{"id":2612,"date":"2023-12-21T09:10:25","date_gmt":"2023-12-21T12:10:25","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-viuva-encarnada-no-vestido\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:25","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:25","slug":"a-viuva-encarnada-no-vestido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-viuva-encarnada-no-vestido\/","title":{"rendered":"A VI\u00daVA ENCARNADA NO VESTIDO"},"content":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7o Jos\u00e9 Maria Barros Pinho desde 1961. Fomos colegas da turma pioneira da Escola de Administra\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1. Barros Pinho chegara do Piau\u00ed, via Crate\u00fas, e assentara-se na Pedro Pereira com Padre Moror\u00f3. Estudamos, lutamos, viajamos e fizemos pol\u00edtica estudantil. Barros Pinho, por sua lideran\u00e7a, pagou um pre\u00e7o muito alto. A vida pol\u00edtica quase pagou essa conta. Mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<br \/>\n     Desde esse tempo, Barros Pinho aliava \u00e0 sua ret\u00f3rica a veia po\u00e9tica que ele teima em situar nas barrancas do Rio Parna\u00edba. Sua po\u00e9tica transcende \u00e0s nascentes e a foz de um rio, ela se fez mar e inundou a praia onde moureja seus versos h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas.<br \/>\n     Agora, na juventude de sua maturidade, envereda pelo g\u00eanero da cr\u00f4nica, salvo incurs\u00e3o ligeira numa antologia de cronistas novos em 1971. Primeiro concorreu com o conto \u201cO Zeca do tiro no bode da Naz\u00e1ria\u201d ao Pr\u00eamio Ideal de Literatura, ano 2000, merecendo destaque. Depois, neste livro, reuniu 16 contos, editados pela Record, 2002, e, j\u00e1 na estr\u00e9ia oficial como contista, teve a honra de ser prefaciado por Gerardo Melo Mour\u00e3o, o maior intelectual vivo nascido no Cear\u00e1 e, sem d\u00favida, um dos maiores do Brasil. Se isso n\u00e3o bastasse, Jos\u00e9 Alcides Pinto (na orelha), Cineas Santos e Francisco Carvalho (na contra-capa) d\u00e3o o fechamento, aprova\u00e7\u00e3o e louva\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Barros Pinho. O que dizer ainda, at\u00e9 porque n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio. Sou sim, um leitor cr\u00edtico. Concordo com Lya Luft, no seu livro \u201cO Rio do Meio&#8221;, p. 134\/135, quando diz:<br \/>\n     Impressiona-me que outros analisem com tanta clareza textos que escrevi: coment\u00e1rios eruditos, profundas aproxima\u00e7\u00f5es, fazem-me parecer t\u00e3o grave que chego a me inquietar, como se, de volta aos bancos de escola, andasse outra vez distra\u00edda de tarefas importantes. Essa de que a\u00ed falam sou realmente eu?<br \/>\n     Pois \u00e9, Barros Pinho, embora possa ser vaidoso de sua trajet\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 uma pessoa grave. Barros Pinho n\u00e3o se desfaz da veia po\u00e9tica:<br \/>\n      O sol era o mais claro referencial da manh\u00e3. O rio, a mesma indiferen\u00e7a de sempre. A capela, no alto, erguia-se para o c\u00e9u. (p.20).<br \/>\n      E vai em frente:<br \/>\nOs peitos dela, mal comparando, eram duas nascentes de bicos finos, ver bico de beija-flor atacando no mato das veredas no in\u00edcio das \u00e1guas (p.44)<br \/>\n     Por outro lado, constr\u00f3i frases pr\u00f3prias de cronistas n\u00e3o derramados, mas aprumados em suas tramas:<br \/>\n      Os dias eram uma gulodice comendo o tempo\u201d(p.28). \u201cVive da sala para o quarto, onde padece seu sofrimento de dor dentro dela. \u00c9 tanto que a gente sem querer, olhando para ela, bota \u00e1gua nos olhos com gosto de n\u00e3o parar\u201d(p.47). \u201cF\u00eamea comigo hoje n\u00e3o tem pre\u00e7o e pode at\u00e9 custar a vida de quem meter tramela na minha t\u00e3o grande vontade (p.67).<br \/>\n    Destaque-se, ainda, o tratamento dado aos personagens, com suas falas, pensamentos, medos, modos, com a pureza de um mundo n\u00e3o urbano talvez n\u00e3o mais existente, perdido em meio a rios sempre recorrentes, mesmo que o conto seja outro, e as margens d\u00eaem em lugares diferentes e nos quais nunca pisamos.<br \/>\n      H\u00e1 contos com personagens duros e dram\u00e1ticos em seus conte\u00fados, gestados na inf\u00e2ncia, paridos nesta maturidade libert\u00e1ria de fantasmas agourentos, trazem ep\u00edlogos cru\u00e9is ou fant\u00e1sticos, apascentando a alma de quem escreve, disfar\u00e7ando a dor vinda de longe, n\u00e3o se perde com o tempo e se recria no imagin\u00e1rio da prosa curta, mas firme. Assim \u00e9 com Zeca:<br \/>\n      O Zeca se rezava, rezava com o punhal na m\u00e3o\u201d(p.60), Ben\u00e9 Gavi\u00e3o \u201cO Ben\u00e9 pulou este batente e saiu daqui com uma cabe\u00e7a de on\u00e7a, o corpo de homem e asas de gavi\u00e3o encantado (p.85)<br \/>\n      Ou com Tia Donana:<br \/>\n      Vestia o vestido encarnado da promessa feita ao italiano, seu marido, sob o olhar espantado de quantos se preparavam para assistir a cerim\u00f4nia oficiada pelo c\u00f4nego Deusdedith de Freitas, que nos dentros dos bot\u00f5es de sua batina viveu atormentado por muito tempo (p.127).<\/p>\n<p>JO\u00c3O SOARES NETO<br \/>\nAcademia Fortalezense De Letras<br \/>\nAgosto de 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7o Jos\u00e9 Maria Barros Pinho desde 1961. Fomos colegas da turma pioneira da Escola de Administra\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1. Barros Pinho chegara do Piau\u00ed, via Crate\u00fas, e assentara-se na Pedro Pereira com Padre Moror\u00f3. Estudamos, lutamos, viajamos e fizemos pol\u00edtica estudantil. Barros Pinho, por sua lideran\u00e7a, pagou um pre\u00e7o muito alto. A vida pol\u00edtica quase pagou essa conta. Mas isto \u00e9 outra hist\u00f3ria.<br \/>\n     Desde esse tempo, Barros Pinho aliava \u00e0 sua ret\u00f3rica a veia po\u00e9tica que ele teima em situar nas barrancas do Rio Parna\u00edba. Sua po\u00e9tica transcende \u00e0s nascentes e a foz de um rio, ela se fez mar e inundou a praia onde moureja seus versos h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas.<br \/>\n     Agora, na juventude de sua maturidade, envereda pelo g\u00eanero da cr\u00f4nica, salvo incurs\u00e3o ligeira numa antologia de cronistas novos em 1971. Primeiro concorreu com o conto \u201cO Zeca do tiro no bode da Naz\u00e1ria\u201d ao Pr\u00eamio Ideal de Literatura, ano 2000, merecendo destaque. Depois, neste livro, reuniu 16 contos, editados pela Record, 2002, e, j\u00e1 na estr\u00e9ia oficial como contista, teve a honra de ser prefaciado por Gerardo Melo Mour\u00e3o, o maior intelectual vivo nascido no Cear\u00e1 e, sem d\u00favida, um dos maiores do Brasil. Se isso n\u00e3o bastasse, Jos\u00e9 Alcides Pinto (na orelha), Cineas Santos e Francisco Carvalho (na contra-capa) d\u00e3o o fechamento, aprova\u00e7\u00e3o e louva\u00e7\u00e3o \u00e0 obra de Barros Pinho. O que dizer ainda, at\u00e9 porque n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio. Sou sim, um leitor cr\u00edtico. Concordo com Lya Luft, no seu livro \u201cO Rio do Meio&#8221;, p. 134\/135, quando diz:<br \/>\n     Impressiona-me que outros analisem com tanta clareza textos que escrevi: coment\u00e1rios eruditos, profundas aproxima\u00e7\u00f5es, fazem-me parecer t\u00e3o grave que chego a me inquietar, como se, de volta aos bancos de escola, andasse outra vez distra\u00edda de tarefas importantes. Essa de que a\u00ed falam sou realmente eu?<br \/>\n     Pois \u00e9, Barros Pinho, embora possa ser vaidoso de sua trajet\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 uma pessoa grave. Barros Pinho n\u00e3o se desfaz da veia po\u00e9tica:<br \/>\n      O sol era o mais claro referencial da manh\u00e3. O rio, a mesma indiferen\u00e7a de sempre. A capela, no alto, erguia-se para o c\u00e9u. (p.20).<br \/>\n      E vai em frente:<br \/>\nOs peitos dela, mal comparando, eram duas nascentes de bicos finos, ver bico de beija-flor atacando no mato das veredas no in\u00edcio das \u00e1guas (p.44)<br \/>\n     Por outro lado, constr\u00f3i frases pr\u00f3prias de cronistas n\u00e3o derramados, mas aprumados em suas tramas:<br \/>\n      Os dias eram uma gulodice comendo o tempo\u201d(p.28). \u201cVive da sala para o quarto, onde padece seu sofrimento de dor dentro dela. \u00c9 tanto que a gente sem querer, olhando para ela, bota \u00e1gua nos olhos com gosto de n\u00e3o parar\u201d(p.47). \u201cF\u00eamea comigo hoje n\u00e3o tem pre\u00e7o e pode at\u00e9 custar a vida de quem meter tramela na minha t\u00e3o grande vontade (p.67).<br \/>\n    Destaque-se, ainda, o tratamento dado aos personagens, com suas falas, pensamentos, medos, modos, com a pureza de um mundo n\u00e3o urbano talvez n\u00e3o mais existente, perdido em meio a rios sempre recorrentes, mesmo que o conto seja outro, e as margens d\u00eaem em lugares diferentes e nos quais nunca pisamos.<br \/>\n      H\u00e1 contos com personagens duros e dram\u00e1ticos em seus conte\u00fados, gestados na inf\u00e2ncia, paridos nesta maturidade libert\u00e1ria de fantasmas agourentos, trazem ep\u00edlogos cru\u00e9is ou fant\u00e1sticos, apascentando a alma de quem escreve, disfar\u00e7ando a dor vinda de longe, n\u00e3o se perde com o tempo e se recria no imagin\u00e1rio da prosa curta, mas firme. Assim \u00e9 com Zeca:<br \/>\n      O Zeca se rezava, rezava com o punhal na m\u00e3o\u201d(p.60), Ben\u00e9 Gavi\u00e3o \u201cO Ben\u00e9 pulou este batente e saiu daqui com uma cabe\u00e7a de on\u00e7a, o corpo de homem e asas de gavi\u00e3o encantado (p.85)<br \/>\n      Ou com Tia Donana:<br \/>\n      Vestia o vestido encarnado da promessa feita ao italiano, seu marido, sob o olhar espantado de quantos se preparavam para assistir a cerim\u00f4nia oficiada pelo c\u00f4nego Deusdedith de Freitas, que nos dentros dos bot\u00f5es de sua batina viveu atormentado por muito tempo (p.127).<\/p>\n<p>JO\u00c3O SOARES NETO<br \/>\nAcademia Fortalezense De Letras<br \/>\nAgosto de 2003.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2612","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2612"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2612\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}