudo das máscaras brincantes no nordeste” traz o teatrólogo Oswald Barroso. Achegue-se, mesmo não inscrito. Você sairá mais informado. No dia 17, o escritor com expertise em publicidade, Gilmar de Carvalho, dirá da “A arte de seduzir: literatura e publicidade”.
No dia 24, Ednilo Soarez, presidente do Instituto do Ceará, falará sobre “A herança grega nas artes plásticas”.
No 8, já de outubro, Fernanda Coutinho dissertará sobre “Henri Matisse e as suas narrativas em cor”.
No dia 15,”O bestiário e o relicário de Ariano Suassuna” ficará com Maria Inês Cardoso. “Clã: revista de literatura e outras artes”, no 22, contará com o saber de Vera Lúcia Albuquerque. O ciclo se encerra, em 29.10, com a sua ´anima e cuore´, Angela Gutiérrez, com “O Poeta Antonio Bandeira”. Vale a pena. Aproveite.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/09/2013

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O SETE DE SETEMBRO MUDOU? – Jornal O Estado

Amanhã será o dia da Independência do Brasil. Cairá em um sábado, para tristeza de alguns. Pouca farra, menos acidentes. Os hospitais respiram. Há uma expectativa de manifestações e o governo procura reforçar o contingente de policiais em cidades e, especialmente em Brasília. Ministros são convocados a comparecer.
Dilma Rousseff chega de Stalingrado, que voltou a ser São Petersburgo, cansada com o fuso horário de sete horas de diferença, apoquentada com a economia que não decola. Quiçá tenha conversado, em pleno voo, com Guido Mantega. Ele, italiano naturalizado brasileiro, tenta ser tão longevo na Fazenda quanto o Delfim Netto. Este, brasileiro, também descendente de itálicos.
O país ferve em face de um calendário eleitoral que não dá trégua. Há eleições de dois em dois anos e o custo financeiro/social disso tudo não é considerado, apenas computado. Há partidos em profusão. Outros procuram registros até outubro, o prazo limite. O país parece cansado da política e dos políticos. Voto aberto ou fechado para cassar ou livrar? O povo ignora.
Você sabe o que é Independência? Recorro ao dicionário do Aurélio: “Estado ou condição de quem ou do que é independente, de quem ou do que tem liberdade ou autonomia”. Será que o Brasil tem, neste 2013, liberdade e autonomia? Pense e responda. Vivemos, neste século 21, uma situação peculiar no mundo com a formação de blocos econômicos para resguardo de interesses. Sob o chapéu ou não da ONU- Organização das Nações Unidas, que tem bela sede em Nova Iorque, pertinho do rio Hudson, cria-se o G-8, que congrega os oito países ditos os mais poderosos do mundo; o G-20, grupo similar com os tais oito e mais doze que procuram crescer para poder conviver e dialogar em um mundo desconfiado, retalhado de interesses, com a crescente discriminação internacional aos muçulmanos que são peculiares, pois diferentes em essência e modos. O Nafta, que reúne os Estados Unidos, o México e o Canadá. Os Brics, Brasil, Rússia, Índia, China e a África do Sul, os que seriam a bola da vez para o clube dos ricos e muito mais.
Não tenho conclusões, apenas observo e vejo que nós, os latinos, os que ficamos aqui no hemisfério sul, também procuramos criar organismos como o Mercosul, a Aladi, a Unasul, a Alca e outros que não cabe citar. Neste lado do mundo, segundo os jornalistas, cientistas políticos e sociólogos de plantão, há um socialismo tardio, mais voluntarioso que ideológico, mais apegado ao poder que às bênçãos ou ideários bolivarianos.
Vivemos tempos desconfiados, pessoas e países são escutados, criam-se mecanismos de saber o que o outro fala. Não me refiro a comadres de vilas, mas de chefes de nações complexas e maduras que primam pela utopia da segurança nacional e da soberania. Divago, não por falta de astrolábio, prumo ou GPS, mas por ver neste planeta imenso o fato de uma só pessoa, Edward Snowden, causar tanto alvoroço ao revelar, em conta-gotas, fatos que captara neste mundo ainda insondável da espionagem eletrônica de Estado, hackers e empresas transnacionais.
Os filmes de 007, com James Bond, farão apenas parte da filmografia e, em breve, serão peças das cinematecas. O mundo real está turvo. A Síria, com Bashar Al-Assad, é o espinho da vez ao ocidente. Aqui nos preocupamos com o “Mais médicos”, explosões de caixas eletrônicos, posições excêntricas do parlamento nacional, futebol e estádios, vaidades manifestas nas linguagens jurídicas em mantos e o mundo financeiro que só vale para os iniciados, os “insiders”, os que manipulam tudo, em ambos os hemisférios. E para não dizer que esqueci: as manifestações.
Volto ao Sete de setembro e não deixo de lembrar que o nosso D. Pedro I, o homem do “Independência ou Morte”, às margens do riacho Ypiranga, em São Paulo, empós volveu fagueiro a Portugal, sua pátria mãe e lá, embora fortuitamente, chegou a ser coroado rei, como D. Pedro IV, e a sua estátua reina na Praça do Rossio, na capital lisboeta. Como decifrar o tão óbvio?
Foi-se o tempo em que marchava na Avenida Duque de Caxias, como estudante e, depois, aluno do CPOR-Centro de Preparações de Oficiais da Reserva do Exército, quando o suor do corpo no sol a pino nos fazia crer em brasilidade. Como amávamos o Brasil!

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/09/2013

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O SONHO E A REALIDADE – Diário do Nordeste

Julho de 63. 77 jovens universitários brasileiros aprovados, por concurso, entre milhares, chegam a Nova Iorque. Passam uma semana na Columbia University e vão para a Harvard, Mass. Participaríamos ali do curso sobre “Vida e Instituições nos EUA”. O coordenador, Henry Kissinger. Entretanto, não é do curso que interessa falar, e sim de como encontramos o país naqueles tempos. Era o governo Kennedy, com quem estivemos, em visita oficial, na Casa Branca. Viviam-se dias estremecidos. E os que, no grupo, estudavam direito, souberam-no da boca de Bob Kennedy, Ministro da Justiça, em diálogo franco e não breve.
De todas as partes negros marchavam a Washington, DC. Vimos alguns deles com famílias em restaurantes de estrada. Entravam, em bloco, no sanitário, com uma só ficha. Pobres. Sofridos. Estavam jogando as suas esperanças no fim da discriminação racial. O que aconteceu a seguir todos sabem, Martin Luther King, em 28 de agosto, faz o notável discurso: “Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá em realidade o verdadeiro significado do seu credo…”
Era a porta fendida para novos tempos. Mas, logo em 22 de novembro, JFK seria assassinado. A Lei dos Direitos Civis viria com Lyndon Johnson, em 1964. Tal como Lincoln, em 1865, Bob Kennedy e Luther King ainda seriam eliminados por suas lutas, ambos em 1968. Nesta quarta-feira, 28.08.2013, um presidente negro, Barack Obama, falou no Lincoln Memorial, local onde Luther se consagrou diante de 250 mil pessoas.
O sonho virou realidade.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/09/2013

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GANHAR POR ESCREVER – Jornal O Estado

“Escrever é uma forma de falar sem ser interrompido”. Jules Renard, escritor francês, 1864-1910.
Intelectual de nível, como Maria Beatriz Rosário Alcântara; educador e gestor como José Freire Neto; jornalistas como Paulo Tadeu Sampaio e Ricardo Moura; e produtores culturais como Silas Falcão e Joanice Sampaio formavam a mais recente Comissão Julgadora de concursos culturais que promovo. Há 14 anos venho insistindo em realizar concursos culturais. Fazemos chamadas pelas mídias sociais, utilizamos cartazes e publicidade paga. O que pedimos é, no meu entendimento, pouco. Basta que a pessoa escreva sobre um tema ou construa frases com determinado número de palavras. Não paga nada e pode ganhar bons prêmios. Agora, neste agosto findante, realizamos mais um concurso com prêmios valiosos, como computadores, celulares, utensílios domésticos de bom preço, vales de até 800 reais para compras.
E o faço por ver, todos os dias, passando por um ambiente fechado, devidamente sinalizado, milhares de pessoas que não cuidam de olhar para os marcos expostos, os letreiros, as artes nas paredes, livros nas estantes e jornais nas mesas. Que razões são essas que levam a maioria das pessoas a não prender sua atenção e seu olhar a fatos interessantes, mensagens, promoções, diversões, exposições, cantores, instalações, poetas, brincantes e animadores culturais? Daí, para torná-las mais atentas, procuro pensar e fazer esses concursos culturais, pela internet e em meio físico, de modo a estimular o uso da visão, como sentido, e o ato de escrever, como prática.
Damos um prazo de uma semana para que se inscrevam, pagamos orientadoras para ajudá-las com informações, mas há um retorno que quase nunca chega a um milhar. Já vi pessoas perguntando por um determinado lugar exato defronte a ele. Algumas outras parecem alheias ao seu redor ou, quiçá, receosas em olhar, em descobrir o não comum, a se auto desafiarem a explorar algo original, não o já constante de sua agenda ou prescritas por sua formação profissional, ideologia, crença ou costume.
Posso estar errado. Gostaria que as ideias contrárias às ora expressadas tomassem forma e fossem enviadas ao e-mail josileneslima@yahoo.com.br ou remetidas para a rua do Rosário,01, centro, Fortaleza, Ceará. Saber se estamos na rota certa parece ser não só preocupação deste escriba como de muitos, os que não querem enxergar o visível, o diante dos seus próprios olhos. Se o fazem por enfado ou receio, seria bom ter ciência. As mensagens talvez não sejam captadas ou entendidas. É a velha história do meio e da mensagem, a que se referia Marshall McLuhan no terceiro quarto do século passado. É sempre bom lembrar o que dizia o autor Mário Quintana: “Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo”. Assim, abra os olhos e explore os demais sentidos. A vida cruza não só pela visão, mas pela fragrância das coisas, o tocar em algo reprimido, ouvir o silêncio e a música do barulho, enfim estar desperto, disposto e audaz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/08/2013.

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O DESERTO E A LUZ – Diário do Nordeste

A zona não aromatizada, burgo noturno de sem tetos no deserto centro da cidade, ficou iluminada na noite de terça, 20 de agosto. No que restou do velho Palácio da Luz, palco de tantas lutas políticas, a sua donatária, a Academia Cearense de Letras, comemorava 119 anos.
Não foram anos pacíficos; houve dissensões, reagrupamentos, consolidação, até chegarmos ao hoje, não tão fácil para quem só tem a oferecer cultura, nada mais que isso.
Dizia Goethe que “não se possui o que não se compreende”. Fazer letras ou cultura em solo em que poucos dão atenção ao que só pode ser entendido, se bem lido, não é tarefa simples. Ali, homens e mulheres, de misteres definidos, expõem-se em prosas, versos e ensaios para aquietar suas almas, dar vazão ao conhecimento e mostrar as nossas grandezas e iniquidades.
Plenilúnio, Sânzio de Azevedo, quarenta anos de Casa, foi o orador oficial e soube, de forma didática e brilhante, desfolhar as razões das homenagens a integrantes da ACL.
Uma placa de prata ao ex-presidente e atual presidente de honra, o poeta Artur Eduardo Benevides, bem como o prestígio de receber, juntamente com o professor Pedro Paulo Montenegro, a medalha Thomaz Pompeu. Relembrou os centenários, neste ano, dos escritores F. Alves Andrade, Fran Martins e João Clímaco Bezerra; os dois últimos, meus ex-professores, para honra minha.
Com lhaneza, o presidente Augusto Bezerra deu vez e voz à professora da Universidade de São Paulo (USP) Elza Miné para apresentar “Porta de Academia”, de Moreira Campos. E a porta cerrou.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/08/2013

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PONDERAÇÕES – Jornal O Estado

“Fiz um pouco de bem; é a minha melhor obra”. Voltaire,esc. Francês, séc XVIII)
O filósofo e professor Luiz Felipe Pondé escreveu, na Folha, esta semana, o artigo “Em um mundo melhor”. Ele parece ser, igualmente, apoquentado por parte da direita e pela esquerda do século 21. Entretanto, tem clara capacidade argumentativa. Pondé afirma: “É possível um mundo melhor? Sim e não. Sim, é possível um mundo melhor a começar por remédios, casas, escolas, democracia…Não, não é possível um mundo melhor porque algumas coisas não mudam, como o caráter humano, suas mentiras e vaidades, sua violência, mesmo que travestida de civilidade, nossas inseguranças, nossa miséria física e mental, nossa hipocrisia. Nossas ambivalências sem curas”.
A argumentação dele cabe para qualquer pessoa com capacidade e razão para se questionar. Além de protestar contra o mundo que nos detona nos assaltos, no trânsito louco – ou na expressão em voga; a mobilidade urbana -, nas incompreensões sociais e familiares, nos trabalhos que temos, nas relações de amizade que atam e desatam, nos títulos, merecidos ou não, que vaidosamente ostentamos, nas nossas dívidas ou nas contas bancárias.
Em determinado trecho de sua análise, Pondé pergunta: “Qual o sentido de ser bom na vida? Há garantias de que o bem compensa? Não, não há, nenhuma”. De qualquer forma, quer se acredite que o homem é bom por natureza e a sociedade o corrompe, como creio que John Locke dizia. A propósito, Locke acreditava que “as novas opiniões são sempre suspeitas e geralmente opostas, por nenhum outro motivo além do fato de ainda não serem comuns. Por outro lado, seria o homem mau? como Hobbes o admitia. A questão é bem mais complexa do que o paralelo ou dicotomia entre o bem e o mal. Ainda creio valer a pena procurar viver para os outros e pelos outros, sem alardes. Não se deve esperar reconhecimento. Este fica para os que têm redes de relacionamentos, as tais “networkings” e sabem fingir o que não são.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/08/2013

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O NOBEL E O BRASIL – Diário do Nordeste

O Brasil esteve quase na reta de chegada ao desenvolvimento. Aí, empacou. Estamos com crescimento gradual menor que quase todos os países do hemisfério sul, o nosso lado no planeta. A par disso, estamos jogando bilhões em áreas não produtoras de capacitação e formação de cientistas. Nem vou dizer quais são.
Todos sabem. Por outro lado, a nossa vaidade está ferida, desde o século passado. Todos sabem que, anualmente, são escolhidos cientistas, literatos e articuladores da paz pelo complexo júri do Prêmio Nobel, instituído em 1901 por Alfred Nobel, com muito dinheiro e dor na consciência.
México, Argentina, Chile e outros países não tão afamados já tiveram ganhadores. Esqueçamos os da Paz, atribuídos subjetivamente.
Fiquemos com as ciências e a literatura Não ganhamos nenhum. Semana passada, o escritor e biólogo britânico Richard Dawkins insultou os muçulmanos ao dizer que só o Trinity College, de Cambridge, tinha 32 prêmios Nobel – ou nobéis- contra 10 dos muçulmanos. Pura soberba. Deixa para lá.
Afinal, quem será o primeiro brasileiro a ganhar um Nobel de química, literatura, física, medicina ou economia? Não tenho a menor ideia. Gostaria que isso acontecesse logo. Temos o tal complexo de “vira-lata” entranhado. A língua lusitana não é culpada, pois Portugal, com 10% da população do Brasil, ganhou alguns. Não foi só o Saramago. Confiram. Há outros.
A propósito, tenho um palpite para o próximo Nobel da Paz. É argentino, mora na Itália, gosta de futebol e nos consola ao dizer que “Deus é brasileiro”.
Será?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2013

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O FIO DA LEITURA – Jornal O Estado

“Ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”. Miguel de Unamuno, esc. espanhol, séc 20.
Você está lendo este artigo? Que bom. A relação entre quem escreve e a pessoa leitora é fria. O artigo ou crônica precisa ir mostrando, linha a linha, algo que a emocione ou a atraia. Pode ser concordância ou até zanga por achar que estou tomando o seu tempo. Lembre-se, todavia, que entrego um prato feito a você, sem saber qual a sua preferência. Daí apresentar um problema, uma situação ou um caso.
Você sabia, por exemplo, que a China está, tal como antigamente, proibindo a criação de cães com mais de 35 cm de altura? A polícia acolhe denúncias e recolhe os animais, com medo de que casos da raiva, a doença, se espalhem como em tempos passados. Em 2012, morreram em Pequim 13 pessoas vítimas de mordidas de cães raivosos. A quem assiste razão, ao governo que diz cuidar da saúde ou aos donos apegados a seus cães?
Leio que os torcedores de clubes de futebol local estão querendo fazer manifestações pelas incômodas posições em divisões inferiores do Campeonato Brasileiro. Isso pode ser uma bobagem para você, mas se acontecer, muita gente vai participar e talvez advenham distúrbios. Viu como não é fácil ir puxando a linha imaginária a prender o leitor ao texto? Agora é fim de tarde e daqui a pouco vou atravessar a cidade. Reflito sobre o melhor roteiro. Meu GPS mental indica uma direção, mas desconfio dos engarrafamentos decorrentes da saída simultânea de milhares de pessoas ao mesmo tempo.
Por qual razão a batalha diária de todos começa e termina no mesmo horário? Penso que a tal mobilidade urbana melhoraria se existissem horários distintos para cada serviço em várias regiões da cidade ou para atividades compatíveis com a noite, sem entulharmos as vias com tantos veículos de transportes públicos e particulares.
Ao chegar à minha casa, já cansado, estaciono, subo, abro a porta, acendo a luz, dou alguns passos até ao banheiro e deixo a água regenerar o meu corpo. Penso na humanidade e fecho o chuveiro. Pego a toalha e o corpo reage ao contato. Se você chegou até aqui, obrigado. Viu a colcha de assuntos criados para entretê-lo. Escrever é fácil? Responda, por favor.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/08/2013.

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MARTE DE IDA – Diário do Nordeste

Você imagina ser perturbado, cheio de problemas e procura analista? Fique tranquilo. Você é mais do que normal. Você iria para o deserto do Saara só com uma passagem de ida? Se disser não, você é bom da cabeça. Você já ouviu falar no planeta Marte? A viagem para lá será experimental na próxima década, sem garantia de retorno, péssimo serviço de bordo e lá, aviso, não tem sequer pousada. A primeira viagem acontecerá em 2023. O tempo de voo será de sete meses. Não me enganei, serão 5.040 horas dentro de uma nave espacial.
Um cientista holandês, Bas Lansdorp, fundou a empresa Mars-One, algo como “Marte sem volta”, e fez contato com a Universidade George Washington, EEUU, para a seleção de voluntários. Segundo Lansdorp: “estabelecer uma colônia permanente em Marte implica em ir sem voltar”. Pois bem, essa notícia é da France Press. 78.000 pessoas já se inscreveram como voluntários. A primeira reunião foi sábado, 03 de agosto, em Washington, D.C., com os 40 primeiros selecionados.
A temperatura presumível de Marte é de 63º centígrados, com carência de oxigênio, e os 40 escolhidos estão supercontentes. Eles são americanos e canadenses. Países com adequado padrão de bem-estar social. Então, caros amigos, por que somos inconformados com a falta de mobilidade urbana, preconceituosos com os diferentes, desconfiados dos governos, reclamamos de homicídios e dos filhos nas ruas? Quer mudança, vá para Marte! Lá não há manifestações e tampouco partidos políticos. Topa ir? Feliz Dia dos Pais.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/08/2013.

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BEZOS, O WASHINGTON POST E O FUTURO DOS JORNAIS – Jornal O Estado

Nasceu em 1964 um destruidor de livrarias, Jeff Bezos. Formado em uma das melhores universidades americanas, a Princeton, ele criou a ledora eletrônicos de livros “Kindle” e a livraria/editora virtual “Amazon”. Cunhou a dicotomia, nunca antes imaginada, entre “livros físicos” e “livros virtuais”. Enriqueceu vendendo livros pela Internet. Em decorrência disso, várias livrarias de pequeno, médio e até de grande porte, fecharam.
É casado com a escritora MacKenzie Bezos, com quem troca ideias sobre livros que leem. Bezos, aos 49 anos, comprou nesta semana um dos maiores e mais antigos jornais dos Estados Unidos, o centenário Washington Post, por meros 250 milhões de dólares. Lembro que esse jornal foi o causador, em 1972, da posterior renúncia de Richard Nixon no famoso caso “Watergate”, de espionagem telefônica pelo Partido Republicano contra os Democratas, com conhecimento do presidente.
Esse jornal chegou a ser cotado em mais de quatro vezes o valor de compra atual. Um consultor financeiro, Allen Weiner, afirmou que a sua compra “foi um ativo subvalorizado”. Jornal de verdade, físico e impresso, possui engrenagem cara e complicada e depende, entre outros, de sede, energia, dinamismo pulsante, linha editorial, parque gráfico, equipe de redatores e correspondentes, anúncios, credibilidade, distribuição eficaz etc.
O colunista James Fallows, amigo da família Graham, ex-proprietária do Washington Post, disse – segundo Raul Lores –que jornalismo sério “é quase inviável como negócio, por ser muito caro”. Discordo. O mundo está de ponta cabeça. Talvez agora seja o tempo dos jornais sérios, aqueles que não traem os leitores e não temem o poder. Por outro lado, a “Amazon” faturou mais de 60 bilhões em 2012 e gasta dinheiro com lobistas, profissão regulamentada lá nos Estados Unidos. Há, todavia, um dado importante a favor de Jeff Bezos: ele não doou nenhum dólar na última eleição presidencial americana. Tudo isso pesará na análise que se venha a fazer no futuro das empresas “Post” que ainda incluem na compra uma estação de televisão e uma revista.
É esperar para ver. Com certeza virão novidades que poderão até mudar o conceito que hoje se faz de jornal. A imprensa, na visão “gutenberguiana”, dependia de uma “prensa”. Hoje quase tudo é feito de forma eletrônica. Jornalistas e colunistas podem ou não ir às redações, pois enviam suas matérias pela internet, tal como ora o faço. Hoje há muitas mídias e a prensa se transformou em pressa, na instantaneidade da informação. Take care, Mr. Bezos.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/08/2013.