{"id":2739,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-bolsa-e-o-chanel-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"a-bolsa-e-o-chanel-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-bolsa-e-o-chanel-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A BOLSA E O CHANEL &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o dormira bem, apesar do velho Valium, seu companheiro h\u00e1 anos. Acordara cedo e sentira o absorvente higi\u00eanico embebido. Foi ao banheiro, uma ducha quente demorada, penteou os fartos cabelos ruivos, cuidou da maquiagem como a marca Esther Laud\u00e9e oferecia e mirou seu corpo no grande espelho emba\u00e7ado pelo vapor. Passou a manga felpuda do roup\u00e3o Gucci e gostou do refletido. Era uma mo\u00e7a bonita.<br \/>\nLargara tudo em Chicago e recome\u00e7ara a vida em Nova Iorque, a cidade que lhe dera aquele pequeno, mas valioso loft, em Tribeca. Solit\u00e1ria. Escolhia os seus homens. Transavam, dava um beijo de despedidas, tomava o seu Vallium e deitava solit\u00e1ria na larga cama entre len\u00e7\u00f3is de seda e fofos travesseiros, abra\u00e7ando-os em posi\u00e7\u00e3o fetal.<br \/>\nAbriu o arm\u00e1rio e encontrou apenas um absorvente. Passaria na drugstore no subsolo do seu trabalho, na Torre Norte, e compraria uma caixa. Ligou a cafeteira, colocou duas fatias de p\u00e3o integral na torradeira e tomou o suco de tomate junto com o cotidiano Prozac. Sentou quieta e bebeu cada gole do caf\u00e9 encorpado. Mordiscou, distraidamente, a torrada sem geleia para n\u00e3o engordar, escovou os alvos dentes e pincelou os l\u00e1bios com o novo lan\u00e7amento de batom.<br \/>\nEscolheu um vestido negro de bot\u00f5es cinza-escuro como uma t\u00fanica chinesa. Era adequado para aquele setembro ainda quente. Mudou os pertences para a bolsa Louis Vuitton combinando com os confort\u00e1veis e altos sapatos a fazer do seu trajeto di\u00e1rio uma passarela imagin\u00e1ria.<br \/>\nHavia tempo ainda. Desceu ao subsolo, escolheu um pequeno pacote do absorvente higi\u00eanico, colocou-o na cestinha e viu na g\u00f4ndola pr\u00f3xima um vidro de Chanel n\u00ba 5. Era a velha tenta\u00e7\u00e3o. Olhou para os lados e n\u00e3o teve d\u00favida em coloc\u00e1-lo na bolsa. O calafrio criava o clima. Era um misto de medo, desafio e prazer. J\u00e1 discutira isso dezenas de vezes com o seu analista. O desejo furtivo de roubar nada tinha a ver com necessidade, era um impulso incontrol\u00e1vel. N\u00e3o importava o nome de cleptomania. Nunca fora apanhada. Cuidadosa, olhava sempre para os lados e fugia das c\u00e2meras.<br \/>\nDirigiu-se a um dos caixas, apresentou o absorvente e o cart\u00e3o de cr\u00e9dito. N\u00e3o vira o seguran\u00e7a a seguir tudo de longe. Polidamente, mas incisivo, solicitou acompanh\u00e1-lo \u00e0 cabine especial. Mesa branca, cortina de veludo negro e luz forte. O seguran\u00e7a pediu para colocar todos os pertences de sua bolsa sobre a mesa.<br \/>\nEla relutou, mas parecia sentir um estranho prazer em ser apanhada. Em meio a seus pertences, l\u00e1 estava o vidro de Chanel n\u00ba 5, ainda com a tarjeta magn\u00e9tica. O seguran\u00e7a tocou a campainha, ao tempo em que ecoavam imensos e prolongados estrondos. Uma viga de a\u00e7o o atingiu mortalmente, grandes blocos de pedra ca\u00edram em meio \u00e0 poeira, formando um escudo protetor para ela, enquanto a fragr\u00e2ncia do Chanel n\u00ba 5 evolava pelo ch\u00e3o, misturando-se ao sangue da fronte do seguran\u00e7a.<br \/>\n_______<br \/>\nExplica\u00e7\u00e3o: o conto acima integra o meu livro \u201cSobre a G\u00eanese e o Caos\u201d. O reproduzo pela passagem dos 15 anos dos atentados em 11 de setembro de 2001.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/09\/2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o dormira bem, apesar do velho Valium, seu companheiro h\u00e1 anos. Acordara cedo e sentira o absorvente higi\u00eanico embebido. Foi ao banheiro, uma ducha quente demorada, penteou os fartos cabelos ruivos, cuidou da maquiagem como a marca Esther Laud\u00e9e oferecia e mirou seu corpo no grande espelho emba\u00e7ado pelo vapor. Passou a manga felpuda do roup\u00e3o Gucci e gostou do refletido. Era uma mo\u00e7a bonita.<br \/>\nLargara tudo em Chicago e recome\u00e7ara a vida em Nova Iorque, a cidade que lhe dera aquele pequeno, mas valioso loft, em Tribeca. Solit\u00e1ria. Escolhia os seus homens. Transavam, dava um beijo de despedidas, tomava o seu Vallium e deitava solit\u00e1ria na larga cama entre len\u00e7\u00f3is de seda e fofos travesseiros, abra\u00e7ando-os em posi\u00e7\u00e3o fetal.<br \/>\nAbriu o arm\u00e1rio e encontrou apenas um absorvente. Passaria na drugstore no subsolo do seu trabalho, na Torre Norte, e compraria uma caixa. Ligou a cafeteira, colocou duas fatias de p\u00e3o integral na torradeira e tomou o suco de tomate junto com o cotidiano Prozac. Sentou quieta e bebeu cada gole do caf\u00e9 encorpado. Mordiscou, distraidamente, a torrada sem geleia para n\u00e3o engordar, escovou os alvos dentes e pincelou os l\u00e1bios com o novo lan\u00e7amento de batom.<br \/>\nEscolheu um vestido negro de bot\u00f5es cinza-escuro como uma t\u00fanica chinesa. Era adequado para aquele setembro ainda quente. Mudou os pertences para a bolsa Louis Vuitton combinando com os confort\u00e1veis e altos sapatos a fazer do seu trajeto di\u00e1rio uma passarela imagin\u00e1ria.<br \/>\nHavia tempo ainda. Desceu ao subsolo, escolheu um pequeno pacote do absorvente higi\u00eanico, colocou-o na cestinha e viu na g\u00f4ndola pr\u00f3xima um vidro de Chanel n\u00ba 5. Era a velha tenta\u00e7\u00e3o. Olhou para os lados e n\u00e3o teve d\u00favida em coloc\u00e1-lo na bolsa. O calafrio criava o clima. Era um misto de medo, desafio e prazer. J\u00e1 discutira isso dezenas de vezes com o seu analista. O desejo furtivo de roubar nada tinha a ver com necessidade, era um impulso incontrol\u00e1vel. N\u00e3o importava o nome de cleptomania. Nunca fora apanhada. Cuidadosa, olhava sempre para os lados e fugia das c\u00e2meras.<br \/>\nDirigiu-se a um dos caixas, apresentou o absorvente e o cart\u00e3o de cr\u00e9dito. N\u00e3o vira o seguran\u00e7a a seguir tudo de longe. Polidamente, mas incisivo, solicitou acompanh\u00e1-lo \u00e0 cabine especial. Mesa branca, cortina de veludo negro e luz forte. O seguran\u00e7a pediu para colocar todos os pertences de sua bolsa sobre a mesa.<br \/>\nEla relutou, mas parecia sentir um estranho prazer em ser apanhada. Em meio a seus pertences, l\u00e1 estava o vidro de Chanel n\u00ba 5, ainda com a tarjeta magn\u00e9tica. O seguran\u00e7a tocou a campainha, ao tempo em que ecoavam imensos e prolongados estrondos. Uma viga de a\u00e7o o atingiu mortalmente, grandes blocos de pedra ca\u00edram em meio \u00e0 poeira, formando um escudo protetor para ela, enquanto a fragr\u00e2ncia do Chanel n\u00ba 5 evolava pelo ch\u00e3o, misturando-se ao sangue da fronte do seguran\u00e7a.<br \/>\n_______<br \/>\nExplica\u00e7\u00e3o: o conto acima integra o meu livro \u201cSobre a G\u00eanese e o Caos\u201d. O reproduzo pela passagem dos 15 anos dos atentados em 11 de setembro de 2001.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/09\/2016.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2739","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2739"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2739\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}