{"id":2695,"date":"2023-12-21T09:10:27","date_gmt":"2023-12-21T12:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/carta-ao-mestre-joao-capistrano-de-abreu-de-1916-a-2016-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:27","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:27","slug":"carta-ao-mestre-joao-capistrano-de-abreu-de-1916-a-2016-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/carta-ao-mestre-joao-capistrano-de-abreu-de-1916-a-2016-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CARTA AO MESTRE JO\u00c3O CAPISTRANO DE ABREU: DE 1916 A 2016 &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>O historiador cearense Jo\u00e3o Capistrano de Abreu foi refer\u00eancia \u2013 e \u00e9 \u2013 no Brasil e at\u00e9 no exterior. Sisudo, l\u00edngua solta para falar a verdade, amigos conservados, pleno de problemas de sa\u00fade, apertos familiares e refundador da Hist\u00f3ria e da Historiografia do Brasil. G\u00eanio.<br \/>\nSou desde h\u00e1 muito, leitor de Capistrano e de suas famosas cartas. Por exemplo: em 16 de agosto de 1916, saindo do s\u00e9rio, ele escreve \u00e0 fam\u00edlia Assis Brasil: \u201cO grande acontecimento deste alde\u00e3o \u00e9 o foot-ball. O Brasil s\u00f3 tem pela frente o Uruguai. Vencer\u00e1? H\u00e1 para isto um estimulante forte. Um Guinle, creio que Arnaldo, cabo das sociedades desportivas, disseram-me, tomar\u00e1 para si a d\u00edvida de mil contos de um empr\u00e9stimo feito no Banco do Brasil, se o triunfo nos assegurar o campeonato sul-americano. Nunca assisti a uma partida, n\u00e3o posso fazer ideia de como \u00e9, e os termos t\u00e9cnicos soam-me aos ouvidos como a mais atravessada das g\u00edrias; mas, enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contar\u00e1 com minhas simpatias incondicionais o jogo do foot-ball\u201d (vol.3, pg.70,MEC).<br \/>\nComo voc\u00ea sabe, Mestre Capistrano, o Brasil perdeu. O vencedor foi o Uruguai. O que me levou a essa cita\u00e7\u00e3o foi a sua parte final: \u201c\u2026enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contar\u00e1 com as minhas simpatias\u2026\u201d.<br \/>\nCaro Mestre Capistrano, essa mania de socorros federais \u00e9 uma praga e uma das causas destes problemas vivenciados, exato um s\u00e9culo depois de sua carta de 1916.<br \/>\nO Brasil tem jogado dinheiro fora, desde o Imp\u00e9rio e todas as rep\u00fablicas (velha, nova etc.). Est\u00e1 pleno de d\u00edvidas e de incertezas. O pa\u00eds, por suas empresas, patrocina times de futebol e de tantos esportes. Seria cedi\u00e7o descrever.<br \/>\nEstamos entrando no sexto ano de seca no seu e no meu Cear\u00e1. Enquanto isso, o Brasil desmanchou est\u00e1dios prontos e em funcionamento, tornando-os novos de novo. Para se adequar aos \u201cpadr\u00f5es\u201d da Fifa, a empresa multinacional a fazer eventos mundo afora metida em encrenca com pol\u00edcias internacionais. Tal qual 1916, o Brasil, perdeu a Copa.<br \/>\nDepois, outros devaneios, a\u00ed no Rio de Janeiro, terra escolhida por voc\u00ea para morar a maior parte de sua vida. No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, lembra voc\u00ea, mexeram com o centro do Rio.<br \/>\nEra necess\u00e1rio seguir as modernidades de Paris e de Washington, cidades desconhecidas, por ter optado nunca sair do Brasil. Sabe, aquela regi\u00e3o Central do Brasil, Candel\u00e1ria e Avenida Rio Branco, Passeio P\u00fablico, ficou bonita. A prop\u00f3sito, Mestre Capistrano, lembra-se da Pra\u00e7a Mau\u00e1? Ca\u00eds da atraca\u00e7\u00e3o do Navio Guar\u00e1 que o levou ao Rio, por recomenda\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 de Alencar. Era dia nublado e os seus olhos m\u00edopes, emba\u00e7ados. Recorda?<br \/>\nLimpe, agora, as grossas lentes de seus \u00f3culos e, se o seu esp\u00edrito puder se transportar, veja: quase tudo foi derrubado e surgiu um \u201cMuseu do Amanh\u00e3\u201d, pomposo, car\u00edssimo e sequer registra a sua presen\u00e7a naqueles pagos. Mas n\u00e3o ficou s\u00f3 nisso, mexeram na \u00e1rea da Marinha, hoje um grande bulevar.<br \/>\nCriaram arenas e vilas novas. Para qu\u00ea? Uma Olimp\u00edada com jogos neste 2016, tal como na Gr\u00e9cia antiga, como sabe. Pois bem, o Rio de Janeiro ficou t\u00e3o bonito quanto endividado. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro para pagar os milhares de funcion\u00e1rios p\u00fablicos. E, como em 1916, Brasil n\u00e3o brilhou como devia.<br \/>\nEstou terminando, n\u00e3o sem dar not\u00edcia do hoje. O Presidente atual \u00e9 Michel Temer, 75 anos, paulista, filho de libaneses, advogado e pol\u00edtico, desde sempre. Discursa e fala como tribuno, usando coloca\u00e7\u00f5es pronominais. Est\u00e1 em sufoco grande. Se houvesse espa\u00e7o, diria mais coisas. Hoje, pe\u00e7o apenas que o nosso pa\u00eds tome tento e supere as dificuldades. 2017 est\u00e1 na soleira.<br \/>\nIa esquecendo, sua Columinjuba possui uma academia de letras. Fui convidado e l\u00e1 palestrei sobre o Jo\u00e3o mais admir\u00e1vel de Maranguape.<br \/>\nO Cear\u00e1 est\u00e1 melhor que o pa\u00eds. Aguarda, ansioso, a transposi\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Rio S\u00e3o Francisco, obra atrasada. Tais como as da sua \u00e9poca.<br \/>\nRespeito e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/12\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O historiador cearense Jo\u00e3o Capistrano de Abreu foi refer\u00eancia \u2013 e \u00e9 \u2013 no Brasil e at\u00e9 no exterior. 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Nunca assisti a uma partida, n\u00e3o posso fazer ideia de como \u00e9, e os termos t\u00e9cnicos soam-me aos ouvidos como a mais atravessada das g\u00edrias; mas, enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contar\u00e1 com minhas simpatias incondicionais o jogo do foot-ball\u201d (vol.3, pg.70,MEC).<br \/>\nComo voc\u00ea sabe, Mestre Capistrano, o Brasil perdeu. O vencedor foi o Uruguai. O que me levou a essa cita\u00e7\u00e3o foi a sua parte final: \u201c\u2026enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contar\u00e1 com as minhas simpatias\u2026\u201d.<br \/>\nCaro Mestre Capistrano, essa mania de socorros federais \u00e9 uma praga e uma das causas destes problemas vivenciados, exato um s\u00e9culo depois de sua carta de 1916.<br \/>\nO Brasil tem jogado dinheiro fora, desde o Imp\u00e9rio e todas as rep\u00fablicas (velha, nova etc.). Est\u00e1 pleno de d\u00edvidas e de incertezas. O pa\u00eds, por suas empresas, patrocina times de futebol e de tantos esportes. Seria cedi\u00e7o descrever.<br \/>\nEstamos entrando no sexto ano de seca no seu e no meu Cear\u00e1. Enquanto isso, o Brasil desmanchou est\u00e1dios prontos e em funcionamento, tornando-os novos de novo. Para se adequar aos \u201cpadr\u00f5es\u201d da Fifa, a empresa multinacional a fazer eventos mundo afora metida em encrenca com pol\u00edcias internacionais. Tal qual 1916, o Brasil, perdeu a Copa.<br \/>\nDepois, outros devaneios, a\u00ed no Rio de Janeiro, terra escolhida por voc\u00ea para morar a maior parte de sua vida. No come\u00e7o do s\u00e9culo XX, lembra voc\u00ea, mexeram com o centro do Rio.<br \/>\nEra necess\u00e1rio seguir as modernidades de Paris e de Washington, cidades desconhecidas, por ter optado nunca sair do Brasil. Sabe, aquela regi\u00e3o Central do Brasil, Candel\u00e1ria e Avenida Rio Branco, Passeio P\u00fablico, ficou bonita. A prop\u00f3sito, Mestre Capistrano, lembra-se da Pra\u00e7a Mau\u00e1? Ca\u00eds da atraca\u00e7\u00e3o do Navio Guar\u00e1 que o levou ao Rio, por recomenda\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 de Alencar. Era dia nublado e os seus olhos m\u00edopes, emba\u00e7ados. Recorda?<br \/>\nLimpe, agora, as grossas lentes de seus \u00f3culos e, se o seu esp\u00edrito puder se transportar, veja: quase tudo foi derrubado e surgiu um \u201cMuseu do Amanh\u00e3\u201d, pomposo, car\u00edssimo e sequer registra a sua presen\u00e7a naqueles pagos. Mas n\u00e3o ficou s\u00f3 nisso, mexeram na \u00e1rea da Marinha, hoje um grande bulevar.<br \/>\nCriaram arenas e vilas novas. Para qu\u00ea? Uma Olimp\u00edada com jogos neste 2016, tal como na Gr\u00e9cia antiga, como sabe. Pois bem, o Rio de Janeiro ficou t\u00e3o bonito quanto endividado. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro para pagar os milhares de funcion\u00e1rios p\u00fablicos. E, como em 1916, Brasil n\u00e3o brilhou como devia.<br \/>\nEstou terminando, n\u00e3o sem dar not\u00edcia do hoje. O Presidente atual \u00e9 Michel Temer, 75 anos, paulista, filho de libaneses, advogado e pol\u00edtico, desde sempre. Discursa e fala como tribuno, usando coloca\u00e7\u00f5es pronominais. Est\u00e1 em sufoco grande. Se houvesse espa\u00e7o, diria mais coisas. Hoje, pe\u00e7o apenas que o nosso pa\u00eds tome tento e supere as dificuldades. 2017 est\u00e1 na soleira.<br \/>\nIa esquecendo, sua Columinjuba possui uma academia de letras. Fui convidado e l\u00e1 palestrei sobre o Jo\u00e3o mais admir\u00e1vel de Maranguape.<br \/>\nO Cear\u00e1 est\u00e1 melhor que o pa\u00eds. Aguarda, ansioso, a transposi\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Rio S\u00e3o Francisco, obra atrasada. 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