{"id":2744,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mario-gomes-morreu-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"mario-gomes-morreu-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mario-gomes-morreu-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"M\u00c1RIO GOMES MORREU? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cE andando no sol que cega,\/ sentir com triste espanto\/como toda a vida e o seu tormento\/que corre continuamente \u00e9 uma muralha\/que em seu topo tem cacos pontiagudos de garrafa\u201d. Eugenio Montale (1896-1981), poeta italiano.<br \/>\n(Paulo) M\u00e1rio (Ferreira) Gomes morreu no \u00faltimo dia do ano. Foram juntos, ele e o ano. Quem n\u00e3o conheceu M\u00e1rio Gomes n\u00e3o \u00e9 bem fortalezense. Tampouco sabe da import\u00e2ncia do desvario aleg\u00f3rico dessa figura singular, abusada, que sabia ser poeta e s\u00f3 falava com quem elegia. N\u00e3o portava identidade e fizera do centro antigo o seu habitat. A sua obra \u00e9, inclusive, objeto de tese de mestrado da jornalista Ethel de Paula.<br \/>\nPalet\u00f3 sobre camisas, cal\u00e7as amarfanhadas e sapatos rotos por andan\u00e7as. Seria ele exemplar perdido da gera\u00e7\u00e3o \u201cbeat\u201d, como entendeu o e escritor M\u00e1rcio Catunda? Ou p\u00f3s-moderno \u201cCarlitos\u201d, o personagem de Chaplin? Creio que ele viveu como quis e se sabia admir\u00e1vel em sua franciscana, mas airosa figura, mesmo que a dorsal, aos 67 anos, n\u00e3o mais o deixasse ereto.<br \/>\nO fato \u00e9 que o G-1, imaginem, o site da rede Globo, estampou, quase na hora, a sua morte: \u201c Cear\u00e1 -&#8230; M\u00e1rio Gomes era conhecido como poeta descomunal e tornou-se popular como transeunte da Pra\u00e7a do Ferreira e no Centro Drag\u00e3o do Mar de Arte e Cultura.\u201d<br \/>\nA exigente Folha de S\u00e3o Paulo, edi\u00e7\u00e3o desta ter\u00e7a, 06, p\u00e1gina C4, registrou: \u201cM\u00e1rio Ferreira Gomes(1947-2014)- Um poeta das ruas de Fortaleza\u201d, em negrito mesmo, escrito por Andressa Taffarel. Reproduzo duas colunas, mas foram tr\u00eas: \u201cVez ou outra, M\u00e1rio Gomes convidava as pessoas para irem a seu escrit\u00f3rio na pra\u00e7a do Ferreira, em Fortaleza. Se lhe perguntassem qual era o endere\u00e7o exato, responderia sem subterf\u00fagios: \u2018Na pra\u00e7a\u2019 \u2013 \u00e0s vezes a frase vinha acompanhada de alguma palavra um tanto grosseira, n\u00e3o public\u00e1vel aqui. O \u2018escrit\u00f3rio\u2019 nada mais era que um dos bancos do espa\u00e7o p\u00fablico onde M\u00e1rio reunia poetas como ele, amigos e interessados em ouvir discuss\u00f5es sobre literatura. Al\u00e9m de sempre falar o que lhe vinha \u00e0 cabe\u00e7a, era conhecido por seu desapego aos bens materiais. At\u00e9 tinha casa em um bairro da capital cearense, mas preferia viver como um andarilho pelo centro, normalmente de palet\u00f3 e com uma bebida e um charuto ou cigarro nas m\u00e3os. N\u00e3o admitia que lhe dessem esmolas. \u2018N\u00e3o sou pedinte, sou artista\u2019, dizia. Ajuda s\u00f3 aceitava de pessoas pr\u00f3ximas&#8230;\u201d<br \/>\nLeitor \u00e1vido de jornais que n\u00e3o comprava, sabia dos acontecimentos culturais. Era comum v\u00ea-lo no cal\u00e7ad\u00e3o que medeia a Igreja do Ros\u00e1rio e o Pal\u00e1cio da Luz, quando a Academia Cearense de Letras realizava solenidades. Ficava ao largo, como a balbuciar alguns dos seus muitos poemas. Um deles: \u201cBeijei a boca da noite\/ e engoli milh\u00f5es de estrelas.\/ Fiquei iluminado.\/Bebi toda a \u00e1gua do oceano.\/Devorei as florestas\/ A humanidade ajoelhou-se a meus p\u00e9s,\/pensando que era ju\u00edzo final.\/Apertei com as m\u00e3os, a terra\/ Derretendo-a\/As aves em sua totalidade\/Voaram para o al\u00e9m\/Os animais ca\u00edram do abismo espacial. \/Dei uma gargalhada c\u00ednica\/E fui descansar na primeira nuvem\/Em que o sol me olhava\/ assustadoramente.\/Fui dormir o sono da eternidade\/ E me acordei mil anos depois\/Por tr\u00e1s do universo.\u201d<br \/>\nS\u00e3o tantos seus versos, seus livros e suas idas e seus retornos ataviados por caronas ao Rio e a Salvador. Por fim, M\u00e1rio quedou-se e se apropriou da pra\u00e7a e do Drag\u00e3o do Mar. Ia \u00e0 rua Pereira Filgueiras e \u00e0 Rua Dom Joaquim, em raros s\u00e1bados. No dia 31, pela manh\u00e3, o artista pl\u00e1stico Tota me visita e fala do estado grave do M\u00e1rio. Disse que logo passaria pelo IJF. Em seguida, o Raymundo Neto liga e diz: \u201cO M\u00e1rio morreu\u201d. Era come\u00e7o da tarde, sol zenital. Chego ao IJF. Encontrei-o j\u00e1 no necrot\u00e9rio gradeado. O cadeado foi aberto por pachorrento e gentil servidor e a corrente tintilou como sino. O M\u00e1rio estava sobre uma maca, lado direito, envolto em panos brancos e limpos, atados por fitas gomadas. Literalmente, empacotado. Logo ele que amava a liberdade.<br \/>\nDesci ao Servi\u00e7o Social e encontrei o escritor Raymundo Netto e o artista pl\u00e1stico Tota. Faltava a carteira de identidade para os seus dados oficiais. Exig\u00eancia legal, mas o capit\u00e3o da seguran\u00e7a amoleceu quando o Tota mostrou cartolina com fotos do \u00faltimo anivers\u00e1rio do ex-vivo e um livro com a sua foto na capa. Houve surpresa, a irm\u00e3 chega e mostra o seu plano funer\u00e1rio. M\u00e1rio n\u00e3o precisava da ajuda de ningu\u00e9m. Altivo, at\u00e9 depois da morte.<br \/>\nLembrei-me que o via por a\u00ed, quase encurvado, como um arco sem flecha , entre profundas pitadas de cigarro, com passadas em zig-zag a desobedecer a lei da gravidade. Pois foi justo ela, a que chama todos os corpos para o centro da Terra, que o fez cair e passar dois dias no IJF, entre resmungos, desaforo aos m\u00e9dicos e aos enfermeiros e o zelo do amigo Tota.<br \/>\nManh\u00e3 do primeiro dia de 2015. M\u00e1rio de barba escanhoada, palet\u00f3 com gravata, deitado para sempre no p\u00e1tio da Biblioteca P\u00fablica Dolor Barreira. Ou voltar\u00e1 daqui a 1.000 anos? Algumas coroas, irm\u00e3, sobrinha e pouca gente. Alguns falaram, dizendo das artes e travessuras do silente. L\u00e1grimas, risos e, por fim, um Pai Nosso. Ele j\u00e1 descansava na primeira nuvem branca de um c\u00e9u azul e, me pareceu, que cinzas do seu cigarro caiam sobre o passeio.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09\/01\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cE andando no sol que cega,\/ sentir com triste espanto\/como toda a vida e o seu tormento\/que corre continuamente \u00e9 uma muralha\/que em seu topo tem cacos pontiagudos de garrafa\u201d. Eugenio Montale (1896-1981), poeta italiano.<br \/>\n(Paulo) M\u00e1rio (Ferreira) Gomes morreu no \u00faltimo dia do ano. Foram juntos, ele e o ano. Quem n\u00e3o conheceu M\u00e1rio Gomes n\u00e3o \u00e9 bem fortalezense. Tampouco sabe da import\u00e2ncia do desvario aleg\u00f3rico dessa figura singular, abusada, que sabia ser poeta e s\u00f3 falava com quem elegia. N\u00e3o portava identidade e fizera do centro antigo o seu habitat. A sua obra \u00e9, inclusive, objeto de tese de mestrado da jornalista Ethel de Paula.<br \/>\nPalet\u00f3 sobre camisas, cal\u00e7as amarfanhadas e sapatos rotos por andan\u00e7as. Seria ele exemplar perdido da gera\u00e7\u00e3o \u201cbeat\u201d, como entendeu o e escritor M\u00e1rcio Catunda? Ou p\u00f3s-moderno \u201cCarlitos\u201d, o personagem de Chaplin? Creio que ele viveu como quis e se sabia admir\u00e1vel em sua franciscana, mas airosa figura, mesmo que a dorsal, aos 67 anos, n\u00e3o mais o deixasse ereto.<br \/>\nO fato \u00e9 que o G-1, imaginem, o site da rede Globo, estampou, quase na hora, a sua morte: \u201c Cear\u00e1 -&#8230; M\u00e1rio Gomes era conhecido como poeta descomunal e tornou-se popular como transeunte da Pra\u00e7a do Ferreira e no Centro Drag\u00e3o do Mar de Arte e Cultura.\u201d<br \/>\nA exigente Folha de S\u00e3o Paulo, edi\u00e7\u00e3o desta ter\u00e7a, 06, p\u00e1gina C4, registrou: \u201cM\u00e1rio Ferreira Gomes(1947-2014)- Um poeta das ruas de Fortaleza\u201d, em negrito mesmo, escrito por Andressa Taffarel. Reproduzo duas colunas, mas foram tr\u00eas: \u201cVez ou outra, M\u00e1rio Gomes convidava as pessoas para irem a seu escrit\u00f3rio na pra\u00e7a do Ferreira, em Fortaleza. Se lhe perguntassem qual era o endere\u00e7o exato, responderia sem subterf\u00fagios: \u2018Na pra\u00e7a\u2019 \u2013 \u00e0s vezes a frase vinha acompanhada de alguma palavra um tanto grosseira, n\u00e3o public\u00e1vel aqui. O \u2018escrit\u00f3rio\u2019 nada mais era que um dos bancos do espa\u00e7o p\u00fablico onde M\u00e1rio reunia poetas como ele, amigos e interessados em ouvir discuss\u00f5es sobre literatura. Al\u00e9m de sempre falar o que lhe vinha \u00e0 cabe\u00e7a, era conhecido por seu desapego aos bens materiais. At\u00e9 tinha casa em um bairro da capital cearense, mas preferia viver como um andarilho pelo centro, normalmente de palet\u00f3 e com uma bebida e um charuto ou cigarro nas m\u00e3os. N\u00e3o admitia que lhe dessem esmolas. \u2018N\u00e3o sou pedinte, sou artista\u2019, dizia. Ajuda s\u00f3 aceitava de pessoas pr\u00f3ximas&#8230;\u201d<br \/>\nLeitor \u00e1vido de jornais que n\u00e3o comprava, sabia dos acontecimentos culturais. Era comum v\u00ea-lo no cal\u00e7ad\u00e3o que medeia a Igreja do Ros\u00e1rio e o Pal\u00e1cio da Luz, quando a Academia Cearense de Letras realizava solenidades. Ficava ao largo, como a balbuciar alguns dos seus muitos poemas. Um deles: \u201cBeijei a boca da noite\/ e engoli milh\u00f5es de estrelas.\/ Fiquei iluminado.\/Bebi toda a \u00e1gua do oceano.\/Devorei as florestas\/ A humanidade ajoelhou-se a meus p\u00e9s,\/pensando que era ju\u00edzo final.\/Apertei com as m\u00e3os, a terra\/ Derretendo-a\/As aves em sua totalidade\/Voaram para o al\u00e9m\/Os animais ca\u00edram do abismo espacial. \/Dei uma gargalhada c\u00ednica\/E fui descansar na primeira nuvem\/Em que o sol me olhava\/ assustadoramente.\/Fui dormir o sono da eternidade\/ E me acordei mil anos depois\/Por tr\u00e1s do universo.\u201d<br \/>\nS\u00e3o tantos seus versos, seus livros e suas idas e seus retornos ataviados por caronas ao Rio e a Salvador. Por fim, M\u00e1rio quedou-se e se apropriou da pra\u00e7a e do Drag\u00e3o do Mar. Ia \u00e0 rua Pereira Filgueiras e \u00e0 Rua Dom Joaquim, em raros s\u00e1bados. No dia 31, pela manh\u00e3, o artista pl\u00e1stico Tota me visita e fala do estado grave do M\u00e1rio. Disse que logo passaria pelo IJF. Em seguida, o Raymundo Neto liga e diz: \u201cO M\u00e1rio morreu\u201d. Era come\u00e7o da tarde, sol zenital. Chego ao IJF. Encontrei-o j\u00e1 no necrot\u00e9rio gradeado. O cadeado foi aberto por pachorrento e gentil servidor e a corrente tintilou como sino. O M\u00e1rio estava sobre uma maca, lado direito, envolto em panos brancos e limpos, atados por fitas gomadas. Literalmente, empacotado. Logo ele que amava a liberdade.<br \/>\nDesci ao Servi\u00e7o Social e encontrei o escritor Raymundo Netto e o artista pl\u00e1stico Tota. Faltava a carteira de identidade para os seus dados oficiais. Exig\u00eancia legal, mas o capit\u00e3o da seguran\u00e7a amoleceu quando o Tota mostrou cartolina com fotos do \u00faltimo anivers\u00e1rio do ex-vivo e um livro com a sua foto na capa. Houve surpresa, a irm\u00e3 chega e mostra o seu plano funer\u00e1rio. M\u00e1rio n\u00e3o precisava da ajuda de ningu\u00e9m. Altivo, at\u00e9 depois da morte.<br \/>\nLembrei-me que o via por a\u00ed, quase encurvado, como um arco sem flecha , entre profundas pitadas de cigarro, com passadas em zig-zag a desobedecer a lei da gravidade. Pois foi justo ela, a que chama todos os corpos para o centro da Terra, que o fez cair e passar dois dias no IJF, entre resmungos, desaforo aos m\u00e9dicos e aos enfermeiros e o zelo do amigo Tota.<br \/>\nManh\u00e3 do primeiro dia de 2015. M\u00e1rio de barba escanhoada, palet\u00f3 com gravata, deitado para sempre no p\u00e1tio da Biblioteca P\u00fablica Dolor Barreira. Ou voltar\u00e1 daqui a 1.000 anos? Algumas coroas, irm\u00e3, sobrinha e pouca gente. Alguns falaram, dizendo das artes e travessuras do silente. L\u00e1grimas, risos e, por fim, um Pai Nosso. Ele j\u00e1 descansava na primeira nuvem branca de um c\u00e9u azul e, me pareceu, que cinzas do seu cigarro caiam sobre o passeio.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09\/01\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2744","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2744"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2744\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}