{"id":2694,"date":"2023-12-21T09:10:27","date_gmt":"2023-12-21T12:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/freud-torre-eiffel-e-o-museu-do-amanha-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:27","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:27","slug":"freud-torre-eiffel-e-o-museu-do-amanha-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/freud-torre-eiffel-e-o-museu-do-amanha-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"FREUD, TORRE EIFFEL E O MUSEU DO AMANH\u00c3 &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 disse e repito. Minhas leituras s\u00e3o desorganizadas. Leio muito. De tudo, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o sou profundo em nada. Esta semana, por exemplo, estava a ler o livro \u201cMegalomania de Freud\u201d, escrito por Israel Rosenfield e publicado, em portugu\u00eas, pela Companhia das Letras.<br \/>\nDisserta sobre um livro, \u201cManuscrito\u201d, atribu\u00eddo a Freud. Explico: Uma neta de Freud, Bernadette Schilder, o apresenta ap\u00f3s a morte dele. Ela era, na verdade, neta de Adelaide, amante por longo tempo de Freud. Da rela\u00e7\u00e3o de Freud com Adelaide nascera Emma, m\u00e3e de Bernadette.<br \/>\nDito isto, vamos ao que interessa. Em meio \u00e0 leitura h\u00e1 uma refer\u00eancia de encontros entre Sigmund Freud e o arquiteto Maurice Koechlin, nascido na Als\u00e1cia, naturalizado su\u00ed\u00e7o. Desses encontros, descubro que Koechlin foi um dos autores do projeto da \u201cTorre Eiffel\u201d.<br \/>\nKoechlin trabalhava nos \u201cEstabelecimentos Eiffel\u201d, empresa especializada em grandes projetos, na Europa e nos EEUU, de estruturas met\u00e1licas, tais como pontes, canais, monumentos etc. Nessa \u00e9poca (1885), a Fran\u00e7a preparava a \u201cExposi\u00e7\u00e3o Internacional de Paris\u201d quando seriam comemorados os 100 anos da \u201cQueda da Bastilha\u201d ou \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Francesa\u201d. Seria, mal cotejando, como os preparativos do Rio de Janeiro para sediar as Ol\u00edmpiadas de 2016.<br \/>\nGustave Eiffel era empres\u00e1rio altamente relacionado com o governo. Este procurava uma ideia para fincar como marco da Exposi\u00e7\u00e3o. Foi a\u00ed que Koechlin e outro empregado de Eiffel, o engenheiro \u00c9mile Nouguier, sugeriam ao patr\u00e3o que examinasse a ideia da constru\u00e7\u00e3o de uma torre no jardim no centro de Paris.<br \/>\nEiffel topou. Ap\u00f3s um jantar sugeriu \u201cque poderia explorar melhor a ideia deles por conta pr\u00f3pria, prop\u00f4s comprar os direitos exclusivos \u00e0 patente, tanto na Fran\u00e7a como no resto do mundo. Pagaria, a cada um deles, um por cento de toda a renda auferida pela constru\u00e7\u00e3o (p\u00e1g.127)\u201d. Houve um concurso para a cria\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo. O prazo para a apresenta\u00e7\u00e3o do projeto foi de duas semanas. Eiffel ganhou. \u00d3bvio.<br \/>\nA \u201cTour\u201d foi erguida com honra e gl\u00f3ria para Eiffel. Esse era um dos \u201cgrilos\u201d de Koechlin e, em raz\u00e3o dele, 40 anos depois, foi parar nas m\u00e3os de Freud \u2013 ambos idosos \u2013 pois ganhara apenas \u201cuma esmola\u201d. Nesse \u201cManuscrito\u201d surge a express\u00e3o \u201cauto-engano\u201d.<br \/>\nKoechlin n\u00e3o se conformava, pois al\u00e9m da Torre de Paris, Eiffel, engrandecido, entrara na licita\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, da qual depois fora alijado sob suspeitas, sendo, inclusive, preso. Depois, solto.<br \/>\nNotaram alguma analogia entre a Torre Eiffel e o \u201cMuseu do Amanh\u00e3\u201d, no Rio de Janeiro? Ambos s\u00e3o estruturas met\u00e1licas belas, suntuosas, expostas \u00e0 visita\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nO problema de Koechlin era a desilus\u00e3o ou \u201cauto-engano\u201d. Passo a palavra a Freud (p\u00e1g.126): \u201cA moralidade \u00e9 evidentemente, irrelevante para nossas estruturas sociais e para a nossa estabilidade mental. \u00c9 nossa paralisia, e n\u00e3o nossa culpa, que caracteriza nossa rela\u00e7\u00e3o com a autoridade; e essa mesma paralisia \u00e9 o \u00fanico desafio moral e psicol\u00f3gico que podemos oferecer \u00e0queles que roubaram o que, por direito, consideramos nosso\u201d.<br \/>\nQualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia. Se me entendem.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/12\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 disse e repito. Minhas leituras s\u00e3o desorganizadas. Leio muito. De tudo, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o sou profundo em nada. Esta semana, por exemplo, estava a ler o livro \u201cMegalomania de Freud\u201d, escrito por Israel Rosenfield e publicado, em portugu\u00eas, pela Companhia das Letras.<br \/>\nDisserta sobre um livro, \u201cManuscrito\u201d, atribu\u00eddo a Freud. Explico: Uma neta de Freud, Bernadette Schilder, o apresenta ap\u00f3s a morte dele. Ela era, na verdade, neta de Adelaide, amante por longo tempo de Freud. Da rela\u00e7\u00e3o de Freud com Adelaide nascera Emma, m\u00e3e de Bernadette.<br \/>\nDito isto, vamos ao que interessa. Em meio \u00e0 leitura h\u00e1 uma refer\u00eancia de encontros entre Sigmund Freud e o arquiteto Maurice Koechlin, nascido na Als\u00e1cia, naturalizado su\u00ed\u00e7o. Desses encontros, descubro que Koechlin foi um dos autores do projeto da \u201cTorre Eiffel\u201d.<br \/>\nKoechlin trabalhava nos \u201cEstabelecimentos Eiffel\u201d, empresa especializada em grandes projetos, na Europa e nos EEUU, de estruturas met\u00e1licas, tais como pontes, canais, monumentos etc. Nessa \u00e9poca (1885), a Fran\u00e7a preparava a \u201cExposi\u00e7\u00e3o Internacional de Paris\u201d quando seriam comemorados os 100 anos da \u201cQueda da Bastilha\u201d ou \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Francesa\u201d. Seria, mal cotejando, como os preparativos do Rio de Janeiro para sediar as Ol\u00edmpiadas de 2016.<br \/>\nGustave Eiffel era empres\u00e1rio altamente relacionado com o governo. Este procurava uma ideia para fincar como marco da Exposi\u00e7\u00e3o. Foi a\u00ed que Koechlin e outro empregado de Eiffel, o engenheiro \u00c9mile Nouguier, sugeriam ao patr\u00e3o que examinasse a ideia da constru\u00e7\u00e3o de uma torre no jardim no centro de Paris.<br \/>\nEiffel topou. Ap\u00f3s um jantar sugeriu \u201cque poderia explorar melhor a ideia deles por conta pr\u00f3pria, prop\u00f4s comprar os direitos exclusivos \u00e0 patente, tanto na Fran\u00e7a como no resto do mundo. Pagaria, a cada um deles, um por cento de toda a renda auferida pela constru\u00e7\u00e3o (p\u00e1g.127)\u201d. Houve um concurso para a cria\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo. O prazo para a apresenta\u00e7\u00e3o do projeto foi de duas semanas. Eiffel ganhou. \u00d3bvio.<br \/>\nA \u201cTour\u201d foi erguida com honra e gl\u00f3ria para Eiffel. Esse era um dos \u201cgrilos\u201d de Koechlin e, em raz\u00e3o dele, 40 anos depois, foi parar nas m\u00e3os de Freud \u2013 ambos idosos \u2013 pois ganhara apenas \u201cuma esmola\u201d. Nesse \u201cManuscrito\u201d surge a express\u00e3o \u201cauto-engano\u201d.<br \/>\nKoechlin n\u00e3o se conformava, pois al\u00e9m da Torre de Paris, Eiffel, engrandecido, entrara na licita\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, da qual depois fora alijado sob suspeitas, sendo, inclusive, preso. Depois, solto.<br \/>\nNotaram alguma analogia entre a Torre Eiffel e o \u201cMuseu do Amanh\u00e3\u201d, no Rio de Janeiro? Ambos s\u00e3o estruturas met\u00e1licas belas, suntuosas, expostas \u00e0 visita\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<br \/>\nO problema de Koechlin era a desilus\u00e3o ou \u201cauto-engano\u201d. Passo a palavra a Freud (p\u00e1g.126): \u201cA moralidade \u00e9 evidentemente, irrelevante para nossas estruturas sociais e para a nossa estabilidade mental. \u00c9 nossa paralisia, e n\u00e3o nossa culpa, que caracteriza nossa rela\u00e7\u00e3o com a autoridade; e essa mesma paralisia \u00e9 o \u00fanico desafio moral e psicol\u00f3gico que podemos oferecer \u00e0queles que roubaram o que, por direito, consideramos nosso\u201d.<br \/>\nQualquer semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia. Se me entendem.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/12\/2016.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2694","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2694"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2694\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}