{"id":2716,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-senilidade-e-as-familias-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"a-senilidade-e-as-familias-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-senilidade-e-as-familias-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A SENILIDADE E AS FAM\u00cdLIAS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cVista pelos jovens, a vida \u00e9 um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve\u201d. A. Schopenhauer, fil\u00f3sofo alem\u00e3o, morto aos 72 anos, em 1860.<br \/>\nA urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira, a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos de higiene e de alimenta\u00e7\u00e3o, o sofr\u00edvel saneamento b\u00e1sico, o respeito aos avisos dos nossos corpos est\u00e3o nos dando uma vida mais longa. O Brasil possui hoje 26 milh\u00f5es de pessoas com mais de 60 anos. Em contrapartida, o nosso prec\u00e1rio sistema previdenci\u00e1rio (INSS) est\u00e1 repleto de aposentados que, por falta do que fazer, agrupam-se em rodas em pra\u00e7as, centros comerciais, bares, ou se quedam em suas casas em torno de uma televis\u00e3o ou r\u00e1dio.<br \/>\nComo \u00e9 baixo o n\u00edvel de leitura do brasileiro, poucos idosos se apegam a livros. H\u00e1 aqueles que enfrentam quebra-cabe\u00e7as, palavras cruzadas e \u201cquizz\u201d para dar uma escovada na teia de aranha mental dos que amanhecem o dia sem ter o que fazer. Vez por outra, amigos v\u00e3o detectando sinais do que, antigamente, se chamava de \u201ccaduquice\u201d. Na verdade, as doen\u00e7as senis s\u00e3o cruciais. Uma atinge, n\u00e3o s\u00f3 a pessoa idosa, mas toda a sua fam\u00edlia, o Alzheimer. O nome \u00e9 em homenagem ao psiquiatra alem\u00e3o Alois Alzheimer, que identificou esse mal h\u00e1 110 anos, em 1906. Ele morreu em 1915, aos 51 anos, de doen\u00e7a card\u00edaca.<br \/>\nApesar da sua identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi encontrada, ainda, a sua cura. Em ensaio para o Valor, a rep\u00f3rter Martha San Juan Fran\u00e7a apresenta hist\u00f3ria e dados sobre o que chama de \u201ctrai\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d ou a \u201caus\u00eancia da lembran\u00e7a\u201d. O dado mais assustador \u00e9 que o \u201caumento da expectativa de vida deve triplicar o n\u00famero de pessoas com Alzheimer nos pr\u00f3ximos 30 anos\u201d.<br \/>\nHoje, o Brasil possui, diagnosticados, um milh\u00e3o e duzentas mil pessoas com dem\u00eancias, das quais 30% recebem tratamento informal e s\u00f3 37% usam assist\u00eancia m\u00e9dica. O grande problema para o paciente de Alzheimer, uma das dem\u00eancias, \u00e9 a dispers\u00e3o de sua fam\u00edlia, posto que n\u00e3o s\u00e3o muitos os filhos e netos que se disp\u00f5em a cuidar de algu\u00e9m que n\u00e3o responde, com l\u00f3gica, a est\u00edmulos e afetos.<br \/>\nH\u00e1 muita literatura m\u00e9dica sobre o assunto, mas nada que mostre, em curto prazo, a solu\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel. Todas as fam\u00edlias, inclusive a minha, se deparam com pessoas acometidas com o mal que vai se acumulando bem antes do diagn\u00f3stico. Assim, s\u00f3 depois de muito tempo as \u201cesquisitices\u201d v\u00e3o sendo consideradas como o primeiro sinal. Da\u00ed para frente, h\u00e1 um crescendo que prejudica a concatena\u00e7\u00e3o da fala e at\u00e9 a aus\u00eancia do sentimento de perten\u00e7a.<br \/>\nAo final, adv\u00e9m o desconhecimento do outro, a n\u00e3o comunica\u00e7\u00e3o e o descuido com os cuidados pessoais. \u00c9 claro que este artigo \u00e9 de leigo, n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, muito menos de geriatria ou neurologia, mas ele almeja ser um alerta para todas as fam\u00edlias que, pelo menos, procurem entender os seus idosos. Eles devem merecer aten\u00e7\u00f5es redobradas. Neste mundo de dificuldades e de incertezas h\u00e1 uma filosofia de cuidar de si pr\u00f3prio, esquecendo o outro. A pessoa com Alzheimer precisa de cuidadores, familiares ou contratados, que o trate com humanidade e carinho. \u00c9 preciso ficar claro, com consultas a especialistas exames, que nem toda dem\u00eancia \u00e9 Alzheimer. Por fim, amar \u00e9 cuidar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/06\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVista pelos jovens, a vida \u00e9 um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve\u201d. A. Schopenhauer, fil\u00f3sofo alem\u00e3o, morto aos 72 anos, em 1860.<br \/>\nA urbaniza\u00e7\u00e3o brasileira, a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos de higiene e de alimenta\u00e7\u00e3o, o sofr\u00edvel saneamento b\u00e1sico, o respeito aos avisos dos nossos corpos est\u00e3o nos dando uma vida mais longa. O Brasil possui hoje 26 milh\u00f5es de pessoas com mais de 60 anos. Em contrapartida, o nosso prec\u00e1rio sistema previdenci\u00e1rio (INSS) est\u00e1 repleto de aposentados que, por falta do que fazer, agrupam-se em rodas em pra\u00e7as, centros comerciais, bares, ou se quedam em suas casas em torno de uma televis\u00e3o ou r\u00e1dio.<br \/>\nComo \u00e9 baixo o n\u00edvel de leitura do brasileiro, poucos idosos se apegam a livros. H\u00e1 aqueles que enfrentam quebra-cabe\u00e7as, palavras cruzadas e \u201cquizz\u201d para dar uma escovada na teia de aranha mental dos que amanhecem o dia sem ter o que fazer. Vez por outra, amigos v\u00e3o detectando sinais do que, antigamente, se chamava de \u201ccaduquice\u201d. Na verdade, as doen\u00e7as senis s\u00e3o cruciais. Uma atinge, n\u00e3o s\u00f3 a pessoa idosa, mas toda a sua fam\u00edlia, o Alzheimer. O nome \u00e9 em homenagem ao psiquiatra alem\u00e3o Alois Alzheimer, que identificou esse mal h\u00e1 110 anos, em 1906. Ele morreu em 1915, aos 51 anos, de doen\u00e7a card\u00edaca.<br \/>\nApesar da sua identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi encontrada, ainda, a sua cura. Em ensaio para o Valor, a rep\u00f3rter Martha San Juan Fran\u00e7a apresenta hist\u00f3ria e dados sobre o que chama de \u201ctrai\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria\u201d ou a \u201caus\u00eancia da lembran\u00e7a\u201d. O dado mais assustador \u00e9 que o \u201caumento da expectativa de vida deve triplicar o n\u00famero de pessoas com Alzheimer nos pr\u00f3ximos 30 anos\u201d.<br \/>\nHoje, o Brasil possui, diagnosticados, um milh\u00e3o e duzentas mil pessoas com dem\u00eancias, das quais 30% recebem tratamento informal e s\u00f3 37% usam assist\u00eancia m\u00e9dica. O grande problema para o paciente de Alzheimer, uma das dem\u00eancias, \u00e9 a dispers\u00e3o de sua fam\u00edlia, posto que n\u00e3o s\u00e3o muitos os filhos e netos que se disp\u00f5em a cuidar de algu\u00e9m que n\u00e3o responde, com l\u00f3gica, a est\u00edmulos e afetos.<br \/>\nH\u00e1 muita literatura m\u00e9dica sobre o assunto, mas nada que mostre, em curto prazo, a solu\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel. Todas as fam\u00edlias, inclusive a minha, se deparam com pessoas acometidas com o mal que vai se acumulando bem antes do diagn\u00f3stico. Assim, s\u00f3 depois de muito tempo as \u201cesquisitices\u201d v\u00e3o sendo consideradas como o primeiro sinal. Da\u00ed para frente, h\u00e1 um crescendo que prejudica a concatena\u00e7\u00e3o da fala e at\u00e9 a aus\u00eancia do sentimento de perten\u00e7a.<br \/>\nAo final, adv\u00e9m o desconhecimento do outro, a n\u00e3o comunica\u00e7\u00e3o e o descuido com os cuidados pessoais. \u00c9 claro que este artigo \u00e9 de leigo, n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, muito menos de geriatria ou neurologia, mas ele almeja ser um alerta para todas as fam\u00edlias que, pelo menos, procurem entender os seus idosos. Eles devem merecer aten\u00e7\u00f5es redobradas. Neste mundo de dificuldades e de incertezas h\u00e1 uma filosofia de cuidar de si pr\u00f3prio, esquecendo o outro. A pessoa com Alzheimer precisa de cuidadores, familiares ou contratados, que o trate com humanidade e carinho. \u00c9 preciso ficar claro, com consultas a especialistas exames, que nem toda dem\u00eancia \u00e9 Alzheimer. Por fim, amar \u00e9 cuidar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/06\/2016.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2716","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2716"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2716\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}