{"id":2653,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-que-e-pos-verdade-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"o-que-e-pos-verdade-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-que-e-pos-verdade-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O QUE \u00c9 P\u00d3S-VERDADE? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Estou estudando o adjetivo \u201cp\u00f3s-verdade\u201d (post-truth), considerado pelos Dicion\u00e1rios Oxford, da Universidade de Oxford-Inglaterra, como a palavra do ano de 2016. A express\u00e3o pode ter sido criada em 1992 pelo s\u00e9rvio Steve Tesish, dramaturgo. O que me alerta \u00e9 o d\u00edstico da Oxford ser \u201cDominus illuminatio mea\u201d, a nos remeter ao Salmo 27.<br \/>\nAgora, ningu\u00e9m nos ilumina. Vejamos o que o dicion\u00e1rio Oxford diz sobre P\u00f3s-Verdade: \u201cUm adjetivo que se relaciona ou denota circunst\u00e2ncias nas quais fatos objetivos t\u00eam menos influ\u00eancia em moldar a opini\u00e3o p\u00fablica do que o apelo \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e as cren\u00e7as pessoais\u201d.<br \/>\nDesejo historiar \u2013 aud\u00e1cia minha- acerca desse fen\u00f4meno que se difundiu de forma exponencial em camadas cultas, na \u00e1rea filos\u00f3fica e na pol\u00edtica de grandes jornais. A acelera\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o da \u201cp\u00f3s-verdade\u201d decorre das divulga\u00e7\u00f5es em todos os modais da Internet (e-mail, WhatsApp, Facebook, Instagram, blog etc) e das m\u00eddias convencionais, que se renderam ao uso.<br \/>\nRefleti, e resolvi pedir a amigos doutos que dissertassem sobre o assunto. Esta \u00e9 a primeira parte. Alguns pedem para n\u00e3o citar o nome. Respeito. Direi algo sobre a forma\u00e7\u00e3o de cada um:<br \/>\nPhD em Hist\u00f3ria: \u201c J\u00e1 \u00e9 t\u00e3o usado aqui. Ningu\u00e9m que escreve bem o usa. Mas meu neto adolescente, ontem ficou assustado se isso seria uma palavra que ele, \u2013j\u00e1 sabe tudo \u2013essa palavra n\u00e3o existe. Nem a sua m\u00e1quina falante, e nem seus amigos nos EUA a conhecem. Quer dizer, quando voc\u00ea escrever sua coluna sobre essa palavra o uso dela vai revelar para muita gente no Brasil uma novidade. N\u00f3s, aqui, na Alemanha, estamos curiosos. O f\u00edsico e fil\u00f3sofo su\u00ed\u00e7o Eduard Kaeser v\u00ea na era \u201cpostfaktisch\u201d o perigo de uma `democracia de uma sociedade que n\u00e3o quer saber nada\/prefere ficar ignorante dos fatos` \u2013 como consequ\u00eancia da avalanche de informa\u00e7\u00f5es no mundo digital, a diluir padr\u00f5es essenciais e b\u00e1sicos como a objetividade e a verdade. O estilo de fazer pol\u00edtica de Trump muitas vezes \u00e9 entendido como post-truth.<br \/>\nRomancista: \u201cA filosofia sempre se ateve a discuss\u00f5es sobre o significado da verdade, da justi\u00e7a, da \u00e9tica, dentre outros termos de n\u00e3o somenos import\u00e2ncia para a condi\u00e7\u00e3o humana. Em 2016, a p\u00f3s-verdade ganhou destaque. No mundo moderno agitado e movido pelas redes sociais, a verdade perdeu status, cedendo espa\u00e7o para a p\u00f3s-verdade. O que se posta adquire significado de verdade quase absoluta, quase incapaz de ser desmentida ou questionada. Curiosamente, a p\u00f3s-verdade est\u00e1 aqu\u00e9m da pr\u00f3pria verdade, e n\u00e3o al\u00e9m, como o termo sup\u00f5e\u201d.<br \/>\nEdnilo So\u00e1rez, historiador: \u201cA express\u00e3o \u201cpos-truth\u201d pode ser uma consequ\u00eancia do universo que vivemos nas comunica\u00e7\u00f5es digitais, nas quais as pessoas n\u00e3o se conformam mais em ser apenas \u201cfigura\u00e7\u00e3o\u201d. Quase todas aspiram ao papel de protagonistas, da\u00ed, querem interpretar os fatos lastreados nas suas emo\u00e7\u00f5es, dando-lhes suas interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias\u201d.<br \/>\nEduardo Diatahy PhD, Em\u00e9rito da UFC\u2013N\u00e3o sei para que inventar um \u201cconceito\u201d novo se estamos em face de fen\u00f4meno t\u00e3o antigo? Em seus processos cognitivos, a humanidade sempre se debateu com a interven\u00e7\u00e3o dos aspectos emocionais, cuja import\u00e2ncia de fato \u00e9 imensa, pois que raz\u00e3o pura s\u00f3 existe na cabe\u00e7a de Kant ou \u00e9 como \u00e1gua destilada, que \u00e9 pura, mas ningu\u00e9m bebe.<br \/>\nEstou mais ou menos convencido que esse r\u00f3tulo de p\u00f3s-verdade aguarda sua vez na lata de lixo da Hist\u00f3ria, visto fazer parte de muitos outros \u201cp\u00f3s-\u201c que andam por a\u00ed a poluir o ambiente.<br \/>\nTodavia, louvo seu esfor\u00e7o em busca de esclarecimento. Mas n\u00e3o se esque\u00e7a da palavra de Max Weber, em sua c\u00e9lebre confer\u00eancia Wissenschaft als Beruf (1917): \u00abPois nada que ele n\u00e3o possa fazer com paix\u00e3o tem valor para o homem enquanto homem\u00bb.<br \/>\nEste n\u00e3o \u00e9 o final. Temos outras reflex\u00f5es a mostrar. Aguardem.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/01\/2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou estudando o adjetivo \u201cp\u00f3s-verdade\u201d (post-truth), considerado pelos Dicion\u00e1rios Oxford, da Universidade de Oxford-Inglaterra, como a palavra do ano de 2016. A express\u00e3o pode ter sido criada em 1992 pelo s\u00e9rvio Steve Tesish, dramaturgo. O que me alerta \u00e9 o d\u00edstico da Oxford ser \u201cDominus illuminatio mea\u201d, a nos remeter ao Salmo 27.<br \/>\nAgora, ningu\u00e9m nos ilumina. Vejamos o que o dicion\u00e1rio Oxford diz sobre P\u00f3s-Verdade: \u201cUm adjetivo que se relaciona ou denota circunst\u00e2ncias nas quais fatos objetivos t\u00eam menos influ\u00eancia em moldar a opini\u00e3o p\u00fablica do que o apelo \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e as cren\u00e7as pessoais\u201d.<br \/>\nDesejo historiar \u2013 aud\u00e1cia minha- acerca desse fen\u00f4meno que se difundiu de forma exponencial em camadas cultas, na \u00e1rea filos\u00f3fica e na pol\u00edtica de grandes jornais. A acelera\u00e7\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o da \u201cp\u00f3s-verdade\u201d decorre das divulga\u00e7\u00f5es em todos os modais da Internet (e-mail, WhatsApp, Facebook, Instagram, blog etc) e das m\u00eddias convencionais, que se renderam ao uso.<br \/>\nRefleti, e resolvi pedir a amigos doutos que dissertassem sobre o assunto. Esta \u00e9 a primeira parte. Alguns pedem para n\u00e3o citar o nome. Respeito. Direi algo sobre a forma\u00e7\u00e3o de cada um:<br \/>\nPhD em Hist\u00f3ria: \u201c J\u00e1 \u00e9 t\u00e3o usado aqui. Ningu\u00e9m que escreve bem o usa. Mas meu neto adolescente, ontem ficou assustado se isso seria uma palavra que ele, \u2013j\u00e1 sabe tudo \u2013essa palavra n\u00e3o existe. Nem a sua m\u00e1quina falante, e nem seus amigos nos EUA a conhecem. Quer dizer, quando voc\u00ea escrever sua coluna sobre essa palavra o uso dela vai revelar para muita gente no Brasil uma novidade. N\u00f3s, aqui, na Alemanha, estamos curiosos. O f\u00edsico e fil\u00f3sofo su\u00ed\u00e7o Eduard Kaeser v\u00ea na era \u201cpostfaktisch\u201d o perigo de uma `democracia de uma sociedade que n\u00e3o quer saber nada\/prefere ficar ignorante dos fatos` \u2013 como consequ\u00eancia da avalanche de informa\u00e7\u00f5es no mundo digital, a diluir padr\u00f5es essenciais e b\u00e1sicos como a objetividade e a verdade. O estilo de fazer pol\u00edtica de Trump muitas vezes \u00e9 entendido como post-truth.<br \/>\nRomancista: \u201cA filosofia sempre se ateve a discuss\u00f5es sobre o significado da verdade, da justi\u00e7a, da \u00e9tica, dentre outros termos de n\u00e3o somenos import\u00e2ncia para a condi\u00e7\u00e3o humana. Em 2016, a p\u00f3s-verdade ganhou destaque. No mundo moderno agitado e movido pelas redes sociais, a verdade perdeu status, cedendo espa\u00e7o para a p\u00f3s-verdade. O que se posta adquire significado de verdade quase absoluta, quase incapaz de ser desmentida ou questionada. Curiosamente, a p\u00f3s-verdade est\u00e1 aqu\u00e9m da pr\u00f3pria verdade, e n\u00e3o al\u00e9m, como o termo sup\u00f5e\u201d.<br \/>\nEdnilo So\u00e1rez, historiador: \u201cA express\u00e3o \u201cpos-truth\u201d pode ser uma consequ\u00eancia do universo que vivemos nas comunica\u00e7\u00f5es digitais, nas quais as pessoas n\u00e3o se conformam mais em ser apenas \u201cfigura\u00e7\u00e3o\u201d. Quase todas aspiram ao papel de protagonistas, da\u00ed, querem interpretar os fatos lastreados nas suas emo\u00e7\u00f5es, dando-lhes suas interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias\u201d.<br \/>\nEduardo Diatahy PhD, Em\u00e9rito da UFC\u2013N\u00e3o sei para que inventar um \u201cconceito\u201d novo se estamos em face de fen\u00f4meno t\u00e3o antigo? Em seus processos cognitivos, a humanidade sempre se debateu com a interven\u00e7\u00e3o dos aspectos emocionais, cuja import\u00e2ncia de fato \u00e9 imensa, pois que raz\u00e3o pura s\u00f3 existe na cabe\u00e7a de Kant ou \u00e9 como \u00e1gua destilada, que \u00e9 pura, mas ningu\u00e9m bebe.<br \/>\nEstou mais ou menos convencido que esse r\u00f3tulo de p\u00f3s-verdade aguarda sua vez na lata de lixo da Hist\u00f3ria, visto fazer parte de muitos outros \u201cp\u00f3s-\u201c que andam por a\u00ed a poluir o ambiente.<br \/>\nTodavia, louvo seu esfor\u00e7o em busca de esclarecimento. Mas n\u00e3o se esque\u00e7a da palavra de Max Weber, em sua c\u00e9lebre confer\u00eancia Wissenschaft als Beruf (1917): \u00abPois nada que ele n\u00e3o possa fazer com paix\u00e3o tem valor para o homem enquanto homem\u00bb.<br \/>\nEste n\u00e3o \u00e9 o final. Temos outras reflex\u00f5es a mostrar. Aguardem.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/01\/2017.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2653\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}