{"id":2633,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/de-mascate-a-visconde-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"de-mascate-a-visconde-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/de-mascate-a-visconde-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"DE MASCATE A VISCONDE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO prest\u00edgio sem m\u00e9rito obt\u00e9m considera\u00e7\u00f5es sem estima\u201d.<br \/>\nN. De Chamfort, escritor franc\u00eas, s\u00e9c 18.<br \/>\nEm um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, h\u00e1 exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Ga\u00facho do interior, de fam\u00edlia pobre. Seu pai, Jo\u00e3o Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com tr\u00eas anos formais de estudo, como balconista, e j\u00e1 aos 15 anos, deu uma guinada.<br \/>\nConheceu Richard Carruthers, escoc\u00eas, \u00e1vido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, s\u00f3cio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e ma\u00e7om, a falar ingl\u00eas, e a saber que o mundo era maior que a \u00fanica viagem que at\u00e9 ent\u00e3o fizera.<br \/>\nA vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administra\u00e7\u00e3o deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como refer\u00eancias modelos de gest\u00e3o estrangeiros e incensa empres\u00e1rios europeus e\/ou americanos. Pelo menos, a Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o pr\u00eamio Bar\u00e3o de Mau\u00e1, o pioneiro da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira. Esse galard\u00e3o \u00e9 conferido a pessoas e institui\u00e7\u00f5es que encerrem servi\u00e7os prestados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e \u00e0 difus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMau\u00e1 teve fundi\u00e7\u00e3o, estaleiro, navios, ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus neg\u00f3cios para o exterior. Em 1840, j\u00e1 estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios ga\u00fachos, sua m\u00e3e, Maria de Jesus; a irm\u00e3, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de neg\u00f3cios \u00e0 Inglaterra, traz uma alian\u00e7a para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos.<br \/>\nEm 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petr\u00f3polis, ocasi\u00e3o em que recebeu do pr\u00f3prio Imperador, Pedro II, com quem tinha desaven\u00e7as, o t\u00edtulo de bar\u00e3o de Mau\u00e1. Vinte anos depois recebe o t\u00edtulo de Visconde, um n\u00edvel acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura.<br \/>\nSegundo Kenneth Maxwell, historiador brit\u00e2nico contempor\u00e2neo, \u201cele se opunha ao com\u00e9rcio negreiro e \u00e0 escravatura\u2026No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Reino Unido, Fran\u00e7a e Unidos\u201d. Nem tudo foi gl\u00f3ria na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilita\u00e7\u00e3o, antes de falecer em 1889, antes da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<br \/>\nConheci, h\u00e1 tempos, Jorge Caldeira, professor e bi\u00f3grafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro \u201cMau\u00e1, o Empres\u00e1rio do Imp\u00e9rio\u201d, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus s\u00e3o poucos, ainda hoje.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/06\/2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO prest\u00edgio sem m\u00e9rito obt\u00e9m considera\u00e7\u00f5es sem estima\u201d.<br \/>\nN. De Chamfort, escritor franc\u00eas, s\u00e9c 18.<br \/>\nEm um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, h\u00e1 exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Ga\u00facho do interior, de fam\u00edlia pobre. Seu pai, Jo\u00e3o Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com tr\u00eas anos formais de estudo, como balconista, e j\u00e1 aos 15 anos, deu uma guinada.<br \/>\nConheceu Richard Carruthers, escoc\u00eas, \u00e1vido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, s\u00f3cio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e ma\u00e7om, a falar ingl\u00eas, e a saber que o mundo era maior que a \u00fanica viagem que at\u00e9 ent\u00e3o fizera.<br \/>\nA vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administra\u00e7\u00e3o deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como refer\u00eancias modelos de gest\u00e3o estrangeiros e incensa empres\u00e1rios europeus e\/ou americanos. Pelo menos, a Associa\u00e7\u00e3o Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o pr\u00eamio Bar\u00e3o de Mau\u00e1, o pioneiro da industrializa\u00e7\u00e3o brasileira. Esse galard\u00e3o \u00e9 conferido a pessoas e institui\u00e7\u00f5es que encerrem servi\u00e7os prestados \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e \u00e0 difus\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMau\u00e1 teve fundi\u00e7\u00e3o, estaleiro, navios, ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus neg\u00f3cios para o exterior. Em 1840, j\u00e1 estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios ga\u00fachos, sua m\u00e3e, Maria de Jesus; a irm\u00e3, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de neg\u00f3cios \u00e0 Inglaterra, traz uma alian\u00e7a para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos.<br \/>\nEm 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petr\u00f3polis, ocasi\u00e3o em que recebeu do pr\u00f3prio Imperador, Pedro II, com quem tinha desaven\u00e7as, o t\u00edtulo de bar\u00e3o de Mau\u00e1. Vinte anos depois recebe o t\u00edtulo de Visconde, um n\u00edvel acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura.<br \/>\nSegundo Kenneth Maxwell, historiador brit\u00e2nico contempor\u00e2neo, \u201cele se opunha ao com\u00e9rcio negreiro e \u00e0 escravatura\u2026No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Reino Unido, Fran\u00e7a e Unidos\u201d. Nem tudo foi gl\u00f3ria na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilita\u00e7\u00e3o, antes de falecer em 1889, antes da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<br \/>\nConheci, h\u00e1 tempos, Jorge Caldeira, professor e bi\u00f3grafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro \u201cMau\u00e1, o Empres\u00e1rio do Imp\u00e9rio\u201d, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus s\u00e3o poucos, ainda hoje.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/06\/2018.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2633\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}