{"id":2663,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/antonio-candido-a-critica-que-morre-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"antonio-candido-a-critica-que-morre-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/antonio-candido-a-critica-que-morre-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"ANT\u00d4NIO C\u00c2NDIDO &#8211; A CR\u00cdTICA QUE MORRE? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cSua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Liter\u00e1ria, da USP<br \/>\nAntonio Candido, cr\u00edtico liter\u00e1rio, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de S\u00e3o Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira cr\u00edtica liter\u00e1ria escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A cr\u00edtica tem o nome franc\u00eas \u201cOuverture\u201d ou Abertura, em Portugu\u00eas. A l\u00edngua gaulesa dominava a literatura da \u00e9poca. Depois, o ingl\u00eas. Agora, \u00e9 o internet\u00eas.<br \/>\nNela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padr\u00e3o ou refer\u00eancia para algu\u00e9m se tornar cr\u00edtico liter\u00e1rio. Ele diz: \u201cDo cr\u00edtico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que \u00e9 a cr\u00edtica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele \u00e9 um indiv\u00edduo que vai emitir opini\u00f5es tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor\u201d.<br \/>\nEm seguida, ele fala na poss\u00edvel imod\u00e9stia de um cr\u00edtico liter\u00e1rio: \u201cEste aspecto metacr\u00edtico do of\u00edcio \u2013 que \u00e9 porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio \u2013 \u00e9, no entanto, \u00e0s vezes, uma quest\u00e3o de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necess\u00e1ria imod\u00e9stia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao cr\u00edtico liter\u00e1rio qual a sua \u00e9tica \u2013 quais as imposi\u00e7\u00f5es que se faz e quais os princ\u00edpios de trabalho com os quais n\u00e3o transige\u201d.<br \/>\nA pergunta que fa\u00e7o aos professores S\u00e2nzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana \u00e9 se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princ\u00edpios te\u00f3ricos subsistem?<br \/>\nClaro que eles n\u00e3o podem me responder agora, sequer sei se aceitar\u00e3o essa lisonjeira provoca\u00e7\u00e3o. Entretanto, emendo com outra quest\u00e3o que pode ou n\u00e3o ser pertinente: como anda a cr\u00edtica liter\u00e1ria brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em mem\u00f3ria de mortos ilustres, bienais de livros, nos poss\u00edveis encontros na \u201cCasa do Saber\u201d, seja no Rio de Janeiro e em em S\u00e3o Paulo. Ou, ainda, nas anuais edi\u00e7\u00f5es da Festa Liter\u00e1ria de Paraty.<br \/>\nComo se tivesse premoni\u00e7\u00e3o, Candido afirma: \u201cSobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais t\u00eam valor em fun\u00e7\u00e3o da \u00e9poca em que se manifestam e \u00e0 qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do cr\u00edtico ser\u00e1 porventura integrar a significa\u00e7\u00e3o de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma s\u00e9rie de varia\u00e7\u00f5es pessoais\u201d.<br \/>\nContextualizando essa \u00e9poca ao hoje, em que a intelig\u00eancia artificial pode at\u00e9 produzir \u201cobras\u201d de todos os g\u00eaneros e a internet das coisas nos coloca em um ba\u00fa em que sensos est\u00e9ticos \u2013 duvido, ainda \u2012 derivam de algoritmos de programas liter\u00e1rios de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\n CR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/05\/2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Liter\u00e1ria, da USP<br \/>\nAntonio Candido, cr\u00edtico liter\u00e1rio, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de S\u00e3o Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira cr\u00edtica liter\u00e1ria escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A cr\u00edtica tem o nome franc\u00eas \u201cOuverture\u201d ou Abertura, em Portugu\u00eas. A l\u00edngua gaulesa dominava a literatura da \u00e9poca. Depois, o ingl\u00eas. Agora, \u00e9 o internet\u00eas.<br \/>\nNela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padr\u00e3o ou refer\u00eancia para algu\u00e9m se tornar cr\u00edtico liter\u00e1rio. Ele diz: \u201cDo cr\u00edtico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que \u00e9 a cr\u00edtica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele \u00e9 um indiv\u00edduo que vai emitir opini\u00f5es tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor\u201d.<br \/>\nEm seguida, ele fala na poss\u00edvel imod\u00e9stia de um cr\u00edtico liter\u00e1rio: \u201cEste aspecto metacr\u00edtico do of\u00edcio \u2013 que \u00e9 porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio \u2013 \u00e9, no entanto, \u00e0s vezes, uma quest\u00e3o de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necess\u00e1ria imod\u00e9stia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao cr\u00edtico liter\u00e1rio qual a sua \u00e9tica \u2013 quais as imposi\u00e7\u00f5es que se faz e quais os princ\u00edpios de trabalho com os quais n\u00e3o transige\u201d.<br \/>\nA pergunta que fa\u00e7o aos professores S\u00e2nzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana \u00e9 se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princ\u00edpios te\u00f3ricos subsistem?<br \/>\nClaro que eles n\u00e3o podem me responder agora, sequer sei se aceitar\u00e3o essa lisonjeira provoca\u00e7\u00e3o. Entretanto, emendo com outra quest\u00e3o que pode ou n\u00e3o ser pertinente: como anda a cr\u00edtica liter\u00e1ria brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em mem\u00f3ria de mortos ilustres, bienais de livros, nos poss\u00edveis encontros na \u201cCasa do Saber\u201d, seja no Rio de Janeiro e em em S\u00e3o Paulo. Ou, ainda, nas anuais edi\u00e7\u00f5es da Festa Liter\u00e1ria de Paraty.<br \/>\nComo se tivesse premoni\u00e7\u00e3o, Candido afirma: \u201cSobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais t\u00eam valor em fun\u00e7\u00e3o da \u00e9poca em que se manifestam e \u00e0 qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do cr\u00edtico ser\u00e1 porventura integrar a significa\u00e7\u00e3o de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma s\u00e9rie de varia\u00e7\u00f5es pessoais\u201d.<br \/>\nContextualizando essa \u00e9poca ao hoje, em que a intelig\u00eancia artificial pode at\u00e9 produzir \u201cobras\u201d de todos os g\u00eaneros e a internet das coisas nos coloca em um ba\u00fa em que sensos est\u00e9ticos \u2013 duvido, ainda \u2012 derivam de algoritmos de programas liter\u00e1rios de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\n CR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/05\/2017.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2663","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2663","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2663"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2663\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2663"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2663"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2663"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}