{"id":2688,"date":"2023-12-21T09:10:27","date_gmt":"2023-12-21T12:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/relembrando-airton-monte-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:27","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:27","slug":"relembrando-airton-monte-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/relembrando-airton-monte-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"RELEMBRANDO AIRTON MONTE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Bateu uma lembran\u00e7a do Airton Monte. Resolvo remexer em meus escritos. A vida do m\u00e9dico, do poeta, do contista, do pai de fam\u00edlia \u00e9 uma hist\u00f3ria de bem.<br \/>\n\u201cNunca abrirei m\u00e3o dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos\u201d, dizia ele. 1.Airton Monte viveu sempre na era de Aqu\u00e1rio. Menino de col\u00e9gio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se- de ler e estudar. Depois, j\u00e1 m\u00e9dico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, j\u00e1 aos baga\u00e7os, e amava a vida.2. T\u00edmido como um monge trapista, limpava as grossas lentes ao ver os balan\u00e7os das cadeiras. N\u00e3o as de sentar. 3.Deu-se um tempo na traquinagem e casou-se com a prima, S\u00f4nia, sabedora de seus por\u00e9ns, amante e companheira que lhe deu os filhos B\u00e1rbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irm\u00e3o maior que os adorava na sua esquisitice. 4.Sabia-se leitor e da\u00ed, sem deslize, passou a escrever. Primeiro, poemas. Depois, contos. A cr\u00f4nica j\u00e1 estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, \u00e0 casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, ap\u00f3s, como psiquiatra cooperado da Unimed.<br \/>\n5.Desajeitado no computador \u2013 com que o poeta Carlos Augusto Viana o presenteara \u2013 sofria com a coisa\u201d. Ele me ligava e eu enviava a Josilene Lima a sua casa para mexer no \u201cbicho\u201d que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil m\u00e1quina de escrever.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de p\u00e2nico e o fez h\u00edgido em pouco tempo. Poucas p\u00edlulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era \u201cassim, assim\u201d com o citado Carlos Augusto, que o transmudava do seu \u201csolar suburbano\u201d para os altos de um pr\u00e9dio mirando o mar.<br \/>\n6. Foi amado por Jos\u00e9 Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Dele cuidou no \u00faltimo lustro e at\u00e9 o roubou do calor do ciumento e esquentado Clube do Bode para o refrig\u00e9rio do restaurante do Ideal Clube.7. Quando seu pai, tamb\u00e9m Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: j\u00e1 foi l\u00e1? N\u00e3o tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanh\u00e1-lo. E l\u00e1 fomos n\u00f3s ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma crian\u00e7a ao velar o pai inconsciente. Na volta, m\u00e3os enfiadas nos bolsos da bata, fez do sil\u00eancio a sua dor. 8. Nos \u00faltimos anos queixou-se do corpo e o Teles ataviou-se de irm\u00e3o mais velho e estava l\u00e1 na cirurgia que se esperava salvadora.<br \/>\nPassou a beber cerveja sem \u00e1lcool, o mal retornou. Por fim, prostrou-se e, resignado, voltou \u00e0 sua casa de verde pintada.9. Estive l\u00e1 h\u00e1 alguns dias. B\u00e1rbara me recebeu. Jornais tais como o jornaleiro entregara. Depois, entrei em seu quarto. Televis\u00e3o ligada, sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu \u00e1gua e, depois, um refrigerante. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora antes. 10. Dia 11 de setembro de 2012, 17h30, seu ata\u00fade foi fechado. Batemos palmas. Era a \u00faltima cena.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/08\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bateu uma lembran\u00e7a do Airton Monte. Resolvo remexer em meus escritos. A vida do m\u00e9dico, do poeta, do contista, do pai de fam\u00edlia \u00e9 uma hist\u00f3ria de bem.<br \/>\n\u201cNunca abrirei m\u00e3o dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos\u201d, dizia ele. 1.Airton Monte viveu sempre na era de Aqu\u00e1rio. Menino de col\u00e9gio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se- de ler e estudar. Depois, j\u00e1 m\u00e9dico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, j\u00e1 aos baga\u00e7os, e amava a vida.2. T\u00edmido como um monge trapista, limpava as grossas lentes ao ver os balan\u00e7os das cadeiras. N\u00e3o as de sentar. 3.Deu-se um tempo na traquinagem e casou-se com a prima, S\u00f4nia, sabedora de seus por\u00e9ns, amante e companheira que lhe deu os filhos B\u00e1rbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irm\u00e3o maior que os adorava na sua esquisitice. 4.Sabia-se leitor e da\u00ed, sem deslize, passou a escrever. Primeiro, poemas. Depois, contos. A cr\u00f4nica j\u00e1 estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, \u00e0 casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, ap\u00f3s, como psiquiatra cooperado da Unimed.<br \/>\n5.Desajeitado no computador \u2013 com que o poeta Carlos Augusto Viana o presenteara \u2013 sofria com a coisa\u201d. Ele me ligava e eu enviava a Josilene Lima a sua casa para mexer no \u201cbicho\u201d que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil m\u00e1quina de escrever.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de p\u00e2nico e o fez h\u00edgido em pouco tempo. Poucas p\u00edlulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era \u201cassim, assim\u201d com o citado Carlos Augusto, que o transmudava do seu \u201csolar suburbano\u201d para os altos de um pr\u00e9dio mirando o mar.<br \/>\n6. Foi amado por Jos\u00e9 Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Dele cuidou no \u00faltimo lustro e at\u00e9 o roubou do calor do ciumento e esquentado Clube do Bode para o refrig\u00e9rio do restaurante do Ideal Clube.7. Quando seu pai, tamb\u00e9m Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: j\u00e1 foi l\u00e1? N\u00e3o tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanh\u00e1-lo. E l\u00e1 fomos n\u00f3s ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma crian\u00e7a ao velar o pai inconsciente. Na volta, m\u00e3os enfiadas nos bolsos da bata, fez do sil\u00eancio a sua dor. 8. Nos \u00faltimos anos queixou-se do corpo e o Teles ataviou-se de irm\u00e3o mais velho e estava l\u00e1 na cirurgia que se esperava salvadora.<br \/>\nPassou a beber cerveja sem \u00e1lcool, o mal retornou. Por fim, prostrou-se e, resignado, voltou \u00e0 sua casa de verde pintada.9. Estive l\u00e1 h\u00e1 alguns dias. B\u00e1rbara me recebeu. Jornais tais como o jornaleiro entregara. Depois, entrei em seu quarto. Televis\u00e3o ligada, sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu \u00e1gua e, depois, um refrigerante. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora antes. 10. Dia 11 de setembro de 2012, 17h30, seu ata\u00fade foi fechado. Batemos palmas. Era a \u00faltima cena.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/08\/2016.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2688","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2688"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2688\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}