{"id":2746,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/je-suis-charlie-a-liberdade-de-expressao-e-o-direito-das-minorias-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"je-suis-charlie-a-liberdade-de-expressao-e-o-direito-das-minorias-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/je-suis-charlie-a-liberdade-de-expressao-e-o-direito-das-minorias-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"\u201cJE SUIS CHARLIE\u201d, A LIBERDADE DE EXPRESS\u00c3O E O DIREITO DAS MINORIAS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>A primeira vez em que, ainda universit\u00e1rio, estive na Fran\u00e7a, foi no meio da d\u00e9cada de 60. Fiquei hospedado, em Paris, no Hotel de La R\u00e9publique, onde, por acaso, estava a simp\u00e1tica sele\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica de futebol. Fiquei encantado com o pa\u00eds, mas notava &#8211; como me advertira o franco-cearense G\u00e9rard Boris &#8211; que o franc\u00eas \u00e9, quase sempre, resmung\u00e3o e n\u00e3o se afinava muito com os que n\u00e3o s\u00e3o de l\u00e1. O ano de 1968 ainda n\u00e3o havia acontecido.<br \/>\nNesse mesmo tempo, percorri quase todo o interior desse belo pa\u00eds a bordo de \u00f4nibus. Um dia, uma amiga foi acometida de mal intestinal e o ve\u00edculo parou em posto de combust\u00edvel. Foi-nos dito que s\u00f3 dariam direito ao uso do banheiro se houvesse abastecimento. Enquanto a discuss\u00e3o acontecia, falei para a amiga resolver o seu problema. O gerente saiu soltando palavr\u00f5es, mas o objetivo fora atingido.<br \/>\nDe outra feita, j\u00e1 neste s\u00e9culo, passei um \u201cR\u00e9veillon\u201d por l\u00e1. Estava defronte \u00e0 Torre Eiffel, era frio. O que mais se via eram fogos de artif\u00edcio, imigrantes africanos e \u00e1rabes. Poucos ocidentais e orientais. T\u00e1xis n\u00e3o apareciam. Os metr\u00f4s \u2013 nesse dia eram gratuitos \u2013 estavam apinhados. As margens do Rio Sena pareciam uma lixeira, garrafas, papel\u00f5es e latas boiavam em sua superf\u00edcie. A solu\u00e7\u00e3o foi aceitar, por pre\u00e7o exorbitante, o uso de carro particular, dirigido por algu\u00e9m de origem ar\u00e1bica. Ele justificou: s\u00f3 h\u00e1 um dia deste em cada ano.<br \/>\nEsta introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 pessoal, epis\u00f3dica, rasa, e refere que o franc\u00eas nato n\u00e3o tem muita paci\u00eancia com turistas (s\u00e3o mais de 75 milh\u00f5es por ano, dez vezes o que o Brasil recebe no mesmo per\u00edodo). Ao mesmo tempo, dizer dessa mudan\u00e7a na origem das pessoas em grandes eventos de confraterniza\u00e7\u00e3o. Os nativos permaneciam em casa, os de fora pululavam nas avenidas e parques.<br \/>\n\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que a Fran\u00e7a, tal como outros pa\u00edses europeus, exerceu o colonialismo na \u00c1frica, \u00c1sia e no Oriente M\u00e9dio. O fim dessa invas\u00e3o ocorreu apenas no come\u00e7o da segunda metade do s\u00e9culo passado. S\u00e3o muitas as ex-col\u00f4nias.<br \/>\nO fato \u00e9 que os nativos desses pa\u00edses francof\u00f4nicos se acharam com o direito de procurar melhor condi\u00e7\u00e3o de trabalho na antiga metr\u00f3pole. A par disso, as 30 ditaduras que contaminam o Oriente M\u00e9dio, ber\u00e7o do islamismo, promoveram o surgimento de grupos tais como o Hamas, Taliban, Estado Isl\u00e2mico, Jihad, Al Qaeda, Hizbollah e Boko Haram.<br \/>\nAlguns desses grupos reivindicam a autoria de atentados, tais como o acontecido \u00e0 revista \u201cCharlie Hebdo\u201d que, se autointitulava \u201cjournal irresponsable\u201d. C\u00e1 para n\u00f3s, o Hebdo abusou do direito de atacar a figura sagrada \u2013 para os mu\u00e7ulmanos \u2013 do profeta Maom\u00e9. Usava humor, s\u00e1tira e at\u00e9 deboche. Desde 2011, a revista estava com apoio policial, face entreveros e amea\u00e7as recebidos.<br \/>\nO rep\u00fadio natural e a como\u00e7\u00e3o s\u00e3o reflexos da estupefa\u00e7\u00e3o da maioria dos franceses e europeus. Entretanto, os dois irm\u00e3os encapuzados e autores do atentado \u2013 e mortos no dia seguinte \u2013 eram franceses de nascimento, mas filhos de mu\u00e7ulmanos. Uma primeira quest\u00e3o a se levantar: embora franceses, eles foram ou n\u00e3o integrados aos costumes da p\u00e1tria do d\u00edstico \u201cLiberdade, Igualdade e Fraternidade\u201d?<br \/>\nQuem saiu lucrando com o epis\u00f3dio foi a direita francesa que, comandada por Marine Le Pen, culpou todos os seis milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos que moram na Fran\u00e7a e tirou dividendos pol\u00edticos para a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o presidencial. A imigra\u00e7\u00e3o em massa de \u201cdiferentes\u201d aconteceu conforme j\u00e1 referi acima e, ainda, por ser o pa\u00eds de De Gaulle, famoso por abrigar dissidentes de ideologias de todo o mundo. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o discurso era esse.<br \/>\nOs dois autores do ataque, repito, eram franceses de nascimento. Aqui no Brasil n\u00e3o se costuma distinguir religi\u00e3o\/credo ou a origem \u00e9tnica das pessoas que assumem a cidadania brasileira. Na Europa, n\u00e3o \u00e9 bem assim. Basta lembrar, por exemplo, a fric\u00e7\u00e3o permanente entre naturais da Alemanha e os turcos, que s\u00e3o grande parte da m\u00e3o de obra local.<br \/>\nParticularmente, creio que a humanidade deve aproveitar o epis\u00f3dio para reavaliar a homilia sobre a liberdade de express\u00e3o. Ela deve ser soberana ou ter limites? Soci\u00f3logos creem que ela n\u00e3o \u00e9 um direito fundamental absoluto. \u00c9 not\u00f3rio que grupos minorit\u00e1rios de todos os matizes t\u00eam sofrido discrimina\u00e7\u00f5es e assass\u00ednios ao redor da Terra por conta de suas ra\u00e7as e cren\u00e7as.<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 longe o tempo em que a Ku Klux Kan, composta por ultraconservadores dos Estados Unidos, matava negros e incendiava as suas casas. O mesmo acontecia na \u00c1frica do Sul at\u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o de Nelson Mandela e o fim do \u201capartheid\u201d.<br \/>\nDeixo, ent\u00e3o, com Mandela, a conclus\u00e3o: \u201cN\u00e3o existe nenhum passeio f\u00e1cil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de n\u00f3s teremos que atravessar o vale da morte vezes sem conta at\u00e9 que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/01\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira vez em que, ainda universit\u00e1rio, estive na Fran\u00e7a, foi no meio da d\u00e9cada de 60. Fiquei hospedado, em Paris, no Hotel de La R\u00e9publique, onde, por acaso, estava a simp\u00e1tica sele\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica de futebol. Fiquei encantado com o pa\u00eds, mas notava &#8211; como me advertira o franco-cearense G\u00e9rard Boris &#8211; que o franc\u00eas \u00e9, quase sempre, resmung\u00e3o e n\u00e3o se afinava muito com os que n\u00e3o s\u00e3o de l\u00e1. O ano de 1968 ainda n\u00e3o havia acontecido.<br \/>\nNesse mesmo tempo, percorri quase todo o interior desse belo pa\u00eds a bordo de \u00f4nibus. Um dia, uma amiga foi acometida de mal intestinal e o ve\u00edculo parou em posto de combust\u00edvel. Foi-nos dito que s\u00f3 dariam direito ao uso do banheiro se houvesse abastecimento. Enquanto a discuss\u00e3o acontecia, falei para a amiga resolver o seu problema. O gerente saiu soltando palavr\u00f5es, mas o objetivo fora atingido.<br \/>\nDe outra feita, j\u00e1 neste s\u00e9culo, passei um \u201cR\u00e9veillon\u201d por l\u00e1. Estava defronte \u00e0 Torre Eiffel, era frio. O que mais se via eram fogos de artif\u00edcio, imigrantes africanos e \u00e1rabes. Poucos ocidentais e orientais. T\u00e1xis n\u00e3o apareciam. Os metr\u00f4s \u2013 nesse dia eram gratuitos \u2013 estavam apinhados. As margens do Rio Sena pareciam uma lixeira, garrafas, papel\u00f5es e latas boiavam em sua superf\u00edcie. A solu\u00e7\u00e3o foi aceitar, por pre\u00e7o exorbitante, o uso de carro particular, dirigido por algu\u00e9m de origem ar\u00e1bica. Ele justificou: s\u00f3 h\u00e1 um dia deste em cada ano.<br \/>\nEsta introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 pessoal, epis\u00f3dica, rasa, e refere que o franc\u00eas nato n\u00e3o tem muita paci\u00eancia com turistas (s\u00e3o mais de 75 milh\u00f5es por ano, dez vezes o que o Brasil recebe no mesmo per\u00edodo). Ao mesmo tempo, dizer dessa mudan\u00e7a na origem das pessoas em grandes eventos de confraterniza\u00e7\u00e3o. Os nativos permaneciam em casa, os de fora pululavam nas avenidas e parques.<br \/>\n\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que a Fran\u00e7a, tal como outros pa\u00edses europeus, exerceu o colonialismo na \u00c1frica, \u00c1sia e no Oriente M\u00e9dio. O fim dessa invas\u00e3o ocorreu apenas no come\u00e7o da segunda metade do s\u00e9culo passado. S\u00e3o muitas as ex-col\u00f4nias.<br \/>\nO fato \u00e9 que os nativos desses pa\u00edses francof\u00f4nicos se acharam com o direito de procurar melhor condi\u00e7\u00e3o de trabalho na antiga metr\u00f3pole. A par disso, as 30 ditaduras que contaminam o Oriente M\u00e9dio, ber\u00e7o do islamismo, promoveram o surgimento de grupos tais como o Hamas, Taliban, Estado Isl\u00e2mico, Jihad, Al Qaeda, Hizbollah e Boko Haram.<br \/>\nAlguns desses grupos reivindicam a autoria de atentados, tais como o acontecido \u00e0 revista \u201cCharlie Hebdo\u201d que, se autointitulava \u201cjournal irresponsable\u201d. C\u00e1 para n\u00f3s, o Hebdo abusou do direito de atacar a figura sagrada \u2013 para os mu\u00e7ulmanos \u2013 do profeta Maom\u00e9. Usava humor, s\u00e1tira e at\u00e9 deboche. Desde 2011, a revista estava com apoio policial, face entreveros e amea\u00e7as recebidos.<br \/>\nO rep\u00fadio natural e a como\u00e7\u00e3o s\u00e3o reflexos da estupefa\u00e7\u00e3o da maioria dos franceses e europeus. Entretanto, os dois irm\u00e3os encapuzados e autores do atentado \u2013 e mortos no dia seguinte \u2013 eram franceses de nascimento, mas filhos de mu\u00e7ulmanos. Uma primeira quest\u00e3o a se levantar: embora franceses, eles foram ou n\u00e3o integrados aos costumes da p\u00e1tria do d\u00edstico \u201cLiberdade, Igualdade e Fraternidade\u201d?<br \/>\nQuem saiu lucrando com o epis\u00f3dio foi a direita francesa que, comandada por Marine Le Pen, culpou todos os seis milh\u00f5es de mu\u00e7ulmanos que moram na Fran\u00e7a e tirou dividendos pol\u00edticos para a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o presidencial. A imigra\u00e7\u00e3o em massa de \u201cdiferentes\u201d aconteceu conforme j\u00e1 referi acima e, ainda, por ser o pa\u00eds de De Gaulle, famoso por abrigar dissidentes de ideologias de todo o mundo. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o discurso era esse.<br \/>\nOs dois autores do ataque, repito, eram franceses de nascimento. Aqui no Brasil n\u00e3o se costuma distinguir religi\u00e3o\/credo ou a origem \u00e9tnica das pessoas que assumem a cidadania brasileira. Na Europa, n\u00e3o \u00e9 bem assim. Basta lembrar, por exemplo, a fric\u00e7\u00e3o permanente entre naturais da Alemanha e os turcos, que s\u00e3o grande parte da m\u00e3o de obra local.<br \/>\nParticularmente, creio que a humanidade deve aproveitar o epis\u00f3dio para reavaliar a homilia sobre a liberdade de express\u00e3o. Ela deve ser soberana ou ter limites? Soci\u00f3logos creem que ela n\u00e3o \u00e9 um direito fundamental absoluto. \u00c9 not\u00f3rio que grupos minorit\u00e1rios de todos os matizes t\u00eam sofrido discrimina\u00e7\u00f5es e assass\u00ednios ao redor da Terra por conta de suas ra\u00e7as e cren\u00e7as.<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 longe o tempo em que a Ku Klux Kan, composta por ultraconservadores dos Estados Unidos, matava negros e incendiava as suas casas. O mesmo acontecia na \u00c1frica do Sul at\u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o de Nelson Mandela e o fim do \u201capartheid\u201d.<br \/>\nDeixo, ent\u00e3o, com Mandela, a conclus\u00e3o: \u201cN\u00e3o existe nenhum passeio f\u00e1cil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de n\u00f3s teremos que atravessar o vale da morte vezes sem conta at\u00e9 que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos\u201d.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/01\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2746","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2746"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2746\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}