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BANCOS, CLIENTES E GANÂNCIA – Jornal O Estado

Estória velha: Um índio entra em um banco e pede mil reais emprestados. O gerente pergunta: o que você me dá em garantia? Minha canoa e o remo. Fecham o negócio. Quando o índio ia saindo com o dinheiro, o gerente fala: você deveria deixar o dinheiro aqui, é mais seguro. O índio, na sua sabedoria tabajara, indaga: e o que você me dá em troca? A nossa confiança, boa, boa, boa.
O poeta americano Robert Frost bem define um banco: “é um lugar onde emprestam um guarda-chuva quando há bom tempo e, pedem-no de volta quando começa a chover.” Os bancos, inclusive os brasileiros, deixaram, faz tempo, de ter a função básica de prestar bons serviços a seus clientes. Alguns quebraram, houve fusões com agigantamento de poucos, surgiram os transnacionais. Há já relativo tempo figuram nas páginas policiais. Por trás dos mensalões havia banco com doações e empréstimos de mentirinha. Nas eleições sempre há doações de bancos. Quais as razões?
Hoje, os bancos são apenas estruturas montadas organicamente sob as bênçãos do dinheiro do governo e do povo, para manipular o cliente com formas inimagináveis. Primeiro, todos clientes são suspeitos. Ninguém entra em banco sem passar por triagem. Como a segurança pública não funciona, todos são filmados, nivelados a marginais e alguns chegam a sofrer constrangimentos. Ao adentrar o paraíso, surgem filas, desinformações e o quase descaso no atendimento provocado pela automação e pelos baixos salários que pagam a bancários e estagiários que se restringem a fazer o mínimo necessário. Entretanto, como os bancos são dos que mais gastam com publicidade encantatória, há pouca crítica na mídia. Quando há.
O Banco Central diz que controla as elevadas e automáticas taxas de serviços que cobram por quaisquer misteres solicitados ou não. Acresça-se o alvitre de gerentes, peritos em vender seguros, planos de previdência privada, consignados, cartões de crédito e débitos, capitalização, planos de saúde, fundos com taxas elevadas e outros mais. Suas corretoras de valores ganham em qualquer transação, quer o cliente lucre ou perca.
Quase todos os bancários recebem metas de produtividade e, se não as cumprirem, rua. Quem quiser ler sobre reclamações e ação contra bancos acesse os jornais, sites e blogs dos sindicatos da categoria ou converse com ex-bancários. Vale a pena ainda consultar os décors, os prótons, o Ministério Público e a Justiça. São milhares de demandas e ações em curso. Asdrúbal, velho aposentado ranheta, diz sempre nas reuniões de família: Vocês conhecem algum banqueiro que tenha morrido de coração? E conclui, pimpão. Eles nunca usam o coração.
Para concluir, Erich Fromm, escritor americano do século passado que falava sobre amor e vida, dizia que “a ganância é uma cova sem fundo que esvazia a pessoa em esforço infinito, sem nunca alcançar a satisfação.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2013

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BALADA DE FOGO – Diário do Nordeste

Até bem pouco tempo não havia baladas. Havia perigo, mas a cidade nos entranhava. Não nos estranhava. Havia festa e bebidas, mas ninguém nos obrigava a beber. Maconha era a pior droga. Os que a fumavam eram “rabos de burro”, só cresciam para baixo. Hoje, as baladas aturdidas principiam nas horas em que os pais estão a dormir. Pode parece estranho, mas vivemos em outro orbe. Este cobra a muleta do aditivo, seja álcool, cheiro, injeção, fumo ou cachimbo. Ele pede a exposição colorida da tatuagem no corpo ou piercings na face. Quem não entra na roda é careta. Sofre o “bullying” pelo qual quase todos passamos, mas não sofríamos porque sequer havia sido avaliado.
Agora, há danos em tudo, há sequelas em filhos que os pais cometem por amor, falta de saber e não existir cursos para pais. Somos todos aprendizes da vida em comum a produzir amor, união, ódio, indiferença ou descaso. Os jovens querem e devem ser livres para crescer e aprender. São resolutos e alguns entram em baladas de fogo sem limites para nada. Esta introdução é apenas para dizer que estou, como todos, abalado com as 234 mortes. Até agora.
A propósito, li uma bela crônica, escrita por quem viveu em Santa Maria, RS. O jornalista Marcello Canellas, seu autor, a conclui assim: “Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem meu pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil em luto, Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2013.

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BENFOLIA, DESCARTES GADELHA E GURGEL DO AMARAL – Jornal O Estado

O 5º. Benfolia – Festival Carnavalesco demonstra para a cultura e a música cearenses o esforço, o arrojo e a capacidade do Shopping Benfica, sem ajuda pública, para o resgate do imo do carnaval de Fortaleza. Não é saudosismo, pieguice ou vanglória. É a afirmação da identidade que se perdeu nos últimos tempos com a proliferação de ritmos alheios às nossas origens e costumes. Em cada edição convidamos pessoas íntegras (professores universitários de música, carnavalescos, jornalistas, músicos, produtores culturais, radialistas, professora de História, integrantes de blocos etc.) capazes e com bagagem músico/literária para avaliar por critérios claros e abertos os que se destacam e chegam a finalistas como compositores e intérpretes. São 25 jurados para não haver dúvida sobre a escolha dos três vencedores e dois destaques, o melhor compositor e o melhor interprete do Festival. Haverá premiações em dinheiro e entrega de troféus.
Agregamos, neste 2013, a participação de blocos de pré-carnaval que hoje são destaque nesta cidade de Iracema que tem no Benfica um dos seus pólos culturais. Chamamos para o nosso convívio as baterias dos blocos “Vassouras do Babau”, “Cachorra Magra” e “Coração Benfica”
Homenageamos, neste ano, duas figuras especiais que representam a alma e o coração dos que usam seus talentos múltiplos como carnavalescos. São eles:
-Descartes Gadelha, o pintor da cearensidade com figuras que são o que muitos negam, o músico que realça a afro-descendência nos compassos sincopados do maracatu, o combatente contra a sua vida ameaçada por moléstias que o limitam. Mesmo assim, é grande em sua inteireza e cidadania. Ele é um baobá da pintura, da marcação sincopada do triângulo, do bumbo e dos pandeiros da maior escola de samba, a Ispaia Brasa, que tanto brilhou em carnavais passados.
-Gurgel do Amaral usa a maquiagem não como disfarce, mas com a sua capacidade de produzir no ser humano a autoestima carente de adornos. Ele faz da estética efêmera a sua profissão permanente de fé. Envolvem-se em mantos profanos, as fantasias, que engalanaram os salões de bailes pelo Brasil afora. Neste 2003, Gurgel do Amaral, completa 50 anos como esteticista e 30 anos de desfilante Brasil afora. Ontem, quinta-feira, foi a finalíssima da categoria Música, com 15 concorrentes. Hoje, sexta, às 19 horas será o desfile do concurso na categoria Fantasia Luxo, com 08 participantes. Tudo gratuito para quem quiser ver e participar.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/02/2013.

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TEATRO E WALMOR – Diário do Nordeste

Nas primeiras viagens ao Rio, eu precisava ver teatro. Essa percepção foi passada a universitários que tiveram a oportunidade de conhecer Pascoal de Carlos Magno, ator, teatrólogo, diplomata e agitador cultural, quando da vinda da “Caravana da Cultura” a Fortaleza. Pascoal queria descobrir novos talentos e ajudar na formação de público que o ouvia no velho teatro do Benfica, que hoje leva o seu nome.
Trouxera, entre outros, Cacilda Becker, a grande atriz. Aqui, além de se apresentar, ela debateu conosco, jovens abertos para o que não sabiam. Cacilda era, então, mulher de Walmor Chagas. Pascoal e Cacilda nos afirmaram ser preciso ver teatro para entender a vida. Foi o que tentei ao assistir My Fair Lady e Hair. Depois, vi Paulo Autran, Procópio e Bibi, Sérgio Brito, Chico Anysio, Fernanda Montenegro, Eva Tudor, Tonia Carrerro e outros. Na Broadway, vi musicais ricos, bem montados, mas alguns são pernósticos.
Ao final de 2012, Fernanda Montenegro, que viveu 60 anos com o ator Fernando Torres, falou da dor de ver a sua geração morrer e declarou: “O mais difícil é saber que você está na fase conclusiva da vida. É melhor encarar”. Relembro agora, faz anos. Estava a conversar com Arialdo Pinho, o pai, ao fim de uma peça, no Centro de Convenções. O papo demorou. Ia abrindo o carro quando Walmor – ele era o ator da peça – me aborda: pode me dar uma carona? Daí, fomos jantar e ele me falou, entre doses de bebida, da grande perda de Cacilda e, já então, da solidão do ator, fora dos refletores. Agora, leio que ele, ao fechar a cena extrema, provou que o isolamento e a velhice não distinguem pessoas.

João Soares Neto,
escritor.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2013

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A MODELAGEM CARIOCA – Jornal O Estado

Vista por João Soares Neto, que não entende bem do assunto, mas procurou aprender. Se conseguiu, é outra história.
O Professor José Osvaldo Carioca me propõe uma tarefa difícil, discorrer, analisar ou ensaiar o seu escrito- futuro livro – “O Cérebro, a sua Mente e a Consciência”. O que eu sei disso? Li todas as páginas, cocei a cabeça e me deparei comoutra afirmação que me meteu medo: “Modelagem inusitada sobre a fisiologia do cérebro e da sua mente. Uma base científica para a consciência”. Ora, se é inusitada para quem mexe com ciências exatas, imagina para quem pouco sabe das humanas.
Ele cita autores, pensadores, escritores, filósofos, cientistas, uns grandes, outros menores, que o caro leitor irá descobrir, página a página. Nacionais e estrangeiros. Contemporâneos, modernos e dos passados recente ou remoto. Leva-nos pelo olhar, frase a frase, para o passado, o presente e nos aponta dúvidas- ou seriam certezas? – sobre o futuro a descobrir. Cariocaemerge na sua química, escrita com “uma plataforma energética evidenciando as trocas de energia entre seres vivos e meio ambiente”.
Ele controverte, palmilha e faz crença no palpável e no imponderável. Fé, ciência e futuro são, ao meu olhar leigo, o tripé formado para pincelar, em quadro imaginário, o seu juízo de valor. E o faz sem medo de ser avançado. Aqui, valho-me, graças a Deus, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) a me salvar em sua poética: “…as coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão.”
O que mais teria eu a acrescentar? Digo que gostei do que li. Fui ate às conclusões, à bibliografia e entendo o sossego/inconformismo de um homem maduro que parece tentar sair do quadrado que a ciência lhe impôs e insurgir-se com teorias novas a partir do muito lido.
Todos os teóricos estão em patamar ainda não pisado. Um filósofo, muito citado e pouco lido, o espanhol Ortega y Gasset (1883-195), dizia que “a ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, algo problemático. “É isso, creio, o que fundamenta a pesquisa, por anos, do Professor Carioca, o cientista profético.
Por outro lado, a fé que o anima na árdua tarefa de tecer semelhanças entre autores desencontrados faz-nos lembrar de Dostoievski (1821-1881), expoente do romance russo, ainda no tempo dos Czares. Ele acreditava que “a fé e as demonstrações matemáticas são duas coisas inconciliáveis”. Ora, isso ele escreveu em seu soturno quarto nos “Diários”, mas o escritor russo, mesmo de leve, quebra o gelo entre a abstração da fé e a rigidez da matemática. Ajuízo eu: O que é inconciliável acontece por emergir de um rompimento.
Albert Einstein (1879-1955), um dos aludidos nos escritos que não precisa de apresentação, afirma em contraponto e a favor do Professor Carioca, em “Out of My Late Years”, que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Bingo.
Por último, tentando não perder o fio da meada, há o futuro, o amanhã, o que ainda está por vir, o vir a ser. Se é vir a ser é esperança ainda não orquestrada pela antemanhã. Estamos todos na noite que antecede o futuro, pois vivemos com um pé na memória do passado e o outro – não plantado no chão – no espaço do sonho, do que será o futuro. Isso, talvez, seja o nosso leitmotif.
Dizia Giacomo Leopardi (1798-1837), poeta italiano, em um suposto diálogo entre passageiro e vendedor de almanaque em uma viagem de trem: “Aquela vida que é bela não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Ao que o vendedor responde: “Esperamos”.
Tudo parece coincidir, portanto, com o que, acredito, espera o Professor Carioca quando diz ao concluir o seu trabalho de análise: “por processos realizados na quietude da mente e na proximidade dos estados de equilíbrio, aqui denominados de quase-estático, ou meditativos”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/01/2013.

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JANO, 2013 – Diário do Nordeste

Quase meia-noite. Resolvo ir à rua cumprimentar o janeiro a nascer. Sinto a brisa quente e relembro que na mitologia romana havia uma divindade, Jano, com duas caras. Uma mirava o passado, outra via o futuro. Vi o povo. Caras únicas? Tal como se vestiram para a não gala da noite. Iam e vinham. Cervejas, bebidas quentes, refrigerantes, churrasquinhos, sanduíches e pipocas. Tudo nas biroscas com mesas e cadeiras recicladas de outros usos. Policiais atentos.
Vias perpendiculares apinhadas davam acesso ao grande palco. O resto: calçadão e areia. Essa mesma que nos tragará, um a um, se o final não for o crematório. Igualava tênis, chinelos, pés descalços, sandálias e sapatos femininos de todos os anseios. Os que as acresciam e os que as colocavam ao rés do chão. O branco, a cor mais vista, lembrou-me, sei lá, do disco de Newton, o sol alvo.
Afinal, o locutor. Voz cadenciada. Foi retroativando os segundos vistos em telões desfocados. Luz. Sons. Começou o artifício. Artifício pode ser arapuca, astúcia, cilada e mais. No entanto, os fogos ali, para o povo, eram pirotecnia, engenho e arte com formas mis em cores vivas, encadeadas nas elevações e quedas. Miríades do imaginário dos que usam a pólvora e aditivos para pontuar o céu de estros sutis por minutos. As últimas fagulhas quedaram-se com Netuno.
Artistas no palco. As pessoas saíram do transe embevecida. Aprestaram-se a tomar os caminhos vários de suas casas, perto ou longe da folgança. Surgia o janeiro, o das duas faces. A parca a levar pessoas ativas e queridas para o ignoto. Mas há choros novos em maternidades. Te Deum laudamus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/01/2013.

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JOVENS, ESTUDOS, CONCURSOS E VIDAS – Jornal O Estado

O mundo deu um giro em seu eixo e eis que jovens, sem oportunidade de colocação – ou seria de qualificação? – em empresas privadas, viraram “concurseiros”. São milhões em um país que se ressente de bons profissionais em todas as áreas. Mal acabam de terminar o secundário e alguns estão sequiosos para voos menos longos. Outros, de posse do bacharelado nas várias profissões, aventuram-se em caminhadas mais duras e varam o Brasil de ponta a ponta a busca da segurança que o emprego público parece, ainda, oferecer. Vão à procura de tudo, e nada será tão fácil como dizem. A propósito, foi aberto o edital para fiscal do ICMS em SP, com 885 vagas, 12 mil mensais. Exige superior completo em qualquer área. É preciso garra, coragem e estudo. Esse fato não acontece só no Brasil. Na Itália, em crise, novembro passado, houve um concurso para 11.500 vagas de professor de escolas públicas. Foram inscritas 321.000 pessoas. A fonte é do NYT.
A esses concurseiros desejo boa sorte, mas os desafio a pensar um pouco em suas próprias vidas. Será que os seus estudos, desde o fundamental, foram levados a sério? Ou, só agora, após distribuir currículos com amigos, parentes, empresas, jogá-los nas mídias sociais e agências de recursos humanos é que descobriu a deficiência da própria linguagem, abismado com o que exigem e a concorrência? Não é mais diferencial ter conhecimentos básicos de informática, é obrigação. É preciso ter foco e saber o que se deseja da vida ou na vida. Matricule-se nos bons cursos que complementam a sua formação não tão burilada e apreste-se a estudar muito para que o tempo não corra mais que os seus sonhos.
Não estou sendo rigoroso, apenas falo com você (ler jornal deve ser um hábito e um ato individual). Se alguém lhe passou este escrito é porque aspira o seu bem. Há tanta oportunidade para os que estão abertos a desafios, mas é preciso a contrapartida dos seus fundamentos, os seus alicerces escolares. E da formação ou educação recebida em casa. Edmundo De Amicis, escritor italiano, dizia, a propósito que “a educação de um povo pode ser julgada, antes de mais nada, pelo comportamento que ele mostra na rua. Onde encontrares falta de educação nas ruas, encontrarás o mesmo nas casas”.
Reveja-se e acredite que se algum amigo seu conseguiu ser aprovado no concurso que você cobiça, é hora de trocar ideias com ele. Saber quantas horas ele estudava por dia, como era o histórico escolar dele ou se foi fruto da sorte. A sorte é o acaso. Não seja aquele que desiste fácil, concentre-se e dê um tempo nas baladas, nas cervejotas, nos “rachas” de futebol, no casamento ou acasalamento e encontre companhias que tenham sonhos audaciosos, iguais ou maiores que os seus. Garcia Lorca, apesar de poeta, dissente de mim quando dizia: “A vida não é sonho. Acorda! Acorda! Acorda!” Rebato o Lorca com Guimarães Rosa, através do Riobaldo, seu personagem em “Grande Sertão, Veredas”: “Um sentir é o do sentente, mas o outro é o do sentidor”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/01/2013.

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MÉXICO, ALÉM DO FUTEBOL – Diário do Nordeste

O Brasil (Rio, Fortaleza e Salvador) receberá a seleção do México em junho para a Copa das Confederações. Você sabe algo mais sobre o México além de estereótipos? O México foi descoberto pelo espanhol Hernan Cortés, em 1519. Ele desembarcou na pequena ilha de Cozumel sendo recebido pelo chefe dos astecas, Montezuma, como a reencarnação do deus Quetzalcoatl, que havia, segundo a lenda, ido para o Oriente. A matança propiciada, a seguir, provou que Cortés não era o deus esperado, mas o invasor para dominar. A Independência ocorreu em 1810.
O México não fica na América Central, mas na América do Norte. É belo, diversificado e exuberante. É referência em crescimento econômico, cultura, educação e esportes. Tem indicadores positivos. Vejam: 93% da população mexicana – de 115 milhões – é alfabetizada, 95% dos domicílios têm água potável e 85% têm rede de esgotos. A expectativa de vida é de 77 anos, o governo gasta 5% com educação e o turismo propicia a entrada de 21 milhões de pessoas/ano. É detentor de três prêmios Nobel. O Alfonso García, o da Paz, em 1982; Octavio Paz, em 1990, o de literatura; e, em 1995, Mario Molina, o de Química. No futebol, faz tempo que os canarinhos não os vencem. A Universidade Nacional – UNAM, fundada em 1551, tem quase 300 mil alunos.
O novo presidente, Enrique Peña Nieto, advogado, 46 anos, assumiu em dezembro passado, pleno de ações. É do PRI-Partido Revolucionário Institucional, que retoma o poder após os governos de Vicente Fox e Felipe Calderón. No México não há reeleição, mas mandato de seis anos. Você sabia?
A mídia internacional, com poucas exceções, só destacou, nos últimos anos, a luta de Felipe Calderón contra os cartéis do narcotráfico, sem dar ênfase que eles têm origem na América do Sul e se destinam aos Estados Unidos. O México, por questões geográficas e da sua larga fronteira com a nação de Thomas Jefferson, é o caminho natural, especialmente através de passagens a vau pelas águas do Rio Grande. O presidente Peña Nieto está reorganizando o Ministério da Segurança Pública para coibir os narcotraficantes e mostrar ao mundo quem são os verdadeiros mandatários dos cartéis que lucram bilhões por ano. Eles ficam, quem sabe, talvez na outra margem do Rio Grande.

João Soares Neto,
Cônsul Honorário do México.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2013

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FAMÍLIAS E NEGÓCIOS – Jornal O Estado

Desde há algum tempo tenho participado, aqui e alhures, como ouvinte, moderador, debatedor e palestrante de aulas, discussões, seminários e cursos sob o pomposo nome de “educação corporativa”. Na realidade, a denominação vem do inglês e deveria ser outra, pois nem todos os negócios são corporações. Corporação é algo mais complexo. Estrutura definida por estatuto, filiais, normas e leis societárias.
Negócio é algo mais simples, desde vender frutas ou roupas, até o que uma pessoa, família ou grupo possa criar, produzir, sistematizar e gerir antes de se transformar, com o tempo, valores, lisura e solidez, em corporação.
Tenho ouvido recorrentes queixas de pais e de filhos. Os pais se lastimam. Saíram do nada para montar um negócio e, quase sempre, não têm a colaboração dos filhos adultos como desejado. Alguns filhos se imaginam sabidos e críticos com o jeito simples dos pais gerirem o que lhes deu sustento, instrução e, quiçá, luz social.
Por outro lado, filhos há a olhar os pais como retrógrados, cerceadores de seus ímpetos, ideias e a não acompanhar o desenvolvimento. Uns e outros podem estar certos e errados. Devem buscar entendimento. Mas há um laivo a me agredir em nota no jornal “Valor”: dois irmãos fundaram um negócio. Ele cresceu. Um dia, um deles morre. Os filhos do morto e os seus primos, filhos do irmão sobrevivente, tomaram o controle da já corporação. Deu-se o caos. Esses fatos, pouco conhecidos, causam traumas familiares e as empresas, enfraquecidas. Confúcio, sábio chinês, dizia: O respeito para com os pais e irmãos é a base da superioridade.”

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/01/2013.

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ALMOÇO EM FAMÍLIA, FAUSTO ALBUQUERQUE E LEMBRANÇAS DE ESTUDANTE – Jornal O Estado

Último dia do ano. Almoço em família. Falávamos um de cada vez, sobre os nossos defeitos, algumas virtudes e a inquestionável independência que é a característica de todos. Cada um vive por sua conta e risco, trabalhando duro, mas agora estávamos rindo e brincando. Descontração total.
O celular toca. Uma voz anasalada se identifica como Fausto. Não ouço bem. Há barulho ao redor. Afasto-me da mesa, ouço melhor: Fausto Albuquerque. Ele mesmo relembra que foi meu professor de Português no Farias Brito e acabara de ler o meu livro “Microcontos”, que adorou e elogiou pela original forma como foi tecido, com pouquíssimas palavras em cada conto, que é micro, mas não deixa de ter a forma e o conteúdo de um longo ou breve conto. Fiquei alegre. Que presente!
Fausto Albuquerque mora hoje em Belo Horizonte, sendo membro do Instituto Geográfico de Minas, do Instituto dos Advogados de Minas, do Instituto Internacional de Esperanto, da Associação de Escritores Mineiros, da Associação dos Advogados de Minas, correspondente da Academia da Língua Portuguesa, do Ceará, integrante da Comissão da Nova Nomenclatura Gramatical Brasileira, Comendador do Instituto Geográfico de Minas, Consultor Jurídico de revistas Trabalhistas de Minas, fala e escreve em cinco línguas. Publicou oito livros e aposentou-se como professor de Alemão da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN.
Essas informações sobre ele foram colhidas por mim na web, após o telefonema que me deixou ledo e vaidoso. Não é todo o dia que se recebe elogio de um filólogo do quilate de Fausto Albuquerque. A conversa foi amena, mas ele viajaria no dia seguinte. Uma pena. Como em transe, mergulhei no passado da sala de aula do Farias Brito original, na avenida Duque de Caxias. Quadro Verde, um pequeno patamar elevado com a mesa do professor, cadeiras de braço do lado direito, enquanto sou canhoto, ouvindo o professor Fausto Albuquerque, no método peripatético. Ele era contra neologismos e dizia que não se devia usar o galicismo perdão (pardon), mas o seco desculpe.
Era capaz e aparentemente severo, mas fazia-se bem entendido por todos. Relembro da maioria dos colegas dessa turma, que não era grande: Aytan Miranda Sipahy, hoje médico e professor da Universidade de São Paulo; Júlio Jorge Albuquerque Lóssio, odontólogo, professor universitário em SP, e depois aqui na UFC; Raul Fontenele, empresário gráfico, amigo até o seu falecimento; Feitosa Carvalho, coronel do Exército, que morreu jovem; Tomás Edson, professor e coronel da Polícia Militar; Raimundo Braga, auditor fiscal; Francisco Feitosa, empresário; Manoel Leôncio Carvalho Macieira, clínico geral destacado; Luiz I. Mendes Parente, procurador de Justiça; Zilberto Farias, engenheiro agrônomo e professor; Afrânio Cabral, advogado; Pedro Eugênio Simões, empresário e, quando jovem, excelente goleiro; e Jurandir Mitoso, radialista de verve que até hoje figura no “cast” das rádios e TV Cidade. Todos eles passaram pelo crivo sério do prof. Fausto Albuquerque, que já nos recebera bem instruídos por outro rigoroso mestre de português, Sildácio Matos.
Um dia, sem mais, nem menos, em plena sala de aula, avisa que ia nos deixar por ter sido aprovado para professor do Colégio Militar de Belo Horizonte e lá, como se vê, construiu, ao longo de décadas, a sua história acadêmica e literária. Depois, segue para a AMAN. Aposenta-se e volta para BH.
Este relato é um tributo aos meus colegas de então e a ele. Não decorre da sua apreciação positiva acerca de um dos meus livros, mas por dever de justiça a um cearense que nos soube transmitir conhecimentos fundamentais dessa não tão fácil língua camoniana/machadiana. Ele conseguiu se destacar em meio à tradicional desconfiança dos mineiros, especialmente dos ciosos e fechados intelectuais de lá. Que bom ouvi-lo. Vida longa.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2013.