{"id":2707,"date":"2023-12-21T09:10:27","date_gmt":"2023-12-21T12:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/john-gay-weill-brecht-e-a-opera-dos-tres-vintens-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:27","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:27","slug":"john-gay-weill-brecht-e-a-opera-dos-tres-vintens-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/john-gay-weill-brecht-e-a-opera-dos-tres-vintens-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A \u00d3PERA DOS TR\u00caS VINT\u00c9NS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO ritmo tem algo m\u00e1gico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence\u201d. J.W. Goethe(1749-1832), em M\u00e1ximas e reflex\u00f5es, XIII, 6.<br \/>\nEsta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de m\u00fasica j\u00e1 ouvida, por mim, tantas vezes. De t\u00e3o ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobi\u00e1-la. Ela ficou na minha cabe\u00e7a e decidi revolver um pouco mais de sua hist\u00f3ria, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das in\u00fameras quantidades de int\u00e9rpretes que, atrav\u00e9s dela, fizeram sucesso.<br \/>\n\u201cThe Beggar\u00b4s Opera\u201d (A \u00f3pera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto \u00e9pico, revolucion\u00e1rio, conta a mis\u00e9ria e a situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de ent\u00e3o. Para se livrar de quest\u00f5es, a It\u00e1lia foi usada como o pretenso local da \u00f3pera.<br \/>\nDamos um pulo ao come\u00e7o do s\u00e9culo 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda n\u00e3o famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alem\u00e3es. Eles transformam a obra de Gay, na \u201cDie Dreigroschenoper\u201d ou \u201c\u00d3pera dos tr\u00eas vint\u00e9ns\u201d.<br \/>\nA letra de Brecht produz um anti-her\u00f3i, Mackie Messer, vil\u00e3o consagrado, b\u00edgamo, charmoso, metido com pol\u00edcia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro pa\u00eds. Elege a Londres de ent\u00e3o, com mis\u00e9rias, igualmente, como pano de fundo para contar as injusti\u00e7as sociais decorrentes da implantada Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<br \/>\nA can\u00e7\u00e3o \u201cMackie Messer\u201d virou \u201cMack, the Knife\u201d ou Mack, o fac\u00e3o ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do s\u00e9culo passado, pelos americanos. Tantas foram as tradu\u00e7\u00f5es do original, quanto os int\u00e9rpretes, a partir de Louis Armstrong, na vers\u00e3o de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, at\u00e9 o Michael Bubl\u00e9 ousou cant\u00e1-la do seu jeito e modo. O sucesso, como pe\u00e7a, nos Estados Unidos, em New York, come\u00e7ou fora da Broadway, mas virou enxame.<br \/>\nDepois do acontecimento vieram outras adapta\u00e7\u00f5es para mais de 18 l\u00ednguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como \u201c\u00d3pera do Malandro\u201d, que teve \u00eaxito como m\u00fasica, pe\u00e7a e filme. A hist\u00f3ria, l\u00f3gico, \u00e9 apoderada e abrasileirada na m\u00fasica \u201cMalandro\u201d, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da cria\u00e7\u00e3o de Weill e Brecht. Chico age com liberdade po\u00e9tica. Contextualiza a sua hist\u00f3ria no Brasil pr\u00e9-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.<br \/>\nOs leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recorda\u00e7\u00e3o de m\u00fasica com quase 100 anos de composta, podem procurar \u2013 facilmente encontrar\u00e3o \u2013 as muitas vers\u00f5es de \u201cMack, the Knife\u201d, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, tamb\u00e9m entoaram a vers\u00e3o brasileira de \u201cMack, the Knife\u201d.<br \/>\nGl\u00f3ria, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na \u00f3pera original de Gay os vieses sociais, pol\u00edticos e revolucion\u00e1rios. No compasso lento emerge, de soslaio, uma hist\u00f3ria sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo\/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer vers\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08\/07\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO ritmo tem algo m\u00e1gico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence\u201d. J.W. Goethe(1749-1832), em M\u00e1ximas e reflex\u00f5es, XIII, 6.<br \/>\nEsta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de m\u00fasica j\u00e1 ouvida, por mim, tantas vezes. De t\u00e3o ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobi\u00e1-la. Ela ficou na minha cabe\u00e7a e decidi revolver um pouco mais de sua hist\u00f3ria, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das in\u00fameras quantidades de int\u00e9rpretes que, atrav\u00e9s dela, fizeram sucesso.<br \/>\n\u201cThe Beggar\u00b4s Opera\u201d (A \u00f3pera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto \u00e9pico, revolucion\u00e1rio, conta a mis\u00e9ria e a situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de ent\u00e3o. Para se livrar de quest\u00f5es, a It\u00e1lia foi usada como o pretenso local da \u00f3pera.<br \/>\nDamos um pulo ao come\u00e7o do s\u00e9culo 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda n\u00e3o famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alem\u00e3es. Eles transformam a obra de Gay, na \u201cDie Dreigroschenoper\u201d ou \u201c\u00d3pera dos tr\u00eas vint\u00e9ns\u201d.<br \/>\nA letra de Brecht produz um anti-her\u00f3i, Mackie Messer, vil\u00e3o consagrado, b\u00edgamo, charmoso, metido com pol\u00edcia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro pa\u00eds. Elege a Londres de ent\u00e3o, com mis\u00e9rias, igualmente, como pano de fundo para contar as injusti\u00e7as sociais decorrentes da implantada Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<br \/>\nA can\u00e7\u00e3o \u201cMackie Messer\u201d virou \u201cMack, the Knife\u201d ou Mack, o fac\u00e3o ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do s\u00e9culo passado, pelos americanos. Tantas foram as tradu\u00e7\u00f5es do original, quanto os int\u00e9rpretes, a partir de Louis Armstrong, na vers\u00e3o de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, at\u00e9 o Michael Bubl\u00e9 ousou cant\u00e1-la do seu jeito e modo. O sucesso, como pe\u00e7a, nos Estados Unidos, em New York, come\u00e7ou fora da Broadway, mas virou enxame.<br \/>\nDepois do acontecimento vieram outras adapta\u00e7\u00f5es para mais de 18 l\u00ednguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como \u201c\u00d3pera do Malandro\u201d, que teve \u00eaxito como m\u00fasica, pe\u00e7a e filme. A hist\u00f3ria, l\u00f3gico, \u00e9 apoderada e abrasileirada na m\u00fasica \u201cMalandro\u201d, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da cria\u00e7\u00e3o de Weill e Brecht. Chico age com liberdade po\u00e9tica. Contextualiza a sua hist\u00f3ria no Brasil pr\u00e9-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente.<br \/>\nOs leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recorda\u00e7\u00e3o de m\u00fasica com quase 100 anos de composta, podem procurar \u2013 facilmente encontrar\u00e3o \u2013 as muitas vers\u00f5es de \u201cMack, the Knife\u201d, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, tamb\u00e9m entoaram a vers\u00e3o brasileira de \u201cMack, the Knife\u201d.<br \/>\nGl\u00f3ria, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na \u00f3pera original de Gay os vieses sociais, pol\u00edticos e revolucion\u00e1rios. No compasso lento emerge, de soslaio, uma hist\u00f3ria sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo\/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer vers\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08\/07\/2016.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2707","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2707","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2707"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2707\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}