{"id":2721,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-brasil-vice-a-vice-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"o-brasil-vice-a-vice-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-brasil-vice-a-vice-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O BRASIL, VICE A VICE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempo, muito tempo, o Brasil nos prega pe\u00e7as. Ou somos n\u00f3s os que pregam pe\u00e7as ao Brasil? N\u00e3o h\u00e1 como esquecer fatos hist\u00f3ricos acontecidos desde a metade do s\u00e9culo passado, \u00e9poca que tomei como partida. Hoje \u00e9 sexta, 13 de maio de 2016.<br \/>\nSurge Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente, com ideias de algibeira, a mando de sua extremada esposa: decretar o fim das brigas de galos, jogos de azar, fechar os cassinos e sobressair uma capela dentro da sede do governo. Fez o trivial. O povo queria Get\u00falio Vargas de volta, o dadivoso mentor de legisla\u00e7\u00e3o trabalhista baseada em princ\u00edpios italianos, de Benito Mussolini, que pressup\u00f5em o patr\u00e3o, vil\u00e3o, e o trabalhador, v\u00edtima.<br \/>\nEleito, Vargas volta e monta estrutura \u00edntima dentro do Pal\u00e1cio do Catete, incluindo ministros, filhos, jornalistas apadrinhados e curimbabas comandados por Greg\u00f3rio Fortunato. Fustigado por Lacerda e as evid\u00eancias do crime da Rua Toneleros, opta pelo suic\u00eddio, com escrita premeditada, em 24 de agosto de 1954.<br \/>\nO homem baixo, rotundo, arguto e bom orador que veio de S\u00e3o Borja, no Rio Grande, para ser o \u201cpai da P\u00e1tria\u201d, por mais de duas d\u00e9cadas, leva milhares \u00e0 visita\u00e7\u00e3o do seu corpo inerme. Vargas foi ditador, mito, impulsionou o surgimento da ind\u00fastria nacional, mas perdeu a legitimidade por conta dos que o cercavam. O vice-presidente Caf\u00e9 Filho assume e tenta comandar governo de transi\u00e7\u00e3o que desemboca em atritos, crises, substitui\u00e7\u00e3o e afins.<br \/>\nSurge, ent\u00e3o, o audaz, m\u00e9dico e pol\u00edtico Juscelino Kubitschek de Oliveira. Eleito em dura refrega, resolve mudar o foco do governo para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova capital, Bras\u00edlia. Ela surge pelos l\u00e1pis, r\u00e9guas T, compassos, transferidores e esbo\u00e7os do arquiteto L\u00facio Costa. E assim o fez, gastando no plano piloto e nos pr\u00e9dios projetados por Oscar Soares Niemeyer, o que o governo n\u00e3o possu\u00eda. Aumenta a d\u00edvida p\u00fablica em rela\u00e7\u00f5es de compadrio com empresas construtoras que j\u00e1 conhecia desde Minas. Sai com prest\u00edgio popular. N\u00e3o existia a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrega Bras\u00edlia a jato, passa a faixa a J\u00e2nio da Silva Quadros, algu\u00e9m que mereceria an\u00e1lise e ajuda profunda dos seguidores de Freud e de Winnicott. Como tal n\u00e3o aconteceu, J\u00e2nio perde a maioria no Congresso Nacional e intenta uma manobra que acaba em mal explicada e pat\u00e9tica ren\u00fancia.<br \/>\nNaquele tempo, os candidatos a vice eram votados e n\u00e3o faziam dobradinha com os aspirantes a presidente. Outro m\u00eas de agosto, agora em 1961. O pa\u00eds fica, por dias, nas m\u00e3os de Auro Soares de Moura Andrade, at\u00e9 que se consuma a volta negociada de Jo\u00e3o Goulart, o vice, que passeava na China da revolu\u00e7\u00e3o cultural de Mao Ts\u00e9-Tung. Pol\u00edticos, juristas e militares engendram um Jango e Tancredo Neves, como primeiro-ministro. O parlamentarismo n\u00e3o resiste a um plebiscito. Jango passa a mandar, mas n\u00e3o leva jeito nas manhas e artimanhas palacianas.<br \/>\nEm 1964, depois do com\u00edcio de 13 de mar\u00e7o na Central do Brasil \u2013 com a invers\u00e3o da hierarquia militar, no corpo de pra\u00e7as da Marinha \u2013 come\u00e7am as confabula\u00e7\u00f5es para a derrubada de Jango. Magalh\u00e3es Pinto, Lacerda, pol\u00edticos tr\u00e2nsfugas e militares, entre os quais o cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, re\u00fanem-se e tramam. De Minas e S\u00e3o Paulo, avan\u00e7am os aparatos militares que tomariam o poder.<br \/>\nN\u00e3o houve tiros. Jango, de boa paz e n\u00e3o bom de gest\u00e3o, n\u00e3o resiste e se manda para o Rio Grande do Sul. Em seguida, se autoexila em fazenda sua no Uruguai, onde, muitos anos depois, falece. No dia de sua morte havia viajado de avi\u00e3o, de barco e de carro. Janta, passa mal, a assist\u00eancia m\u00e9dica demora e nasce a ideia de assassinato \u2013 por envenenamento \u2013 depois desmentida, com a exuma\u00e7\u00e3o e m\u00faltiplos exames de peritos m\u00e9dicos.<br \/>\nCome\u00e7a o ciclo militar. Duraria mais de 20 anos. Permanece sob a lupa cr\u00edtica de historiadores, de jornalistas, de cientistas pol\u00edticos e da Comiss\u00e3o da Verdade. Tancredo, Ulysses, Montoro, FHC, Lula e outros se unem e lutam pelas Diretas J\u00e1. Estamos nos anos 80. No meio oper\u00e1rio, com a ajuda de religiosos cat\u00f3licos, surge um partido de sindicalistas e de parte da intelligentsia paulista. O PT e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva inauguram um novo tempo.<br \/>\nFernando Collor, um carioca-alagoano, com a ajuda de parte da m\u00eddia vai eleito. Deu no que deu. Itamar Franco, o vice, assume. E, querendo ou n\u00e3o, faz um bom governo. Caf\u00e9 Filho, Jo\u00e3o Goulart e Itamar, foram vices. Como disse Tom Jobim: \u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13\/05\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempo, muito tempo, o Brasil nos prega pe\u00e7as. Ou somos n\u00f3s os que pregam pe\u00e7as ao Brasil? N\u00e3o h\u00e1 como esquecer fatos hist\u00f3ricos acontecidos desde a metade do s\u00e9culo passado, \u00e9poca que tomei como partida. Hoje \u00e9 sexta, 13 de maio de 2016.<br \/>\nSurge Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente, com ideias de algibeira, a mando de sua extremada esposa: decretar o fim das brigas de galos, jogos de azar, fechar os cassinos e sobressair uma capela dentro da sede do governo. Fez o trivial. O povo queria Get\u00falio Vargas de volta, o dadivoso mentor de legisla\u00e7\u00e3o trabalhista baseada em princ\u00edpios italianos, de Benito Mussolini, que pressup\u00f5em o patr\u00e3o, vil\u00e3o, e o trabalhador, v\u00edtima.<br \/>\nEleito, Vargas volta e monta estrutura \u00edntima dentro do Pal\u00e1cio do Catete, incluindo ministros, filhos, jornalistas apadrinhados e curimbabas comandados por Greg\u00f3rio Fortunato. Fustigado por Lacerda e as evid\u00eancias do crime da Rua Toneleros, opta pelo suic\u00eddio, com escrita premeditada, em 24 de agosto de 1954.<br \/>\nO homem baixo, rotundo, arguto e bom orador que veio de S\u00e3o Borja, no Rio Grande, para ser o \u201cpai da P\u00e1tria\u201d, por mais de duas d\u00e9cadas, leva milhares \u00e0 visita\u00e7\u00e3o do seu corpo inerme. Vargas foi ditador, mito, impulsionou o surgimento da ind\u00fastria nacional, mas perdeu a legitimidade por conta dos que o cercavam. O vice-presidente Caf\u00e9 Filho assume e tenta comandar governo de transi\u00e7\u00e3o que desemboca em atritos, crises, substitui\u00e7\u00e3o e afins.<br \/>\nSurge, ent\u00e3o, o audaz, m\u00e9dico e pol\u00edtico Juscelino Kubitschek de Oliveira. Eleito em dura refrega, resolve mudar o foco do governo para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova capital, Bras\u00edlia. Ela surge pelos l\u00e1pis, r\u00e9guas T, compassos, transferidores e esbo\u00e7os do arquiteto L\u00facio Costa. E assim o fez, gastando no plano piloto e nos pr\u00e9dios projetados por Oscar Soares Niemeyer, o que o governo n\u00e3o possu\u00eda. Aumenta a d\u00edvida p\u00fablica em rela\u00e7\u00f5es de compadrio com empresas construtoras que j\u00e1 conhecia desde Minas. Sai com prest\u00edgio popular. N\u00e3o existia a reelei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrega Bras\u00edlia a jato, passa a faixa a J\u00e2nio da Silva Quadros, algu\u00e9m que mereceria an\u00e1lise e ajuda profunda dos seguidores de Freud e de Winnicott. Como tal n\u00e3o aconteceu, J\u00e2nio perde a maioria no Congresso Nacional e intenta uma manobra que acaba em mal explicada e pat\u00e9tica ren\u00fancia.<br \/>\nNaquele tempo, os candidatos a vice eram votados e n\u00e3o faziam dobradinha com os aspirantes a presidente. Outro m\u00eas de agosto, agora em 1961. O pa\u00eds fica, por dias, nas m\u00e3os de Auro Soares de Moura Andrade, at\u00e9 que se consuma a volta negociada de Jo\u00e3o Goulart, o vice, que passeava na China da revolu\u00e7\u00e3o cultural de Mao Ts\u00e9-Tung. Pol\u00edticos, juristas e militares engendram um Jango e Tancredo Neves, como primeiro-ministro. O parlamentarismo n\u00e3o resiste a um plebiscito. Jango passa a mandar, mas n\u00e3o leva jeito nas manhas e artimanhas palacianas.<br \/>\nEm 1964, depois do com\u00edcio de 13 de mar\u00e7o na Central do Brasil \u2013 com a invers\u00e3o da hierarquia militar, no corpo de pra\u00e7as da Marinha \u2013 come\u00e7am as confabula\u00e7\u00f5es para a derrubada de Jango. Magalh\u00e3es Pinto, Lacerda, pol\u00edticos tr\u00e2nsfugas e militares, entre os quais o cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, re\u00fanem-se e tramam. De Minas e S\u00e3o Paulo, avan\u00e7am os aparatos militares que tomariam o poder.<br \/>\nN\u00e3o houve tiros. 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O PT e Luiz In\u00e1cio Lula da Silva inauguram um novo tempo.<br \/>\nFernando Collor, um carioca-alagoano, com a ajuda de parte da m\u00eddia vai eleito. Deu no que deu. Itamar Franco, o vice, assume. E, querendo ou n\u00e3o, faz um bom governo. Caf\u00e9 Filho, Jo\u00e3o Goulart e Itamar, foram vices. 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