{"id":2665,"date":"2023-12-21T09:10:26","date_gmt":"2023-12-21T12:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cliches-de-uns-e-de-outros-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:26","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:26","slug":"cliches-de-uns-e-de-outros-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cliches-de-uns-e-de-outros-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CLICH\u00caS DE UNS E DE OUTROS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cDiga-me uma coisa, compadre: por que voc\u00ea est\u00e1 brigando?\u201d Gabriel Garcia M\u00e1rquez<br \/>\nN\u00e3o faz muito tempo os empres\u00e1rios resumiam as suas vidas em cuidar de suas fam\u00edlias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos ch\u00e3os dos seus neg\u00f3cios pequenos e m\u00e9dios passaram a ser l\u00edderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.<br \/>\nForam tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de n\u00f3s todos e se acreditaram detentores de conhecimento, al\u00e9m do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.<br \/>\nPara os alinhados a governos, partidos pol\u00edticos e os que souberam descobrir licita\u00e7\u00f5es, concess\u00f5es, aprova\u00e7\u00f5es de projetos por \u00f3rg\u00e3os locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.<br \/>\nDepois, anos \u00e0 frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pens\u00e3o das estatais, os bancos p\u00fablicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social- BNDES abriam cr\u00e9ditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser s\u00f3cio de muitas empresas privadas.<br \/>\nNomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus m\u00e9ritos, descortinos e as m\u00faltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Pr\u00eamios para c\u00e1. Pr\u00eamios para l\u00e1.<br \/>\nEm cada Estado brasileiro h\u00e1 figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, \u00e9 coisa de gente atrasada que n\u00e3o possui \u201cnetworking\u201d, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e pol\u00edticos, com recep\u00e7\u00f5es op\u00edparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.<br \/>\nOutros, que abriram empresas e n\u00e3o se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simp\u00e1ticos, circulavam em festas e ambientes em que bilh\u00f5es eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos pol\u00edticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em pa\u00eds de miser\u00e1veis.<br \/>\nFa\u00e7o uma digress\u00e3o e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do \u201cFinancial Times\u201d, de Londres, via Valor, no artigo \u201cComo uma empresa consegue citar dez clich\u00eas em uma frase\u201d comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instru\u00edram e resolvem ser experts e oradores.<br \/>\nEla registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na \u00e1rea de marketing. O texto: \u201cNossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um l\u00edder que seja \u2018digital-first` (que d\u00ea prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cen\u00e1rio consumidor global em plena muta\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nComo se v\u00ea, h\u00e1 bobagens ditas e escritas pomposamente n\u00e3o s\u00f3 aqui em Pindorama, mas em pa\u00edses desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de v\u00e9spera e n\u00e3o saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio \u201cdisruptivos\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/05\/2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDiga-me uma coisa, compadre: por que voc\u00ea est\u00e1 brigando?\u201d Gabriel Garcia M\u00e1rquez<br \/>\nN\u00e3o faz muito tempo os empres\u00e1rios resumiam as suas vidas em cuidar de suas fam\u00edlias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos ch\u00e3os dos seus neg\u00f3cios pequenos e m\u00e9dios passaram a ser l\u00edderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes.<br \/>\nForam tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de n\u00f3s todos e se acreditaram detentores de conhecimento, al\u00e9m do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso.<br \/>\nPara os alinhados a governos, partidos pol\u00edticos e os que souberam descobrir licita\u00e7\u00f5es, concess\u00f5es, aprova\u00e7\u00f5es de projetos por \u00f3rg\u00e3os locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco.<br \/>\nDepois, anos \u00e0 frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pens\u00e3o das estatais, os bancos p\u00fablicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social- BNDES abriam cr\u00e9ditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser s\u00f3cio de muitas empresas privadas.<br \/>\nNomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus m\u00e9ritos, descortinos e as m\u00faltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Pr\u00eamios para c\u00e1. Pr\u00eamios para l\u00e1.<br \/>\nEm cada Estado brasileiro h\u00e1 figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, \u00e9 coisa de gente atrasada que n\u00e3o possui \u201cnetworking\u201d, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e pol\u00edticos, com recep\u00e7\u00f5es op\u00edparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes.<br \/>\nOutros, que abriram empresas e n\u00e3o se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simp\u00e1ticos, circulavam em festas e ambientes em que bilh\u00f5es eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos pol\u00edticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em pa\u00eds de miser\u00e1veis.<br \/>\nFa\u00e7o uma digress\u00e3o e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do \u201cFinancial Times\u201d, de Londres, via Valor, no artigo \u201cComo uma empresa consegue citar dez clich\u00eas em uma frase\u201d comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instru\u00edram e resolvem ser experts e oradores.<br \/>\nEla registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na \u00e1rea de marketing. 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