{"id":2631,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/crianca-o-ontem-e-o-hoje-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"crianca-o-ontem-e-o-hoje-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/crianca-o-ontem-e-o-hoje-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CRIAN\u00c7A. O ONTEM E O HOJE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez um menino nascido ao meio-dia de uma sexta-feira. O mundo estava em guerra. N\u00e3o por tal raz\u00e3o chorava. Havia sa\u00eddo a f\u00f3rceps do \u00fatero de m\u00e3e prim\u00edpara, por obra e gra\u00e7a de parteira diplomada. Seu pai s\u00f3 tinha 20 anos, era ciumento e n\u00e3o deixou a jovem mulher ser assistida por m\u00e9dico. Paparicado por jovens tias maternas, pois o casal estava com pressa de povoar o mundo. Depois dele, n\u00e3o veio o dil\u00favio, mas oito crian\u00e7as.<br \/>\nUma das tias sugeriu e os seus pais aceitaram, inici\u00e1-lo, aos quatro anos, nos estudos em escola experimental americana. Ia s\u00f3. Quem o acompanhava, ficava longe. Infelizmente, durou pouco. Matricularam-no em gin\u00e1sio formal. Um dia, n\u00e3o lembra a raz\u00e3o, foi o \u00faltimo a sair do recreio para a sala de aula. De repente, o diretor puxou-o ela orelha, ralhando. Conseguiu um telefone do pr\u00f3prio gin\u00e1sio e ligou para o pai contando o fato. Disse: n\u00e3o estudaria mais ali. Dito e feito.<br \/>\nDezenas de anos passados, ele, j\u00e1 com netos em idade escolar, tenta aproxima\u00e7\u00e3o de formas diferentes. Meio sem jeito, desde o tempo de pai. Criara (seria o pren\u00fancio de um ficcionista?), dois personagens, a Rosinha e o Paulinho, crian\u00e7as exemplos. As filhas procuravam conhec\u00ea-los. Ele driblava com evasivas: moram um pouco distante daqui, viajaram, est\u00e3o de f\u00e9rias etc. Rosinha e Paulinho eram bons filhos, estudiosos e serviram de modelo invis\u00edvel para as ainda cr\u00e9dulas filhotas.<br \/>\nAgora, conta um pouco do \u201cseu-sem-jeito\u201d como av\u00f4. H\u00e1 anos combinou com uma filha: levaria as crian\u00e7as dela para a escola. Tentava maior aproxima\u00e7\u00e3o. Entravam no carro ainda bocejando. Ele, o av\u00f4, colocara no toca cd m\u00fasicas infantis e ia, desafinando, solfejando com eles. A festa durou pouco mais de uma semana. Um dia, perguntou se fazia diferen\u00e7a ir apanh\u00e1-los manh\u00e3 cedo ou outra pessoa servia. Triste, ouviu: tanto faz.<br \/>\nDomingo desses, combinou com outra filha, ir apanhar o seu primog\u00eanito para lev\u00e1-lo a uma feira de numism\u00e1tica. O neto, rosto cheio de protetor solar e saco com lata de moedas repetidas. Sentados no banco da frente, cintos de seguran\u00e7a atados, foram conversando ao Parque da Liberdade, no centro, a antiga Cidade das Crian\u00e7as, concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da professora Zilda Martins Rodrigues.<br \/>\nL\u00e1, pessoas maduras fazem o escambo e a venda de moedas. Sentou-se em uma banca. O neto, em outra. Fez as suas barganhas e, ao final, o neto queria vender, a qualquer pre\u00e7o, as moedas repetidas. Arrazoou: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 precisando de dinheiro. Comprou novas moedas para o neto, inclusive, c\u00e9dula de d\u00f3lar com a cara do Mickey, s\u00f3 circulante no mundo da fantasia e no dos numismatas.<br \/>\nDepois, foram almo\u00e7ar. Antes, o neto pediu para tomar sorvete. Concordou, claro. Do almo\u00e7o provou pouco, mas bebeu duas latas do exc\u00eantrico Guaran\u00e1 Jesus, hoje marca da Coca-Cola. Mais um sorvete e tomou o caminho de volta. Papos, risos e abra\u00e7os. Ficaram combinados, voltariam \u00e0 feira.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12\/01\/2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez um menino nascido ao meio-dia de uma sexta-feira. O mundo estava em guerra. N\u00e3o por tal raz\u00e3o chorava. Havia sa\u00eddo a f\u00f3rceps do \u00fatero de m\u00e3e prim\u00edpara, por obra e gra\u00e7a de parteira diplomada. Seu pai s\u00f3 tinha 20 anos, era ciumento e n\u00e3o deixou a jovem mulher ser assistida por m\u00e9dico. Paparicado por jovens tias maternas, pois o casal estava com pressa de povoar o mundo. Depois dele, n\u00e3o veio o dil\u00favio, mas oito crian\u00e7as.<br \/>\nUma das tias sugeriu e os seus pais aceitaram, inici\u00e1-lo, aos quatro anos, nos estudos em escola experimental americana. Ia s\u00f3. Quem o acompanhava, ficava longe. Infelizmente, durou pouco. Matricularam-no em gin\u00e1sio formal. Um dia, n\u00e3o lembra a raz\u00e3o, foi o \u00faltimo a sair do recreio para a sala de aula. De repente, o diretor puxou-o ela orelha, ralhando. Conseguiu um telefone do pr\u00f3prio gin\u00e1sio e ligou para o pai contando o fato. Disse: n\u00e3o estudaria mais ali. Dito e feito.<br \/>\nDezenas de anos passados, ele, j\u00e1 com netos em idade escolar, tenta aproxima\u00e7\u00e3o de formas diferentes. Meio sem jeito, desde o tempo de pai. Criara (seria o pren\u00fancio de um ficcionista?), dois personagens, a Rosinha e o Paulinho, crian\u00e7as exemplos. As filhas procuravam conhec\u00ea-los. Ele driblava com evasivas: moram um pouco distante daqui, viajaram, est\u00e3o de f\u00e9rias etc. Rosinha e Paulinho eram bons filhos, estudiosos e serviram de modelo invis\u00edvel para as ainda cr\u00e9dulas filhotas.<br \/>\nAgora, conta um pouco do \u201cseu-sem-jeito\u201d como av\u00f4. H\u00e1 anos combinou com uma filha: levaria as crian\u00e7as dela para a escola. Tentava maior aproxima\u00e7\u00e3o. Entravam no carro ainda bocejando. Ele, o av\u00f4, colocara no toca cd m\u00fasicas infantis e ia, desafinando, solfejando com eles. A festa durou pouco mais de uma semana. Um dia, perguntou se fazia diferen\u00e7a ir apanh\u00e1-los manh\u00e3 cedo ou outra pessoa servia. Triste, ouviu: tanto faz.<br \/>\nDomingo desses, combinou com outra filha, ir apanhar o seu primog\u00eanito para lev\u00e1-lo a uma feira de numism\u00e1tica. O neto, rosto cheio de protetor solar e saco com lata de moedas repetidas. Sentados no banco da frente, cintos de seguran\u00e7a atados, foram conversando ao Parque da Liberdade, no centro, a antiga Cidade das Crian\u00e7as, concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da professora Zilda Martins Rodrigues.<br \/>\nL\u00e1, pessoas maduras fazem o escambo e a venda de moedas. Sentou-se em uma banca. O neto, em outra. Fez as suas barganhas e, ao final, o neto queria vender, a qualquer pre\u00e7o, as moedas repetidas. Arrazoou: voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 precisando de dinheiro. Comprou novas moedas para o neto, inclusive, c\u00e9dula de d\u00f3lar com a cara do Mickey, s\u00f3 circulante no mundo da fantasia e no dos numismatas.<br \/>\nDepois, foram almo\u00e7ar. Antes, o neto pediu para tomar sorvete. Concordou, claro. Do almo\u00e7o provou pouco, mas bebeu duas latas do exc\u00eantrico Guaran\u00e1 Jesus, hoje marca da Coca-Cola. Mais um sorvete e tomou o caminho de volta. Papos, risos e abra\u00e7os. Ficaram combinados, voltariam \u00e0 feira.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12\/01\/2018.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2631","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2631","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2631"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2631\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}