{"id":2645,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/erasmo-pitombeira-por-audifax-rios-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"erasmo-pitombeira-por-audifax-rios-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/erasmo-pitombeira-por-audifax-rios-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"ERASMO PITOMBEIRA POR AUDIFAX RIOS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Cedo, respeitoso, este espa\u00e7o a Audifax Rios. Ele sumarizou, antes de ir para o al\u00e9m, a vida de Erasmo Pitombeira, agora falecido: \u201cPitombeira foi criado na Fazenda Mutuca, embora tenha nascido na Fazenda Pedras, ribeira do Palhano, Vale do Jaguaribe. Filho de vaqueiro e, por parte de pai e m\u00e3e, neto, bisneto e tataraneto de vaqueiros estabelecidos no vale do rio das on\u00e7as, ele viveu seus primeiros tempos acompanhando as est\u00f3rias contadas no alpendre da casa grande da velha fazenda assentada nas quebradas do riacho das Imburanas.<br \/>\nLevou a meninice botando bezerro para mamar na \u201ctira\u00e7\u00e3o\u201d de leite do curral das vacas, vendo a \u201cferra\u201d dos bezerros e a \u201cassina\u00e7\u00e3o\u201d dos cabritos e cordeiros, dando banho nos animais de sela nos po\u00e7os do riacho ou no a\u00e7ude velho, botando \u201cpareia\u201d de cavalo no caminho da capoeira e ouvindo os fuxicos que corriam pela cozinha e casa de farinha. Criou-se \u201cvendo\u201d a \u00e1gua cair aos \u201cpotes\u201d nas imensas telhas da coberta da velha casa e \u201csentindo\u201d o estremecido do estrondo do \u201cpai da coalhada\u201d l\u00e1 para as bandas do caminho direito.<br \/>\nQuando acabou o aprendizado dispon\u00edvel na escola de casa, foi para a capital fazer o exame de admiss\u00e3o. Foi quando, somente aos dez anos, ouviu pela vez primeira a pancada do mar e ficou admirado com aquele lombo d\u2019\u00e1gua bonito do oceano que jamais enxergara. Seguindo o destino tra\u00e7ado de \u201cser doutor\u201d, depois de estudar em col\u00e9gios na capital, passou no vestibular da UFC e graduou-se em engenharia civil. Na sequ\u00eancia, em busca de aumentar sua \u201csapi\u00eancia\u201d, se largou por este mundo de Deus, por \u201cseca e Meca\u201d divagando pelo Brasil e exterior e p\u00f3sgraduouse, pasmem, em Engenharia hidr\u00e1ulica Maritima, que nada tinha a ver com suas origens. Voltando \u00e0 terra natal, o \u201cdoutor\u201d se abancou na sua antiga Escola de Engenharia, j\u00e1 ent\u00e3o Centro de Tecnologia da UFC, onde h\u00e1 trinta anos \u00e9 professor do Curso de Engenharia Civil, lecionando as disciplinas de Portos e Engenharia Fluvial e realizando consultorias.<br \/>\nMas o caminhamento por este mundo afora n\u00e3o \u201cafogou\u201d o verdadeiro aprendizado que ele adquirira ao longo do tempo de menino, que foi ser sertanejo e assim, procura manter seus modos e tradi\u00e7\u00f5es como tal e no meio da vida que leva na casa da rua sempre encontra tempo para as viv\u00eancias interioranas. Conforme seus ideais de vida, quando se livrar do obrigat\u00f3rio trabalho e do cipoal de medo e inseguran\u00e7a em que se tomou a cidade, pretende voltar de vez \u00e0 terra onde deixou seu umbigo enterrado na porteira do curral e por l\u00e1 gastar o resto dos dias de vida que lhe foi destinado.<br \/>\nEsgotado esse prazo, literalmente entregar\u00e1 seu corpo ao ch\u00e3o e ficar\u00e1 em contato total com a terra \u00e1spera e pedregosa dos tabuleiros do seu sert\u00e3o, l\u00e1 poder\u00e1 sentir o calor do ch\u00e3o e a terra se molhar quando chover, ouvir\u00e1 o canto soturno da \u201ccau\u00e3\u201d chamando a desgra\u00e7a da seca para o sert\u00e3o, o piado do gavi\u00e3o \u201cripina\u201d aboletado no gancho mais alto do galho morto do angico, o cantarolar mon\u00f3tono da asa branca na sombra da ramada do mulungu e o gritar sem fim dos tet\u00e9us nos ariscos. Sentir\u00e1 o pisado das reses e o seu cheiro quando um magote de gado ficar se batendo ou malhado no tabuleiro, botado para fora da caatinga pelo aperreio da mutuca. Poder\u00e1 ver o risco inflamado de uma \u201czela\u00e7\u00e3o\u201d na noite escura de c\u00e9u estrelado e se divertir vendo os fogos de santelmo caminhando em seus perambuleios no campo santo do alto do Cruzeiro. Para o todo o sempre, am\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\n CR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/12\/2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cedo, respeitoso, este espa\u00e7o a Audifax Rios. Ele sumarizou, antes de ir para o al\u00e9m, a vida de Erasmo Pitombeira, agora falecido: \u201cPitombeira foi criado na Fazenda Mutuca, embora tenha nascido na Fazenda Pedras, ribeira do Palhano, Vale do Jaguaribe. Filho de vaqueiro e, por parte de pai e m\u00e3e, neto, bisneto e tataraneto de vaqueiros estabelecidos no vale do rio das on\u00e7as, ele viveu seus primeiros tempos acompanhando as est\u00f3rias contadas no alpendre da casa grande da velha fazenda assentada nas quebradas do riacho das Imburanas.<br \/>\nLevou a meninice botando bezerro para mamar na \u201ctira\u00e7\u00e3o\u201d de leite do curral das vacas, vendo a \u201cferra\u201d dos bezerros e a \u201cassina\u00e7\u00e3o\u201d dos cabritos e cordeiros, dando banho nos animais de sela nos po\u00e7os do riacho ou no a\u00e7ude velho, botando \u201cpareia\u201d de cavalo no caminho da capoeira e ouvindo os fuxicos que corriam pela cozinha e casa de farinha. Criou-se \u201cvendo\u201d a \u00e1gua cair aos \u201cpotes\u201d nas imensas telhas da coberta da velha casa e \u201csentindo\u201d o estremecido do estrondo do \u201cpai da coalhada\u201d l\u00e1 para as bandas do caminho direito.<br \/>\nQuando acabou o aprendizado dispon\u00edvel na escola de casa, foi para a capital fazer o exame de admiss\u00e3o. Foi quando, somente aos dez anos, ouviu pela vez primeira a pancada do mar e ficou admirado com aquele lombo d\u2019\u00e1gua bonito do oceano que jamais enxergara. Seguindo o destino tra\u00e7ado de \u201cser doutor\u201d, depois de estudar em col\u00e9gios na capital, passou no vestibular da UFC e graduou-se em engenharia civil. Na sequ\u00eancia, em busca de aumentar sua \u201csapi\u00eancia\u201d, se largou por este mundo de Deus, por \u201cseca e Meca\u201d divagando pelo Brasil e exterior e p\u00f3sgraduouse, pasmem, em Engenharia hidr\u00e1ulica Maritima, que nada tinha a ver com suas origens. Voltando \u00e0 terra natal, o \u201cdoutor\u201d se abancou na sua antiga Escola de Engenharia, j\u00e1 ent\u00e3o Centro de Tecnologia da UFC, onde h\u00e1 trinta anos \u00e9 professor do Curso de Engenharia Civil, lecionando as disciplinas de Portos e Engenharia Fluvial e realizando consultorias.<br \/>\nMas o caminhamento por este mundo afora n\u00e3o \u201cafogou\u201d o verdadeiro aprendizado que ele adquirira ao longo do tempo de menino, que foi ser sertanejo e assim, procura manter seus modos e tradi\u00e7\u00f5es como tal e no meio da vida que leva na casa da rua sempre encontra tempo para as viv\u00eancias interioranas. Conforme seus ideais de vida, quando se livrar do obrigat\u00f3rio trabalho e do cipoal de medo e inseguran\u00e7a em que se tomou a cidade, pretende voltar de vez \u00e0 terra onde deixou seu umbigo enterrado na porteira do curral e por l\u00e1 gastar o resto dos dias de vida que lhe foi destinado.<br \/>\nEsgotado esse prazo, literalmente entregar\u00e1 seu corpo ao ch\u00e3o e ficar\u00e1 em contato total com a terra \u00e1spera e pedregosa dos tabuleiros do seu sert\u00e3o, l\u00e1 poder\u00e1 sentir o calor do ch\u00e3o e a terra se molhar quando chover, ouvir\u00e1 o canto soturno da \u201ccau\u00e3\u201d chamando a desgra\u00e7a da seca para o sert\u00e3o, o piado do gavi\u00e3o \u201cripina\u201d aboletado no gancho mais alto do galho morto do angico, o cantarolar mon\u00f3tono da asa branca na sombra da ramada do mulungu e o gritar sem fim dos tet\u00e9us nos ariscos. Sentir\u00e1 o pisado das reses e o seu cheiro quando um magote de gado ficar se batendo ou malhado no tabuleiro, botado para fora da caatinga pelo aperreio da mutuca. Poder\u00e1 ver o risco inflamado de uma \u201czela\u00e7\u00e3o\u201d na noite escura de c\u00e9u estrelado e se divertir vendo os fogos de santelmo caminhando em seus perambuleios no campo santo do alto do Cruzeiro. Para o todo o sempre, am\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\n CR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/12\/2017.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2645","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2645","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2645"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2645\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2645"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2645"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2645"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}