{"id":2635,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-lata-e-a-manifestacao-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"a-lata-e-a-manifestacao-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-lata-e-a-manifestacao-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A LATA E A MANIFESTA\u00c7\u00c3O &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>O Apolin\u00e1rio \u00e9 um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Hor\u00e1rio do almo\u00e7o, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupa\u00e7\u00e3o: \u2013 H\u00e1 um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. \u2013 Deve ser problema de sinal, depende do local onde voc\u00ea esteja; todos os telefones est\u00e3o assim, e tentei mudar de assunto.<br \/>\nO Apolin\u00e1rio pegou no meu bra\u00e7o e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa s\u00e9ria. O chiado \u00e9 estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que n\u00e3o tenho ningu\u00e9m para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um \u201cajude-me\u201d.<br \/>\nEu estava apressado, mas o Apolin\u00e1rio n\u00e3o me dava tr\u00e9gua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cintur\u00e3o no \u00faltimo furo, barba por fazer e m\u00e3os \u00famidas. Falei: voc\u00ea est\u00e1 com medo de qu\u00ea? Fez algo errado? H\u00e1 alguma coisa que n\u00e3o me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o gar\u00e7om nos olhava como a dizer: sentam e n\u00e3o v\u00e3o pedir nada?<br \/>\nTomou um gole, limpou a boca e arrematou: \u2013 Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei n\u00e3o, Apolin\u00e1rio, j\u00e1 s\u00e3o tantas manifesta\u00e7\u00f5es e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: \u2013 Aquela em que a pol\u00edcia baixou o pau sem d\u00f3, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabe\u00e7a por uma lata de leite em p\u00f3? E emendou \u2013 Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escrit\u00f3rio, aporrinhei-me e mandei a lata l\u00e1 do segundo andar. A desgra\u00e7ada caiu na cabe\u00e7a de um policial grand\u00e3o que acabara de tirar o bon\u00e9 para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, \u00e9 claro, mas n\u00e3o sei o estado dele. N\u00e3o deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher, sabe como \u00e9, ela anda com raiva de mim faz tempo. Voc\u00ea n\u00e3o podia dar um jeito para descobrir?<br \/>\nFiz-lhe mais uma pergunta: \u2013 A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: n\u00e3o!, estou salvo, o leite voou e a lata seca n\u00e3o deve ter feito nenhum estrago. Sem paci\u00eancia, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distra\u00eddo: pode ir, boa tarde, e concluiu: \u2013 Gar\u00e7om, traga mais uma gelada.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/05\/2018.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Apolin\u00e1rio \u00e9 um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Hor\u00e1rio do almo\u00e7o, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupa\u00e7\u00e3o: \u2013 H\u00e1 um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. \u2013 Deve ser problema de sinal, depende do local onde voc\u00ea esteja; todos os telefones est\u00e3o assim, e tentei mudar de assunto.<br \/>\nO Apolin\u00e1rio pegou no meu bra\u00e7o e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa s\u00e9ria. O chiado \u00e9 estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que n\u00e3o tenho ningu\u00e9m para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um \u201cajude-me\u201d.<br \/>\nEu estava apressado, mas o Apolin\u00e1rio n\u00e3o me dava tr\u00e9gua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cintur\u00e3o no \u00faltimo furo, barba por fazer e m\u00e3os \u00famidas. Falei: voc\u00ea est\u00e1 com medo de qu\u00ea? Fez algo errado? H\u00e1 alguma coisa que n\u00e3o me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o gar\u00e7om nos olhava como a dizer: sentam e n\u00e3o v\u00e3o pedir nada?<br \/>\nTomou um gole, limpou a boca e arrematou: \u2013 Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei n\u00e3o, Apolin\u00e1rio, j\u00e1 s\u00e3o tantas manifesta\u00e7\u00f5es e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: \u2013 Aquela em que a pol\u00edcia baixou o pau sem d\u00f3, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabe\u00e7a por uma lata de leite em p\u00f3? E emendou \u2013 Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escrit\u00f3rio, aporrinhei-me e mandei a lata l\u00e1 do segundo andar. A desgra\u00e7ada caiu na cabe\u00e7a de um policial grand\u00e3o que acabara de tirar o bon\u00e9 para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, \u00e9 claro, mas n\u00e3o sei o estado dele. N\u00e3o deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher, sabe como \u00e9, ela anda com raiva de mim faz tempo. Voc\u00ea n\u00e3o podia dar um jeito para descobrir?<br \/>\nFiz-lhe mais uma pergunta: \u2013 A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: n\u00e3o!, estou salvo, o leite voou e a lata seca n\u00e3o deve ter feito nenhum estrago. Sem paci\u00eancia, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distra\u00eddo: pode ir, boa tarde, e concluiu: \u2013 Gar\u00e7om, traga mais uma gelada.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/05\/2018.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2635","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2635","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2635"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2635\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2635"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2635"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2635"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}